Explorar / Relato

Maria Rosa dos Santos · 13 de outubro de 1917

Família dos videntesGente da terramãe da vidente Lúcia
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoAtitude céticaPalavras dos videntesSol a girarSol a cairDisco pálido / prateadoA multidão

Em treze de outubro a mãe foi ao local pela primeira vez, apesar da recomendação em contrário do senhor Prior. Foram vestir as pequenas para casa da cunhada, porque uma senhora do Pombalinho trouxe uns vestidos, uns véus e umas grinaldas. A mãe da Lúcia foi com as crianças. Mas, como ia muito povo, perdeu-as de vista. Na Cova da Iria furou e ficou mesmo ao pé delas. Como diziam que as matavam, que as faziam em postas, e como por outro lado ficava com tanta pena de tudo acabar e não ver nada, resolveu ir. As crianças diziam a hora em que se dava a aparição e queriam ir para estar a essa hora. Da última vez demoraram-se um quarto de hora junto da azinheira antes de começar a aparição. Estavam todos três de pé. A mãe da Jacinta estava perto. O povo dizia por trás que não haveria nada, porque ia a passar a hora e não se estava dando nada de extraordinário. Todos três a um tempo deram um grito, um ai! A Lúcia disse: “Lá vem ela! Calem-se que já deu um relâmpago”. Tinha estado a chover toda a manhã. A azinheira estava enfeitada com fitas e rosas, quase não se via nada dela.

Depois a Lúcia disse: “Já cá está”. Falava alto. A mãe não via nada. Só notou o mesmo cheiro do raminho dos Valinhos, quando a filha disse: “Já cá está!” A Lúcia perguntou: “O que me quer hoje?” Calou-se por um pouco e em seguida parece que lhe pediu um milagre para que todo aquele povo acreditasse. Depois ficou outra vez calada. Daí a momentos disse-lhe que tinha muitos pedidos de muitos doentes para lhe fazer. Ela estava de pé, de mãos postas, voltada para a azinheira. As outras estavam na mesma posição. A Jacinta ficava no meio. As outras duas crianças não diziam nada. A Lúcia de vez em quando ia para levantar os olhos e baixava-os logo, e perguntando-lhe o senhor Prior mais tarde porque fazia isso, disse que era porque cegava. Estavam as duas meninas vestidas com um vestido azul claro e um véu branco e tinham na cabeça uma grinalda de flores brancas artificiais de papel. Durou tudo pouco tempo. A Lúcia por fim disse: “Lá vai ela, lá vai ela!... Veem-na?... Olhem para acolá!”, apontando com o braço na direção do nascente para onde estava e esteve sempre voltada durante todo o tempo. Depois, naturalmente quando a perdeu de vista, voltou as costas para a azinheira e dirigindo-se ao povo que estava atrás disse: “Olhem que Nossa Senhora disse que se emendassem de ofender a Deus, que já estava muito ofendido e que a guerra ia acabar”. E a cunhada Olímpia disse: “Ó Lúcia, então tu não pediste a Nossa Senhora que fizesse um milagre para todo o povo acreditar?” A isto a Lúcia respondeu: “Então ainda querem maior milagre do que é a guerra acabar?”. Disse mais a Lúcia que Nossa Senhora tinha dito que fizessem ali uma capelinha, que ela era a Senhora do Rosário, que a guerra ia acabar logo que chegasse ao Céu. Tornou-se a virar e repetiu: “Já lá está!... Veem-na?... Já lá vai a chegar” (A pequena não se lembra de ter mandado o povo olhar para cima, digo, para o céu, para o sol). Foi então que o povo começou a olhar para cima. A mãe da Lúcia olhou e viu o sol três vezes a desandar e a descer, podendo olhar--se para ele. Todo o povo olhava e gritava. Dizia o povo: “Olhem, olhem!” A mãe da Lúcia chegou a recear que as crianças fossem maltratadas. Um senhor doutor de Torres Novas9, pegou na filha ao colo e abalou com ela para a estrada. A mãe não sabia se era para bem ou para mal. Veio para casa da cunhada, enchendo-se a casa de gente e depois para sua casa.

Notas dos editores (1)

9 Dr. Carlos de Azevedo Mendes.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (3)
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