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DCF III-1, Doc. 243
Rascunho de uma carta do professor Lalanda1, a Maria da Piedade Ordaz.
A - Arquivo de Maria da Natividade Lalanda dos Santos.
B - ASF, Documentos de 1917 (fotocópia)
Descrição do documento: O rascunho da carta foi feito no verso de uma folha, hoje amarelecida, de um Mapa Estatístico do ano lectivo de 1915 a 16, do Círculo Escolar da Lousã, concelho de Penela, datado do Rabaçal a 1 de Agosto de 1916.
As dimensões originais da folha seriam cerca de 70 cm de largura por 47 cm de altura. A folha foi dobrada, para o centro, em quatro partes. O último quarto, do lado direito da face (com o mapa) foi cortado. No verso (rascunho da carta) encontra-se totalmente em branco o primeiro quarto.
O texto do rascunho está escrito a duas colunas de cerca de 17cm de largura cada uma, chegando a segunda apenas até a pouco mais de meio.
O papel está bastante lacerado especialmente nas dobras, o que dificulta a leitura segura de algumas palavras. No entanto, ao ser escrito o rascunho o papel já se encontrava com um rasgão arredondado, porque o texto o contorna.
Segundo informação da pessoa que forneceu o documento, o autor da carta é o professor Lalanda, o que é corroborado pelo nome de António Lalanda dos... mencionado no mapa, na coluna dos professores, cortada no seu lado direito.
O rascunho original foi cedido para estudo directo pela sua possuidora, D. Maria da Natividade Lalanda dos Santos, residente em Freixial do Campo (Castelo Branco), filha do Prof. António Lalanda.
Ex.ma Senhora D. M. da Piedade Ordaz
Por varias vezes tenho lançado mão da pena para escrever-lhe a fim de comunicar-lhe que fui dos felizes que teve a felicidade de ver o Milagre que N. S. operou no lugar da Fatima no dia 13 do mês corrente. Mas pensando que o terá já sabido por outras pessoas e até pelos jornais deixei de o fazer até agora. Mas á medida que o tempo vaí passando eu sinto um grande desejo de dizer a todos os que me são caros aquilo que vi. E por isso V Exa desculpará-me do tempo que lhe vou roubar aos seus muitos afazeres lendo a minha fraca narração do acontecido. Foi o seguinte: Tendo - ouvido contar varias coisas a tal respeito e de que Nossa Senhora no dia 13 faria com que todos acreditassem levou-me a ir daqui até ao local em biciclete, indo ficar na vespera ao Reguengo em casa de minha irmã S. José4. No dia 13 depois de almoçar5 dirigi-me ao local a que me refiro e que dista do Reguengo umas 2 leguas. Mal tinha saido de casa (9 horas pouco mais ou menos) a chuva e o vento começou a mimosear--me (e a todos quantos seguiam o mesmo destino) com tal impetuosidade que chegámos ao local todos molhados. No caminho ainda me abriguei numa casa á beira da estrada até a ver se a chuva parava mas passadas 2 horas de espera não houve outro remedio se não seguir por baixo de chuva e vento. Pelo caminho não se viam senão pessoas a pé a cavalo, em carros automoveis, bicicletes etc mais concorrencia [que] nos dias da romaria da Senhora de Mercules8. Chegados ao local encontravam-se ali milhares de pessoas já para o mesmo fim sendo dum efeito deslumbrante o conjunto de pessoas, carros etc.
Dirigi-me para o local onde se erguia um pequeno arco e onde soube que era ali que outras vezes N. S. se dignára aparecer [a] 3 crianças pastorinhas. Constava que as crianças haviam dito que o Milagre se daria do meio dia á 1 hora solar.
A chuva não cessava e o céu completamente nublado levava a pensar que nada se daria.
Um pouco antes de hora aprazada chcgam as crianças e a chuva ainda cai. Dirigem-se ao local e pedem aos presentes que fechem os chapéus de chuva no que são obedecidas logo, e até mais, todos os homens tiraram os chapéus da cabeça. Começaram o terço e a chuva deixa de cair lentamente. As nuvens muito densas começam a rarefazerem-se e o Sol por entre uma nuvem ou outra começa a ver-se como se fosse a lua. Algum tempo depois as nuvens afastam-se e o Sol mostra-se em todo o seu esplendor. Quiz fita-lo mas não pude. As nuvens continuam a encobri-lo e momentos depois afastam-se de novo e o Sol mostra-nos o quadro mais grandioso que meus olhos teem visto. Tomando a aparencia da lua todo amarelo mas sem emitir l[u]z muda de côr para um azul celeste a seguir toma [u]m brilho muito intenso como uma nascente de luzes [de] brilhantes toma um movimento circular muito rápido e aproxima-se da Terra chegando a dar-nos a impressão de que tudo vai ser fulminado. Mas oh! maravilha Divina! O Sol retoma de novo o seu lugar e parece dizer-nos não tenhais medo! Tudo já de joelhos dirige os seus pensamentos para Deus para N. Senhora e ninguem se lembra deste mundo.
As exclamações Milagres! Mãe do Ceu! Nossa Senhora são gerais e o Sol como a mostrar bem aos descrentes que não é uma ilusão o que veem toma de novo o aspecto da lua, a côr azul celeste, o mesmo brilho e movimento circular desaproximando-se da Terra o que nos faz supor que dista de nós a uns 500 ou 600 metros.
Entretanto o Milagre finda e as crianças erguem-se da oração e levadas ao colo de varios individuos a mais velha diz ao Povo: N. Senhora que falou pela ultima vez comigo encarrega-me de dizer-vos: que a Paz se faz hoje; que vão descançados para suas Casas que a chuva os não molhará no regresso; que orem a N Senhor quem teem ofendido muito e que em breve virão os soldados da França e que deseja lhe façam uma capela no local.
Durante o Milagre os objectos tomaram a côr amarelo dourado sendo dum efeito deslumbrante o vasto recinto onde se reuniam para cima de 50 mil pessoas.
Dentro do globo luminoso observava-se um grupo de pessoas que se moviam e que a criança diz ser S. Jose a anunciar a Paz aos homens; Seu bendito Filho a lançar-lhe a benção e N. Senhora das Dôres.
Dentro do globo luminoso viam-se um grupo de pessoas que se moviam, e que depois a criança explicou ser S. José a anunciar a Paz aos homens, seu bendito Filho a abençoar o Povo e N. Senhora das Dôres.
O quadro é emocionante e comovedor! As lagrimas de comoção e alegria veem-se em quasi todos os olhos e dos meus algumas cairam tambem.
Quadro grandioso que os meus olhos jámais viram! Durante o Milagre tudo toma a côr amarelada um amarelo dourado conservando-se neste estado [as .....ras ...[dura]nte uns 30 .....[dep]ois findo[u].30
As crianças erguem-se da oração e a mais velha levada ao colo dum individuo diz ao Povo: que N. S lhe falou pela ultima vez e lhe disse que a Paz se fazia hoje; que orassem e fossem descançados para suas casas que a chuva os não molharia no regresso; que esperassem os nossos soldados que em breve viriam da França que era a N. S. do Rozario e que desejava lhe erigisem naquele sitio uma capela31
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (25)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.