13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
No dia quinze do mês de setembro, compareceu na minha presença e residência paroquial a vidente Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório. A qual disse que no dia treze do corrente mês de setembro, se dirigiu com seus primos, Francisco e Jacinta, ao sítio chamado Cova da Iria, e à hora do costume viu um relâmpago e logo viu chegar a Senhora que tinha visto das outras vezes; que lhe parecia a mesma vestida de branco, mas que para pouco mais olhava do que para o rosto, para tomar sentido no que Ela dizia. E lhe perguntou:
– O que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que continues a rezar o terço sempre à Senhora do Rosário, que abrande Ela a guerra; que a guerra está para acabar. Para o último dia há-de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo e Nosso Senhor dar a bênção ao povo. E que venhas cá para o dia treze de outubro.
Está aqui esta menina que é muda e mouca, se Vossemecê a melhora?! Lhe disse a Lúcia. E que a Senhora lhe respondeu, dizendo que daqui a um ano acharia algumas melhoras.
Tenho aqui muitos pedidos – uns para converter e outros para os melhorar!...
E a Senhora lhe respondeu:
– Melhoro uns, outros não, porque Nosso Senhor não quer crer neles.
– O povo muito gostava aqui duma capelinha!
– Metade do dinheiro que ajuntaram até hoje façam os andores e levem-nos à Senhora do Rosário, e outra metade seja para ajuda da Capelinha – lhe respondeu a Senhora.
Disse mais a Lúcia que lhe ofereceu duas cartas e um vidro – pequeno frasco – com água de cheiro, que lhe foram apresentadas por um homem da freguesia do Olival, e que quando lhas oferecia lhe disse:
– Deram-me isto... se Vossemecê as quer?!...
E a Senhora respondeu:
– Isso não é conveniente lá para o Céu.
Dito isto, que se elevou indo para o lado do nascente.
E então ela – a Lúcia – que se voltou para o povo e que diz: se A querem ver voltem-se para acolá. – E aponta para onde Ela ia.
13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
5ª Aparição: 13-9-917 – Chamei à minha presença a Lúcia no dia 15 que disse que no dia 13 viu a mesma mulher vestida de branco que lhe pareceu ser a mesma que viu das outras vezes; pouco mais viu do que a cara para onde olhava continuamente para tomar sentido no que ela dizia; vem do nascente; diz que viu um relâmpago, depois viu aquela mulher a chegar à carrasqueira e diz que perguntou:
– O que é que vossemecê quer?
– Quero dizer-te que continues a rezar sempre o terço à Senhora do Rosário, que abrande ela a guerra, que a guerra está para acabar1; para o último dia há de vir S. José dar a paz ao mundo e Nosso Senhor dar a bênção ao povo; que venhas cá para o dia 13 de outubro.
– Está aqui este menino que é mudo e mouco, se vossemecê o melhora.
– Daqui a um ano se acharia com algumas melhoras.
– Tinha aqui muitos pedidos, uns para os converter outros para os melhorar.
– Melhoro alguns, outros não porque Nosso Senhor não quer crer neles.
– O povo muito gostava aqui duma capelinha.
– Metade do dinheiro que juntaram até hoje façam os andores e deem-os à Senhora do Rosário; a outra metade seja para ajuda da capelinha.
Ofereci-lhe duas cartas e um vidro com água de cheiro.
– Deram-me isto, se vossemecê os quer.
– Isso não é conveniente lá para o céu.
E foi-se para o nascente e eu disse ao povo: se a querem ver voltem-se para acolá.
Notas dos editores (1)
1 A primeira guerra mundial (1914-1918) terminou com o armistício de 11 de novembro de 1918. O tratado de paz foi assinado pelas potências beligerantes, em Versalhes, a 28 de junho de 1919.
13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes
Disse-lhes que apareceria em outubro primeiro sob a representação de Nossa Senhora das Dores e depois sob a de Nossa Senhora do Rosário. Recomendou-lhes que rezassem o terço a Nossa Senhora do Rosário para que abrandasse a guerra que estava para acabar. Disse-lhes também que em outubro viria também S. José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo e seu Divino Filho para dar a bênção ao povo.
13 set.Testemunho diretoEm parteCartaA multidãoLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagemPalavras dos videntes
Como no mez proximo findo, fui tambem este mez, no dia 13, á Fatima, mas desta vez sem o esperar, porque não era facil nem tinha tenção de lá ir.
Foi o caso que no dia 12 á noite chegou aqui6 X7 num enorme char-á-bancs, que transportava 16 pessoas da Benedicta para a Fatima, onde anceavam por assistir aos phenomenos que costumavam verificar-se no dia 13 de cada mez desde maio do corrente anno.
X pernoitou em minha casa e no dia seguinte de manhã convidou-me a tomar logar no carro, convite a que accedi com alvoroço.
Na vespera tinham passado por esta povoação verdadeiros bandos de pessoas, que vinham dos lados do mar, tendo dormido aqui grande numero dellas. Á hora aprazada subimos para o carro e partimos. Durante a jornada commovi-me immenso e por mais duma vez me assomaram as lagrimas aos olhos ao constatar a fé e piedade ardente de tantos milhares de romeiros. Os caminhos e atalhos iam cheios de gente.
Não havia carreiro, por mais pequeno que fosse, que não trouxesse pessoas á estrada. Era uma peregrinação que verdadeiramente fazia chorar de commoção. Nunca me fora dado presencear em toda a minha vida uma tão grande e tão tocante manifestação de fé. Não se via nem se ouvia cousa alguma que traduzisse o mais imperceptivel sentimento de leviandade ou mesmo um proposito de divertimento innocente. O harmonio, indispensavel em todas as romarias e festas de aldeia, brilhava na sua ausencia. Não havia a desenvoltura propria da gente moça do campo nem ao menos as costumadas graças e chalaças inofensivas, acompanhadas de estridentes gargalhadas. Eram quasi dez horas quando atingimos o termo da nossa jornada. A multidão, que áquella hora já era enorme, aproximava-se cheia de respeito do local das apparições. Os homens descobriram-se. Quasi todas as pessoas se ajoelhavam e rezavam com fervor. Logo que chegámos, X e eu dirigimo-nos a casa das creanças, photographámo-las e conversámos com ellas. Foi essa a scena que mais me impressionou. Fiquei positivamente encantado. Aquella simplicidade angelica e aquella absoluta despreocupação que ellas manifestam não podem mentir. Não teem o acanhamento proprio das creanças rudes dos campos e das serras na presença de pessoas desconhecidas. Tanto se lhes dá fallar com uma pessoa estranha como com muitas. As respostas são sempre as mesmas. Parecem adultos na maneira de se exprimir. De casa das creanças seguimos para a residencia parochial, onde estavam, alem do parocho, alguns amigos meus e de X com os quaes trocámos impressões sobre o assumpto do dia. Passada meia hora, puzemo-nos a caminho do local das apparições.
Ao meio dia em ponto — hora astronomica, — o sol começou a perder o brilho. Não houve quem não notasse este facto, que desde maio precedente se repetia sempre no dia 13 de cada mez á mesma hora. Pouco depois a mais velha das videntes mandou aos circunstantes que rezassem.
Nunca esquecerei a violenta impressão que senti ao ver cahir de joelhos tantos milhares de fieis que chorando rezavam em voz alta e imploravam cheios de confiança a protecção maternal da Rainha do Ceu27.
Foi neste momento que muitas pessoas viram uma oval, de côr viva30 e brilhante, com a parte mais larga voltada para baixo, descrever uma comprida linha recta no firmamento. Algumas pessoas viram esse phenomeno por mais, outras por menos tempo. Eu não o vi e tenho pena disso. O Snr. Dr. Figueirêdo35 e muitas pessôas d'aqui viram36. Ha algumas pessôas e seriissimas d'aqui que viram uma especie de flôres que vinham de cima mas que não tocavam no chão37. — A atmosphéra tomou uma côr amarellada, talvez por causa do obscurecimento do sol. — O que se passou n'este rapido quarto d'hora nunca se esquece e tambem não é facil de descrever; depois direi mais algumas coisas para não estar a massar o Snr. Conego com uma carta tão enfadonha; nem eu tinha tenção de fazer uma tal descripção que não fica muito atraz da do mez passado; o Snr. Dr. Formigão (que eu lá não fui capaz de ver) e o Snr. Dr. Figueirêdo dirão bem melhor que eu o que houve.
[…]
Logo que o sol recuperou a luz habitual as creanças retiraram e com ellas as primeiras levas de pôvo que a pouco e pouco dispersou45. Os calculos mais reduzidos davam 15 a 17.000 pessôas, havendo quem afirmasse estarem muito mais de 20.000. Eu não dou a minha opinião mas creio que nunca vi tanta gente. Era um lindo espectaculo.
Notas dos editores (8)
6 Entenda-se à Batalha.
7 Em E está F[ulano]. Trata-se do Padre Joaquim António do Carmo (Cf. Doc. 24 e Doc. 25, de 13 de Setembro de 1917).
27 Desde o princípio deste documento Como no mez findo até Rainha do Ceu só se encontra em D e E.
30 B de côr viva corr. pouco mais volumosa que um ovo, de côr branca, viva. D e E pouco mais volumosa que um ôvo, de côr branca, viva.
35 B e D corr. F.; E corr. B. Trata-se do Pe. António Maria de Figueiredo. Nasceu no lugar da Mata, freguesia de Santa Eufémia, concelho de Torres Novas, a 11 de Julho de 1879. Doutorou-se em Filosofia e Teologia e bacharelou-se em Direito Canónico, pela Universidade de Santo Apolinário, em Roma. Foi ordenado presbítero a 19 de Dezembro de 1902, ficando a desempenhar as funções de prefeito e professor de Filosofia, Teologia Dogmática e Latinidade, no Seminário de Santarém. Foi pároco de Vale de Santarém, Várzea, Abitureiras, S. Nicolau, de Santarém, S. Nicolau, de Lisboa, e S. Jorge de Arroios. Foi cónego da Sé de Lisboa. Faleceu a 5 de Maio de 1963.
36 B e D muitos patricios meus affirmam que tambem o viram. E o dr. B e muitos patricios meus afirmam que também o viram.
37 B alguns destes, de cuja seriedade não é lícito duvidar, asseguram ter avistado uma especie de flores, que cahiam do Ceu, mas que não tocavam no chão, desappareciam ao chegarem a certa altura. corr. Alguns destes, cuja seriedade não é licito pôr em duvida, asseguram ter distinguido uma especie de flores, que cahiam do ceu, mas não tocavam no chão desapparecendo ao chegarem a certa altura. D reproduz o texto B corrigido, modificando apenas distinguido para percebido e tocavam para tocaram. E reproduz o texto D, modificando de novo tocaram para tocavam.
45 B acrescentou o seguinte texto, depois de corrigido: a luz habitual as tres creanças que se conservaram sempre junto da carrasqueira e que declararam ter-lhes apparecido pela quinta vez a Virgem Santissima, retiraram para suas casas e ao mesmo tempo partiram as primeiras levas de povo que pouco a pouco dispersou. D e E reproduzem o texto B acrescentando apenas sua [luz habitual] e eliminando tres [creanças].
Visitanteviúva, senhora católica que estava nas Caldas da Rainha
13 set.Testemunho diretoEm parteNotaA multidãoDescida da temperaturaLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagemEstrela / globo luminoso
Nesse dia estavamos nas Caldas da Rainha, mas lá fomos outra vez á Fatima. A manhã estava linda, o céu de um azul intenso estava completamente limpo de nuvens, um sol brilhante e muito quente, não havia a mais ligeira brisa.
Chegámos ali perto do meio dia, era ainda muito maior a concorrencia de gente, do que em Agosto. Não sei calcular, mas em Agosto avaliaram estarem ali umas 5 a 6 mil pessôas, e em Setembro umas 15 a 20 mil.
Todos receiavam que as creanças fossem de novo impedidas de vir, mas Deus não permittio tal. As pessoas presentes iam no entretanto cantando o Avé, e outros canticos, sendo um á Senhora da Carrasqueira, de que ainda não consegui obter a lettra, cantico feito pelo povo, outras rezavam o terço. Chegaram as creanças e começaram a rezar o terço que a mais velha meditava; rezaram depois a Ladainha. De repente, sem que o ceu se toldasse, sentio-se uma differença na temperatura, vio-se que a intensidade do calor do sol tinha diminuido, e viram-se no chão as manchas amarellas que tambem se notavam sobretudo nas blusas brancas que algumas senhoras tinham. Foi um só instante, tudo passou rapidamente. O povo, como em Agosto cahio por terra de joelhos, manifestando a sua fé.
Em Agosto não havia ali um só padre, não queriam que se dissesse que elles iam ali suggestionar o povo, em Setembro vi lá alguns, mas todos procuravam vêr os phenomenos naturaes e convencer-se de que só isso havia. Nada diziam, quazi não fallavam ao povo, a não ser que com elles fallassem, e a um ouvi eu, ao passar, que não se devia nem afirmar nem dar credito por emquanto aquellas coisas.
Eu só vi o ligeiro eclipse de sol, mas muitas pessoas viram uma estrella, ou antes uma pequenissima nuvem, como que um pequenino floco de algodão branco, que qual estrella cadente, atravessou o firmamento, vinda do nascente para o poente, e desappareceu no espaço como que submergida de repente! Ouvi isto a mais de uma pessôa contado da mesma maneira, sem que estas pessôas estivessem juntas ou ouvissem as outras contar. Merece-me pois todo o credito. Coincidio esta passagem da nuvem ou estrella por cima da carrasqueira, com a hora a que as creanças dizem ter visto a Senhora.
Houve também quem dissesse ter visto duas estrellas, e algumas pessôas affirmavam ter visto trez! Não seria muita estrella junta?!... Não sei, mas o que me pareceu, foi que, os que diziam tê-las visto estavam convencidos de que diziam a verdade.
Voltámos para as Caldas impressionadas, e o mesmo succedeu a muitas outras pessôas que das Caldas lá foram e tanto nos impressionou, que as pessôas conhecidas que a nossa casa foram saber novas, fizeram logo tenção de ir á Fatima em Outubro. E no entanto nós affirmavamos a todos, nada ter visto, senão um leve eclipse de sol, e uma extraordinaria manifestação de fé.
Gente da terrahomem das Lapas (Torres Novas), de 45 anos
13 set.Testemunho diretoViuInterrogatório
No dia 13 de Setembro vi uma cruz de grande tamanho sahir do sol e dirigir-se para a banda do nascente. A sua marcha não era muito apressada. Umas vezes apparecia, outras vezes sumia-se, até que saltou fóra da vista. Vi ainda outras cousas que não sou capaz de explicar. Na freguezia das Lapas houve pessoas que, á mesma hora, viram a cruz”.
Em treze de Setembro achava-me no mesmo logar de costas voltadas para o norte. Estava um pouco desanimado por não vêr cousa alguma de extraordinario como no mes anterior. Pessoas que estavam proximo de mim gritavam que tinham visto. De repente vejo passar uma cousa parecida com um balão de espuma que as creanças costumam fazer soprando com um canudinho. Da primeira vez que a vi passar, calei-me. Vi-a segunda vez e então perguntei alto: o que é isto? Não posso explicar o que era. Perdi-a de vista uma duzia de metro[s] por cima da carrasqueira. Minha mulher não a viu porque estava a olhar para outro lado. Não fitei então o sol. No mesmo mez vi tambem um risco azul n'uma nuvem de côr escura caminhando em sentido contrario ao sol.
Gente da terraproprietário casado, de 34 anos, do Montelo (Fátima)
13 set.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentado«Flores» a cairEstrela / globo luminosoPalavras dos videntes
Declarou, outrossim, que também no dia treze de setembro do mesmo anno, notara que a Lúcia estava a falar junto à carrasqueira, como quem está falando com outra pessoa, fazendo perguntas e esperando respostas, e que na ocasião passava sobre a carrasqueira um não sei quê de extraordinário, parecendo flores brancas e que as outras pessoas também notaram tal fenómeno, dizendo serem estrelas.
Clerosacerdote, professor do seminário, escrevia como Visconde de Montelo; foi como cético cauteloso
13 set.Testemunho diretoEm parteArtigo da testemunhaAtitude céticaLuz a diminuirA multidão
Cedendo a um sentimento irresistivel de curiosidade, justificado por factos tão extraordinarios, embora sem lograr vencer de todo a repugnancia que sentia em faze-los pelo receio de parecer dar uma importancia excessiva ao que talvez não passasse duma ridicula superstição popular, resolvi partir para a Fatima juntamente com alguns amigos e por isso tomei no dia 12 á tarde o comboio do norte e apeei-me em Torres Novas, d'onde na madrugada do dia immediato segui em carro para a povoação já tão afamada. O espectaculo que presenceei durante a jornada desde a princeza do Almonda até á patria adoptiva de Gonçalo Hermingues era por demais surprehendente.
[…]
Obrigado pelo amor da verdade, não quero concluir sem dizer que as minhas impressões do que se passou neste dia em Fatima não foram animadoras.
Não me aproximei do local das apparições e quasi que não conversei com ninguem, ficando na estrada a cerca de trezentos metros de distancia, e apenas constatei a diminuição da luz solar, que me pareceu um phenomeno sem importancia devido por ventura á elevada altitude da serra. Continuei, por isso, a manter-me numa prudente mas benevola expectativa, como sucedia desde os acontecimentos de Agosto, porque antes delles esboçava invariavelmente um sorriso de absoluta incredulidade ao ouvir qualquer referencia ás apparições de Fatima.
13 set.Testemunho diretoViuRecordação posteriorFiguras / visõesPalavras dos videntes
Pela hora do meio dia lá estavamos á espera que a Senhora viesse. Deu então um relampago e apareceu a Senhora. O que é que vossemece me quer hoje? Quero que continuem a vir aque o resto dos meses e que continuem a rezar o terço todos os dias; quero lhe pedir para fazer um milagre para que todo o povo aquerdite; no ultimo mez farei um sinal no sol para que aquerditem; e vira Santo José com o menino Jesus dar a bença ao mundo. Nossa Senhora do Rosario. Depois Nossa Senhora das Dôres e Nosso Senhor. Quero lhe pedir por algumas peçoas que me pediram; para a Senhora as curar umas cochas outras mudas outras cega e outras duensas daqui a um ano alguma seram curadas. Se me disse mais coizas neste mez não me lembro. Subio para o lado do nascente como todos os outros mezes.
13 set.Testemunho diretoViuRecordação posteriorAtitude céticaLuz a diminuirDescida da temperatura«Flores» a cairPalavras dos videntes
O dia 13 de setembro amanheceu sem uma nuvem no horizonte. Um sol abrasador nos faz procurar a sombra. A Lúcia reza o terço à hora indicada. Segue-se a conversação com a dita Senhora e assim que diz: lá vai ela, o sol escurece a pontos de se ver a lua e as estrelas que circundam o firmamento. O calor diminui e uma aragem nos vem mimosear a fronte. Então veem-se lá muito em cima, cortando os ares do Oriente para o Ocidente, uns corpos muito pequeninos, brancos como a neve. Há quem afirme serem pombas mas vê-se perfeitamente que não são aves. Na encosta do lado do nascente estava o reverendo Padre sr. Joaquim Ferreira Gonçalves das Neves, pároco de Santa Catarina da Serra, e eu como vejo que talvez esteja olhando sem ver nada, dirijo-me a ele e pergunto-lhe o que vê, respondendo-me que não vê nada. Indico-lhe uma direção e imediatamente disse que já está vendo. Passado o fenómeno vou encontrar o mesmo senhor de joelhos pedindo o terço. Parece-me ser este o primeiro ministro da Igreja que rezou em comum naquele recinto bendito.
13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
Foste à Cova da Iria no mês de setembro?”. Respondeu: – “Fui lá várias vezes porque a cada passo algumas pessoas nos vinham pedir para lá irmos rezar com elas o terço. No dia treze também lá fui acompanhada por muito povo; já lá estavam os meus primos com muita gente. Pela hora do meio dia deu um relâmpago e a Senhora apareceu como das outras vezes. Eu perguntei: “O que é que Vossemecê me quer?”. Ela respondeu: – “Quero que venham aqui no mês seguinte e que continuem a rezarem o Terço”. Por lembrança da Maria do Rosário6, perguntei se Ela queria que fizessem ali uma capelinha, e Ela disse que fizessem ali uma capelinha em honra de Nossa Senhora do Rosário. Pedi a conversão e a cura de algumas pessoas e Ela respondeu que dentro dum ano algumas seriam curadas e outras não.
– “E no mês de setembro não aconteceu mais nada?”. Respondeu: – ”Pedi outra vez que fizesse um milagre para o povo acreditar, porque diziam que eu era uma intrujona que devia ser enforcada e queimada. A Senhora deu-me a mesma resposta da outra vez; retirou-se como de costume”.
Notas dos editores (1)
6 Trata-se de Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita.
Cleropadre e professor, Santarém; pseudónimo Visconde de Montelo
13 set.13 out.Testemunho diretoViuRecordação posteriorAtitude céticaA chuva a pararSol a girarSol a mudar de corA multidão
No dia 13 de Outubro dêsse ano, cerca de 60:000 pessoas, de todas as classes e condições sociais, reuniram-se no local das aparições, atraídas pela vaga fama do milagre discretamente anunciado.
Foi então que o espectaculo mais assombroso e divinamente belo que é dado contemplar, se desenrolou deante dos olhos dessa multidão maravilhada. Toda a manhã chovera torrencialmente. O firmamento, em toda a sua vastidão imensa, estava coberto de densas nuvens negras.
Ao meio dia astronómico, o sol subitamente rasga as nuvens que lhe toldam a face e, semelhante a uma admiravel roda de fogo de artificio, rodopia vertiginosamente sobre o seu eixo pelo espaço de dez minutos, projectando em continuas explosões, feixes de luz e torrentes de chamas das mais lindas e variegadas côres.
— V. Ex.a tambem assistiu a esse assombroso fenomeno?
— Assisti. Já no dia treze de Setembro tinha ido a Fátima, mas não presenciei então nada de extraordinario, a não ser a fé e a piedade da multidão, que nesse dia atingiu talvez o elevado numero de 30:000 pessoas.
No dia vinte e sete do mesmo mês voltei lá para ver e interrogar os videntes, e confesso que me impressionou profundamente o tom de convicção e sinceridade com que descreviam os factos de que afirmavam ter sido testemunhas. Mas só no dia treze de Outubro, quando presenciei o fenómeno solar, é que reconheci a importancia dos sucessos maravilhosos de Fátima e resolvi proceder por minha iniciativa e por mero prazer intelectual a um inquerito tão profundo e minucioso quanto o comportava o cumprimento dos meus deveres profissionais.
Gente da terranatural de Boleiros, residente em Lisboa, de 61 anos
13 set.Outros de 1917Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoVeio de longeA multidão
Em setembro apressou a sua vinda por estar ansioso de saber bem e presenciar o que se passava. Em treze de setembro foi à Cova da Iria, mas não viu senão muito povo, que muitos calculavam em cinquenta mil pessoas. Esteve pouco mais ou menos à distância de sete metros das crianças, que viu chegar no meio de uma grande multidão que as acompanhava e viu-as ajoelhadas junto da azinheira a rezar o terço. A certa altura as pessoas que estavam próximo disseram que se descobrissem, porque as crianças o tinham mandado por Nossa Senhora estar presente. Onde ele estava todos se descobriram respeitosamente. Uns estavam de pé, outros de joelhos. Quase todos ajoelharam quando elas deram a ordem. Houve pessoas que disseram ter visto uma estrela. Outros lastimaram-se de não ter visto nada. Em seguida foi a casa das crianças e primeiro à da Jacinta. Ali encontrou muita gente. Umas senhoras estavam interrogando a Jacinta e pedindo-lhe que rezasse para que acabasse a guerra. Por isso foi para casa da Lúcia. Estavam ela e os pais. Falou com a mãe. Também estava a casa tão cheia de povo, que quase ninguém podia lá mover-se. Perguntou então à mãe o resultado. A mãe respondeu que a filha depois da primeira aparição foi para casa à noite e que lhe disse ter visto Nossa Senhora na Cova da Iria. Não quis acreditar porque a filha não era o que ela desejava que fosse, com méritos para ver Nossa Senhora. Quis bater-lhe. A Lúcia com medo dela, começou a dizer por fora o que se passava e não queria contar à mãe mais nada. Como a mãe soubesse, disse-lhe: “Então tu andas a dizer por fora, que Nossa Senhora te aparece e a mim não me dizes nada?” A pequena respondeu: “Então a minha mãe queria-me bater!” Depois perguntou à filha que tamanho a Senhora tinha. Ela disse que a comparava com uma menina dali de quinze anos. Era de uma beleza tal que nunca tinha visto igual. Um sacerdote de longe pediu licença ao pai para falar à filha, e ele disse que não consentia, porque não acreditava nas aparições e davam cabo da filha, que estava ao pé do pai muito sucumbida. Ouviu dizer que por fim sempre tinha conseguido falar-lhe. Depois o depoente dirigiu-se com o pai a casa de uma tia dele, de nome Teresa, com quem queria falar, o qual o acompanhou para lhe indicar onde ela morava. A tia perguntou-lhe se tinha visto alguma coisa na Cova da Iria. Respondeu que não tinha visto senão uma borboleta branca, ao que ela disse: “Isso há por aí muitas; depois senhor Manuel” acrescentou ela, “que será de nós?”. “Porquê?” perguntou o depoente. “Porque passaram por aqui pessoas fazendo os seus comentários, ameaçando e dizendo que os pequenos e as famílias precisavam de ser processados, porque andavam a enganar o povo. O depoente disse-lhe desta maneira: “esteja descansada, porque se for obra de Deus ou de Nossa Senhora, não há razão para se assustarem, porque nada havia nem podia haver contra ela”. O pai estava um pouco exaltado e por isso não lhe falou em mais nada.
13 mai.13 jun.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes
A Senhora recomendou que rezassem o terço? – Recomendou.
2a – Quando? – Quando apareceu pela primeira vez. 3a – Ouviste também o segredo ou foi só a Lúcia que o ouviu? – Eu também ouvi. 4a – Quando o ouviste? – Da segunda vez, no dia de Santo António. 5a – Esse segredo é para serem ricos? – Não é. 6a – É para serem bons e felizes? – É. É para bem de todos três. 7a – É para irem para o Céu? – Não é. 8a – Não podes revelar o segredo? – Não posso. 9a – Porquê? – Porque a Senhora disse que não disséssemos o segredo a ninguém. 10a – Se o povo soubesse o segredo, ficava triste? – Ficava. 11a – Como tinha a Senhora as mãos? – Tinha-as erguidas. 12a – Sempre erguidas? – Às vezes volta as palmas para o céu. 13a – A Senhora disse em maio que queria que fossem à Cova da Iria mais vezes? – Disse que queria que fôssemos lá durante seis meses, de mês a mês, até que em outubro dissesse o que queria. 14a – Ela tem na cabeça algum resplendor? – Tem. 15a – Podes olhar bem para o rosto? – Não posso, porque faz mal aos olhos. 16a – Ouviste sempre bem o que a Senhora disse? – Da última vez não ouvi tudo por causa do barulho que o povo fazia.
No dia treze do corrente Nossa Senhora disse que a guerra acabava nesse mesmo dia? Quais foram as palavras que empregou?
– Disse assim: “A guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito em breve”.
2a – Ela disse: “esperem cá pelos seus militares” ou “esperem cá pelos vossos soldados”?
– Disse: “esperem cá pelos militares”.
3a – Mas olha que a guerra ainda continua!... Os jornais noticiam que tem havido combates depois do dia treze!... Como se explica isto, se Nossa Senhora disse que a guerra acabou nesse dia?
– Não sei. Só sei que lhe ouvi dizer que a guerra acabava no dia 13. Não sei mais nada.
4a – Algumas pessoas afirmam que te ouviram dizer nesse dia que Nossa Senhora tinha declarado que a guerra acabava brevemente. É verdade?
– Disse tal e qual como Nossa Senhora tinha dito.
5a – No dia 27 do mês passado fui a tua casa falar contigo, lembra-te?
– Lembro-me de o ver cá.
6a – Pois nesse dia disseste-me que Nossa Senhora tinha dito que no dia 13 de outubro vinham também S. José e o Menino Jesus e que depois disso brevemente acabaria a guerra, não nesse dia.
– Não me recordo já bem como Ela disse. Podia ter dito isso; não sei. Talvez não entendesse bem a Senhora.
7a – No dia treze do corrente mandaste ao povo que olhasse para o sol?
– Não me lembro de assim fazer.
8a – Mandaste fechar os chapéus?
– No outro mês atrás mandei. Da última vez não me lembro de mandar.
9a – Sabias quando devia começar o sinal no sol?
– Não.
10a – Olhaste para ele?
– Olhei; parecia que era a lua.
11a – Porque foi que olhaste para o sol?
– Olhei, porque toda aquela gente disse que olhassem para o sol.
12a – Nossa Senhora disse que pediria a seu Divino Filho pelas almas dos soldados mortos na guerra?
– Não, senhor.
13a – Disse que o povo seria castigado se não se emendasse dos seus pecados?
– Não me lembro se Ela o disse. Parece-me que não.
14a – No dia 13 não tinhas dúvidas como agora acerca do que a Senhora disse. Como se compreendem as tuas dúvidas de hoje?
– Nesse dia lembrava-me melhor, tinha sido há menos tempo.
15a – O que viste há cerca de um ano? Tua mãe diz que tu e outras crianças viram um vulto embrulhado, que não deixava ver o rosto. Porque foi que me disseste o mês passado que não foi nada?
– !...
16a – Dessa vez fugiste?
– Cuido que fugi.
17a – No dia onze deste mês não me quiseste dizer que no dia treze do corrente haviam de aparecer Nosso Senhor abençoando o povo e Nossa Senhora das Dores. Foi com receio de que eu fizesse troça de ti, como outras pessoas já tinham feito, dizendo que isso era impossível? Ou era porque estavam presentes muitas pessoas estranhas e tiveste acanhamento de dizer isso diante e tanta gente? Olha que a Jacinta disse-me tudo...
– !...
18a – Quando foi que Nossa Senhora te disse que se haviam de dar essas aparições no dia treze de outubro?
– Foi no dia em que apareceu nos Valinhos ou no outro dia treze. Não sei bem.
19a – Viste também Nosso Senhor?
– Vi uma figura que parecia ser um homem; parecia Nosso Senhor.
20a – Onde estava essa figura?
– Estava ao lado do sol.
21a – Viste-a abençoar o povo?
– Não vi; mas Nossa Senhora tinha dito que Nosso Senhor viria abençoar o povo.
22a – Se o povo soubesse o segredo que Nossa Senhora te revelou ficava triste?
Eu Manuel Antunes Marto2, Prior da freguesia de Nossa Senhora da Luz de Maceira, concelho de Leiria, diocese de Coimbra3, a pedido do mui digno Prior da freguesia de Fátima, Manuel Marques Ferreira, chamei à minha presença Maria do Carmo, minha paroquiana, casada com Joaquim dos Santos, que me merece inteira confiança e que declarou o seguinte: Ter andado doente cinco anos e sem esperança de melhorar, pois de dia para dia, sentia faltarem-lhe as forças, andava muito magra, tinha muita tosse, passando noites inteiras a tossir pelo que a julgaram tuberculosa e ela também estava convencida disso; convencida a ponto de retirar as crianças, suas filhas4, de junto de si, para as não contagiar. E constando-lhe que na freguesia da Fátima aparecera Nossa Senhora a umas criancinhas, fez a promessa de lá ir no dia treze de quatro mezes seguidos a pé e rezando todo o caminho a fim de ver se Nossa Senhora a melhorava. Logo que lá foi a primeira vez, com muita dificuldade, sentiu melhoras, pois o caminho custou-lhe menos quando voltou do que quando para lá foi.
Continuou sempre experimentando melhoras e no dia treze de novembro do ano mil novecentos e dezassete, dia em que completou a sua promessa, achou-se completamente boa, atribuíndo a sua cura a um milagre de Nossa Senhora de Fatima.
Notas dos editores (4)
1 Nasceu em Alcobaça. Casou com Joaquim dos Santos, a 13 de janeiro de 1897, ficando a residir no Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria. Faleceu a 20 de janeiro de 1982, com 82 anos de idade.
2 Nasceu a 7 de março de 1884. Foi ordenado sacerdote a 18 de julho de 1909. Foi coadjutor e pároco de Maceira, onde faleceu, a 7 de outubro de 1918, vítima da pneumónica.
3 A freguesia de Maceira pertenceu à diocese de Coimbra no período em que a diocese de Leiria esteve extinta. À data deste documento, já estava restaurada (17 de janeiro de 1918). O lapso do Pároco deve-se ao hábito criado.
4 Maria do Carmo teve cinco filhos: Júlia (n. 1897), Maria (n. 1902), José (n. 1904), Carlos (n. 1917) e Maria do Rosário (n. 1910).
Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde o mez de Maio ultimo na Cova da Iria no dia treze de cada mez durante o tempo da apparição.
Entre mim e elle estabeleceu-se o curto dialogo que se segue:
- Que é que tens visto na Cova da Iria nos ultimos mezes? - Tenho visto Nossa Senhora. - Onde é que ella apparece? - Em cima de uma carrasqueira. - Apparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte? - Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e collocar-se sobre a carrasqueira. - Vem devagar ou depressa? - Vem sempre depressa. - Ouves o que ella diz á Lucia? - Não ouço. - Fallaste alguma vez com a Senhora? Ella já te dirigiu a palavra? - Não, nunca lhe perguntei nada; falla só com a Lucia. - Para quem olha, tambem para ti e para a Jacinta ou só para a Lucia? - Olha para todos tres; mas olha durante mais tempo para a Lucia. - Já alguma vez chorou ou se sorriu? - Nem uma cousa nem outra; está sempre séria. - Como está vestida? - Tem um vestido comprido e por cima um manto que lhe cobre a cabeça e desce até á extremidade do vestido. - Qual é a côr do vestido e do manto? - É branca, tendo o vestido riscos dourados. - Qual é a attitude da Senhora?
– É a de quem está a rezar. Tem as mãos postas á altura do peito.
– Traz alguma coisa nas mãos?
– Traz entre a palma e as costas da mão direita umas contas que estão pendentes sobre o vestido.
– E nas orelhas o que tem?
– As orelhas não se vêem, porque estão cobertas com o manto.
– De que côr são as contas?
– São tambem brancas.
– A Senhora é bonita?
– É, sim.
– Mais bonita que aquella menina que tu alli vês?
– Mais.
– Mas ha senhoras muito mais bonitas que aquella menina...
Concluido o interrogatorio do Francisco, chamei de parte a Jacinta, que andava a brincar na rua com outras creanças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatorio logrando obter della respostas completas e minuciosas como as do irmão.
– Tens visto Nossa Senhora no dia treze de cada mez desde Maio para cá?
– Tenho visto.
– Donde é que ella vem?
– Vem do Ceu, do lado do sol.
– Como está vestida?
– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça um manto tambem branco.
– De que côr são os cabelos?
– Não se lhe vêem os cabelos, que estão cobertos com o manto.
– Traz brincos nas orelhas?
– Não sei, porque tambem não se lhe vêem as orelhas
– Qual é a posição das mãos?
– As mãos estão postas á altura do peito, com os dedos voltados para cima.
– As contas estão na mão direita ou na esquerda?
A esta pergunta a creança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a uma insistencia propositada e capciosa da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia á mão que a Apparição segurava o rosario.
– O que foi que Nossa Senhora recommendou á Lucia com mais empenho?
– Mandou que rezassemos o terço todos os dias.
– E tu reza-lo?
– Rezo-o todos os dias com o Francisco e com a Lucia.
Que é que tens visto na Cova da Iria nos últimos meses? - Tenho visto Nossa Senhora. - Onde aparece ela? - Em cima duma carrasqueira - Aparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?
– Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e colocar-se sobre a carrasqueira.
– Vem devagar ou depressa?
– Vem sempre depressa.
– Ouves o que ela diz à Lúcia?
– Não ouço.
– Falaste alguma vez com a Senhora? Ela já te dirigiu a palavra?
– Não, nunca lhe perguntei nada; fala só com a Lúcia.
– Para quem olha ela, também para ti e para a Jacinta, ou só para a Lúcia?
– Olha para todos três; mas olha durante mais tempo para a Lúcia.
Notas dos editores (1)
3 Nasceu em Aljustrel a 31 de maio de 1869. Casou com José Ferreira da Rosa, a 6 de fevereiro de 1888, ficando viúva em 1895. Deste matrimónio nasceram dois filhos, António Ferreira Rosa e Manuel Ferreira Rosa. A 11 de fevereiro de 1898, casou com Manuel Pedro Marto. Faleceu, em Aljustrel, a 3 de abril de 1957.
Tens visto Nossa Senhora no dia 13 de cada mês desde maio para cá?
– Tenho visto.
– Donde é que ela vem?
– Vem do Céu, do lado do sol.
– Como está vestida?
– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça tem um manto, também branco. Em volta da cintura há uma fita doirada que desce até à orla do vestido.
– Usa botas ou sapatos?
– Não usa botas nem sapatos.
– Então tem só meias?
– Parece que tem meias, mas talvez os pés sejam tão brancos que pareçam trazer meias calçadas.
– De que cor são os cabelos?
– Não se lhe veem os cabelos, que estão cobertos com o manto.
– Traz brincos nas orelhas?
– Não sei, porque não se lhe veem também as orelhas.
– Qual é a posição das mãos?
– As mãos estão postas sobre o peito, com os dedos voltados para cima.
– As contas estão na mão direita ou na mão esquerda?
– .....
A esta pergunta a criança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a insistência da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia à mão com que a Senhora segurava o Rosário.
- O que é que a Senhora recomendou à Lúcia com mais empenho? - Mandou que rezássemos o terço todos os dias. - E tu reza-lo? - Rezo-o todos os dias com o Francisco e a Lúcia.
É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria?
– É verdade.
– Quantas vezes te apareceu já?
– Cinco vezes, sendo uma cada mês.
– Em que dia do mês?
– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo sr. administrador. Nesse mês vi-a só alguns dias depois, a dezanove, no sítio dos Valinhos.
– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há de verdade a este respeito?
– O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano); nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não era exato.
[…]
Donde é que ela vem? Das bandas do nascente? - Não sei; não a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a carrasqueira, e quando se retira é que toma a direção donde nasce o sol. - Quanto tempo se demora? Muito ou pouco? - Pouco tempo. - O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Avé Maria, ou mais? - Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo (talvez não chegasse para rezar o terço). - Da primeira vez que a viste não ficaste assustada? - Fiquei, e tanto assim que quis fugir, com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que não tivéssemos medo, porque não nos faria mal. Disse: “não tenham medo que eu não vos faço mal.” - Como é que está vestida? - Tem um vestido branco, que desce até um pouco abaixo do meio da perna, e cobre-lhe a cabeça um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido. - O vestido não tem enfeites? - Veem-se nele, na parte anterior, dois cordões dourados, que descem do pescoço e se reunem por uma borla, também dourada, à altura do meio do corpo. - Tem algum cinto ou alguma fita? - Não tem. - Usa brincos nas orelhas? - Usa umas argolas pequenas e de cor amarela. - Qual das mãos segura as contas? - A mão direita. - Eram um terço ou um rosário? - Não reparei bem. - Terminavam por uma cruz? - Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas também brancas. A cadeia era também branca. - Perguntaste-lhe alguma vez quem era? - Perguntei, mas declarou que só o diria a 13 de outubro. - Não lhe perguntaste de onde vinha? - Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do Céu. - E quando foi que lhe fizeste essa pergunta? - Da segunda vez, a treze de junho. - Sorriu-se alguma vez ou mostrou-se triste?
- Nunca se sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria. - Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas orações? - Recomendou-nos que rezássemos o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário, a fim de se alcançar a paz para o mundo. - Mostrou desejos de que no dia treze de cada mês estivessem presentes muitas pessoas na Cova da Iria? - Não disse nada a esse respeito. - É certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse? - É certo. - Diz respeito só a ti ou também aos teus companheiros? - A todos três. - Não o podes manifestar ao menos ao teu confessor? (A esta pergunta guardou silêncio, parecendo um tanto enleada e julguei não dever insistir, repetindo a pergunta). - Consta que, para te veres livre das importunações do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o não era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: é verdade? - Não é; o sr. administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o sr. administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado também o segredo. Não o quis enganar. - A Senhora mandou que aprendesses a ler? - Mandou, sim, da segunda vez que apareceu. - Mas se a Senhora disse que te levaria para o Céu no mês de outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler? - Não é verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa. - O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao pé da carrasqueira? - Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova. - Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria? - Não sei: ela não o disse.
- Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido? - Estou. - No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só? - Vem também S. José com o menino, e será concedida a paz ao mundo. - E fez mais alguma revelação? - Declarou que no dia 13 fará com que todo o povo acredite que ela realmente aparece. - Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora? - É que ela às vezes cega. - Ensinou-te alguma oração? - Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário. - Sabes de cor essa oração? - Sei. - Diz lá... - Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem10.
Notas dos editores (1)
10O Dr. Formigão fez um apontamento, possivelmente na mesma data, em que escreveu: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, e aquelas que mais precisarem. Para se recitar depois de cada mistério do rosário. Posteriormente, o Dr. Formigão acrescentou: e aliviai as almas do Purgatório, principalmente as mais abandonadas.
Disseste-me há dias que Nossa Senhora queria que o dinheiro oferecido pelo povo fosse levado para a igreja da freguesia em dois andores. Como é que arranjam os andores e quando é que eles devem ser levados para a igreja?
– Os andores compram-se com o dinheiro oferecido e serão levados nas festas da Senhora do Rosário.
2a – Sabes com certeza em que sítio é que Nossa Senhora deseja que seja edificada uma capela em sua honra?
– Não sei ao certo, mas julgo que Ela quer a capela na Cova da Iria.
3a – O que é que Ela disse que havia de fazer para que todo o povo acreditasse que ela aparecia?
– Disse que havia de fazer um milagre.
4a – Quando foi que ela disse isso?
– Disse-o umas poucas de vezes, mas só uma vez, na ocasião da primeira aparição é que lhe fiz essa pergunta.
5a – Não tens medo de que o povo te faça mal se não vir nada de extraordinário nesse dia?
– Não tenho medo nenhum.
6a – Sentes dentro de ti alguma coisa, alguma força que te arraste para a Cova da Iria no dia 13 de cada mês?
– Sinto vontade de lá ir e ficava triste se não fosse.
7a – Viste alguma vez a Senhora benzer-se, rezar ou desfiar as contas do Rosário?
– Não vi.
8a – Mandou-te rezar?
– Mandou-me rezar umas poucas de vezes.
9a – Disse-te que rezasses pela conversão dos pecadores?
– Não disse; mandou-me só rezar a Nossa Senhora do Rosário para que acabasse a guerra.
10a – Viste os sinais que outras pessoas dizem ter visto, como uma estrela, rosas a despregarem-se do vestido da Senhora, etc.?
– Não vi a estrela nem outros sinais extraordinários.
11a – Ouviste algum rumor, trovão ou tremor de terra?
– Nunca ouvi.
12a – Sabes ler?
– Não sei.
13a – Andas a aprender a ler?
– Não ando.
14a – Como cumpres então a ordem que a Senhora te deu nesse sentido?
!.....
15a – Quando dizes ao povo que ajoelhe e reze, é a Senhora que manda que o digas?
– Não é a Senhora que manda, sou eu que quero.
16a – Sempre que ela aparece, tu ajoelhas?
- Às vezes fico de pé, outras vezes ajoelho-me. 16a – Quando fala, a sua voz é doce e agradável? – É. 17a – Que idade parece ter a Senhora? – Parece ter uns quinze anos. 18a – De que cor é o cadeado do rosário? – É branco. 19a – E a do crucifixo? – O crucifixo também é branco. 20a – O véu cobre a testa da Senhora? – Não cobre. Vê-se-lhe a testa bem. 21a – O esplendor que a envolve é bonito? – É mais bonito que a luz do sol e muito brilhante. 22a – A Senhora nunca te saudou com a cabeça ou com as mãos? – Nunca. 23a – Nunca se sorriu para ti? – Também não. 24a – Costuma olhar para o povo? – Nunca a vi olhar para ele. 25a – Ouves as conversas, rumores e gritos do povo, durante o tempo que vês a Senhora? – Não ouço. 26a – A Senhora pediu-te em maio que voltasses todos os meses até outubro à Cova da Iria? – Disse que voltássemos lá de mês a mês durante seis meses, no dia 13. 27a – Ouviste ler a tua mãe o livro chamado “Missão abreviada” onde se conta a história da aparição de Nossa Senhora a um menino e uma menina? – Ouvi. 28a – Pensavas muitas vezes nessa história e falavas dela a outras crianças? – Não pensava nessa história nem a contei a ninguém.
Notas dos editores (4)
6 Manuel Gonçalves da Silva, residente em Aljustrel, casado com Maria dos Prazeres.
7 Pode tratar-se de Manuel Henriques, nascido em 1850, casado com Maria Violante, então residente em Fátima, ou de seu filho, também Manuel Henriques, nascido a 15 de fevereiro de 1891, que veio a casar com Maria dos Anjos.
8 Filho de António Carreira Ribeiro e de Rosa de Jesus Ribeiro. Nasceu na Moita do Martinho, freguesia de S. Mamede, concelho da Batalha, a 19 de novembro de 1865. Casou com Maria da Cunha. Faleceu a 18 de janeiro de 1919. No Rol dos Confessados de 1917, não consta nenhum Francisco Rodrigues, mas sim Francisco Ribeiro. Deve tratar-se de um lapso do autor.
5 Anastácio Vieira, de Aljustrel. Padrinho de batismo de Lúcia, casado, a 29 de novembro de 1882, com Teresa de Jesus, tia paterna e madrinha de batismo de António dos Santos, pai de Lúcia.
Que idade é que tens? – Tenho nove anos feitos. 2a – Só vês a Senhora ou ouves também o que Ela diz? – Só a vejo, não ouço nada do que Ela diz. 4a – Tem algum clarão em volta da cabeça?
- Tem. 5a – Podes olhar bem para a cara dela? - Posso olhar, mas pouco, por causa da luz. 6a – Tem alguns enfeites no vestido? - Tem uns cordões de ouro. 7a – De que cor é o crucifixo do rosário? - É branco. 8a – E a cadeia do rosário? - Também é branca. 9a – O povo ficava triste se soubesse o segredo? - Ficava.
13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuNotaNuvem / coluna de fumoLuz a diminuirDescida da temperaturaTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão
Cerca da Fátima ou Aljustrel, Cova da Iria, ao lado de Aljustrel, [perto] da estrada [de] macadame, ao lado do norte. Casos presenciados por mim. No dia 13 de Junho fui lá a primeira vez, à qual não fui a tempo ao acto, mas falei com as pequenas no adro da Fátima. Interroguei-as atentamente e vi nelas o que me pareceu impossível não ser verdade. Desde essa hora fiquei crente que era a Virgem Santíssima que ali vinha. No dia 13 de Julho compareci também. À hora da aparição [via-se] uma nevoazinha. O sol perdeu a força deixando de fazer calor, o que até ali fazia muito. E muita gente disse que, quando a aparição falava, ouviam-na mas não
[…]
presenciavam [percebiam] o que Ela dizia. Eu só ouvi quando a Lúcia disse: lá vai Ela! Ouvi no ar um rugido. Parecia o princípio de um trovão. No dia 13 de Agosto compareci também. As meninas e o menino foram presos. Estava muita gente. Às mesmas horas da aparição os astros e o sol representaram o mesmo das outras vezes; e um sinal extraordinaríssimo nos astros. No dia 13 de Setembro compareci também. O sol e os astros fizeram a mesma figura. O povo entusiasmado a olhar para o ar, dizendo uns que viam estrelas, outros que viam uma pomba, outros que viam estrelas a correr e andorinhas a acompanhar. Era um entusiasmo em todos. Ainda outros que viam flores a cair. No dia 13 de Outubro choveu quase toda a manhã. À hora próxima à aparição deixou de chover. Os factos extraordinários que se deram no sol! Toda a gente presenciou: quem tinha os olhos abertos; quem os fechou não viu nada. E talvez houvesse quem visse e dissesse que não viu para não dar honras à Mãe do Céu. Haja o equívoco que houver com respeito à guerra, os [factos] extraordinários que lá houve são inegáveis.
A ser certa a visão, haveria uma certa differença entre a maneira como ella se revelava a cada creança. Assim, a mais velha Lucia, era de certo a mais priveligiada, via, ouvia e fallava com a apparição, fazendo-lhe pedidos e perguntas, e obtendo respostas. A mais novita, Jacintha, via e ouvia a Senhora mas nunca lhe fallou, nem Esta se lhe dirigio directamente. O rapazito, Francisco, via a Senhora, mas nunca a ouvio fallar nem sequer a vio mecher os labios, e nunca A vio tão distinctamente como em 13 de Outubro.
[…]
Lá foram as creanças na sua piedosa romaria todos os dias 13 de cada mez á Cova da Iria, excepto em Agosto, em que foram presas. Dizem que viram sempre a Senhora, que a Lucia fallou sempre com Ella, que lhe pedio algumas curas e conversões; que a Senhora lhe prometteu, curar e converter uns, outros não. Que lhes recommendou sempre que rezassem o terço, e lhes disse que queria n’aquelle sitio uma Capellinha dedicada á Senhora do Rosario.
[…]
s creanças descrevem a apparição, como sendo uma Senhora
muito linda, a mais linda que tivessem visto, (palavras textuaes) de mãos erguidas para o Ceu, toda vestida de branco e ouro, tendo pendente do braço direito um terço todo branco.
Uma vez, a Lucia perguntou á Senhora: “De onde é Vocemecê e para onde vae?” e diz que a Senhora lhe respondeu: “Sou do Céu e vou para o Céu”. E perguntando-lhe a Lucia se ella, a Jacintha e o Francisco tambem irião para o Céu, que a Senhora lhe respondera que ella e a Jacintha irião, e que o Francisco tambem iria, mas teria de rezar mais o terço. Desde então o pequeno, tem por vezes rezado dez terços por dia!
Como soube que a Senhora apareceu à sua filha da primeira vez? Foi ela que lhe contou?
– Tive conhecimento desse facto pela família das outras crianças, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada com receio de que lhes ralhassem. Só depois de interrogada por mim é que disse o que tinha visto.
3a – Nunca repreendeu sua filha por ir à Cova da Iria? Deu-lhe sempre inteira liberdade de lá ir, no dia 13 de cada mês?
– Nunca a proibi de ir a esse sítio. Umas vezes perguntava-lhe se queria ir e ela respondia afirmativamente, outras vezes ela mesma dizia que ia, se eu lhe desse licença.
4a – As três crianças costumam ir sozinhas ao local das aparições ou vão acompanhadas de outras crianças?
– Vão sós. Quase sempre vão também outras crianças, mas acompanhadas dos pais e ficam ao pé deles, não se juntam com a Lúcia e os primos dela.
5a – As crianças guardavam gado? A quem é que ele pertencia?
– A Lúcia guardava um pequeno rebanho de ovelhas e os primos outro. Pertenciam esses rebanhos às respetivas famílias. Às vezes juntavam o gado, mas unicamente porque queriam. As ovelhas que a Lúcia guardava, já as vendi.
6a – Como é que as crianças têm ido vestidas?
– Da primeira vez iam mal arranjadas, como andam quase sempre os pastores. Das outras vezes, no dia 13 de cada mês, vão vestidas de fato claro e levam um lenço branco na cabeça.
[…]
Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituissem aos pais?
– Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas a casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima.
Sento-me ao pé dele e começo a minha conversa: “Viste Nossa Senhora?” — “Vi”. “Como vinha vestida?” — “Toda de branco e oiro.” “E não trazia nada de côr?” — “Não”. “E na cabeça?” — “Um manto.” “E mais nada?” — “Sim, trazia uma coisa.” “O quê?” — “Não sei, uma coisa.” “E via-se o cabelo?” — “Não”. “E os olhos de que côr eram?” — “Eram pretos.” Estas respostas eram dadas com um ar de uma naturalidade enorme, um pouco arrastadas. Todas as três crianças com quem falei separadamente, mudam de tom descrevendo o olhar de N. Senhora. Vê-se que foi o que mais as impressionou.
A Lucia diz dos olhos: “Eram muito escuros.” “E o fato?” — “Branco e oiro.”
“Com cinto de côr?” — “Não, com estrelas de oiro; olhe, tinha uma no peito.” “E na cabeça?” — “Um manto e uma coisa, assim...” “Mas o quê?” — “Não sei, era assim um açafatico” (um açafatesinho). Eu nem disse a palavra corôa que me veio logo á ideia; deixar a pequena explicar-se como sabe e confesso que achei de apetite a comparação. “E via-se o cabelo?” — “Não.” “Olha, N. Senhora estava a rir-se, alegre?” — “Não, estava séria.” “Zangada?” — “Não, séria.” “Trazia as contas, não trazia?” — “Sim, umas contas brancas e quando falava abria as mãos, assim...” A pequena tirou as contas da algibeira e explicou o que tinha visto: A certa altura diz-me que N. Senhora tinha muita luz. “Como o sol?” — “Mais do que o sol.” Uma senhora que ali estava, diz-lhe: “Porque tiveste medo ao principio? Se eu te aparecesse, tu não fugias.” — “É que a senhora não me cegava.” Diz que N. Senhora pede ao povo que se emende, que reze muito o terço e faça uma capela a N. Senhora do Rosario. A pequena repete muitas vezes: “O povo não se emenda, o povo não se emenda...”
O vestido de Nossa Senhora era destas cores; o vestido era todo branco; tinha dos estrelas da cinta para baixo uma na direção da outra; ao pescosso um cordão com uma bola chegava até á cinta; as mãos postas, e delas caia umas contas não sei se era Rosario se era Terço branco com um cruxifixo tambem branco. O manto cobria-lhe a cabeça até ao fim do vestido. tinha uma beirinha doirada; os pés não sei se tinha maias se vinha descalços, porque eu não lhe defrençava os dedos, era porcausa da luz que me não deixava fitalos tudo em vol[ta] dela era uma luz tam brilhante e tam forte que me não deixava ver como eu queria porque parecia cegar-me.
Paresseme que já disse quase tudo se me falta alguma coisa duque ela disse para escrever não me lembro.
Os teus primos falaram alguma vez com a Senhora?”. Respondeu: “Nunca falaram; uma vez combinámos que a Jacinta lhe falasse, mas, chegando lá, a Jacinta não disse nada.”
– “O semblante da Senhora era risonho?”. Respondeu: “Era triste; quando falava, abria as mãos que estavam juntas e erguidas de encontro ao peito”.
[…]
Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?”. Respondeu: “Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário.
– “E quem era essa Senhora?”. Respondeu: “Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora”.
Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador do concelho, mas que nesse mês A viu no domingo seguinte – dia dezanove – no sítio chamado Valinho, onde foi chamada por seu irmão João, a pedido da Lúcia.
Disse que viu uma Senhora muito bonita, toda vestida de branco, com fato dourado aos cordõezinhos, com um véu ou manto pela cabeça, do tamanho de F. – indica uma rapariga de regular estatura e dos seus catorze anos – e que trazia umas contas muito branquinhas penduradas nas mãos e seguras entre os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, que tinha erguidas à cintura, e que separava uma da outra, pouco mais ou menos à largura dos ombros, quando falava à Lúcia.
Quando Ela falava para a Lúcia, que ouvia uma voz muito piedosa, mas que não se lembra de ouvir dizer, senão que a gente – elas videntes – ia para o Céu. Pelas várias vezes que a interroguei nunca se contradisse no essencial, havendo todavia coisas acidentais, algumas contradições, verdadeiras ou aparentes. Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:
– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.
Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:
– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.
Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:
– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!
Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.
Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta. A respeito do segredo também não consegui que me o revelasse; apenas disse que ele – segredo – não era mau para elas, videntes. Disse mais, que a Senhora lhe apareceu mais três vezes: uma no dia da Ascensão do Senhor na Igreja durante a missa e que lhe ensinou a rezar as contas; outra vez, à noite, sobre o alçapão do sótão estando a família a dormir; e mais uma, debaixo (ou salvo erro em cima) duma mesa, sem nada lhe dizer, até que ela, Jacinta, disse para a mãe: Olhe... não vê a Senhora, que lá vi em cima, ali debaixo?!... Olhe!!! Como a própria mãe me declarou.
13 set.Testemunho diretoViuCartaPalavras dos videntes
Pois aquelle homem não saberá que as creanças diziam que Nossa Senhora havia de fazer um signal com que todo o povo acreditasse que era Ella que apparecia.
Em 27 de Setembro ouvi essa predição da bocca das creanças e a 13 de Outubro vi o signal e vi que todo o povo acreditou.
13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes
O que disse a Senhora em setembro?
– Não me recordo do que Ela disse.
Talvez fôsse nesse dia que disse que em 13 de outubro havia de vir S. José com o Menino e Nosso Senhor dar a bênção ao povo e Nossa Senhora do Rosário com um anjinho de cada lado e Nossa Senhora das Dores com um arco de flores.
Gente da terraproprietário casado, de Montelo (Fátima), segunda testemunha do inquérito paroquial
13 set.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentado«Flores» a cairEstrela / globo luminoso
na occasião passava sobre a Carrasqueira um não sei que de extraordinario, parecendo flores brancas e que outras pessoas tambem notaram tal phenomeno dizendo serem estrellas"),
Cleropadre e professor do seminário, que escrevia como Visconde de Montelo
13 set.Testemunho diretoEm parteArtigo da testemunhaAtitude céticaA multidão
Julgo-me na obrigação de dizer que nessa data eu estava muito longe de partilhar de semelhante convicção. Pelo contrario, regressei de Fatima mais sceptico do que nunca, apesar de me ter commovido bastante ao contemplar a fé ardente e a piedade sincera dos romeiros durante a minha longa viagem.
Concorreu sem duvida para isso a circunstancia de me haver conservado na estrada longe do local das apparições, donde nada ou quasi nada tinha podido observar.
Família dos videntesGente da terrapai dos videntes Francisco e Jacinta
13 set.Testemunho diretoNão viu nadaDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Em treze de setembro foi também à Cova da Iria. Estava um pouco afastado das crianças. Não viu nada, nem ouviu nada, mas ouviu dizer que algumas pessoas tinham visto coisas extraordinárias na atmosfera. Ouviu dizer às crianças que Nossa Senhora havia de dizer em outubro o que é que queria e havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse.
Em treze de setembro, depois de as crianças partirem para a Cova da Iria, foi chamar a cunhada para irem ambas em segredo, isto é, de maneira que ninguém as visse. Chegaram e deixaram-se ficar na encosta, não indo para o pé das crianças para não serem vistas. Quando o povo gritou que via sinais, não perceberam o que ele dizia, mas pareceu-lhes ver um fumozinho subir do meio do povo ao pé da azinheira. Logo que notaram que as crianças se vinham embora e que o povo as seguia, disse a mãe da Jacinta: “Elas estão salvas, vamo-nos embora”, voltando para suas casas.
13 set.Testemunho diretoRecordação posteriora 2 km
em 1917 era seminarista e encontrava-me na Batalha em férias grandes, em fins de Julho ou princípios de Agosto. Antes de 13 de Agosto, mas não em nenhum dia 13, apareceu na Batalha o Pe. Carmo que o convidou a acompanhá-lo até Fátima. Encontraram os videntes com os quais conversaram. A azinheira estava reduzida ao tronco. O Revº Pe. Joaquim António do Carmo levava uma máquina fotográfica e tirou o retrato ali mesmo aos videntes"
13 set.13 out.Testemunho diretoArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidão
Em setembro e outubro do ano corrente encontravamo-nos veraneando não longe do local da aparição e confessamos que não nos moveu a curiosidade a assistir, antes nos conservámos na nossa habitual indiferença, como se a aparição da mãe de Jesus Cristo fosse para nós a coisa mais natural d'este mundo. Vimos passar para a charneca centos, milhares talvez, de peregrinos: crentes, curiosos, amadores de picnics, vendedores de agua fresca e capilé, reporters, negociantes de vinho a retalho, uma variada e interessante multidão, e dedicámos apenas alguns momentos de cogitação á causa da romaria.
Pelos casos extraordinarios que presenciei em Fatima em 13 de Setembro e 13 de Outubro de 1917 e 13 de Junho de 1920, não exagerando em nada que me foi dado presenciar sem qualquer effeito de sugestão, nem mesmo por quaesquer exageros, não me resta duvida alguma que as 6 apparições da Santissima Virgem, fôram um facto.
Quase todos os meses José Alves foi lá no dia treze depois de maio e não viu nada, só ouvia dizer aos outros que viam coisas no céu. Não ouviu o estrondo em agosto. Ouvia dizer muitas vezes que aparecia um fumozinho.
[37-] A Senhora disse-lhe um segredo mas ela não o revelará.
Notas dos editores (1)
4 Quase certamente, o autor dispensou-se de fazer as perguntas nº 34 a 36. Tal como no interrogatório anterior, o Pe. Lacerda também aqui continuou a conversa com a Lúcia, de que resultaram as duas respostas seguintes.
O que a Senhora trazia nos pés eram meias? Tens a certeza disso?
– Cuido que eram meias, mas podiam não ser.
4ª – Tu nunca disseste o segredo, nem mesmo disseste que o povo ficava triste se o soubesse. O Francisco e a Jacinta dizem que ficava triste. Se tu não podes dizer isso, também eles o não podiam dizer. Que te parece?
– Não sei se eles deviam ou não dizer, que o povo ficava triste. Nossa Senhora disse que não devíamos dizer nada a ninguém. Por isso não posso dizer nada.
2a – Tu disseste uma vez que a Senhora tinha meias brancas. Então eram as meias ou eram os pés?
– Se eram meias, eram brancas, mas eu não sei ao certo se eram meias ou se eram os pés.
Algumas vezes e em diversas ocasiões interroguei o Francisco e sempre me disse que viu uma Senhora muito bonita na Cova da Iria e no Valinho nos mesmos dias que suas companheiras tinham indicado e que vinha vestida de branco, mas que não A ouvia falar. A respeito do segredo nada consegui que me revelasse. Dizendo-lhe eu que, não ouvindo ele a Senhora, não tinha segredo algum, respondeu que sim, tem, que lhe disse a Lúcia. Disse-lhe que, como foi a Lúcia que o disse, podia-me dizer, porque não é segredo nem Nossa Senhora lhe disse que o não dissesse, respondeu: não digo, que é pecado, que a Lúcia disse que o não dissesse eu, por isso não digo.
Foi neste momento que muitas pessoas viram uma oval, de côr viva30 e brilhante, com a parte mais larga voltada para baixo, descrever uma comprida linha recta no firmamento. Algumas pessoas viram esse phenomeno por mais, outras por menos tempo. Eu não o vi e tenho pena disso. O Snr. Dr. Figueirêdo35 e muitas pessôas d'aqui viram36.
Notas dos editores (3)
30 B de côr viva corr. pouco mais volumosa que um ovo, de côr branca, viva. D e E pouco mais volumosa que um ôvo, de côr branca, viva.
35 B e D corr. F.; E corr. B. Trata-se do Pe. António Maria de Figueiredo. Nasceu no lugar da Mata, freguesia de Santa Eufémia, concelho de Torres Novas, a 11 de Julho de 1879. Doutorou-se em Filosofia e Teologia e bacharelou-se em Direito Canónico, pela Universidade de Santo Apolinário, em Roma. Foi ordenado presbítero a 19 de Dezembro de 1902, ficando a desempenhar as funções de prefeito e professor de Filosofia, Teologia Dogmática e Latinidade, no Seminário de Santarém. Foi pároco de Vale de Santarém, Várzea, Abitureiras, S. Nicolau, de Santarém, S. Nicolau, de Lisboa, e S. Jorge de Arroios. Foi cónego da Sé de Lisboa. Faleceu a 5 de Maio de 1963.
36 B e D muitos patricios meus affirmam que tambem o viram. E o dr. B e muitos patricios meus afirmam que também o viram.
13 set.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longeSol a mudar de corLuz a diminuirNuvem / coluna de fumo
Transmitido por: Maria da Graça de Siqueira de Figueiredo Cabral da Câmara
Imagine que o Ramalho casado com a Florinda Rafael9 foi lá e viu a tal nuvem e o relampago. Diz elle que estava um dia lindo e de repente o sól começa a encarniçar e a escurecer e depois vê-se então descer uma nuvem sobre a carrasqueira e vê-se o relampago. Só as pequenas é que veem Na Sra. Isto é ao meio dia em ponto. As manas é que me contaram isto
Notas dos editores (1)
9 “O Ramalho e a Florinda foi um casal que vivia em Ota, concelho de Alenquer, que eu ainda conheci muito bem, pois que faleceram, era eu já homem adulto” (informação de Nuno de Siqueira).
Fallei com um padre, muito sério, illustrado e Dr.5 que foi assistir e disse me que tinha visto apparecer do lado direito do sól, quasi, como uma estrella redonda e branca como as nuvens, que foi correndo no mesmo sentindo, depois subiu e desappareceu; foi tudo o que viu.
Notas dos editores (1)
5 Pela descrição do fenómeno, julgamos poder identificar este sacerdote com o Dr. António Maria de Figueiredo, professor no Seminário de Santarém, que nesse mesmo dia 13 de Setembro de 1917, descreveu ao pároco de Fátima um fenómeno semelhante (Cf. Inquérito Paroquial - Depoimento da segunda testemunha, AEL, Documentos de Fátima, I-1D, fl. 15). Cf. Doc. 29, de p.17 de Setembro de 1917, nota 35.
13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Lúcia de Jesus Santos, a principal protagonista das aparições de Fátima afirmou no dia vinte e sete de setembro de mil novecentos e dezassete que pouco depois do dia treze de outubro seguinte seria concedida a paz ao mundo. No dia 13 de outubro declarou que a Aparição assegurara que a guerra acabava nesse mesmo dia. Tendo um sacerdote perguntado à vidente, pouco depois da aparição, se a Senhora dissera que o grande conflito europeu terminaria brevemente, e não naquele dia, ela contestou, insistindo em que a Visão havia afirmado que a guerra acabava nesse mesmo dia treze, porque empregara a palavra hoje. “Ela disse que a guerra acaba hoje, hoje” foram as palavras textuais da vidente.
13 ago.13 set.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria dos Santos (Maria da Capelinha, da Moita), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Quando as crianças voltaram à Cova da Iria, disse-lhes que perguntassem à Senhora o que havia de fazer ao dinheiro. Nos Valinhos, quando se deu ali a aparição, a dezanove do mesmo mês, a pequena fez realmente à Senhora essa pergunta e a Senhora disse que fizessem dois andores e os levassem para a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Muitas pessoas ficaram com pena de que o dinheiro não se aplicasse em alguma coisa a fazer no local e disseram à Lúcia que pedisse autorização para fazer uma ermida no local, autorização que a Senhora deu em treze de setembro, com a condição de darem metade do dinheiro existente para a Senhora do Rosário da Fátima. Reuniu-se a quantia de treze mil quinhentos e quarenta, em treze de setembro. E cumpriu-se o que a Senhora ordenou.
13 ago.13 set.Testemunho indiretoViuNotaPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
A dezasseis de agosto, dia da quarta aparição, depois dos tristes episódios de Ourém, a Lúcia pediu à Senhora um milagre para que o povo acreditasse, e Ela disse que no último mês faria um sinal no sol e que todos haviam de acreditar. Depois do que se passara na sede do concelho e em face das dúvidas que tantas pessoas manifestavam acerca da realidade e sobrenaturalidade das aparições, era natural que a Lúcia se lembrasse de pedir à Senhora uma prova evidente de que ela não era mentirosa, como muitos pretendiam. Se não se lembrou, decerto alguém a aconselharia a fazer esse pedido. No dia treze de setembro, a Lúcia insistiu pelo cumprimento da promessa. Eis as palavras textuais que constam do relatório a fls. 526: “Pedi outra vez que fizesse um milagre para o povo acreditar, porque diziam que eu era uma intrujona que devia ser enforcada e queimada. A Senhora deu-me a mesma resposta da outra vez”.
Notas dos editores (1)
26 Trata-se do interrogatório a Lúcia, no dia 8 de julho de 1924 (cf. Doc. 82).
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
Maria do Carmo, de quarenta e sete annos de edade, natural do logar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, casada com Joaquim dos Santos, havia cinco annos que soffria de uma enfermidade bastante grave, que apresentava todos os symptomas caracteristicos da tuberculose. Na primeira fase da doença experimentava, de vez em quando, dores, aliás não muito fortes, na cabeça, no estomago e nos intestinos. Em principios de 1916 as dores agravaram-se de um modo extraordinario. Eram continuas e difficeis de supportar. Sentia-as então nas costas e, ainda com mais intensidade, no peito. Ao mesmo tempo começou a padecer de falta d'ár. As mãos, os pés e o ventre incharam-lhe immenso. Suspeitava-se que tivesse um tumor no utero. Definhava e emmagrecia a olhos vistos. Trez meses depois não parecia a mesma pessoa, pois de nutrida que era tornara-se magra em extremo. Não podia pôr á cabeça nenhum objecto um pouco pesado pelas torturas que isso lhe occasionava. Tinha com frequencia vontade de vomitar, embora não vomitasse.
Quando tomava algum alimento e enquanto durava a digestão, augmentavam as dores de cabeça. As dores de estomago quasi que não lhe permittiam dormir. Para não passar peor comia muito pouco.
Sustentava-se exclusivamente ou quasi exclusivamente de leite.
Uma tosse funda e secca atormentava-lhe sem cessar o peito. A saliva sabia-lhe muitas vezes a sangue. Todos os visinhos estavam persuadidos de que a infeliz se achava tuberculosa. Ella propria não deixava approximar de si os filhos com medo do contagio. Um individuo que conhecia perfeitamente a gravidade do mal, estando um dia a conversar com alguns amigos e vendo-a passar proximo, disse-lhes num tom de voz que não deixava margem a duvidas que ella estava irremediavelmente perdida, não devendo viver mais de quinze dias. Passava-se isto em meados de julho do anno proximo findo. Debalde procurou lenitivo para os seus incommodos nos recursos da medicina. Pobre como era e não havendo medico senão a alguns kilometros de distancia, na Batalha, só alli foi uma vez com o marido consultar o distincto e habil clinico dr. Padrão. Os remedios que esse facultativo receitou não lhe produziram allivio algum.
Nestas circunstancias não alimentava nenhumas illusões ácerca da gravidade do seu estado e aguardava resignadamente a morte. Por essa occasião corria de terra em terra, de um extremo ao outro do paiz, a nova consoladora de que a Virgem Santissima desde o mez de maio precedente apparecia todos os mezes no dia treze a umas humildes creancinhas que apascentavam gado num local vulgarmente denominado “Cova da Iria” pertencente á freguezia de Fatima, concelho de Villa Nova d'Ourem, a sete leguas de distancia de Maceira. Um clarão de suave esperança illuminou subitamente o seu espirito abatido e amargurado. Cheia de fé, invoca a Mãe de Deus e, para obter por sua intercessão a cura tão suspirada, faz a promessa de ir quatro vezes a Fatima a pé descalça. Escolheu o dia treze de agosto para iniciar o cumprimento da sua promessa. Mas o marido, aliás homem temente a Deus, considerando tal empreza uma verdadeira temeridade, oppoz-se á sua ida. “Nós somos pobres, dizia elle á mulher, não dispomos de recursos para alugar um carro em que possas efectuar a jornada sem perigos e com probabilidade de lá chegares viva. Tem paciencia, mas não te deixo ir”.
Na verdade o seu estado de fraqueza era tão grande que se cansava immenso quando caminhava, por pouco que fôsse. A cerca de duzentos metros da casa de habitação possue um pequeno predio rustico. Havia muito tempo que era raro lá ir e, quando o fazia, precisava de se sentar um sem numero de vezes á beira do caminho para descansar. As filhas faziam toda a lida da casa, indicando e distribuindo a mãe os diversos serviços, sem poder ajudá-las como desejava, por lhe minguarem as forças. Insistiu, porém, tanto com o marido que este, vendo a sua inabalavel confiança, accedeu ás suas porfiadas instancias e resolveu-se a acompanhá-la. Veio finalmente o dia treze de Agosto, tão ardentemente esperado. Á uma hora da madrugada desse dia a doente põe-se a caminho em companhia do marido, que continuava a considerar semelhante jornada como uma temeridade e uma loucura. Descansou varias vezes no percurso.
Eram nove horas da manhã quando chegou ao local das apparições. Estava bastante extenuada, sentia muitas dores, toda ella, segundo a sua propria expressão, era uma dôr. Alguns instantes depois, com grande surpreza, experimentou notaveis allivios.
Sentou-se á sombra de uma grande e copada azinheira, onde tomou algum alimento, e alli se conservou até ás tres horas da tarde, pondo-se então novamente em marcha. No regresso as dores eram menos intensas e não se sentia tão fatigada como á ida.
De dia para dia as melhoras accentuavam-se cada vez mais. Entretanto começou a tomar alimentos solidos, mas o seu principal alimento continuava a ser o leite. Em treze de Setembro voltou pela segunda vez a Fatima, não lhe causando a viagem tanto incommodo como em treze de agosto. De cada vez que lá ia resava o terço do Rosario tanto na ida como na volta, não conversando nem prestando attenção ás conversas das pessoas que a acompanhavam.
A partir desse dia melhorou ainda mais.
Já trabalhava um pouco em casa e ia com menos difficuldade á fazenda. A treze de Outubro partiu de manhã cedo como das outras vezes, mas antes de chegar á Fatima surprehendeu-a a memoravel chuva torrencial que assignalou aquelle dia de outomno. Apesar de se ter molhado toda, ensopando a chuva a roupa que vestia, sentiu-se perfeitamente bem no local das apparições. As dores desappareceram para não mais voltar. A intumescencia do ventre e dos membros superiores e inferiores desappareceu egualmente como que por encanto. Tendo regressado a casa, desde esse dia até hoje come de tudo, a qualquer hora do dia ou da noite, e, por mais indegestos que sejam os alimentos, não experimenta o mais leve incommodo. Não tornou a sentir falta d'ar. Trabalha muito e pode por á cabeça fardos pesados como antes da doença. Nunca mais teve tosse. Está gorda, sente-se forte e gosa de excelente saude. Jámais em tempo algum da sua vida, se lembra de ter passado tão bem. No dia treze de novembro foi de novo á Fatima afim de agradecer a sua cura á Virgem do Rosario4.
Notas dos editores (1)
4 Sobre este relato de cura cf. DCF, vol. 1, Doc. 38, de 18 de Junho de 1918.
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Reproduz-se aqui, em resumo, o relato das aparições.
A Senhora diz que o seu lugar é o Céu, promete a felicidade eterna às três crianças, comunica-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensina-lhes uma pequena oração4, recomenda a Lúcia que aprendam a ler, manda que todos rezem o terço, para que a guerra acabe, anuncia o aparecimento de Nosso Senhor, de S. José com o Menino Jesus, de Nossa Senhora sob as invocações do Rosário, do Carmo e das Dores, recomenda de novo a recitação do terço, declara que a guerra acabava brevemente e no último dia afirma que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens, suplica que não O ofendam mais, insiste mais uma vez em que rezem o terço, declara que ela é a Senhora do Rosário e ordena que se edifique ali uma capela em sua honra. O depoimento da Jacinta confirma, dum modo geral, o depoimento da Lúcia, assim como o do Francisco, que contudo só via a Senhora, não ouvindo nada do que ela dizia a sua prima.
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
Mas se me reportava a declarações dos videntes que conservasse de memoria, é-me totalmente impossivel precisar, depois de tantos annos, qual das crianças me assegurou que a cruz do rosario era ou parecia de ouro. Teria sido o Francisco? Teria sido a Jacinta? Não sei. Importa acentuar que a Lucia, assim como os primos, ás vezes diziam ser brancas certas partes do corpo ou certas peças do vestuario da visão por causa da luz clara e brilhante que a envolvia e que quasi lhes cegava os olhos. Pag. 77, Lucia: "É que ella ás vezes cega". Pag. 94, Francisco: "Posso olhar para a cara della, mas pouco, por causa da luz".
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo), entrevistado por A Guarda
Duas pastorinhas e um zagalete afirmaram que uma senhora de incomparavel beleza lhes aparecia no dia treze de cada mês desde Maio a Outubro dêsse ano, fazendo-lhes diversas comunicações, algumas delas de caracter secreto. A Visão, segundo o testemunho das tres creanças, prometeu dizer no dia treze de Outubro quem era e operar nesse dia um prodigio, para que todos acreditassem nas suas palavras, pedindo ao mesmo tempo que erigissem uma capela em sua honra no local das aparições.
Por varias vezes declarou que Deus estava muito ofendido com os pecados dos homens e que graves castigos os ameaçavam, recomendou a todos que fizessem penitencia, aconselhou a recitação frequente do terço e por ultimo disse que era a Senhora do Rosário.
Transmitido por: José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria
A 13 de maio de 1917, três crianças da freguesia da Fátima, vigararia de Ourém, desta Diocese, apascentavam um pequeno rebanho num lugar, então ermo, chamado Cova da Iria.
A mais velha, Lúcia de Jesus, tinha 10 anos de idade, Francisco nove e Jacinta seisa. Estes eram irmãos e a primeira prima deles.
Nenhum sabia ler nem escrever.
Aproximava-se o meio dia e as crianças, conforme o costume da sua terra, rezaram o terço do Rosário de Nossa Senhora.
Terminada a oração, entretinham-se a fazer uma pequenina casa com pedras soltas quando, de repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante, sulcou o espaço. Apesar de o céu estar diáfano e sem nuvens, as crianças, com receio de alguma trovoada, juntaram o gado e iam retirar-se. Ao chegarem, porém, perto do ponto onde se encontram atualmente as bicas de água, fuzila novo relâmpago e, a poucos passos de distância, de pé sobre uma pequena azinheira no sítio onde está a pequenina e pobre Capela das Aparições, veem, com espanto, o vulto duma Senhora de incomparável formosura, envolvida num vestido de alvura puríssima; um manto, orlado de ouro, cobre-lhe a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, duma beleza celeste, sobrenatural, apresentava-se sereno, grave e toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário.
De todo o vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz.
As crianças aproximaram-se, travou-se um diálogo entre a Senhora e a mais velha, convidando-os a irem ali todos os dias 13 de cada mês até outubro.
Como consta do testemunho das crianças e de muitas pessoas, as aparições foram seis, todas no dia 13 de cada mês, exceto em agosto que se realizou alguns dias depois por a autoridade administrativa ter as crianças presas em Ourém.
A Senhora disse-lhes que o seu lugar é o céu, confiou-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensinou-lhes uma pequena jaculatória, recomendou a recitação do Rosário, aconselhou a Lúcia a aprender a ler, insistiu na necessidade de oração e penitência para a guerra acabar, afirmou que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens e sobretudo com o pecado da carne, ordenou que se edifique ali uma capela em sua honra e declara que é a Senhora do Rosário...
Notas dos editores (4)
15Mat VII, 15.
16Mat VII, 16, 18.
17Jo X, 37, 38.
a Jacinta tinha já sete anos. A data oficial do nascimento de Jacinta é 11 de março de 1910.
Transmitido por: Manuel Pereira Crespo da Costa Brites
N'esse dia foi d'aqui muita gente á Fatima, para ver o milagre da aparição de N. Senhora, mas ninguem vio nada; e á no[i]te ao recolher ali ás Calçadas em uma dezordem derão uma facada no Bernardino da Freiria, e outra no filho do Ferreiro da Martinel4.
13 set.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Pedro Marto (pai de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Ouviu dizer às crianças que Nossa Senhora havia de dizer em outubro o que é que queria e havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse.
GrupoClerosacerdote, professor no Seminário de Santarém; gente da terra
13 set.Testemunho indiretoViuCartaEstrela / globo luminoso«Flores» a cair
Transmitido por: Joel de Deus Magno
O Dr. F. e muitos patricios meus affirmam que tambem o viram. Alguns destes cuja seriedade não é licito pôr em duvida, asseguram ter distinguido uma especie de flores, que cahiam do ceu, mas não tocavam no chão desapparecendo ao chegarem a certa altura.
13 set.Testemunho indiretoViuCartaEstrela / globo luminoso«Flores» a cair
Transmitido por: Joel de Deus Magno
Foi neste momento que muitas pessoas viram uma oval, de côr viva30 e brilhante, com a parte mais larga voltada para baixo, descrever uma comprida linha recta no firmamento. Algumas pessoas viram esse phenomeno por mais, outras por menos tempo. Eu não o vi e tenho pena disso. O Snr. Dr. Figueirêdo35 e muitas pessôas d'aqui viram36. Ha algumas pessôas e seriissimas d'aqui que viram uma especie de flôres que vinham de cima mas que não tocavam no chão37.
Notas dos editores (4)
30 B de côr viva corr. pouco mais volumosa que um ovo, de côr branca, viva. D e E pouco mais volumosa que um ôvo, de côr branca, viva.
35 B e D corr. F.; E corr. B. Trata-se do Pe. António Maria de Figueiredo. Nasceu no lugar da Mata, freguesia de Santa Eufémia, concelho de Torres Novas, a 11 de Julho de 1879. Doutorou-se em Filosofia e Teologia e bacharelou-se em Direito Canónico, pela Universidade de Santo Apolinário, em Roma. Foi ordenado presbítero a 19 de Dezembro de 1902, ficando a desempenhar as funções de prefeito e professor de Filosofia, Teologia Dogmática e Latinidade, no Seminário de Santarém. Foi pároco de Vale de Santarém, Várzea, Abitureiras, S. Nicolau, de Santarém, S. Nicolau, de Lisboa, e S. Jorge de Arroios. Foi cónego da Sé de Lisboa. Faleceu a 5 de Maio de 1963.
36 B e D muitos patricios meus affirmam que tambem o viram. E o dr. B e muitos patricios meus afirmam que também o viram.
37 B alguns destes, de cuja seriedade não é lícito duvidar, asseguram ter avistado uma especie de flores, que cahiam do Ceu, mas que não tocavam no chão, desappareciam ao chegarem a certa altura. corr. Alguns destes, cuja seriedade não é licito pôr em duvida, asseguram ter distinguido uma especie de flores, que cahiam do ceu, mas não tocavam no chão desapparecendo ao chegarem a certa altura. D reproduz o texto B corrigido, modificando apenas distinguido para percebido e tocavam para tocaram. E reproduz o texto D, modificando de novo tocaram para tocavam.
13 set.Testemunho indiretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
No dia vinte e sete de setembro de mil novecentos e dezassete, e portanto com dezasseis dias de antecedência, a vidente Lúcia de Jesus declarou ao autor do folheto “Os Episódios Maravilhosos de Fátima”, na presença de várias pessoas, entre elas as senhoras D. Adelaide Braamcamp de Melo Breyner e D. Maria de Jesus do Rosário, de Santarém, na própria casa de habitação da vidente, em Aljustrel, que a Senhora que lhe aparecia tinha dito que no dia treze de outubro faria um sinal para que todo o povo acreditasse que ela realmente aparecia.
13 set.Testemunho indiretoViuCartaDescida da temperaturaLuz a diminuir
Transmitido por: Maria da Conceição Stokler Parente (M. C. S. P.)
Quem presenciou o de 13 de setembro diz que das 12 para a 1, hora antiga, estando um dia formosissimo de sol ardente, a temperatura havia de repente baixado, dando-se um pequeno eclipse n'aquelle astro. Havia pessoas que diziam ter visto nuvens côr de rosa aqui e ali. Nem de todos eram acreditadas5.
Notas dos editores (2)
4 Deve referir-se a uma das estampas distribuídas na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917, igual às que descrevemos no Doc. 51, de a. 13 de Outubro de 1917. Deve notar-se que uma dessas mesmas estampas foi levada por Capitolina Guimarães Rino, com a qual a autora desta carta deve ter viajado nesse dia (cf. nota 5 deste documento e Doc. 51, nota 5).
5 A autora deve referir-se a José Rino e Capitolina Guimarães Rino, de Alcobaça, que estiveram na Cova da Iria, nesse dia, e contaram, com os mesmos pormenores, a Luís Vasconcelos, depois barão de Alvaiazere, os fenómenos de 13 de Setembro de 1917 (Cf. DCF, vol. 1, Doc. 28, de 30 de Dezembro de 1917, nota 25).
13 set.Testemunho indiretoViuCartaPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria da Conceição Stokler Parente
Seguiu-se o 13 de setembro; e n'este, depois da apparição, disseram as creanças que a 13 de outubro faria Nossa Senhora um milagre tão grande que a ninguem poderia deixar duvidas.
Transmitido por: Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos
Mostraram-se quase indignados e disseram-me “que para eles não restava a menor dúvida de que se tratava de um milagre, pois que eles já anteriormente, no dia 13 de setembro último, ali tinham estado e tinham presenciado no sol extraordinários fenómenos luminosos, precisamente à hora indicada pelas pastorinhas; que o clero não estava bem informado e que, se eu duvidava, que esperasse”.
13 set.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes
Transmitido por: Olímpia de Jesus (mãe de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
Parece-lhe ter ouvido à Lúcia que a Senhora lhe tinha recomendado que aprendesse a ler.
Aqui aproveito a occasião de dizer, que neste mesmo dia treze por cerca das trez horas da tarde, veiu a minha casa, residencia parochial, o Reverendo António Maria de Figueiredo meritissimo professor no Seminario Patriarchal em Santarem e declarou-me que viu estrellas numa região inferior á região estrellar, e que veiu a minha casa de proposito para me fazer tal declaração"
Transmitido por: Manuel Marques Ferreira (pároco de Fátima)
Aqui aproveito a ocasião para dizer, que, neste mesmo dia treze, por cerca das três horas da tarde, veio a minha casa, residência paroquial, o Rev.mo Dr. António Maria de Figueiredo1 meritíssimo professor no Seminário Patriarcal de Santarém e declarou-me que viu estrelas numa região inferior à região estelar, que veio a minha casa de propósito para me fazer tal declaração
Notas dos editores (1)
1 Nasceu a 11 de julho de 1879, em Mata, concelho de Torres Novas. Doutorou-se em Filosofia e Teologia e bacharelou-se em Direito Canónico, em Roma. Foi ordenado sacerdote, a 19 de dezembro de 1902. Foi professor no Seminário de Santarém e pároco em várias paróquias, na mesma cidade e em Lisboa. Foi cónego da Sé de Lisboa. Faleceu a 5 de maio de 1963, em Torres Novas.
13 set.Testemunho indiretoViuRecordação posterior«Flores» a cair
Transmitido por: Inácio António Marques
Na encosta do lado do nascente estava o reverendo Padre sr. Joaquim Ferreira Gonçalves das Neves, pároco de Santa Catarina da Serra, e eu como vejo que talvez esteja olhando sem ver nada, dirijo-me a ele e pergunto-lhe o que vê, respondendo-me que não vê nada. Indico-lhe uma direção e imediatamente disse que já está vendo. Passado o fenómeno vou encontrar o mesmo senhor de joelhos pedindo o terço. Parece-me ser este o primeiro ministro da Igreja que rezou em comum naquele recinto bendito.
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)
A treze de setembro, depois da aparição, um cavalheiro espanhol, que estava presente, ofereceu a Lúcia uma pequena medalha de metal branco de pouco valor que ela a princípio não queria aceitar, supondo que era uma moeda de prata.
Visitanteirmã, de 20 anos, de Maria Manuel dos Santos, que foi curada
13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaVeio de longe
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
or occasião da ultima apparição de Fatima, a 13 de Outubro de 1917, sua irmã Lucia Maria Anna dos Santos, de 20 annos de edade, que estava a passar o verão no logar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas, em casa de sua prima Amelia Estevão, foi com varias pessoas de familia áquella povoação da serra de Minde e assistiu aos phenomenos maravilhosos que ali se verificaram, pedindo com o maior fervor e na maior afflicção á Santissima Virgem que se dignasse curar a irmã. A cura da irmã era a sua grande preocupação de todos os dias, de todas as horas, de todos os instantes. Era o seu mais ardente desejo, a graça que mais ambicionava, o favor do bem que suplicava com mais vivo empenho e com maior constancia. Já a 13 do mez anterior tinha ido á Fatima e suplicado ardentemente essa graça. Antes desse dia, ainda em setembro, tinha pedido a um primo seu, Julio Netto d'Almeida que não se esquecesse de recomendar a sua intenção ás pastorinhas privilegiadas com as apparições da Virgem. A 13 de Outubro ella propria pediu ás videntes o auxilio de suas orações e prometteu que a irmã iria á Fatima agradecer a sua cura se Nossa Senhora se dignasse favorece-la com essa graça.
Transmitido por: Anna Maria dos Santos, do Caneiro
Seguimos a viagem e quando chegámos á Fatima o Ex.mo Snr. Pedro perguntou pelas pequenas, onde ellas então vinham a sair da escola e depois por mandado da Sn.a professora as meninas chegaram ao pé do carro e falaram com mais pessoas que ali estavam, onde lhe perguntámos com respeito a N. Senhora e ellas afirmaram sempre a mesma cousa, que a viram, ouviram e falaram com ella:
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)
R. A pag. 11 affirmo que a apparição parece não ter mais de 18 annos, porque uma vez a mãe da Lucia, na presença da filha e doutras pessoas, me disse, ao perguntar a edade da visão, que ella parecia ser como uma rapariga do logar de Aljustrel que estava presente e que já tinha completado 17 annos. A pag. 90 declaro ter dito a Lucia que a Visão parecia ter uns 15 annos, porque realmente o disse, embora fosse uma pequena rude e ignorante, apenas com 10 annos de edade, e incapaz de calcular com exactidão a edade de uma pessoa. De resto, a differença entre uns quinze annos e não mais de dezoito annos não é grande e a expressão que emprego a pag. 90 não só não contradiz nem exclue a affirmação da pag. 11 senão que até a completa e permitte uma maior approximação da verda
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (resumindo o inquérito paroquial do Pe. Manuel Marques Ferreira)
O Franc. morreu no dia 4 de abril de 1919. Recebeu os ult. sac. com grande lucidez e piedade E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Vallinho3.
Notas dos editores (1)
3 O Dr. Formigão resume, nas p. 7-19, o processo paroquial de Fátima, seguindo os depoimentos dos videntes e de outras testemunhas até à declaração final do padre Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, sobre o falecimento do Francisco. Não publicamos este resumo, pois o processo foi editado, na íntegra, em DCF, vol. I, Docs. 31-37, p. 245-287.
Transmitido por: Manuel Marques Ferreira (aditamento ao inquérito paroquial)
O Francisco – vidente – faleceu às dez horas da noite, do dia 4 de abril corrente, vitimado por uma prolongada ralação de 5 meses da pneumónica tendo recebido os Sacramentos com grande lucidez e piedade – E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinho.