Testemunhas /

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terra

Maria Rosa, mãe da vidente Lúcia, nascida a 6 de julho de 1869 na Perulheira (S. Mamede, Batalha), com 48 anos, mulher de António dos Santos, de Aljustrel. A princípio chamou mentira ao que a filha contava e tentou obrigá-la a desdizer-se; foi à Cova da Iria pela primeira vez a 13 de outubro de 1917.

Residência: Aljustrel, FátimaFreguesia de Fátima (da terra)Atitude prévia: cética8 relatos

13 de maio de 1917 3 relatos

13 mai.Testemunho diretoInterrogatórioAtitude céticaa 2 km

Logo que começou a correr a notícia de que Nossa Senhora havia aparecido no dia treze de maio às referidas crianças, e que disso tive conhecimento, o que foi cerca de quinze dias depois, mandei vir a minha casa, e residência paroquial, a mãe da vidente Lúcia e que se fizesse acompanhar desta. Vem a mãe com a filha, mas toda lastimosa por julgar, diz ela, que tudo é mentira; manda à filha que desdiga o que havia dito, que será um grande mal tal mentira. Ameaça, e diz já ter ameaçado a filha com muitas coisas que lhe hão de acontecer se ela continuar a dizer que viu Nossa Senhora e mentir. Diz que só estas coisas lhe estavam reservadas para ela, etc., etc.

Procuro serenar a aflita mãe, dizendo-lhe que, se fôr verdade o que dizem, é uma grande glória para ela e sua família. Oh!!... se fôr verdade... mas se fôr mentira?!... exclama a duvidosa mãe. Aconselho-a a ter pela filha os mesmos cuidados que até ali tem tido; que na ocasião, em que, porventura, a filha haja de ir ao local da Aparição a não mande nem a estorve, e que a traga à minha presença sempre, e só, após o dia da Aparição, caso ela diga que continua a ter a graça de ver Nossa Senhora; o que tudo prometeu fazer, oferecendo-se até, a vir, na véspera ou ante-véspera, com a filha à minha presença para eu lhe indicar qualquer coisa que a filha houvesse de fazer ou dizer na ocasião da Aparição. Disso a dissuadi para evitar algum mau conceito que a impiedade ou os mal intencionados pudessem fazer, como ainda assim fizeram.

Notas dos editores (2)

1 Pai de Lúcia. Nasceu a 3 de janeiro de 1868, em Aljustrel; casou a 19 de novembro de 1890 com Maria Rosa. Faleceu a 31 de julho de 1919.

2 Nasceu em Fátima, a 30 de julho de 1873. Casou com Olímpia de Jesus a 17 de fevereiro de 1898 e faleceu, em Aljustrel, a 3 de fevereiro de 1957.

DCF Seleção, Doc. 36 (= DCF I, Doc. 31) · documento oficial · c. 28 mai. 1917 (2 semanas depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioAtitude céticaa 2 kmA multidão

Como soube que a Senhora apareceu à sua filha da primeira vez? Foi ela que lhe contou?

– Tive conhecimento desse facto pela família das outras crianças, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada com receio de que lhes ralhassem. Só depois de interrogada por mim é que disse o que tinha visto.

3a – Nunca repreendeu sua filha por ir à Cova da Iria? Deu-lhe sempre inteira liberdade de lá ir, no dia 13 de cada mês?

– Nunca a proibi de ir a esse sítio. Umas vezes perguntava-lhe se queria ir e ela respondia afirmativamente, outras vezes ela mesma dizia que ia, se eu lhe desse licença.

4a – As três crianças costumam ir sozinhas ao local das aparições ou vão acompanhadas de outras crianças?

– Vão sós. Quase sempre vão também outras crianças, mas acompanhadas dos pais e ficam ao pé deles, não se juntam com a Lúcia e os primos dela.

5a – As crianças guardavam gado? A quem é que ele pertencia?

– A Lúcia guardava um pequeno rebanho de ovelhas e os primos outro. Pertenciam esses rebanhos às respetivas famílias. Às vezes juntavam o gado, mas unicamente porque queriam. As ovelhas que a Lúcia guardava, já as vendi.

6a – Como é que as crianças têm ido vestidas?

– Da primeira vez iam mal arranjadas, como andam quase sempre os pastores. Das outras vezes, no dia 13 de cada mês, vão vestidas de fato claro e levam um lenço branco na cabeça.

[…]

Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituissem aos pais?

– Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas a casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima.

11a – Tem vindo muita gente ver sua filha?

– Tem vindo muita gente quase todos os dias.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 ago.Outros de 1917Testemunho indiretoNotaAtitude céticaa 2 km
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Foi pela família dos outros dois videntes, Francisco e Jacinta, seus sobrinhos, que ela soube que Nossa Senhora tinha aparecido à filha da primeira vez, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada, com receio de que lhes ralhassem. Esta, só depois de interrogada pela mãe, é que disse o que tinha visto.

[…]

A princípio não acreditava na sinceridade das crianças. Perante a concorrência das multidões à Cova da Iria nos dias treze, o seu desejo era obstar a ida de sua filha a esse local em tais dias. Só a muito custo e guiando-se pelos conselhos de pessoas de autoridade, que a aconselhavam a dar liberdade à filha para fazer o que lhe aprouvesse, é que se resolvia a permitir a sua partida. Temendo que a filha andasse a enganar o povo com falsas declarações, embora não a tivesse por mentirosa, exprobava-lhe severamente o seu procedimento, ameaçando-a várias vezes com pancadas, e uma ocasião, num dos primeiros meses das aparições, chegou até a bater-lhe com um chinelo, tratando-a de impostora.

[…]

A mãe da Lúcia, quando lhe disseram que a filha tinha sido presa, respondeu: “Se foi por Deus, Deus os guardará, se mentiram, não continuam!...”. E, enquanto muitas pessoas choravam de pena ou de indignação, ela conservava a serenidade duma alma verdadeiramente cristã.

13 de junho de 1917 1 relato

13 jun.Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 kmA multidão

Mas logo se ajuntou gente no dia treze de junho para a acompanhar e por isso não foi. Nesse dia, entre as pessoas que a acompanhavam estavam duas mulheres de Boleiros. Deixou ir a filha. Vestiu-a melhor porque ia dali para a festa de Santo António na igreja paroquial. A mãe foi para a festa para ouvir a missa. No caminho encontrou um grupo de cinco ou seis pessoas que iam de Fátima para Aljustrel. Julgando que queriam ir à festa, disse-lhes: “Os senhores estão enganados, a festa é para ali”. “Nós não vimos para a festa”, retorquiram eles, “vimos em cata de três crianças que dizem ter visto Nossa Senhora”. Admirou-se da resposta e perguntou-lhes de onde eram. Disseram que eram dos Carrascos. Não lhes confessou que era a mãe de uma das crianças. Eles perguntaram onde estavam as crianças.

Respondeu-lhes que estavam em Aljustrel e seguiu para a Missa. Ia cada vez mais pensativa, julgando que fazia mal em não ir ao local das aparições, porque podiam bater nas crianças por mentirem, mas não queria passar pela vergonha a que se expunha se não houvesse nada. As crianças, logo que tudo acabou, foram ter à Fátima. Quando saíam da missa já lá estavam, vendo-se muita gente em roda delas.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

13 de agosto de 1917 3 relatos

13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 kmA multidão

Em treze de agosto a Lúcia saíu pela manhã com as ovelhas e quando veio já estava a casa cheia de gente. Estava com tenção de ir à Cova da Iria, como nos meses anteriores, mas o administrador levou-a para Ourém, tendo sido a notícia da prisão comunicada à mãe pela cunhada que, indo para a Cova da Iria, ouviu dizer que o administrador tinha abalado com as crianças. A mãe da Lúcia ficou magoada, mas não se apoquentou porque sabia que não comiam as crianças, pensando ao mesmo tempo que se elas mentiam, mereciam algum castigo e que se diziam a verdade, Nossa Senhora as defenderia. Vieram depois, à tarde muitas pessoas que procuravam confortá-la, dizendo que iam agora mais crentes, porque foi o primeiro dia em que apareceram os sinais. Os irmãos de Jacinta foram de bicicleta observar o que se passava em Ourém e vieram dizer que tinham visto as crianças a brincar na varanda do administrador, que os tratava bem. O administrador veio trazê-los à Fátima no dia quinze num carro e foi pô-las na varanda do senhor Prior. A mãe da Lúcia, que estava lá, veio com a filha para casa. As crianças mostraram-se como dantes contentes e prontas para brincar, dizendo que lhes tinham feito muitas perguntas e que tinha ido um médico examiná-las. O administrador disse que o povo estava com uma doença por ter visto sinais, e o cunhado Marto disse-lhe que então estava muita gente doente.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 km

No dia dezanove, a Lúcia chegou a casa à noite, trazendo na mão um raminho de azinheira e disse que Nossa Senhora lhe tinha aparecido um pouco antes do sol posto, aí pelo meio da tarde, às quatro horas, tendo estado ao meio-dia com o gado em casa. A mãe pegou no ramo e notou que cheirava muito bem. O cheiro não se podia comparar com nenhum outro cheiro. Ela era descrente e ficou um pouco quebrada, um pouco mais convencida.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

13 de outubro de 1917 1 relato

13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoAtitude céticaPalavras dos videntesSol a girarSol a cairDisco pálido / prateadoA multidão

Em treze de outubro a mãe foi ao local pela primeira vez, apesar da recomendação em contrário do senhor Prior. Foram vestir as pequenas para casa da cunhada, porque uma senhora do Pombalinho trouxe uns vestidos, uns véus e umas grinaldas. A mãe da Lúcia foi com as crianças. Mas, como ia muito povo, perdeu-as de vista. Na Cova da Iria furou e ficou mesmo ao pé delas. Como diziam que as matavam, que as faziam em postas, e como por outro lado ficava com tanta pena de tudo acabar e não ver nada, resolveu ir. As crianças diziam a hora em que se dava a aparição e queriam ir para estar a essa hora. Da última vez demoraram-se um quarto de hora junto da azinheira antes de começar a aparição. Estavam todos três de pé. A mãe da Jacinta estava perto. O povo dizia por trás que não haveria nada, porque ia a passar a hora e não se estava dando nada de extraordinário. Todos três a um tempo deram um grito, um ai! A Lúcia disse: “Lá vem ela! Calem-se que já deu um relâmpago”. Tinha estado a chover toda a manhã. A azinheira estava enfeitada com fitas e rosas, quase não se via nada dela.

Depois a Lúcia disse: “Já cá está”. Falava alto. A mãe não via nada. Só notou o mesmo cheiro do raminho dos Valinhos, quando a filha disse: “Já cá está!” A Lúcia perguntou: “O que me quer hoje?” Calou-se por um pouco e em seguida parece que lhe pediu um milagre para que todo aquele povo acreditasse. Depois ficou outra vez calada. Daí a momentos disse-lhe que tinha muitos pedidos de muitos doentes para lhe fazer. Ela estava de pé, de mãos postas, voltada para a azinheira. As outras estavam na mesma posição. A Jacinta ficava no meio. As outras duas crianças não diziam nada. A Lúcia de vez em quando ia para levantar os olhos e baixava-os logo, e perguntando-lhe o senhor Prior mais tarde porque fazia isso, disse que era porque cegava. Estavam as duas meninas vestidas com um vestido azul claro e um véu branco e tinham na cabeça uma grinalda de flores brancas artificiais de papel. Durou tudo pouco tempo. A Lúcia por fim disse: “Lá vai ela, lá vai ela!... Veem-na?... Olhem para acolá!”, apontando com o braço na direção do nascente para onde estava e esteve sempre voltada durante todo o tempo. Depois, naturalmente quando a perdeu de vista, voltou as costas para a azinheira e dirigindo-se ao povo que estava atrás disse: “Olhem que Nossa Senhora disse que se emendassem de ofender a Deus, que já estava muito ofendido e que a guerra ia acabar”. E a cunhada Olímpia disse: “Ó Lúcia, então tu não pediste a Nossa Senhora que fizesse um milagre para todo o povo acreditar?” A isto a Lúcia respondeu: “Então ainda querem maior milagre do que é a guerra acabar?”. Disse mais a Lúcia que Nossa Senhora tinha dito que fizessem ali uma capelinha, que ela era a Senhora do Rosário, que a guerra ia acabar logo que chegasse ao Céu. Tornou-se a virar e repetiu: “Já lá está!... Veem-na?... Já lá vai a chegar” (A pequena não se lembra de ter mandado o povo olhar para cima, digo, para o céu, para o sol). Foi então que o povo começou a olhar para cima. A mãe da Lúcia olhou e viu o sol três vezes a desandar e a descer, podendo olhar--se para ele. Todo o povo olhava e gritava. Dizia o povo: “Olhem, olhem!” A mãe da Lúcia chegou a recear que as crianças fossem maltratadas. Um senhor doutor de Torres Novas9, pegou na filha ao colo e abalou com ela para a estrada. A mãe não sabia se era para bem ou para mal. Veio para casa da cunhada, enchendo-se a casa de gente e depois para sua casa.

Notas dos editores (1)

9 Dr. Carlos de Azevedo Mendes.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (3)Ligação
Abrir