Testemunhas /

Manuel Pedro Marto

Família dos videntesGente da terra

Manuel Pedro Marto, nascido a 30 de julho de 1873 (com 44 anos), de Aljustrel, pai dos videntes Francisco e Jacinta, casado com Olímpia de Jesus desde 1898. Em 1923 depôs perante a comissão canónica; não sabia escrever, pelo que outro homem assinou por ele.

Residência: Aljustrel, FátimaFreguesia de Fátima (da terra)4 relatos

13 de julho de 1917 1 relato

13 jul.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntesDescida da temperaturaA multidão

Em treze de julho os pais foram também à Cova da Iria, indo as crianças adiante. Um indivíduo da freguesia, de nome Matias, barbeiro2, ao ver o pai das crianças, chamou-o para junto da azinheira onde já estava a mulher. Os três videntes iam sempre juntos. A princípio conservaram-se de pé, depois ajoelharam, tendo a Lúcia mandado fechar os chapéus que estavam abertos por causa do sol. O povo estava na sua maior parte por trás dos videntes. E estes num dado momento levantaram-se e depois tornaram a ajoelhar-se. Ouviram uma voz vinda do local ao pé da carrasqueira que disse: – “Que me quereis hoje?” Esperou um momento e depois disse: “Então não me quereis hoje nada?” A Lúcia disse, o que o pai ouviu: “Eu o que queria – ai! Nossa Senhora!”, e pediu a cura e a conversão de diversas pessoas, não se recordando o pai o nome delas.

A Lúcia depois acrescentou: “diz que nem todas melhoram, porque algumas são más”. Declarou ainda que a Senhora tinha dito que rezassem todos o terço e que a guerra em breve ia acabar. Estavam então as crianças de joelhos, a Lúcia levantou-se rapidamente, ficando o vestido em balão, e disse apontando: “Olhem para acolá, se a querem ver” – e acrescentou logo: “Já não vão a tempo”. Ela estava voltada quase ao poente e voltou-se para o nascente a indicar a Senhora que se retirava. Fazia muita calma e logo depois o tempo tornou-se fresco. Logo que elas se levantaram, muitas pessoas fizeram perguntas, tiraram raminhos da carrasqueira e interrogaram as crianças. O pai pegou na Jacinta ao colo para atravessar mais facilmente por entre a multidão. Ela disse ter visto outra vez Nossa Senhora.

Notas dos editores (1)

2 Manuel Rodrigues Matias. Era considerado um homem entendido na cura de maleitas. Era o encarregado do Posto do Registo Civil, que funcionava em sua casa, na Amoreira.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

13 de agosto de 1917 1 relato

13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoTrovão / ruídoNuvem / coluna de fumoEstrela / globo luminosoA multidão

Em treze de agosto, foi à fazenda buscar milho com a ideia de lá ir ao local à hora própria, sabendo, quando já estava na eira, pela Florinda3, que o administrador tinha chegado entretanto a sua casa. Ainda não eram dez horas. Voltou logo para casa e encontrou o administrador e um padre4 que não conhecia. O administrador perguntou: “Então, senhor Marto, sabe porque cá venho hoje? Quero lá ir acima à Cova da Iria, ao Milagre, quero ir ver. Sou como S. Tomé, ver e crer”. Manuel Marto disse: “Faz bem, senhor administrador”. Este declarou que levava as crianças no seu carro. Elas ainda andavam com o gado. Marto pediu a sua mulher que as chamasse, porque eram horas. Não chegou a chamá-las, mas elas vieram com o gado. A Lúcia sabendo que o administrador estava em casa dos tios, dirigiu-se logo para lá, e ele, assim que a viu, disse-lhe que as levava de carro, ao que ela retorquiu que não iam de carro. A pequena voltou a casa e depois veio com o pai. Ouviu-se nessa ocasião falar num segredo. Como a estrada não estava feita, o carro ficou à espera numa encruzilhada. O administrador disse que então os esperava na Fátima para lhes fazer umas perguntas em casa do Senhor Prior.

Dirigiram-se os pais das três crianças a casa do Senhor Prior, não estando ainda lá o administrador, que chegou pouco depois. Ficaram todos na varanda. Só a Lúcia foi chamada lá dentro para ser interrogada pelo senhor Prior em presença do administrador.

Depois do interrogatório, o administrador convidou as crianças a descer as escadas da varanda e a subir para a charrete em que tinha vindo, deu uma volta à igreja e fugiu para Vila Nova de Ourém. O pai da Jacinta seguiu então para a Cova da Iria tendo ficado admirado da partida do administrador. Na Cova da Iria, depois de falar com várias pessoas, ouviu perfeitamente um estrondo seguido de poeira e nevoeiro. O povo fugiu. Quase todas as pessoas tiraram os chapéus, gritaram por Nossa Senhora e ficaram muito contentes, dizendo que tinham roubado as crianças, é verdade, mas que Nossa Senhora se tinha manifestado. Viu também uma espécie de globo luminoso girando nas nuvens. Parecia haver uma névoa em volta da carrasqueira, depois do estrondo. O povo queixava-se não só do administrador, como do senhor Prior, dizendo que ele também tinha culpa. O tio da Lúcia, António da Silva5, nesse dia à tarde, queria ir pedir satisfações ao senhor Prior, julgando-o culpado, mas não apareceu. O pai da Jacinta procurou o senhor Prior, supondo que ele sabia alguma coisa a respeito das crianças. Voltou depois com o cunhado para casa. O povo continuava a falar contra o senhor Prior, afirmando que ele é que tinha a culpa do roubo das crianças. O administrador trouxe os pequenos na quarta-feira, dia 15, depois da Missa, cerca das onze horas. No sábado, onze, tinham sido chamados a Ourém os pais de Lúcia e de Jacinta, indo só os pais e a Lúcia. Primeiro chamaram a Lúcia e os pais. Depois chamaram o pai da Jacinta. O pai respondeu que a não trouxera, porque ela, sendo tão pequena, não podia ir a pé, nem sabia ir de burra. Replicou o administrador: “Então desobedece?!”. “Não, porque aqui estou”, acentuou Manuel Marto. Mais tarde, quando as veio trazer a Fátima, disse-lhe que já nesse dia tinha tido tenção de prender as crianças. Logo que chegou levou as crianças a casa do senhor Prior. Declarou que acusavam o regedor e o senhor Prior do rapto das crianças, mas que só ele tinha a culpa, que podiam perguntar às crianças, se as tinham tratado mal, e que já não queria saber de nada, que elas podiam ir ao local, quantas vezes quisessem. O que é certo porém, é que pelo caminho, no regresso de Ourém, já tinha dito às crianças que tornaria a prendê-las se fossem outra vez à Cova da Iria.

Notas dos editores (3)

3 Florinda de Jesus, irmã de Francisco e Jacinta. Nasceu 3 de agosto de 1902 e faleceu a 20 de maio de 1920, vítima da pneumónica.

4 Pe. Manuel Carreira Poças.

5 Foi casado em primeiras núpcias, com Teresa de Jesus, irmã de António dos Santos, pai de Lúcia.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

13 de setembro de 1917 1 relato

13 set.Testemunho diretoNão viu nadaDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes

Em treze de setembro foi também à Cova da Iria. Estava um pouco afastado das crianças. Não viu nada, nem ouviu nada, mas ouviu dizer que algumas pessoas tinham visto coisas extraordinárias na atmosfera. Ouviu dizer às crianças que Nossa Senhora havia de dizer em outubro o que é que queria e havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação

13 de outubro de 1917 1 relato

13 out.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoA multidãoPalavras dos videntesDisco pálido / prateadoSol a mudar de cor

Em treze de outubro chovia. Aconselharam-no a que não fosse porque lhe podiam fazer mal, embora o não fizessem às crianças, por serem crianças. Foi em companhia delas. Estava então muita gente no local convertido num lamaçal enorme. Ouviu a Jacinta gritar que não a apertassem. A Lúcia disse: “Já cá está!” O povo afirmava ver cores no sol e no céu. O sol não fazia nenhuma impressão à vista. Não ouviu voz nenhuma. Ouviu dizer ou à Lúcia ou a outras pessoas que Nossa Senhora queria que não se ofendesse mais a Nosso Senhor, o qual estava muito ofendido e que a guerra ia acabar.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação
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