Testemunhas /

José Maria de Proença de Almeida Garrett

Jornalista

Filho de Gonçalo Xavier de Almeida Garrett e de Maria Joaquina Tavares de Proença, de Castelo Branco, e diretor do semanário democrático de Castelo Branco A Beira Baixa; assistiu ao 13 de outubro de 1917 da estrada acima da Cova da Iria e escreveu um depoimento para Formigão em dezembro de 1917. A mãe escreveu que o que viu o impressionou, mas não fez dele um cristão praticante.

Residência: Castelo BrancoVeio de longeAtitude prévia: neutra5 relatos · 13 de outubro de 1917
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longe
Transmitido por: Maria Joaquina Tavares de Proença de Almeida Garrett

Creio lhe fez muita impressão o que vio e talvez no intimo lhe fizèsse algum bem, mas o que disseram a V. Exa não é infelizmente exacto. Não houve a conversão que eu tanto desejo e peço a Deus, d'elle se mostrar e sêr, um christão practico sem respeitos humanos. Quanto ao exterior ficou o mesmo que era.....

DCF III-1, Doc. 336 · carta · 4 dez. 1917 (7 semanas depois)DigitalizaçãoLigação
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longeSol a girar
Transmitido por: Maria Joaquina de Proença Garrett

Só hoje o mandriao do meu filho, me entregou o relatorio que lhe havia pedido me fizesse do que vira em Fátima. Falta-lhe uma cousa que por lapso deixou de escrever, que vira a rotação do scl por 3 veses.

DCF III-1, Doc. 344 · carta · 18 dez. 1917 (2 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairSol a mudar de cor

Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade o que vi em Fátima no dia 13 de Outubro de 1917.

A[s] horas a que me referirei são as que nessa epocha marcavam officialmente o tempo segundo a determinação do governo que unificara a nossa hora com a dos paises beligerantes. Faço isto para maior verdade pois me não era facil designar com precisão o momento em que o sol alcançou o zenith.

Cheguei ao meio dia. A chuva que desde manhã caia miuda e presistente, tocada de um vento agreste, proseguia, irritante, na ameaça de querer tudo liquifazer. O ceu baixo e pesado tinha uma cor pardacenta prenhe de agua prenuncio de chuva abundante e de longa duração.

Quedei-me na estrada, ao abrigo da capota do automovel e um pouco sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter me ao lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado. Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes que uma tosca cruz encimava vendo distinctamente em redor delles o largo circulo de gente que, com os guarda chuvas abertos, parecia um vasto sobrado de broqueis.

Pouco depois da uma hora chegaram a este sitio as creanças a quem a Virgem (garantiam ellas) marcara logar, dia e hora da aparição. Ouviam se os canticos entoados pelo povo que as cercava.

Numa determinada altura esta larga massa, confusa e compacta, fechou os guarda chuvas e descobriu se num gesto que devia ser de humildade ou respeito mas que me deixou su[r]preso e admirado porque a chuva, [n]uma continuidade cega, molhava agora cabeças, encharcava e ensopava. Disseram me depois que esta gente, que acabou por ajoelhar na lama, tinha obedecido a voz de uma creança.

Devia ser uma e meia (14 h e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as creanças, uma columna de fumo, delgada, tenue e azulada que subiu direita ate dois metros, talvez, acima das cabeças para se nesta altura se esvair. Durou este phenomeno, perfeitamente visivel a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo de duração não posso affirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir se o phenomeno uma segunda e uma terceira vez. Das trez vezes, e sobretudo da ultima, destacaram-se nitidamente os fustes esguios na atmosphera cinzenta.

Diriji para lá o binoculo. Nada consegui ver alem das columnas de fumo mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum thuribulo, não agitado, em que queimava insenso. Depois pessoas dignas de fé affirmaram me que era de uso produzir se o acontecimento no dia 13 do[s] cinco mezes anteriores e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem se fizera fogo.

Continuando a olhar o logar da aparição numa espetativa serena e fria e com uma curiosidade que ia amolecendo porque o tempo decorrera longo e vagaroso sem que nada activasse a minha atenção, ouvi o bruhaha de milhares de vozes e vi aquella multidão, espraiada, pelo largo campo que se estendia a meus pez, ou concentrada em vagas compactas, em redor dos madeiros erguidos, ou sobre os baixos socalcos que retinham as terras, voltar as costas ao ponto que até então convergira os desejos e ancias e olhar o ceu do lado oposto.

Eram quasi duas horas.

O sol momentos antes tinha rompido ovante, a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e inte[n]samente.

Voltei me para este iman que attrahia todos os olhares e pude ve lo semelhante a um disco de bordo nitido e aresta viva luminosa e luzente mas sem maguar.

Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fatima ouvi fazer, de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, activa e rica, e com cambiantes, tendo como que o oriente de uma perola. Em nada se assemelhava á lua em noite transparente e pura porque se via e sentia se ser um astro vivo. Não era como a lua esferica e não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros. Parecia uma rodela brunida cortada no nacar de uma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos viram assim. Tambem se não confundia com o sol encarado atravez [do] nevoeiro (que aliaz não havia áquelle tempo) porque não era opaco, difuso e velado. Em Fatima tinha luz e calor e desenhava se nitido e com a borda cortada em aresta como uma tabela de jogo.

A abobada celeste estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acola, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de ceu limpo. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que não feria) do sol dando a impressão facilmente comprehensivel e explicavel de passar por detraz mas por vezes esses flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslisando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diafana.

Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro labareda de luz e braza de calor, sem uma dor nos olhos e sem um deslumbramento na retina, que cegasse.

Este phenomeno com duas breves interrupções em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos.

Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a scintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.

De repente ouve se um clamor como que um grito de angustia de todo aquelle povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca se do firmamento e sanguinio avança sobre a terra ameaçando esmagar nos com o pezo da sua ignea e ingente mó. São segundos de impressão terrifica.

Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosphera coloridos cambiantes. Não posso precisar bem a occasião porque já lá vão dois mezes passados e eu não tomei notas. Lembro me que não foi logo no principio e ante[s] creio que foi para o fim.

Estando a fixar o sol notei que tudo escurecia a minha volta. Olhei o que estava perto e alonguei a vista para o largo ate ao extremo horisonte e vi tudo cor de amethysta. Os objectos, o ceu e a camada atmospherica tinham a mesma cor. Uma carvalheira arrocheada que se erguia na minha frente lançava sobre a terra uma sombra carregada. Receando ter soffrido uma afecção da retina, hypothese pouco provavel porque dado este caso não devia ver as coisas em rocho, voltei me, cerrei as palpebras e retive as com as mãos para interceptar toda a luz. Ainda de costas abri os olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da mesma cor rocha.

A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi o eclipse de 8 que em Viseu, onde estava, foi total. Á medida que a lua marcha a esconder o sol a luz vai se acinsentando ate que tudo se torna basso e negro. A vista alcança um pequeno circulo para la do qual os objectos se vão tornando cada vez mais confusos ate que se perdem no negrume. Baixa a temperatura consideravelmente e dir se ha que a vida na terra morreu. Em Fatima, [a] atmosphera, embora rocha, permaneceu transparente10 ate ao confim do horisonte, que se distingue e ve claramente, e eu não tive a sensação de uma paragem na energia universal.

Continuando a olhar o sol reparei que o ambiente tinha aclarado. Logo depois ouvi um camponio que cerca de mim estava [a]

dizer com voz de pasmo: esta senhora esta amarella. De facto tudo agora mudara, perto e distante, tomando a cor de velhos damascos amarellos. As pessoas pareciam doentias e com i[c]tericia. Sorri me de as achar francamente feias e desairosas. Ouviram se risos. A minha mão tinha o mesmo tom amarello.

Dias depois fiz a experiencia de fixar o sol uns breves instantes. Retirada a vista vi, apoz alguns momentos, manchas amarellas irregulares na forma. Não se ve tudo de uma cor uniforme, como se no ar se tivesse volatilisado um topasio, mas nodoas ou malhas que com o movimento do olhar se deslocam.

Todos estes phenomenos que citei e descrevi observei os eu socegado e serenamente sem uma emoção ou sobresalto. A outros cumpre explica los ou interpreta los.

Para terminar devo fazer a affirmação, que nunca, nem antes nem depois do dia 13 de outubro, vi eguaes phenomenos, solares ou atmosphericos.

Notas dos editores (1)

10 Riscou Em Fátima a atmophera, embora rocha permaneceu transparente ate ao confim do horisonte que se distingue e ve claramente e substituiu por Baixa a temperatura consideravelmente e dir se hia que a vida na terra morreu. Em Fátima, atmosphera, embora rocha, permaneceu transparente.

13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeNuvem / coluna de fumo

Devia ser uma e meia (treze e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada, que subiu direita até dois metros talvez, acima das cabeças para nesta altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo da duração, não posso afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno uma segunda e uma terceira vez. Das três vezes e sobretudo da última, destacaram-se nitidamente os postes esguios na atmosfera cinzenta. Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver além das colunas de fumo, mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum turíbulo, não agitado, em que se queimava incenso. Depois pessoas dignas de fé afirmaram-me que era de uso produzir-se o acontecimento no dia treze dos cinco meses anteriores, e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem se fizera fogo.

DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · dez. 1917 (2 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeNuvem / coluna de fumo

A mais importante é na pag. 21 ao fundo. Onde esta postes devo eu ter escripto fustes. Não tenho copia do meu depoimento mas pela semelhança das palavras escriptas deve ser fustes mas nunca postes. Eu refiro-me ahi á columna de fumo (fuste) e não aos postes de madeira. Essa minha phrase deve ser posta no singular, fuste e não fustes. Este engano talvez seja meu.

DCF III-3, Doc. 652 · carta · 25 out. 1921 (4 anos depois)DigitalizaçãoLigação
Abrir