Explorar / Documento
DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4)
Índice (7 secções)
Interrogatórios oficiais realizados pela Comissão Canónica a Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus (pais dos videntes Francisco e Jacinta Marto), Maria Rosa (mãe da vidente Lúcia), Maria dos Santos e marido, Manuel António de Paula e José Alves, acerca dos acontecimentos de Fátima.
Publ.: DCF, II - Doc. 4
INTERROGATÓRIOS OFICIAIS DE
Manuel Pedro Marto (pai de dois videntes)
Olímpia de Jesus (mãe de dois videntes)
Maria Rosa, viúva (mãe de Lúcia)
Maria dos Santos e marido
Manuel António de Paula e
José Alves1
todos da freguesia de Fátima
Depoimento de Manuel Pedro Marto
Aos vinte e oito dias do mês de setembro de 1923, na freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, Diocese de Leiria, por determinação de Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, foram ouvidos os seguintes depoimentos de testemunhas ajuramentadas sobre os acontecimentos extraordinários de Fátima.
1. Manuel Pedro Marto de cinquenta e um anos de idade, é casado com Olímpia de Jesus e mora no lugar de Aljustrel. Sua mulher, que era viúva, teve do segundo matrimónio sete filhos, dos quais morreram cinco, entre eles os videntes Francisco Marto e Jacinta Marto, estando vivos seis no tempo das aparições.
No dia treze de maio de mil novecentos e dezassete, era já noite quando chegou ao lugar, de regresso do mercado da Batalha e só então soube dos acontecimentos desse dia na Cova da Iria. Em casa encontravam-se um cunhado e um sobrinho e todos ou quase todos os filhos, incluindo o Francisco e a Jacinta, que já tinham contado à Mãe o que se havia passado. Estavam a cear quando a mãe perguntou novamente à Jacinta o que tinha presenciado.
A pequena disse que Nossa Senhora lhes tinha aparecido, que antes tinham visto um relâmpago, que recearam estivesse iminente uma trovoada ou chovesse, e já se preparavam para se irem embora, indo até tocar o gado para esse fim. O Francisco interrogado igualmente mais uma vez pela Mãe, disse que também tinha visto a Senhora, que a princípio a não vira e que a Senhora tinha dito que havia de aparecer seis meses a seguir. Em junho a Jacinta pediu à Mãe que não fosse à feira dos treze nas Pedreiras, a uma légua de Porto de Mós, para poder ir ver Nossa Senhora. A Mãe ao ouvir este pedido, disse-lhe: “Ah! tu não vais lá, Nossa Senhora não te aparece”. Ao que a pequena retorquiu: – “Aparece sim, Nossa Senhora disse que aparecia e por isso aparece.” A Mãe replicou: “Então não vais à festa de Santo António?” “Não, confirmou a pequena, Nossa Senhora é mais bonita que Santo António”. Quando chegaram da feira, onde foram apesar do pedido da filha, era já noite e antes de chegarem a casa ouviram dizer que os pequenos tinham ido ao local, e tinham dito que viram Nossa Senhora. Havia pessoas que se admiravam que as deixassem ir sozinhas. Em treze de julho os pais foram também à Cova da Iria, indo as crianças adiante. Um indivíduo da freguesia, de nome Matias, barbeiro2, ao ver o pai das crianças, chamou-o para junto da azinheira onde já estava a mulher. Os três videntes iam sempre juntos. A princípio conservaram-se de pé, depois ajoelharam, tendo a Lúcia mandado fechar os chapéus que estavam abertos por causa do sol. O povo estava na sua maior parte por trás dos videntes. E estes num dado momento levantaram-se e depois tornaram a ajoelhar-se. Ouviram uma voz vinda do local ao pé da carrasqueira que disse: – “Que me quereis hoje?” Esperou um momento e depois disse: “Então não me quereis hoje nada?” A Lúcia disse, o que o pai ouviu: “Eu o que queria – ai! Nossa Senhora!”, e pediu a cura e a conversão de diversas pessoas, não se recordando o pai o nome delas.
A Lúcia depois acrescentou: “diz que nem todas melhoram, porque algumas são más”. Declarou ainda que a Senhora tinha dito que rezassem todos o terço e que a guerra em breve ia acabar. Estavam então as crianças de joelhos, a Lúcia levantou-se rapidamente, ficando o vestido em balão, e disse apontando: “Olhem para acolá, se a querem ver” – e acrescentou logo: “Já não vão a tempo”. Ela estava voltada quase ao poente e voltou-se para o nascente a indicar a Senhora que se retirava. Fazia muita calma e logo depois o tempo tornou-se fresco. Logo que elas se levantaram, muitas pessoas fizeram perguntas, tiraram raminhos da carrasqueira e interrogaram as crianças. O pai pegou na Jacinta ao colo para atravessar mais facilmente por entre a multidão. Ela disse ter visto outra vez Nossa Senhora. Passados dias, a filha mais velha, Florinda, disse que a Jacinta tinha dito para a Lúcia: “Fala-lhe, Lúcia, que ela já está a falar”. Em treze de agosto, foi à fazenda buscar milho com a ideia de lá ir ao local à hora própria, sabendo, quando já estava na eira, pela Florinda3, que o administrador tinha chegado entretanto a sua casa. Ainda não eram dez horas. Voltou logo para casa e encontrou o administrador e um padre4 que não conhecia. O administrador perguntou: “Então, senhor Marto, sabe porque cá venho hoje? Quero lá ir acima à Cova da Iria, ao Milagre, quero ir ver. Sou como S. Tomé, ver e crer”. Manuel Marto disse: “Faz bem, senhor administrador”. Este declarou que levava as crianças no seu carro. Elas ainda andavam com o gado. Marto pediu a sua mulher que as chamasse, porque eram horas. Não chegou a chamá-las, mas elas vieram com o gado. A Lúcia sabendo que o administrador estava em casa dos tios, dirigiu-se logo para lá, e ele, assim que a viu, disse-lhe que as levava de carro, ao que ela retorquiu que não iam de carro. A pequena voltou a casa e depois veio com o pai. Ouviu-se nessa ocasião falar num segredo. Como a estrada não estava feita, o carro ficou à espera numa encruzilhada. O administrador disse que então os esperava na Fátima para lhes fazer umas perguntas em casa do Senhor Prior.
Dirigiram-se os pais das três crianças a casa do Senhor Prior, não estando ainda lá o administrador, que chegou pouco depois. Ficaram todos na varanda. Só a Lúcia foi chamada lá dentro para ser interrogada pelo senhor Prior em presença do administrador.
Depois do interrogatório, o administrador convidou as crianças a descer as escadas da varanda e a subir para a charrete em que tinha vindo, deu uma volta à igreja e fugiu para Vila Nova de Ourém. O pai da Jacinta seguiu então para a Cova da Iria tendo ficado admirado da partida do administrador. Na Cova da Iria, depois de falar com várias pessoas, ouviu perfeitamente um estrondo seguido de poeira e nevoeiro. O povo fugiu. Quase todas as pessoas tiraram os chapéus, gritaram por Nossa Senhora e ficaram muito contentes, dizendo que tinham roubado as crianças, é verdade, mas que Nossa Senhora se tinha manifestado. Viu também uma espécie de globo luminoso girando nas nuvens. Parecia haver uma névoa em volta da carrasqueira, depois do estrondo. O povo queixava-se não só do administrador, como do senhor Prior, dizendo que ele também tinha culpa. O tio da Lúcia, António da Silva5, nesse dia à tarde, queria ir pedir satisfações ao senhor Prior, julgando-o culpado, mas não apareceu. O pai da Jacinta procurou o senhor Prior, supondo que ele sabia alguma coisa a respeito das crianças. Voltou depois com o cunhado para casa. O povo continuava a falar contra o senhor Prior, afirmando que ele é que tinha a culpa do roubo das crianças. O administrador trouxe os pequenos na quarta-feira, dia 15, depois da Missa, cerca das onze horas. No sábado, onze, tinham sido chamados a Ourém os pais de Lúcia e de Jacinta, indo só os pais e a Lúcia. Primeiro chamaram a Lúcia e os pais. Depois chamaram o pai da Jacinta. O pai respondeu que a não trouxera, porque ela, sendo tão pequena, não podia ir a pé, nem sabia ir de burra. Replicou o administrador: “Então desobedece?!”. “Não, porque aqui estou”, acentuou Manuel Marto. Mais tarde, quando as veio trazer a Fátima, disse-lhe que já nesse dia tinha tido tenção de prender as crianças. Logo que chegou levou as crianças a casa do senhor Prior. Declarou que acusavam o regedor e o senhor Prior do rapto das crianças, mas que só ele tinha a culpa, que podiam perguntar às crianças, se as tinham tratado mal, e que já não queria saber de nada, que elas podiam ir ao local, quantas vezes quisessem. O que é certo porém, é que pelo caminho, no regresso de Ourém, já tinha dito às crianças que tornaria a prendê-las se fossem outra vez à Cova da Iria.
Quando o administrador tomou a direção de Ourém, a Lúcia e a Jacinta disseram-lhe que a Cova da Iria não era para aquele lado, retorquindo ele nestes termos: “levo-as a casa do senhor Prior de Ourém que as quer interrogar e depois vêm em automóvel, que ainda chegam a tempo”. Logo que chegaram, pediram-lhe que as levasse a casa do senhor Prior, mas o administrador disse que primeiro haviam de comer, ao que elas se prestaram.
No dia dezanove de agosto, ao chegar a casa, depois de ter passado pelos Valinhos, propriedade particular de António Ferreira Rosa, para ir a uma fazenda sua, ouviu dizer que Nossa Senhora tinha aparecido nesse dia naquele sítio. Chegaram a mulher e a Jacinta e ele perguntou à filha o que havia, tendo ela dito que Nossa Senhora tinha aparecido; que quem ia com o gado eram o João, a Lúcia e o Francisco, que o João chamou-a e que, logo que ela lá chegou apareceu Nossa Senhora, e que haviam de aparecer Nossa Senhora das Dores, (segundo lhe parece), Nossa Senhora do Rosário, S. José e o Menino Jesus.
Em treze de setembro foi também à Cova da Iria. Estava um pouco afastado das crianças. Não viu nada, nem ouviu nada, mas ouviu dizer que algumas pessoas tinham visto coisas extraordinárias na atmosfera. Ouviu dizer às crianças que Nossa Senhora havia de dizer em outubro o que é que queria e havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse. Desde treze de setembro as visitas a sua casa foram numerosas. Em treze de outubro chovia. Aconselharam-no a que não fosse porque lhe podiam fazer mal, embora o não fizessem às crianças, por serem crianças. Foi em companhia delas. Estava então muita gente no local convertido num lamaçal enorme. Ouviu a Jacinta gritar que não a apertassem. A Lúcia disse: “Já cá está!” O povo afirmava ver cores no sol e no céu. O sol não fazia nenhuma impressão à vista. Não ouviu voz nenhuma. Ouviu dizer ou à Lúcia ou a outras pessoas que Nossa Senhora queria que não se ofendesse mais a Nosso Senhor, o qual estava muito ofendido e que a guerra ia acabar.
O Francisco um ano depois adoeceu com a pneumónica e pediu a Sagrada Comunhão que recebeu por Viático. Morreu a sorrir-se.
A Jacinta morreu mais tarde, também em consequência da pneumónica6.
A testemunha não sabe escrever.
A rogo da testemunha
Joaquim Pereira dos Reis
Doutor Padre Manuel Nunes Formigão Júnior, relator
Doutor Padre Manuel Marques dos Santos, promotor da fé
Depoimento de Olímpia de Jesus
2. Olímpia de Jesus, de cinquenta e quatro anos, casada em segundas núpcias com Manuel Pedro Marto, do qual teve sete filhos (tendo mais dois, ainda vivos e casados, do primeiro matrimónio7), sendo apenas dois atualmente vivos8; é natural e moradora em Aljustrel, freguesia de Fátima. Estava de regresso àquele lugar no dia treze de maio de mil novecentos e dezassete, depois do sol posto, já de noite, do mercado que há todos os domingos na Batalha. Ao chegar a casa a Jacinta, muito alegre abraçou-se a ela, o que não costumava fazer e disse: “Ó minha mãe, vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria”. A mãe retorquiu: “Não acredito; és uma boa santa para veres Nossa Senhora”. A pequena mostrou-se um pouco triste e insistiu: “Acredite, minha mãe”. Tinha então sete anos. Isto passou-se ainda na rua à porta de casa. Entraram e logo ela disse: “Minha Mãe, vou rezar o terço com o Francisco, que foi o que Nossa Senhora mandou que nós fizéssemos”. A mãe deixou-os ir rezar. Depois de terem rezado, a criança, voltando-se para a mãe, disse: “Minha mãe, tem que rezar o terço todos os dias”. “Não é esse o costume, observou a mãe, então vou agora rezar o terço?!”. “Reze, minha mãe, reze!”, tornou a filha com intimativa. Vendo que as crianças continuavam a rezar todos os dias o terço, ou quando andavam com o gado ou em casa, os pais resolveram-se a rezá-lo também todos os dias em comum com toda a família. E se algum dia se deixava de fazer tal devoção, por qualquer motivo extraordinário, ficava triste e dizia com voz magoada: “Minha mãe, já rezei o terço e vossemecê ainda o não rezou”. A mãe com pouca fé na realidade das aparições, esperou o dia treze de junho. A uma pergunta dos pais nesse sentido, a pequena respondeu que Nossa Senhora tinha dito, que fossem lá durante seis meses no dia treze que ela lhes apareceria, e que rezassem o terço. Os videntes compreenderam que essa recitação devia ser feita todos os dias. Dizia Nossa Senhora que rezassem o terço, que o espalhassem pelo mundo e que Deus estava muito ofendido. O Francisco disse que via a Senhora a mexer os beiços, abrir as mãos e fechá-las, mas não ouvia as suas palavras. Disse a Jacinta que a Senhora só falava com a Lúcia. A Lúcia disse que via uma mulher muito bonita, com um resplendor ao cabo da cabeça, que cegava. No princípio da aparição, quando a Lúcia dizia que via Nossa Senhora, o
Francisco não vendo nada, aconselhou a prima a atirar-lhe com uma pedra e a Lúcia disse à Senhora: – “Então vossemecê é Nossa Senhora do Céu e o Francisco não a vê?” – Já a Senhora lhe tinha dito que era do Céu. Nossa Senhora disse à Lúcia: “Diz-lhe que reze o terço e já me verá”. O pequeno contou que então meteu a mão no bolso do colete, onde tinha as contas da Missa e começou a rezar e quando tinha seis ou sete Avé Marias rezadas, já via a Senhora e não pôde rezar mais. Na ocasião em que já a via, notou que as ovelhas começaram a ir para um trigal que havia na parte mais baixa da Cova da Iria e disse que as ia voltar. Estava para se pôr a caminho quando a Lúcia lhe disse: “Ó Francisco, não vás, que Nossa Senhora diz que o gado não come o trigo”. Ele então observou: “Então as ovelhas já vão pelo trigo dentro e não o comem?!” E voltou para trás. A mãe perguntou-lhe: “Depois de Nossa Senhora sair, as ovelhas comiam o trigo?” Respondeu ele: “Ah, se as deixassem comiam-no todo”. No dia 13 de junho, Olímpia de Jesus e seu marido foram para uma feira, apesar de a Jacinta ter dito na véspera à noite: “Minha Mãe, não vá amanhã à feira, vá à Cova da Iria, vem lá Nossa Senhora”. E a Mãe não queria acreditar e disse à filha: “Tu queres ir para Santo António, não queres ir para a Cova da Iria!” Como que a dar a entender que era um pretexto para ir à festa. Ela respondeu: “O Santo António não é bonito”. “Porquê?”, interrogou a mãe. “Porque Nossa Senhora é mais bonita”, concluiu a filha. “Eu vou à Cova da Iria mais a Lúcia e o Francisco e se Nossa Senhora disser que vamos ao Santo António então vamos”. No dia treze à noite, quando a mãe chegou, contaram-lhe que Nossa Senhora lhes tinha aparecido outra vez, como em treze de maio, e que tinha dito à Lúcia que fossem lá todos os meses e que fizessem penitência. Passaram-se os dias até treze de julho. Destas três vezes, a mãe não foi com as crianças. Deixava-as ir, mas tinha receio de que o povo lhes fizesse mal, porque se julgava que enganavam. Um dia chegou a fazer menção de querer bater no filho e na filha para não andarem a enganar o povo. “Eu bato-lhes, dizia ela, porque vocês andam a enganar o povo e já lá vai muita gente”. Os filhos disseram que não chamavam para lá ninguém, que quem quisesse ir fosse, quem não quisesse não fosse, que eles iam, quem não quisesse acreditar sofreria castigo e que ela, mãe, também sofreria. Quando a Jacinta começou a dizer que sabia um segredo comunicado por Nossa Senhora, começou a ser chamada a várias partes, mesmo fora da freguesia. Segundo afirmava a pequena, o Francisco não ouviu o segredo e fora a Lúcia que lhe dissera da parte de Nossa Senhora. O Francisco, pedindo-se-lhe para revelar o segredo, declarou que nem que o matassem o poderia dizer. Aconteceu por várias vezes serem interrogados e oferecerem-lhes riquezas para o dizerem e eles respondiam que nem que lhes oferecessem o mundo inteiro o poderiam dizer. Brincavam exatamente como antes. Não era costume até então rezarem o terço em família. Não notavam diferença nos pequenos para melhor depois das aparições. O que faziam a mais era rezar o terço. Mostraram-se mais verdadeiros daí em diante, por exemplo, contando o que fazia o gado. Pediam licença para rezar o terço e rezavam-no todos os dias e à noite rezavam-no sempre, embora não raro tivessem rezado duas e três vezes o terço quando andavam com o gado. Pela manhã benziam-se e rezavam uma Avé Maria ou um Padre Nosso ao Anjo da Guarda e partiam com o gado.
Em treze de julho foram lá e contaram que Nossa Senhora tinha aparecido como nos meses anteriores. Em treze de agosto o Administrador do Concelho chegou a casa de Manuel Marto de manhã cedo e a mulher não o conhecia. Ele pediu muito que preparassem os pequenos que andavam com o gado, para irem para a Cova da Iria. Olímpia de Jesus dizia que era muito cedo, que andavam com o gado e que não costumavam ir para lá senão ao meio-dia. O administrador mostrava-se muito aflito, porque queria que os videntes regressassem mais cedo. Chegaram quase às horas do costume e ainda não queriam ir. A mãe tinha-os mandado chamar. A Lúcia declarou que ainda era muito cedo. O administrador disse à Lúcia que haviam de vir à Fátima a casa do senhor Prior para serem interrogados e que dali seguiriam no carro para a Cova da Iria. E assim os enganou. As três crianças foram em companhia dos pais. As mães ficaram em casa. A mãe da Jacinta soube no caminho da Cova da Iria, para onde se dirigia, que o Administrador tinha levado as crianças para Ourém. Voltou então para trás e foi dar parte do sucedido à cunhada, mãe da Lúcia. “Ó Maria, disse ela, então não levaram os cachopos para a Aldeia!” Ela sorriu-se e disse: “Então não andem a mentir!”. “Ai, o que lhes farão por lá!” exclamou a mãe da Jacinta. – “Não tenhas medo que não os comem por lá!”, disse a mãe de Lúcia. Em casa da cunhada quando ouviram o povo a gritar, disse: “O que irá por lá?” A mãe da Lúcia olhou para o sol e disse: “O sol está diferente”. Veio o povo e contou que se tinham visto sinais no sol e no céu.
As crianças chegaram no dia quinze de agosto de manhã em que o administrador as veio trazer. Ele disse às crianças, na presença da mãe da Jacinta: – “Agora podem ir à Cova da Iria quantas vezes quiserem”. Disse o administrador ao pai da Jacinta que “eles diziam ver e ouvir coisas extraordinárias por causa de uma doença que tinham”. No dia dezanove era um domingo. A Lúcia andou a guardar o gado em companhia dos primos, Francisco e João, ao pé dos Valinhos. Tinham vindo pouco antes da Missa. A Jacinta ficou em casa para a mãe lhe tratar da limpeza da cabeça, indo o irmão João com as ovelhas em vez dela. Passado um bocado, o João apareceu em casa em procura da Jacinta, dizendo que a Lúcia o tinha mandado ir lá para a levar. A mãe perguntou: “Então para que querem lá a Jacinta? Ainda te parecem poucos os que lá andam para a brincadeira? O João explicou então: “A Lúcia deu-me um vintém para a vir chamar e que não dissesse à minha mãe para o que era”. A mãe agarrou no João e disse: – “Ou tu me hás de dizer para que é ou também não te deixo ir a ti”. Então o pequeno declarou que a Lúcia lhe dissera que já via os sinais no Céu, que Nossa Senhora também aparecia nesse dia e que queria que a Jacinta também lá estivesse. A mãe disse ao João: “Vai chamar a Jacinta que está na casa da madrinha e venham por aqui”. A mãe fez essa recomendação porque queria ir com os filhos para ver o que diriam ou fariam. Mas eles foram por outro caminho. Como tardassem, foi à sua procura, a casa da madrinha, onde perguntou pelo seu paradeiro. A madrinha respondeu: “O teu João esteve aí, disse uma espécie de segredo à Jacinta e abalaram a correr por a serventia da estrada dos talhos acima, direitos aos Valinhos. Olímpia de Jesus, que desejava ir ter com eles, esperou um bocado e por fim pôs-se a caminho. Mas então já vinham de regresso a casa o Francisco e a Jacinta, dizendo que Nossa Senhora tinha tornado a aparecer, mas que o João não a tinha visto. Quando o João veio à noite, a mãe perguntou se tinha visto alguma coisa. Ele respondeu que viu a Lúcia, o Francisco e a Jacinta de joelhos, ao pé da azinheira, ouviu a Lúcia falar e quando a Lúcia disse: – “Ela já lá vai, ó Jacinta” – ouviu uma rugida como de um foguete, mas não viu nada. E acrescentava que até lhe doía os olhos de olhar para o ar. Contava então onze anos de idade.
Em treze de setembro, depois de as crianças partirem para a Cova da Iria, foi chamar a cunhada para irem ambas em segredo, isto é, de maneira que ninguém as visse. Chegaram e deixaram-se ficar na encosta, não indo para o pé das crianças para não serem vistas. Quando o povo gritou que via sinais, não perceberam o que ele dizia, mas pareceu-lhes ver um fumozinho subir do meio do povo ao pé da azinheira. Logo que notaram que as crianças se vinham embora e que o povo as seguia, disse a mãe da Jacinta: “Elas estão salvas, vamo-nos embora”, voltando para suas casas. Parece-lhe ter ouvido à Lúcia que a Senhora lhe tinha recomendado que aprendesse a ler. Ela e outras pessoas interrogaram a Jacinta e o Francisco. A pequena era mais interrogada. Uma vez foram a casa deles umas senhoras muito ricas e ofereceram à Jacinta várias jóias que traziam para ela lhes dizer o segredo. A Jacinta disse que por coisa nenhuma o diria, nem que lhe dessem o mundo inteiro. Mesmo durante a última doença a mãe lhe dizia: “Eu desprezo-te e não quero saber de ti se não me disseres o segredo”. E a filha replicava que não o podia dizer. “Ao menos hás de me dizer se é bom ou mau”, insistia a mãe. Ela respondia que era bom para quem quisesse acreditar. “Acreditar no quê?”, perguntava a mãe. “Em Deus”, concluía a filha. E acrescentava que era mau para quem não quisesse acreditar.
Em treze de outubro a mãe foi de novo à Cova da Iria e ficou ao pé das crianças. A Jacinta, como a mãe ouviu, depois de dizerem que Nossa Senhora já tinha aparecido, acotovelou a Lúcia e disse-lhe: “Fala-lhe Lúcia, que Nossa Senhora já lá está”. A Lúcia tomou a respiração por duas vezes, como pessoa a quem faltasse o ar. Em seguida disse: “Que é que me quereis hoje?”. Daí a poucos momentos, a Lúcia disse mais: “Queria que me melhorasse os doentes.” Depois declarou: “Nossa Senhora disse que os não podia melhorar todos, que eram muito maus”. Passados alguns momentos levantou-se muito rapidamente e disse: “Se a quiserem ver voltem-se para o nascente”. Mas logo a seguir exclamou: “Já a não veem”. Já em casa a Jacinta disse à mãe: “Ó minha mãe, eu vi-a entrar no Céu”, e acrescentou que se lhe representara quando a viu entrar no Céu, que os pés se lhe entalavam. O Francisco e a Jacinta por ocasião da pneumónica adoeceram e morreram em consequência dessa doença. O Francisco sabia que ia morrer e antes de morrer disse: “Ó minha mãe, olhe que luz tão bonita ali está na nossa janela”. E depois afirmou que já a não via. Deu um ar de riso e ficou-se, que nunca mais respirou. Foi sempre firme em afirmar, mesmo durante a doença e próximo da morte, que era verdade tudo quanto tinha dito a respeito das aparições. Alguns dias antes da morte, disse que tinha pena de morrer sem receber Nosso Senhor, porque nunca tinha comungado. Fez a primeira comunhão por viático na véspera da morte. A Jacinta já tinha feito a primeira comunhão, no ano seguinte ao das aparições e comungou depois várias vezes. Morreu em Lisboa no dia 20 (vinte) de fevereiro de mil novecentos e vinte.
A testemunha não sabe escrever.
A rogo da testemunha Eduardo dos Santos
Doutor Padre Manuel Nunes Formigão Júnior, relator
Doutor Padre Manuel Marques dos Santos, promotor da fé
Depoimento de Maria Rosa
3. Maria Rosa, viúva de António dos Santos, de cinquenta e cinco anos de idade, natural da Perulheira e batizada no Reguengo do Fetal, atualmente moradora em Aljustrel, teve sete filhos, morrendo um à nascença. São todos mais velhos que a Lúcia. No ano anterior ao das aparições, ouviu a filha Lúcia e outras dizerem que tinham visto noutro lugar uma pessoa embrulhada num lençol. Não fez caso de tais palavras. Em mil novecentos e dezassete, no dia treze de maio, a Lúcia não disse nada em casa do que se tinha passado na Cova da Iria. No dia seguinte, a mãe ouviu dizer a umas vizinhas que tinham perguntado à filha o que é que ela tinha visto. Julgou que se referiam ao ano anterior e ficou admirada de falarem em coisas tão antigas. Elas disseram que tinha sido na véspera e que o Francisco e a Jacinta tinham dito tudo em casa. A mãe de Lúcia continuou a não ligar importância ao que se contava. As duas filhas, Maria dos Anjos e Carolina, interrogaram a Lúcia sobre os acontecimentos da véspera e foram para casa e disseram que realmente a irmã tinha visto alguma coisa. Por fim, a mãe perguntou-lhe também o que vira. Ela disse que via uma mulherzinha muito bonita; que o vestido que trazia era todo branco, que à pergunta” – “de onde era” – apontara para o Céu dizendo que era de lá, e que tendo-lhe perguntado se não iam para o Céu o Francisco, a Jacinta e ela Lúcia, a aparição respondeu que sim. A Mãe, ao ouvir estas palavras exclamou: “Que felizes que vocês são!”. Disse a Senhora que queria que fossem lá seis meses a fio e que por fim diria o que queria. A mãe abstinha-se de fazer muitas perguntas à pequena. Resolveu ir para a Cova da Iria, se visse que ela voltava lá, para a observar escondida sem que ela visse, julgando que não iria mais ninguém. Mas logo se ajuntou gente no dia treze de junho para a acompanhar e por isso não foi. Nesse dia, entre as pessoas que a acompanhavam estavam duas mulheres de Boleiros. Deixou ir a filha. Vestiu-a melhor porque ia dali para a festa de Santo António na igreja paroquial. A mãe foi para a festa para ouvir a missa. No caminho encontrou um grupo de cinco ou seis pessoas que iam de Fátima para Aljustrel. Julgando que queriam ir à festa, disse-lhes: “Os senhores estão enganados, a festa é para ali”. “Nós não vimos para a festa”, retorquiram eles, “vimos em cata de três crianças que dizem ter visto Nossa Senhora”. Admirou-se da resposta e perguntou-lhes de onde eram. Disseram que eram dos Carrascos. Não lhes confessou que era a mãe de uma das crianças. Eles perguntaram onde estavam as crianças.
Respondeu-lhes que estavam em Aljustrel e seguiu para a Missa. Ia cada vez mais pensativa, julgando que fazia mal em não ir ao local das aparições, porque podiam bater nas crianças por mentirem, mas não queria passar pela vergonha a que se expunha se não houvesse nada. As crianças, logo que tudo acabou, foram ter à Fátima. Quando saíam da missa já lá estavam, vendo-se muita gente em roda delas. O povo afirmava que as pessoas que tinham ido à Cova da Iria tinham vindo muito satisfeitas, julgando que era verdade o que as crianças diziam. Dizia também o povo que a Lúcia à volta pelo caminho tinha vindo pedindo o terço, do que a mãe se admirou por não saber onde ela tinha aprendido a pedir o terço, visto que em casa todos rezavam o terço só individualmente. Quando mais tarde pude chegar ao pé dela, perguntou-lhe o que tinha visto. Respondeu que tinha visto a mesma mulherzinha do outro dia. Perguntou-lhe o que ela tinha dito. Disse que tinha dito que continuassem a ir lá e que aprendessem a ler. Esta proposta tornou-a descrente porque lhe parecia que Nossa Senhora não tinha vindo à terra para lhe dizer que aprendesse a ler. Tornou-se tudo mais sabido e chegando a notícia dos acontecimentos mais longe, concorrendo para isso a festa onde se reunira tanta gente de fora. Veio com a filha para Aljustrel. Ela era boa e humilde. Vinha com a mesma alegria de antes. Depois desta aparição a pequena tinha-lhe mostrado três vinténs e meio em moedas de dez réis que lhe tinham dado. Uma vizinha disse: “Então a Lúcia faz bem em andar a espalhar estas coisas, porque já lhe deram cinco tostões em prata, como ela própria declarava”. A mãe perguntou-lhe se era verdade. A pequena disse que não tinha dito isso. Ao que a mãe respondeu: “Pois ela uma mulher de mais de sessenta anos, afirmou que tu lhe tinhas dito isso e tu negas? Quem faz um cesto faz um cento”. E bateu-lhe, dando-lhe umas poucas de solhas. Ela chorou e disse sempre que tinham dado cinco tostões à Jacinta, mas a ela não. E a Jacinta apareceu realmente com eles. Ficou então convencida de que era mentira tudo o que as crianças diziam. Foi ter com o senhor Prior para lhe dizer que o que estavam para averiguar que estava já averiguado, pois era tudo mentira. E contou-lhe o que se tinha passado, concluindo que era tudo mentira. O Pároco disse que não batesse na filha, nem andasse a meter-lhe medo, que ele a apanharia em mentira, se realmente ela fosse mentirosa. O Pároco já a tinha interrogado uma vez. Em treze de julho as crianças voltaram à Cova da Iria. Encheu-se-lhe a casa de povo. Acompanharam-nas pessoas de todas as classes. A mãe da Lúcia não foi porque o senhor Prior a aconselhava a que não fosse. À volta encheu-se-lhe também a casa de povo, que fazia à filha muitas perguntas.
Quase todos os dias a procuravam, não podendo ir apascentar o gado, tendo de se fazer substituir. Dizia a pequena, que a Senhora lhe tinha dito um segredo que não podia dizer a ninguém e que ela tinha pedido por alguns doentes e que lhe parece que a Senhora dizia que uns melhoravam outros não. Neste mês o marido e a Lúcia foram chamados a Ourém à presença do administrador.
Em treze de agosto a Lúcia saíu pela manhã com as ovelhas e quando veio já estava a casa cheia de gente. Estava com tenção de ir à Cova da Iria, como nos meses anteriores, mas o administrador levou-a para Ourém, tendo sido a notícia da prisão comunicada à mãe pela cunhada que, indo para a Cova da Iria, ouviu dizer que o administrador tinha abalado com as crianças. A mãe da Lúcia ficou magoada, mas não se apoquentou porque sabia que não comiam as crianças, pensando ao mesmo tempo que se elas mentiam, mereciam algum castigo e que se diziam a verdade, Nossa Senhora as defenderia. Vieram depois, à tarde muitas pessoas que procuravam confortá-la, dizendo que iam agora mais crentes, porque foi o primeiro dia em que apareceram os sinais. Os irmãos de Jacinta foram de bicicleta observar o que se passava em Ourém e vieram dizer que tinham visto as crianças a brincar na varanda do administrador, que os tratava bem. O administrador veio trazê-los à Fátima no dia quinze num carro e foi pô-las na varanda do senhor Prior. A mãe da Lúcia, que estava lá, veio com a filha para casa. As crianças mostraram-se como dantes contentes e prontas para brincar, dizendo que lhes tinham feito muitas perguntas e que tinha ido um médico examiná-las. O administrador disse que o povo estava com uma doença por ter visto sinais, e o cunhado Marto disse-lhe que então estava muita gente doente.
No dia dezanove, a Lúcia chegou a casa à noite, trazendo na mão um raminho de azinheira e disse que Nossa Senhora lhe tinha aparecido um pouco antes do sol posto, aí pelo meio da tarde, às quatro horas, tendo estado ao meio-dia com o gado em casa. A mãe pegou no ramo e notou que cheirava muito bem. O cheiro não se podia comparar com nenhum outro cheiro. Ela era descrente e ficou um pouco quebrada, um pouco mais convencida. Disse a filha que a Senhora tinha dito que continuassem a ir à Cova da Iria e que havia de fazer um milagre em outubro na Cova da Iria, que os militares haviam de vir da guerra, que havia de vir Nossa Senhora das Dores e outras coisas mais. Em treze de setembro veio muita gente. Passou-se tudo como das outras vezes. Em treze de outubro a mãe foi ao local pela primeira vez, apesar da recomendação em contrário do senhor Prior. Foram vestir as pequenas para casa da cunhada, porque uma senhora do Pombalinho trouxe uns vestidos, uns véus e umas grinaldas. A mãe da Lúcia foi com as crianças. Mas, como ia muito povo, perdeu-as de vista. Na Cova da Iria furou e ficou mesmo ao pé delas. Como diziam que as matavam, que as faziam em postas, e como por outro lado ficava com tanta pena de tudo acabar e não ver nada, resolveu ir. As crianças diziam a hora em que se dava a aparição e queriam ir para estar a essa hora. Da última vez demoraram-se um quarto de hora junto da azinheira antes de começar a aparição. Estavam todos três de pé. A mãe da Jacinta estava perto. O povo dizia por trás que não haveria nada, porque ia a passar a hora e não se estava dando nada de extraordinário. Todos três a um tempo deram um grito, um ai! A Lúcia disse: “Lá vem ela! Calem-se que já deu um relâmpago”. Tinha estado a chover toda a manhã. A azinheira estava enfeitada com fitas e rosas, quase não se via nada dela.
Depois a Lúcia disse: “Já cá está”. Falava alto. A mãe não via nada. Só notou o mesmo cheiro do raminho dos Valinhos, quando a filha disse: “Já cá está!” A Lúcia perguntou: “O que me quer hoje?” Calou-se por um pouco e em seguida parece que lhe pediu um milagre para que todo aquele povo acreditasse. Depois ficou outra vez calada. Daí a momentos disse-lhe que tinha muitos pedidos de muitos doentes para lhe fazer. Ela estava de pé, de mãos postas, voltada para a azinheira. As outras estavam na mesma posição. A Jacinta ficava no meio. As outras duas crianças não diziam nada. A Lúcia de vez em quando ia para levantar os olhos e baixava-os logo, e perguntando-lhe o senhor Prior mais tarde porque fazia isso, disse que era porque cegava. Estavam as duas meninas vestidas com um vestido azul claro e um véu branco e tinham na cabeça uma grinalda de flores brancas artificiais de papel. Durou tudo pouco tempo. A Lúcia por fim disse: “Lá vai ela, lá vai ela!... Veem-na?... Olhem para acolá!”, apontando com o braço na direção do nascente para onde estava e esteve sempre voltada durante todo o tempo. Depois, naturalmente quando a perdeu de vista, voltou as costas para a azinheira e dirigindo-se ao povo que estava atrás disse: “Olhem que Nossa Senhora disse que se emendassem de ofender a Deus, que já estava muito ofendido e que a guerra ia acabar”. E a cunhada Olímpia disse: “Ó Lúcia, então tu não pediste a Nossa Senhora que fizesse um milagre para todo o povo acreditar?” A isto a Lúcia respondeu: “Então ainda querem maior milagre do que é a guerra acabar?”. Disse mais a Lúcia que Nossa Senhora tinha dito que fizessem ali uma capelinha, que ela era a Senhora do Rosário, que a guerra ia acabar logo que chegasse ao Céu. Tornou-se a virar e repetiu: “Já lá está!... Veem-na?... Já lá vai a chegar” (A pequena não se lembra de ter mandado o povo olhar para cima, digo, para o céu, para o sol). Foi então que o povo começou a olhar para cima. A mãe da Lúcia olhou e viu o sol três vezes a desandar e a descer, podendo olhar--se para ele. Todo o povo olhava e gritava. Dizia o povo: “Olhem, olhem!” A mãe da Lúcia chegou a recear que as crianças fossem maltratadas. Um senhor doutor de Torres Novas9, pegou na filha ao colo e abalou com ela para a estrada. A mãe não sabia se era para bem ou para mal. Veio para casa da cunhada, enchendo-se a casa de gente e depois para sua casa.
Uma das coisas que tornava a mãe duvidosa era que às vezes aos serões de inverno lhe falava nas aparições de Nossa Senhora da Ortiga, Nossa Senhora do Fetal, etc. Pensava porém, que era bom que ela aparecesse agora porque isso contribuiria para fortificar a fé.
A testemunha não sabe escrever.
A rogo da testemunha Luís Ribeiro
Doutor Padre Manuel Nunes Formigão Júnior, relator
Doutor Padre Manuel Marques dos Santos, promotor da fé
Depoimento de José Alves
4. José Alves, de cinquenta e oito anos de idade, casado com Maria Rosa das Neves, é natural da freguesia de Santa Catarina da Serra e residente há vinte e três anos, no lugar da Moita, freguesia de Fátima. A Cova da Iria fica a cerca de um quilómetro da Moita. Em maio de mil novecentos de dezassete ouviu dizer a pessoas do lugar e de fora, e especialmente a sua mulher, que era quem mais falava com essas pessoas – e aquilo era coisa mais relativa a mulheres que a homens – que Nossa Senhora tinha aparecido a umas crianças nos lados dos Barreirões. Havia ali uma propriedade de suas sobrinhas, de que elas já tomaram conta, e quando para lá se dirigia, olhava para as árvores a ver se descobria alguma coisa, porque ouvia dizer que a aparição se dava em cima de uma azinheira. Nunca viu nada de extraordinário. Antes do dia treze de maio, não conhecia as crianças, mas conhecia as famílias. Depois de treze de maio começou a conhecê-las, porque as via na Cova da Iria mesmo fora do dia treze e em sua própria casa, onde iam algumas vezes ficar de noite, depois que travaram conhecimento com suas sobrinhas que as convidavam para ir lá, indo não raro lá ter mesmo sem as convidarem. Notou que as crianças eram como as outras crianças, perfeitamente normais, com o juízo no seu lugar. Pareciam-lhe sérias. Alguma coisa lhes ouviu sobre as aparições, mas pouco, porque falavam sobre isso principalmente com a mulher e sobrinhas e mais do que ninguém com sua mulher que lhe fazia perguntas. O que elas diziam era sempre a mesma coisa, pelo que lhe contava a mulher. Nunca se quiseram desdizer. Teve-as por isso sempre como sinceras. A mulher disse um dia à Jacinta, na sua ausência, tendo-lhe contado depois: “Ó Jacinta diz-me o segredo que eu dou-te o meu cordão”. O Francisco não estava presente; se estava era a Lúcia. O Francisco nunca ficou em sua casa e foi lá só uma vez ou duas. A Jacinta disse: “se você me dá aquele santinho, eu digo-lhe”. A mulher retorquiu-lhe: “Eu não te posso dar, que ele não é meu, é da minha sobrinha”. A sobrinha disse: “Ó Jacinta mas diz-me o segredo, que eu dou-te”. Ao que ela respondeu: “Nem que vossemecê me desse o mundo inteiro”. Uma vez estando a mulher em sua casa a fazer perguntas à Lúcia, a Jacinta meteu-se na conversa e disse: “Nossa Senhora vinha dali (e apontou para o nascente) e foi para ali (e apontou para a direção da Cova da Iria). A mulher perguntou ao Francisco na Cova da Iria se tinha visto Nossa Senhora e ele disse que não. E perguntou-lhe se lhe via os pés. E ele disse que não, que só via um resplendor muito lindo nos pés. Naturalmente referia-se ao princípio da primeira aparição em que ainda a não via, antes de começar a rezar o terço.
Um dia, no princípio das aparições, a mulher ia à Cova da Iria e perguntou ao Francisco o que andava a fazer. Ele disse que andava a fazer um serradinho e a Lúcia e a Jacinta chegavam-lhe a pedra. Nessa ocasião a Lúcia disse: “Deu agora um relâmpago e nós temos água”, e as três crianças meteram pela encosta e quando chegaram à Cova é que Nossa Senhora lhes apareceu em cima duma azinheira que foi estronchada pelo povo. A Senhora disse: “Não tenham medo, que eu sou lá de cima, do Céu”. E foi então que lhes disse que viessem lá todos os meses e que rezassem o terço. Quase todos os meses José Alves foi lá no dia treze depois de maio e não viu nada, só ouvia dizer aos outros que viam coisas no céu. Não ouviu o estrondo em agosto. Ouvia dizer muitas vezes que aparecia um fumozinho. Nunca lhe apeteceu tirar o chapéu, mas agora nunca se atreve a passar por lá sem tirar o chapéu e sem rezar algumas Avé Marias. Deu uma propriedade para a obra e deu-a com muito gosto e não está arrependido de a ter dado.
Um dia o senhor Prior esteve em sua casa e disse que aquilo ou era coisa muito má ou coisa boa. Achou-o bastante descrente. Ele disse ao senhor Prior: “coisa má não, porque se fosse não mandava rezar terços, nem fazer oração”. E o senhor Prior retorquiu: – “Está enganado”. E acrescentou: “o diabo serviu-se até dos sacramentos”, o que não gostou de ouvir. Uma ocasião em que a Lúcia foi à Cova da Iria, dois guardas que pareciam ser oficiais marcharam de lá com ela adiante dos cavalos e vieram trazê-la a Aljustrel a casa da mãe e no caminho disseram-lhe: “Nós apeamo-nos e a menina agora vai a cavalo”. Mas a pequena não aceitou o convite. E acrescentou: “eu do que tenho medo é que os cavalos me pisem”. Então já que não quer ir a cavalo, vá lá para diante, que nós não a deixamos pisar”. E depois foram levá-la a casa da mãe e impuseram-lhe o preceito de naquele dia de lá não sair. Mas apenas voltaram as costas saiu, ainda com uma hora de sol e foi ficar a sua casa. Quando soube que tinha ido adiante dos cavalos ficou magoado e quando ele e os seus a viram voltar, ficaram muito contentes.
A testemunha não sabe escrever.
A rogo da testemunha Anastácio Ferreira
Pe. Manuel Marques dos Santos, Promotor da fé
Doutor Padre Manuel Nunes Formigão Júnior, relator
Depoimento de Maria dos Santos
5. Maria dos Santos, de cinquenta anos de idade é casada com Manuel Carreira e reside no lugar da Moita, freguesia de Fátima.
No dia treze de junho antes do meio-dia, dirigiu-se ao local das aparições onde não encontrou ninguém. Foi esperar ao caminho as crianças, por ouvir dizer que elas vinham nesse dia. Não as conhecia por serem pequenas, mas conhecia as famílias. Antes da sua chegada, apareceram algumas mulheres de Boleiros, que tiveram que arrostar com a troça das pessoas da sua terra. Juntaram-se todos, vindo com as crianças algumas pessoas do termo de Torres Novas. Seguiram todos até ao local. Ali perguntaram à Lúcia qual era a azinheira sobre a qual tinha aparecido a Senhora e ela indicou-a com a mão. Depois dirigiram-se para a sombra de uma azinheira grande que ficava próxima, onde estiveram algum tempo à espera. Pouco depois, tendo-lhe perguntado se a Senhora tardava muito tempo, respondeu que não. Uma rapariga pediu que rezassem todos a ladainha, declarando a Lúcia que já não havia tempo. Quase ao mesmo tempo levantou-se e disse que lá vinha Nossa Senhora, pois já tinha feito o relâmpago. Correu para o pé da azinheira, ajoelhou-se e todos fizeram como ela. Momentos depois perguntou à Aparição: “Vossemecê mandou-me aqui vir, faça favor de me dizer o que me quer”. Ouviu uma zunida que vinha da azinheira, não compreendendo uma só palavra da resposta. A Lúcia olhava para a azinheira, assim como as outras duas crianças, estando todos de mãos postas. A depoente não compreendeu bem o que ela depois disse à Aparição mas as outras pessoas disseram-lhe que a pequena lhe tinha perguntado se lhe queria mais alguma coisa. Em seguida disse: – “Olhem! Querem-na ver?... Lá vai ela, lá vai ela!” Ouviu-se então uma espécie de assobiar de foguete, quando ganha força para subir. Olhou e viu uma nuvem de fumo elevando-se da azinheira e dirigindo-se e subindo para o nascente, apontando a pequena para ela. Viu-se também muito alta e muito longe. Por fim desapareceu da vista. A nuvem era um nevoeiro muito leve. Fazia sol e muito calor, estando o tempo bastante descoberto.
Antes da aparição, viu os grelos da azinheira viçosos e muito direitos. Depois da aparição os grelos estavam como que inclinados, numa rodinha em cima, para o nascente como se os vestidos os tivessem tombado nessa direção. O povo começou a tirar raminhos da azinheira, recomendando a Lúcia que não tirassem de cima, mas de baixo, tirando então o povo folhas e raminhos da parte de baixo. Fizeram por fim uma pequena devoção antes de se retirarem.
Este depoimento foi confirmado com juramento pelo marido, que chegou ao local das aparições pouco antes da chegada dos três videntes. Esse depoente porém, acrescentou mais nada, digo, não acrescentou mais nada de notável.
Foi lá também em treze de julho. Tinha pedido à Lúcia que deixasse estar o filho João ao pé deles, ao que ela acedeu. Levou uma pedra e sentou-se. Estava muita gente, que começou a vir cedo. Quando a Lúcia disse que vinha a Senhora, o filho escorregou e caiu. Pediu-lhes que rezassem por ele, ao que ela disse que a Senhora tinha dito que o melhorava ou que lhe daria meios de se governar e que rezasse sempre o terço a Nossa Senhora com a família. Estavam todos ajoelhados. Disse a Lúcia: “Já lá vem Nossa Senhora”. Ouviu-se a mesma zunida quando falava e o mesmo assobio de foguete à partida. Antes da aparição rezaram o terço. O marido disse que ela olhava para a Senhora e de vez em quando para o lado e que lhe perguntou porque fazia isso, ao que ela respondeu que era porque cegava a vista com o resplendor que tinha. Pediu a Lúcia pelas melhoras duma pessoa de Pedrógão, pela conversão duma família de Fátima, e por um homem da Atouguia que lhe pedira que Nossa Senhora o levasse para o Céu quanto antes. Depois a depoente ouviu dizer que a pequena tinha afirmado que Nossa Senhora dissera que não tivesse pressa, porque bem sabia quando o havia de levar.
Afirmou também a Lúcia que a Senhora lhe tinha dito o segredo. Na ocasião da aparição ouviu-se um ai, ficando a pequena assustada. Depois desse dia muitas pessoas a procuravam e lhe perguntavam o segredo. Um dia vieram umas senhoras e uma delas perguntou-lhe se o segredo era bom ou mau, e ela disse que para uns era bom, para outros era mau, e para ela e para os primos era bom.
Em agosto juntou-se muita gente. A depoente estava presente à espera das crianças. À hora do meio-dia soube-se que o administrador levou as crianças presas para Vila Nova de Ourém. O povo ficou pesaroso e indignado. Houve um rumor ao pé da azinheira que causou tão grande susto ao povo, que pareciam estar todos doidos, soltando grandes gritos e julgando que morriam. O povo, pouco a pouco, foi-se retirando. A depoente não viu nada de extraordinário. Levantou algumas esmolas para as guardar a pedido de outras pessoas. Ninguém, nem os pais da Lúcia a quem pertencia o terreno, nem os pais da Jacinta, nem o pároco, quiseram aceitar as esmolas, recomendando este, que as guardasse até ver no que dava tudo aquilo.
Quando as crianças voltaram à Cova da Iria, disse-lhes que perguntassem à Senhora o que havia de fazer ao dinheiro. Nos Valinhos, quando se deu ali a aparição, a dezanove do mesmo mês, a pequena fez realmente à Senhora essa pergunta e a Senhora disse que fizessem dois andores e os levassem para a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Muitas pessoas ficaram com pena de que o dinheiro não se aplicasse em alguma coisa a fazer no local e disseram à Lúcia que pedisse autorização para fazer uma ermida no local, autorização que a Senhora deu em treze de setembro, com a condição de darem metade do dinheiro existente para a Senhora do Rosário da Fátima. Reuniu-se a quantia de treze mil quinhentos e quarenta, em treze de setembro. E cumpriu-se o que a Senhora ordenou.
Senhora tinha aparecido a mais alguém na Cova da Iria, e a Senhora respondeu que não era ela, mas sim um anjo, o vulto que a Carolina, filha mais nova da depoente, de doze anos, e uma pequena de sete anos, de Espite, viram a vinte e oito de julho junto da azinheira, de pequena estatura, muito lindo, de cabelo loiro, vulto que depois a Carolina viu em cima da azinheira.
Em treze de outubro quando a Lúcia disse: “Já lá vem Nossa Senhora, estando uma das filhas da depoente, chamada Maria, em cima de uma pedra, a um metro da azinheira, do lado do nascente, para guardarem o arco para o povo o não estragar, a rapariga sentiu uma pancada na cara, viu uma luz muito bonita ao pé dela e deu um grito dizendo: “Ai! Nossa Senhora!”. A depoente olhou e viu uma estrela, uma bola, não inteiramente redonda, como um ovo, muito bonita, das cores do arco celeste, mas muito mais vivas, tendo uma cauda de metro e meio de cores brilhantes. Passou muito rapidamente e perto da azinheira, e desapareceu a um palmo da terra. Viu o sol que desceu muito.
Depois de treze de setembro disse à Lúcia que perguntasse à Senhora quem ela era. A azinheira abanava muito quando ela disse que vinha a Senhora. Ouviu a Lúcia perguntar: “A Senhora deu licença para fazer a capelinha, agora diga com que título havemos de a adorar”. Quando ela se levantou, depois da aparição, perguntou-lhe que título ela tinha dito e a pequena disse que era Nossa Senhora do Rosário. Nesse dia a Lúcia disse também: “Agora fechem os chapéus”, que já vem S. José ao sol e o Menino deitar a bênção, em bem Nossa Senhora chegando ao Céu”. Depois que ela disse isto o sol bailou. Daí em diante, a concorrência tornou-se cada vez maior. Indivíduos mal intencionados vieram de longe fazer um desacato. O povo queria que se fizesse uma capela. Ela pediu ao senhor Prior que desse licença para se fazer uma capelinha a fim de se guardarem as esmolas que se recebessem em géneros e ele deu licença.
A depoente falou com um pedreiro e fez-se a capela. Mandou fazer o poço o ano passado. A água apareceu há dois anos.
Este depoimento foi confirmado com juramento pelo marido, que não acrescentou nada digno de nota. Nem a depoente nem o marido sabem escrever.
A rogo da testemunha António dos Santos
Doutor Padre Manuel Nunes Formigão Júnior, relator
Doutor Padre Manuel Marques dos Santos, promotor da fé
Depoimento de Manuel António de Paula
6. Manuel António de Paula, de sessenta e um anos de idade, natural do lugar de Boleiros, freguesia de Fátima e morador em Lisboa, na rua de Santa Marta, número duzentos e dezoito, primeiro andar, passou os meses de setembro e outubro de mil novecentos e dezassete na sua terra natal. Antes dessa época, soube por cartas de pessoas das sua relações e de confiança, de Boleiros e de outros lugares da freguesia, que se tinham verificado acontecimentos extraordinários no céu à hora da aparição de Nossa Senhora a três crianças que só conheceu depois no mês de setembro. Ficou muito admirado e tratou de indagar o que havia de verdade, escrevendo a um amigo de Boleiros, António Borralho, filho de Jacinto Borralho, tendo ido por esse motivo a mãe dele falar com os pais das crianças. O António respondeu que não era falso o que as crianças diziam, porque havia todos os indícios de que falavam verdade.
Em setembro apressou a sua vinda por estar ansioso de saber bem e presenciar o que se passava. Em treze de setembro foi à Cova da Iria, mas não viu senão muito povo, que muitos calculavam em cinquenta mil pessoas. Esteve pouco mais ou menos à distância de sete metros das crianças, que viu chegar no meio de uma grande multidão que as acompanhava e viu-as ajoelhadas junto da azinheira a rezar o terço. A certa altura as pessoas que estavam próximo disseram que se descobrissem, porque as crianças o tinham mandado por Nossa Senhora estar presente. Onde ele estava todos se descobriram respeitosamente. Uns estavam de pé, outros de joelhos. Quase todos ajoelharam quando elas deram a ordem. Houve pessoas que disseram ter visto uma estrela. Outros lastimaram-se de não ter visto nada. Em seguida foi a casa das crianças e primeiro à da Jacinta. Ali encontrou muita gente. Umas senhoras estavam interrogando a Jacinta e pedindo-lhe que rezasse para que acabasse a guerra. Por isso foi para casa da Lúcia. Estavam ela e os pais. Falou com a mãe. Também estava a casa tão cheia de povo, que quase ninguém podia lá mover-se. Perguntou então à mãe o resultado. A mãe respondeu que a filha depois da primeira aparição foi para casa à noite e que lhe disse ter visto Nossa Senhora na Cova da Iria. Não quis acreditar porque a filha não era o que ela desejava que fosse, com méritos para ver Nossa Senhora. Quis bater-lhe. A Lúcia com medo dela, começou a dizer por fora o que se passava e não queria contar à mãe mais nada. Como a mãe soubesse, disse-lhe: “Então tu andas a dizer por fora, que Nossa Senhora te aparece e a mim não me dizes nada?” A pequena respondeu: “Então a minha mãe queria-me bater!” Depois perguntou à filha que tamanho a Senhora tinha. Ela disse que a comparava com uma menina dali de quinze anos. Era de uma beleza tal que nunca tinha visto igual. Um sacerdote de longe pediu licença ao pai para falar à filha, e ele disse que não consentia, porque não acreditava nas aparições e davam cabo da filha, que estava ao pé do pai muito sucumbida. Ouviu dizer que por fim sempre tinha conseguido falar-lhe. Depois o depoente dirigiu-se com o pai a casa de uma tia dele, de nome Teresa, com quem queria falar, o qual o acompanhou para lhe indicar onde ela morava. A tia perguntou-lhe se tinha visto alguma coisa na Cova da Iria. Respondeu que não tinha visto senão uma borboleta branca, ao que ela disse: “Isso há por aí muitas; depois senhor Manuel” acrescentou ela, “que será de nós?”. “Porquê?” perguntou o depoente. “Porque passaram por aqui pessoas fazendo os seus comentários, ameaçando e dizendo que os pequenos e as famílias precisavam de ser processados, porque andavam a enganar o povo. O depoente disse-lhe desta maneira: “esteja descansada, porque se for obra de Deus ou de Nossa Senhora, não há razão para se assustarem, porque nada havia nem podia haver contra ela”. O pai estava um pouco exaltado e por isso não lhe falou em mais nada.
No dia treze do mês de outubro quando saiu de Boleiros com outras pessoas, começou a chover. A irmã estava com medo de não voltar, porque diziam que lançavam bombas, mas ele sossegou-a dizendo que se fosse Nossa Senhora que ali aparecia, não lhe sucederia mal algum, pois Nossa Senhora não o havia de consentir. A chuva era muita e o vento soprava com força de maneira que se molhou bastante apesar de levar chapéu de chuva. Por isso quando chegou ao pé da igreja paroquial foi a casa de uma prima e enxugou-se. A certa altura da conversa que teve com ela, disse-lhe: “Naturalmente as crianças não vão lá com esta chuva.” – “Vão, disse ela, nem que chova a potes”. Muitas pessoas estavam aflitas por causa dos animais que as tinham transportado, mas não consta que lhes sucedesse mal por causa da chuva. Tendo passado a chuva, cerca da uma hora, dirigiu-se para o local e perto da estrada encontrou um sacerdote de Penacova, que lhe perguntou onde era o local da aparição, indicando-lhe o depoente o ponto onde se via uma névoa, um fumozinho, bastante denso, que não estranhou por julgar que era incenso queimado em honra de Nossa Senhora, ficando depois admirado quando lhe disseram que não havia lá fumo nenhum, que não se tinha lá feito lume de qualidade nenhuma, nem um fósforo se tinha acendido. De repente o sacerdote olha para o sol e diz que o sol em eclipse não era assim. O depoente olhou também e viu que o sol não dava luz; sobre ele corria uma névoa branca, era uma lua sem brilho. O sol ficava à esquerda, estando o resto do céu encoberto. Tirando os olhos do sol, viu o povo de um encarnado muito vivo; e exclamou: “Ai, senhores, o povo como está todo encarnado!” E respondeu-lhe o sacerdote: “serão lenços encarnados?” Ao que ele observou: “Como pode ser? Então tinham-se todos combinado para terem lenços encarnados sobre as costas?! “Depois o povo apareceu da cor do ouro. Os movimentos de rotação do sol não os viu. O povo nessa ocasião gritava muito, ajoelhado e com as mãos levantadas, gritando por Nossa Senhora, não se importando com a lama que era muita, invocando repetidamente Nossa Senhora. A impressão do povo foi extraordinária. Depois das aparições tem ido várias vezes no dia treze à Cova da Iria e consta-lhe que tem havido vários fenómenos e milagres e que a concorrência é cada vez maior.
A testemunha Manuel António de Paula
Doutor Padre Manuel Nunes Formigão Júnior, relator
Doutor Padre Manuel Marques dos Santos, promotor da fé.