Testemunhas /

Manuel Gonçalves Júnior

Gente da terra

Proprietário casado, de Montelo (freguesia de Fátima), nascido a 14 de janeiro de 1884 (com 33 anos), filho de Manuel Gonçalves e de Cecília de Jesus; interrogado a 11 de outubro de 1917 pelo Dr. Formigão, que se hospedava em casa da família, foi a segunda testemunha do inquérito paroquial (depoimento de 31 de dezembro de 1918), no qual descreveu o que viu na Cova da Iria de junho a outubro de 1917.

Residência: Montelo, FátimaFreguesia de Fátima (da terra)7 relatos

13 de junho de 1917 1 relato

13 jun.13 jul.13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioNuvem / coluna de fumoCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão

No dia 13 de julho alguns companheiros dele, mal intencionados, embriagaram-no no intuito de o levarem a praticar desatinos no local das aparições. Efetivamente, embora, como sempre, deixasse ir a filha àquele local, mandou retirar o povo. Ele é o proprietário da charneca onde está a carrasqueira que serve de pedestal à Aparição. O povo, vendo-o em estado de embriaguez, não se importou com essa intimação e um homem empurrou-o, fazendo-o cair.

[…]

A princípio o povo não queria ir à Cova da Iria. Ninguém acreditava nas crianças. Em treze de junho, dia da segunda aparição, havia festa na igreja da freguesia em honra de Santo António. Na Cova da Iria estavam apenas, à hora da aparição, umas sessenta pessoas. Os pais do Francisco e da Jacinta tinham ido de manhã cedo para Porto de Mós à feira chamada dos treze, com o fim de comprar bois, e chegaram já de noite. Na sua ausência a residência encheu-se-lhes de gente, que queria ver as crianças e fazer-lhes perguntas. Presentemente uma grande parte do povo julga que as crianças falam verdade. Pela minha parte, estou convencido disso.

[…]

Os sinais são muitos. Em agosto quase todos os que estavam presentes viram esses sinais. Uma nuvem baixou até à carrasqueira. Em julho notou-se o mesmo. Não havia poeira no local. A nuvem empoou os ares, que pareciam enevoados.

– Houve mais algum sinal?

– Veem-se no céu, próximo do sol, umas nuvens brancas que se tornam sucessivamente vermelhas vivas (cor de sangue), cor de rosa e amarelas. O povo torna-se desta última cor. A luz do sol diminui bastante de intensidade.

Sentiu-se também um rumor em julho e em agosto.

[…]

Reza o terço. Quando se dirige à Senhora, fala alto.

Eu próprio a ouvi em junho, porque estava próximo. Algumas pessoas afirmam que ouvem o som das respostas.

10a – O local das aparições é muito frequentado também nos outros dias por pessoas piedosas ou por curiosos?

– É muito frequentado, sobretudo aos domingos. A maior concorrência é à noite. Vão ali muitas pessoas, de longe e de perto, e mais ainda de fora da freguesia. Rezam o terço e entoam cânticos em honra da Virgem.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (4 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

13 de julho de 1917 1 relato

13 jul.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoDescida da temperaturaNuvem / coluna de fumoLuz a diminuirPalavras dos videntes

Manuel Gonçalves Júnior, casado, proprietário, de trinta e quatro anos de idade, natural e morador no lugar do Montelo, desta freguesia de Fátima, sendo interrogado sobre o que sabia relativo aos factos ocorridos na Cova da Iria, disse que no dia treze de julho de mil novecentos e dezassete se dirigiu àquele local, onde estava à hora indicada pelas crianças videntes para a Aparição, e que notou que a essa hora o calor, que era demasiado, começou a abrandar. Nesta ocasião, chegaram as crianças, rezaram o terço com o povo, aplicado pela Lúcia, – não sabendo se foi de iniciativa sua ou se foi a pedido de alguma outra pessoa. Em seguida notou que a mesma Lúcia, estando todos, povo e videntes, de joelhos, começou a falar para a carrasqueira, como quem está a falar com outra pessoa, fazendo perguntas e esperando respostas; mas não percebeu o que dizia, pela distância a que se encontrava. Passado pouco tempo, levanta-se de repente, e de mãos postas aponta para o lado nascente dizendo:

– Querem ver Nossa Senhora?!...

Nesta ocasião, também notou que a certa altura da carrasqueira se formou uma espécie de névoa ou de nuvem, que se foi elevando seguindo para o nascente, chegando a impallidecer o brilho do sol, e desapareceu.

DCF Seleção, Doc. 40 (= DCF I, Doc. 33) · depoimento · 31 dez. 1918 (18 meses depois)DigitalizaçãoLigação

13 de agosto de 1917 1 relato

13 ago.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoTrovão / ruídoA multidãoSol a mudar de cor

Declarou mais que no dia treze de agosto do mesmo ano, pouco depois da hora marcada para a Aparição, quando se comentava o rapto das crianças, notou que houve um forte e inexplicável estrondo, junto à carrasqueira, que atemorizou todo o povo, começando a fugir e a gritar comovidamente, – havendo até algumas síncopes –, e que junto do sol se formou uma nuvem com as cores do Arco-Íris.

DCF Seleção, Doc. 40 (= DCF I, Doc. 33) · depoimento · 31 dez. 1918 (17 meses depois)DigitalizaçãoLigação

13 de setembro de 1917 2 relatos

13 set.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentado«Flores» a cairEstrela / globo luminoso

na occasião passava sobre a Carrasqueira um não sei que de extraordinario, parecendo flores brancas e que outras pessoas tambem notaram tal phenomeno dizendo serem estrellas"),

DCF III-1, Doc. 29 · carta · 31 dez. 1918 (16 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 set.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentado«Flores» a cairEstrela / globo luminosoPalavras dos videntes

Declarou, outrossim, que também no dia treze de setembro do mesmo anno, notara que a Lúcia estava a falar junto à carrasqueira, como quem está falando com outra pessoa, fazendo perguntas e esperando respostas, e que na ocasião passava sobre a carrasqueira um não sei quê de extraordinário, parecendo flores brancas e que as outras pessoas também notaram tal fenómeno, dizendo serem estrelas.

DCF Seleção, Doc. 40 (= DCF I, Doc. 33) · depoimento · 31 dez. 1918 (16 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

13 de outubro de 1917 2 relatos

13 out.Testemunho diretoEm parteDepoimento ajuramentadoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoCores nas pessoas e na paisagemA multidão

Mais disse que em treze de outubro do mesmo ano, à hora marcada pelas crianças para as Aparições, depois de ter cessado a chuva, viu elevar-se por várias vezes, saindo da carrasqueira, uma espécie de fumo, semelhante ao fumo do incenso na ocasião da incensação, ouvindo dizer às pessoas que estavam a seu lado, que era fumo de cigarro ou de fogueira, mas a ele só lhe parecia fumo igual ao da incensação, não lhe constando que naquela ocasião houvesse ali fumadores ou fogueira de espécie alguma.

De olhos sempre fixos na carrasqueira a fim de ver alguma coisa de extraordinário, sem, propositadamente, olhar para o sol, notou que, na mesma ocasião em que o povo estava em altos gritos e exclamações pelo que via no sol, tanto as pessoas como as árvores, e tudo quanto a sua vista atingia na direção da carrasqueira tomou diferentes cores.

DCF Seleção, Doc. 40 (= DCF I, Doc. 33) · depoimento · 31 dez. 1918 (15 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoNuvem / coluna de fumoA chuva a parar

Sobre o mesmo assunto depõe a segunda testemunha, Manuel Gonçalves Júnior, dizendo que “em treze de outubro do referido ano, à hora designada pelas crianças para a aparição, depois de ter cessado a chuva, viu elevar-se por várias vezes, saíndo da carrasqueira, uma espécie de fumo semelhante ao fumo de incenso em ocasião de incensação, ouvindo dizer às pessoas que estavam a seu lado que era fumo de cigarro ou de fogueira, mas a ele só lhe parecia o fumo igual ao da incensação, não lhe constando que naquela ocasião houvesse ali fumadores ou fogueira de qualquer espécie.

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