Por varias vezes tenho lançado mão da pena para escrever-lhe a fim de comunicar-lhe que fui dos felizes que teve a felicidade de ver o Milagre que N. S. operou no lugar da Fatima no dia 13 do mês corrente. Mas pensando que o terá já sabido por outras pessoas e até pelos jornais deixei de o fazer até agora. Mas á medida que o tempo vaí passando eu sinto um grande desejo de dizer a todos os que me são caros aquilo que vi. E por isso V Exa desculpará-me do tempo que lhe vou roubar aos seus muitos afazeres lendo a minha fraca narração do acontecido. Foi o seguinte: Tendo - ouvido contar varias coisas a tal respeito e de que Nossa Senhora no dia 13 faria com que todos acreditassem levou-me a ir daqui até ao local em biciclete, indo ficar na vespera ao Reguengo em casa de minha irmã S. José4. No dia 13 depois de almoçar5 dirigi-me ao local a que me refiro e que dista do Reguengo umas 2 leguas. Mal tinha saido de casa (9 horas pouco mais ou menos) a chuva e o vento começou a mimosear--me (e a todos quantos seguiam o mesmo destino) com tal impetuosidade que chegámos ao local todos molhados. No caminho ainda me abriguei numa casa á beira da estrada até a ver se a chuva parava mas passadas 2 horas de espera não houve outro remedio se não seguir por baixo de chuva e vento. Pelo caminho não se viam senão pessoas a pé a cavalo, em carros automoveis, bicicletes etc mais concorrencia [que] nos dias da romaria da Senhora de Mercules8. Chegados ao local encontravam-se ali milhares de pessoas já para o mesmo fim sendo dum efeito deslumbrante o conjunto de pessoas, carros etc.
Dirigi-me para o local onde se erguia um pequeno arco e onde soube que era ali que outras vezes N. S. se dignára aparecer [a] 3 crianças pastorinhas. Constava que as crianças haviam dito que o Milagre se daria do meio dia á 1 hora solar.
A chuva não cessava e o céu completamente nublado levava a pensar que nada se daria.
Um pouco antes de hora aprazada chcgam as crianças e a chuva ainda cai. Dirigem-se ao local e pedem aos presentes que fechem os chapéus de chuva no que são obedecidas logo, e até mais, todos os homens tiraram os chapéus da cabeça. Começaram o terço e a chuva deixa de cair lentamente. As nuvens muito densas começam a rarefazerem-se e o Sol por entre uma nuvem ou outra começa a ver-se como se fosse a lua. Algum tempo depois as nuvens afastam-se e o Sol mostra-se em todo o seu esplendor. Quiz fita-lo mas não pude. As nuvens continuam a encobri-lo e momentos depois afastam-se de novo e o Sol mostra-nos o quadro mais grandioso que meus olhos teem visto. Tomando a aparencia da lua todo amarelo mas sem emitir l[u]z muda de côr para um azul celeste a seguir toma [u]m brilho muito intenso como uma nascente de luzes [de] brilhantes toma um movimento circular muito rápido e aproxima-se da Terra chegando a dar-nos a impressão de que tudo vai ser fulminado. Mas oh! maravilha Divina! O Sol retoma de novo o seu lugar e parece dizer-nos não tenhais medo! Tudo já de joelhos dirige os seus pensamentos para Deus para N. Senhora e ninguem se lembra deste mundo.
As exclamações Milagres! Mãe do Ceu! Nossa Senhora são gerais e o Sol como a mostrar bem aos descrentes que não é uma ilusão o que veem toma de novo o aspecto da lua, a côr azul celeste, o mesmo brilho e movimento circular desaproximando-se da Terra o que nos faz supor que dista de nós a uns 500 ou 600 metros.
Entretanto o Milagre finda e as crianças erguem-se da oração e levadas ao colo de varios individuos a mais velha diz ao Povo: N. Senhora que falou pela ultima vez comigo encarrega-me de dizer-vos: que a Paz se faz hoje; que vão descançados para suas Casas que a chuva os não molhará no regresso; que orem a N Senhor quem teem ofendido muito e que em breve virão os soldados da França e que deseja lhe façam uma capela no local.
Durante o Milagre os objectos tomaram a côr amarelo dourado sendo dum efeito deslumbrante o vasto recinto onde se reuniam para cima de 50 mil pessoas.
Dentro do globo luminoso observava-se um grupo de pessoas que se moviam e que a criança diz ser S. Jose a anunciar a Paz aos homens; Seu bendito Filho a lançar-lhe a benção e N. Senhora das Dôres.
Dentro do globo luminoso viam-se um grupo de pessoas que se moviam, e que depois a criança explicou ser S. José a anunciar a Paz aos homens, seu bendito Filho a abençoar o Povo e N. Senhora das Dôres.
O quadro é emocionante e comovedor! As lagrimas de comoção e alegria veem-se em quasi todos os olhos e dos meus algumas cairam tambem.
Quadro grandioso que os meus olhos jámais viram! Durante o Milagre tudo toma a côr amarelada um amarelo dourado conservando-se neste estado [as .....ras ...[dura]nte uns 30 .....[dep]ois findo[u].30
As crianças erguem-se da oração e a mais velha levada ao colo dum individuo diz ao Povo: que N. S lhe falou pela ultima vez e lhe disse que a Paz se fazia hoje; que orassem e fossem descançados para suas casas que a chuva os não molharia no regresso; que esperassem os nossos soldados que em breve viriam da França que era a N. S. do Rozario e que desejava lhe erigisem naquele sitio uma capela31
Notas dos editores (6)
1 António Lalanda dos Santos. Vivia no Reguengo do Fetal. Cf. DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, nota 18.
4 Maria de S. José, irmã do Prof. António Lalanda dos Santos.
5 Na época era assim chamado o pequeno almoço.
8 Ermida de Nossa Senhora de Mércoles, próximo de Castelo Branco, com portal romano-gótico. Festas no domingo, segunda e terça-feira da segunda semana da Páscoa.
30 A deteriorização do papel não permite a correcta leitura desta frase. No entanto, com as letras que ficaram visíveis, depois do rasgão, com o cálculo aproximado das letras e espaços, apresentamos duas possíveis redacções: "as sombras ao menos durante uns 30 minutos e depois findou"; "as sombras aproximadamente uns 30 minutos e depois findou".
31 O texto termina aqui.