Acontecimentos /

13 de junho de 1917

Segunda aparição. Algumas dezenas de pessoas a assistir.

Testemunhos diretos 41

O que as próprias testemunhas viram ou ouviram.

13 jun.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Diz a Lúcia que esteve um bocado à espera e durante este tempo esteve a rezar o terço e quando iam para rezar a ladainha disse: não comecem que já não têm tempo, pois estava muita gente, por já ter visto o relâmpago e dirigiu-se à carrasqueira com o povo que estava: ao chegar fez uma vénia dobrando um joelho e ao mesmo tempo chegou a Senhora vindo em linha oblíqua do lado do nascente e fez a pergunta:

– Então o que é que me quer?

– “Quero-te dizer que voltes cá no dia 13 e que aprendas a ler para te dizer o que te quero.”

– Então não quer mais nada?

– Não quero mais.

O traje era: um manto branco que da cabeça chegava ao fundo da saia, era dourado da cintura para baixo dos cordões a atravessar e de alto a baixo e nas orlas era o ouro mais junto. A saia era branca toda e dourada em cordões ao comprido e a atravessar, mas só chegava ao joelho; casaco branco sem ser dourado, tendo nos punhos só dois ou três cordões; não tinha sapatos, tinha meias brancas, sem serem douradas; ao pescoço tinha um cordão de ouro com medalha aos bicos; tinha as mãos erguidas; tinha nas orelhas uns botões muito pequeninos e muito chegados às orelhas; separava as mãos quando falava; tinha os olhos pretos; era de meia altura.

DCF Seleção, Doc. 2 (= DCF I, Doc. 2) · interrogatório · depois de 14 jun. 1917 (1 dia depois)DigitalizaçãoLigação
13 jun.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Logo após o dia treze de junho comparece na minha presença e residência paroquial, a menina Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório da Lúcia, a qual me disse que no dia treze do corrente mês de junho, por cerca da uma hora da tarde, se dirigiu com seus primos Francisco e Jacinta para a Cova da Iria. Chegados lá, rezou o terço, com as pessoas que estavam presentes. Terminado o terço, iam as pessoas para rezar a Ladainha, e ela, que já tinha visto o relâmpago, lhes disse: não comecem que já não têm tempo.

Que vai mais para o pé da carrasqueira e vê chegar a Senhora, vindo do nascente. E lhe pergunta:

– Então o que é que me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que voltes cá nos dias treze e que aprendas a ler para te dizer o que quero.
– Então não me quer mais nada?
– Não te quero mais nada.
E logo se começou a elevar e desapareceu.

DCF Seleção, Doc. 36 (= DCF I, Doc. 31) · documento oficial · jun. 1917 (2 dias depois)Digitalizações (2)Ligação
13 jun.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntesCura

O que foi que disse a Senhora em junho?

– Disse que continuássemos a ir à Cova da Iria e que aprendêssemos a ler.

42a – Disse mais alguma coisa?

– Estava presente um filho do Manuel Carreira, da Moita, aleijadinho das pernas e das costas6. Perguntei à Senhora se o curava, e ela disse que seria curado dentro de um ano. Já se curou pouco a pouco das costas. Perguntei também se a Senhora era servida converter uma mulher da Moita e ela disse que a converteria dentro de um ano7.

43a – Que mais disse a Senhora?

– Não me recordo de mais nada.

Notas dos editores (2)

6 João Carreira. Filho de Manuel Carreira e de Maria Carreira ou Maria dos Santos (Maria da Capelinha). Nasceu a 26 de março de 1901, na Moita. Foi guardião da Capelinha das Aparições. Faleceu, no Santuário de Fátima, no dia 6 de abril de 1975.

7 Deve notar-se que estes pedidos da Lúcia, aqui referidos como tendo sido feitos em junho, aparecem nos primeiros interrogatórios do Pároco de Fátima, em julho. Por outro lado, aqui fala-se de “uma mulher da Moita”, enquanto naqueles se refere “uma mulher de Fátima”.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (5 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 jun.Testemunho diretoViuRecordação posteriorFiguras / visõesPalavras dos videntes

Estava-mos á espera que a Senhora aparece-se junto da carrasqueira, e deu um relampago e a Senhora apareceu em sima da carrasqueira.

Perguntei-lhe o que me queria; a resposta. Quero que continuêm a vir aqui todos os meses, e que aprendam a ler. Pedi-lhe para curar um côcho e algumas pessoas que me tinham pedido; umas duentes outras pela coverção de alguns peccadores. Resposta; Daqui a um ano seram curados. Com isto desapareceu subindo para o lado do nascente e indo tam alta que as nuvens e o azul do céu não nos deixou ver mais. Se êste mez aconteceu mais alguma coisa não me lembro.

DCF III-3, Doc. 685 · documento · 5 jan. 1922 (5 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Inácio António Marques

Gente da terrajovem da Chainça, mais tarde empregado dos correios em Lisboa
13 jun.Testemunho diretoViuRecordação posteriorAtitude céticaA multidãoPalavras dos videntesNuvem / coluna de fumoLuz a diminuirTrovão / ruído

É chegado o dia 13 de junho e eu desejoso por saber o que se passa encaminho-me para o local a fim de me certificar do que há de verdade.

Eram 11 e 3/4 quando chego à dita Cova e encontro ali na expetativa umas 12 pessoas. Dirijo-me a alguém e pergunto: Então onde estão essas crianças que veem aqui Nossa Senhora? E uma voz me responde: espere que ainda não é tarde. Passados momentos, eis aí vêm elas, acompanhadas dum pequeno grupo. Ajoelham-se junto da célebre azinheirinha e principiam a rezar o terço. Conto as pessoas e vejo que estão presentes umas 40. Terminada a ladainha, a Lúcia diz: “Lá vem Ela”, e manda ajoelhar. Principia interrogando e respondendo a alguém que os meus olhos não veem nem os ouvidos ouvem. É a segunda aparição e mais uma vez ali afirma perante o reduzido número de espetadores – porque ainda se lhes não pode chamar crentes – que Ela lhe está dizendo que vem ali todos os meses e que a 13 de outubro será a última vez e então dirá um segredo.

A Lúcia volve o olhar através do espaço como que a acompanhar com a vista alguém que se eleva e como extasiada vai indicando o rumo que ela leva até se perder no Infinito. Eu como descrente quero negar mesmo até tudo que estou vendo, mas contemplando a atmosfera, vejo que tudo se encontra turvado. Parece que duas correntes de ar opostas se vêm encontrar ali levantando uma nuvem de poeira. O tempo escurece e parece-me estar ouvindo um trovão subterrâneo. Sinto que a temperatura é quase sobrenatural e tenho medo de estar ali. Regresso a casa pensando em tal fenómeno e cogitando uma maneira de o interpretar. Minha mãe pergunta-me o que vi, ao que respondi que não sei, mas tenho a certeza que, embora haja mistério, não vem a ser bom. Não quero crer e condeno em toda a parte tal aparição.

Notas dos editores (1)

1 Nasceu a 9 de outubro de 1896, na Chainça. Residia em Lisboa, onde faleceu, a 24 de outubro de 1983.

DCF Seleção, Doc. 72 · depoimento · 23 nov. 1922 (5 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Maria dos Santos

Gente da terramoradora da Moita, mais tarde encarregada das esmolas da Capelinha
13 jun.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntesTrovão / ruídoNuvem / coluna de fumo

No dia treze de junho antes do meio-dia, dirigiu-se ao local das aparições onde não encontrou ninguém. Foi esperar ao caminho as crianças, por ouvir dizer que elas vinham nesse dia. Não as conhecia por serem pequenas, mas conhecia as famílias. Antes da sua chegada, apareceram algumas mulheres de Boleiros, que tiveram que arrostar com a troça das pessoas da sua terra. Juntaram-se todos, vindo com as crianças algumas pessoas do termo de Torres Novas. Seguiram todos até ao local. Ali perguntaram à Lúcia qual era a azinheira sobre a qual tinha aparecido a Senhora e ela indicou-a com a mão. Depois dirigiram-se para a sombra de uma azinheira grande que ficava próxima, onde estiveram algum tempo à espera. Pouco depois, tendo-lhe perguntado se a Senhora tardava muito tempo, respondeu que não. Uma rapariga pediu que rezassem todos a ladainha, declarando a Lúcia que já não havia tempo. Quase ao mesmo tempo levantou-se e disse que lá vinha Nossa Senhora, pois já tinha feito o relâmpago. Correu para o pé da azinheira, ajoelhou-se e todos fizeram como ela. Momentos depois perguntou à Aparição: “Vossemecê mandou-me aqui vir, faça favor de me dizer o que me quer”. Ouviu uma zunida que vinha da azinheira, não compreendendo uma só palavra da resposta. A Lúcia olhava para a azinheira, assim como as outras duas crianças, estando todos de mãos postas. A depoente não compreendeu bem o que ela depois disse à Aparição mas as outras pessoas disseram-lhe que a pequena lhe tinha perguntado se lhe queria mais alguma coisa. Em seguida disse: – “Olhem! Querem-na ver?... Lá vai ela, lá vai ela!” Ouviu-se então uma espécie de assobiar de foguete, quando ganha força para subir. Olhou e viu uma nuvem de fumo elevando-se da azinheira e dirigindo-se e subindo para o nascente, apontando a pequena para ela. Viu-se também muito alta e muito longe. Por fim desapareceu da vista. A nuvem era um nevoeiro muito leve. Fazia sol e muito calor, estando o tempo bastante descoberto.

Antes da aparição, viu os grelos da azinheira viçosos e muito direitos. Depois da aparição os grelos estavam como que inclinados, numa rodinha em cima, para o nascente como se os vestidos os tivessem tombado nessa direção. O povo começou a tirar raminhos da azinheira, recomendando a Lúcia que não tirassem de cima, mas de baixo, tirando então o povo folhas e raminhos da parte de baixo. Fizeram por fim uma pequena devoção antes de se retirarem.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação

Manuel Carreira

Gente da terramarido de Maria dos Santos (Maria da Capelinha), da Moita
13 jun.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntesTrovão / ruídoNuvem / coluna de fumo

No dia treze de junho antes do meio-dia, dirigiu-se ao local das aparições onde não encontrou ninguém. Foi esperar ao caminho as crianças, por ouvir dizer que elas vinham nesse dia. Não as conhecia por serem pequenas, mas conhecia as famílias. Antes da sua chegada, apareceram algumas mulheres de Boleiros, que tiveram que arrostar com a troça das pessoas da sua terra. Juntaram-se todos, vindo com as crianças algumas pessoas do termo de Torres Novas. Seguiram todos até ao local. Ali perguntaram à Lúcia qual era a azinheira sobre a qual tinha aparecido a Senhora e ela indicou-a com a mão. Depois dirigiram-se para a sombra de uma azinheira grande que ficava próxima, onde estiveram algum tempo à espera. Pouco depois, tendo-lhe perguntado se a Senhora tardava muito tempo, respondeu que não. Uma rapariga pediu que rezassem todos a ladainha, declarando a Lúcia que já não havia tempo. Quase ao mesmo tempo levantou-se e disse que lá vinha Nossa Senhora, pois já tinha feito o relâmpago. Correu para o pé da azinheira, ajoelhou-se e todos fizeram como ela. Momentos depois perguntou à Aparição: “Vossemecê mandou-me aqui vir, faça favor de me dizer o que me quer”. Ouviu uma zunida que vinha da azinheira, não compreendendo uma só palavra da resposta. A Lúcia olhava para a azinheira, assim como as outras duas crianças, estando todos de mãos postas. A depoente não compreendeu bem o que ela depois disse à Aparição mas as outras pessoas disseram-lhe que a pequena lhe tinha perguntado se lhe queria mais alguma coisa. Em seguida disse: – “Olhem! Querem-na ver?... Lá vai ela, lá vai ela!” Ouviu-se então uma espécie de assobiar de foguete, quando ganha força para subir. Olhou e viu uma nuvem de fumo elevando-se da azinheira e dirigindo-se e subindo para o nascente, apontando a pequena para ela. Viu-se também muito alta e muito longe. Por fim desapareceu da vista. A nuvem era um nevoeiro muito leve. Fazia sol e muito calor, estando o tempo bastante descoberto.

Antes da aparição, viu os grelos da azinheira viçosos e muito direitos. Depois da aparição os grelos estavam como que inclinados, numa rodinha em cima, para o nascente como se os vestidos os tivessem tombado nessa direção. O povo começou a tirar raminhos da azinheira, recomendando a Lúcia que não tirassem de cima, mas de baixo, tirando então o povo folhas e raminhos da parte de baixo. Fizeram por fim uma pequena devoção antes de se retirarem.

Este depoimento foi confirmado com juramento pelo marido, que chegou ao local das aparições pouco antes da chegada dos três videntes. Esse depoente porém, acrescentou mais nada, digo, não acrescentou mais nada de notável.

13 jun.Testemunho diretoViuRecordação posteriorPalavras dos videntes

O que em 1917 foi confiado a este respeito é o seguinte: Ela pediu para os levar para o céu: a Santíssima Virgem respondeu: sim a Jacinta e o Francisco levo-os em breve, mas tu ficas cá mais algum tempo; Jesus quer servir-se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração; a quem a abraçar prometo a salvação e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por mim a adornar o seu trono. Fico cá sozinha?, disse com tristeza. Não, filha, Eu nunca te deixarei, o meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.

13 jun.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

No dia de Santo António (a 13 de junho). Neste dia houve uma festa na Fátima à qual a mãe da Lúcia (e não sei se também a do Francisco e da Jacinta queria que fossem assistir, mas em obediência ao que lhe tinha recomendado no mês anterior, deixaram a festa para irem ao local da aparição, onde se encontraram com algumas pessoas desconhecidas e apenas umas 3 ou 4 conhecidas. Um pouco mais ou menos pela mesma hora do mês anterior aparece-lhes a mesma visão pela mesma forma e desta vez disse-lhes que continuassem a ir ali nos meses seguintes; que aprendessem a ler; e disse-lhes um segredo, que lhes proibiu revelar fosse a quem fosse. – Dias depois próximo do sítio da aparição andando os três com o seu gado, pensaram em ir rezar o terço no local da aparição, mas para isso era forçoso, ou abandonarem o gado, com perigo de ir danificar as searas próximas, ou um pelo menos ficar em guarda e não ir rezar o terço; resolveram ir todos rezar o terço e abandonar o gado, que imediatamente foi para uma terra de milho, couves, chícharos e outros legumes. Uma mulher que por ali próximo andava, ao ver as ovelhas naquela seara, chama os pastores que não lhe responderam pelo que ela mesma foi virar as ovelhas, que ao voltar as costas imediatamente para lá voltaram. Terminado o terço foram os três para o seu gado, virá-lo do sítio em que andava e observar o prejuízo que tinha causado, mas qual não foi o seu espanto quando viram que nada tinha sido danificado o que foi confirmado pelo próprio dono que sendo-lhe dito que o gado tinha andado na sua fazenda foi ao outro dia para observar o prejuízo que lá tinha, constatando que prejuízo algum lhe tinha causado.

DCF Seleção, Doc. 9 (= DCF I, Doc. 45) · interrogatório · 17 set. 1917 (3 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesTrovão / ruídoPalavras dos videntes

Interrogámos as creanças, para saber como se tinha dado a primeira apparição. Responderam com simplicidade que no dia 13 de Maio, quando na Cova da Iria andavam apascentando o seu rebanho, fez uma grande trovoada. Pensavam em juntar o rebanho e irem-se embora, quando d’um relampago viram apparecer uma Senhora. Amedrontados, quizeram fugir, mas a apparição disse-lhes que não fugissem, pois nenhum mal lhes faria. Antes de começar a trovoada as creanças estavam rezando o seu terço, e a apparição recommendou-lhes que rezassem o terço á Senhora do Rosario, para abrandar a guerra, e que voltassem ali todos os mezes, pois durante seis mezes consecutivos ali viriam. — As creanças voltaram ali em junho e dizem ter-lhes apparecido a Senhora que d’esta vez lhes recommendou que aprendessem a lêr, o que as creanças não fizeram logo, porque não havia nem nunca houve professora na Fatima. Agora, sem que ninguem a reclamasse, apparece nomeada para ali, por dois annos uma professora das escolas moveis, e as creanças começaram já a frequentar a escola com bastante aproveitamento, sobretudo da Lucia.

DCF III-1, Doc. 129 · nota · 19 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 jun.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntesA multidão

Estiveste lá no dia treze do mês seguinte? Respondeu: “No dia treze de junho era festa de Santo António e a minha mãe não tinha muita vontade de me deixar ir à Cova da Iria, porque queria que eu fosse à festa de Santo António, mas algumas pessoas que tiveram conhecimento da Aparição foram buscar-me e à Jacinta e acompanharam-nos até à carrasqueira, aí pela volta do meio-dia. A Jacinta contou à mãe que na Cova da Iria tinha visto uma coisa muito bonita e, por insistência dela, disse-lhe o que foi; eu, só passados oito dias, a uma pergunta da minha mãe, disse o que se tinha passado. Foi assim que se soube.

Quando chegámos junto da carrasqueira, rezámos; e, terminada a oração, vi um relâmpago, estando um dia de muito calor, e a seguir apareceu a Senhora em cima da carrasqueira, vestida da mesma moda. Perguntei-lhe: “O que me quer Vossemecê?” A resposta dela foi: – “Quero que continuem a vir aqui nos outros meses, que rezem o terço todos os dias e que aprendam a ler”. Como me tinham recomendado, pedi à Senhora que curasse um entrevado, e ela respondeu que, se ele se convertesse, ficaria curado dentro dum ano. Depois subiu para o lado do nascente e desapareceu entre as nuvens e o azul do céu”.

– “As pessoas presentes também viram a Senhora?” Respondeu: “O povo perguntou-me e eu disse o que vi, mas não sei se mais alguém viu; depois rezámos o terço, cantámos e fomos para a festa”.

– “Depois dessa Aparição foste visitada por pessoas que te interrogassem sobre ela?”. Respondeu: “Fui visitada por muitas pessoas, e entre elas alguns sacerdotes, que me apertaram com perguntas e me ralharam muito, dizendo-me pessoas da minha família que eu mentia, e a minha mãe chegou a bater-me com o cabo duma vassoura”.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

A Senhora recomendou que rezassem o terço?
– Recomendou.

2a – Quando?
– Quando apareceu pela primeira vez.
3a – Ouviste também o segredo ou foi só a Lúcia que o ouviu?
– Eu também ouvi.
4a – Quando o ouviste?
– Da segunda vez, no dia de Santo António.
5a – Esse segredo é para serem ricos?
– Não é.
6a – É para serem bons e felizes?
– É. É para bem de todos três.
7a – É para irem para o Céu?
– Não é.
8a – Não podes revelar o segredo?
– Não posso.
9a – Porquê?
– Porque a Senhora disse que não disséssemos o segredo a ninguém.
10a – Se o povo soubesse o segredo, ficava triste?
– Ficava.
11a – Como tinha a Senhora as mãos?
– Tinha-as erguidas.
12a – Sempre erguidas?
– Às vezes volta as palmas para o céu.
13a – A Senhora disse em maio que queria que fossem à Cova da Iria mais vezes?
– Disse que queria que fôssemos lá durante seis meses, de mês a mês, até que em outubro dissesse o que queria.
14a – Ela tem na cabeça algum resplendor?
– Tem.
15a – Podes olhar bem para o rosto?
– Não posso, porque faz mal aos olhos.
16a – Ouviste sempre bem o que a Senhora disse?
– Da última vez não ouvi tudo por causa do barulho que o povo fazia.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

No dia 14 de julho de 1917 apareceu na minha presença Jacinta de 7 anos de idade, filha de Manuel Pedro Marto; interrogada sobre a visão, disse:

Que tinha visto uma mulher pequena 4 vezes, uma em sua casa à noite e três na Cova da Iria ao meio dia; diz ser do tamanho da Albina, filha de António Rosa da Casa Velha2; em casa viu-a à borda do alçapão do sótão, não dizendo nada; estava a mãe e irmãos a dormir e era de noite; na Cova da Iria viu-a em pé em cima duma carrasqueira3; vinha vestida com meias brancas e fato todo dourado; não trazia sapatos; a saia era branca e toda dourada e dava-lhe pelos joelhos; o dourado era aos cordões a atravessar e nos cordões aos biquinhos; casaco branco todo dourado; um manto pela cabeça era branco e todo dourado; as mãos erguidas à cintura e abriam, separando-as quando falava à Lúcia; não lhe ouviu dizer nada, ouviu falar (ora diz que sim, ora diz que não), não ouviu dizer quantas vezes cá vinha; à saída abria-se o céu e ficavam os pés entalados e o corpo já escondido; ouviu uma fala muito piedosa e só se lembra de ouvir que a gente (elas) ia para o céu; diz ter visto relâmpago mas ora diz ser uma vez ora mais duma, ora antes, ora depois; trazia umas contas brancas nas mãos, seguras entre o dedo polegar e indicador das duas mãos; não viu brincos; trazia um cordão de ouro delgado ao pescoço.

Notas dos editores (2)

2 Nasceu a 3 de dezembro de 1901. Era filha de António Ferreira Rosa, de Aljustrel, irmão de José Ferreira Rosa (primeiro marido de Olímpia de Jesus, mãe de Francisco e Jacinta) e de Maria Rosa (mãe de Lúcia).

3 A carrasqueira, tantas vezes referida, é uma azinheira nova, de pequeno porte. Azinheira: Quercus rotundifolia, Lam., árvore da família das fagáceas, de copa ampla arredondada e densa, de folhas persistentes, muito coriáceas, pequenas, dentado-espinhosas no estado juvenil, com cinco a oito pares de nervuras. Ao fruto se dá popularmente o nome de “azinha”, “boleta” ou “bolota”.

DCF Seleção, Doc. 3 (= DCF I, Doc. 3) · interrogatório · 14 jul. 1917 (2 meses depois)DigitalizaçãoLigação

Manuel Gonçalves Júnior

Gente da terrafilho do anfitrião de Formigão no Montelo
13 jun.13 jul.13 ago.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioNuvem / coluna de fumoCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão

No dia 13 de julho alguns companheiros dele, mal intencionados, embriagaram-no no intuito de o levarem a praticar desatinos no local das aparições. Efetivamente, embora, como sempre, deixasse ir a filha àquele local, mandou retirar o povo. Ele é o proprietário da charneca onde está a carrasqueira que serve de pedestal à Aparição. O povo, vendo-o em estado de embriaguez, não se importou com essa intimação e um homem empurrou-o, fazendo-o cair.

[…]

A princípio o povo não queria ir à Cova da Iria. Ninguém acreditava nas crianças. Em treze de junho, dia da segunda aparição, havia festa na igreja da freguesia em honra de Santo António. Na Cova da Iria estavam apenas, à hora da aparição, umas sessenta pessoas. Os pais do Francisco e da Jacinta tinham ido de manhã cedo para Porto de Mós à feira chamada dos treze, com o fim de comprar bois, e chegaram já de noite. Na sua ausência a residência encheu-se-lhes de gente, que queria ver as crianças e fazer-lhes perguntas. Presentemente uma grande parte do povo julga que as crianças falam verdade. Pela minha parte, estou convencido disso.

[…]

Os sinais são muitos. Em agosto quase todos os que estavam presentes viram esses sinais. Uma nuvem baixou até à carrasqueira. Em julho notou-se o mesmo. Não havia poeira no local. A nuvem empoou os ares, que pareciam enevoados.

– Houve mais algum sinal?

– Veem-se no céu, próximo do sol, umas nuvens brancas que se tornam sucessivamente vermelhas vivas (cor de sangue), cor de rosa e amarelas. O povo torna-se desta última cor. A luz do sol diminui bastante de intensidade.

Sentiu-se também um rumor em julho e em agosto.

[…]

Reza o terço. Quando se dirige à Senhora, fala alto.

Eu próprio a ouvi em junho, porque estava próximo. Algumas pessoas afirmam que ouvem o som das respostas.

10a – O local das aparições é muito frequentado também nos outros dias por pessoas piedosas ou por curiosos?

– É muito frequentado, sobretudo aos domingos. A maior concorrência é à noite. Vão ali muitas pessoas, de longe e de perto, e mais ainda de fora da freguesia. Rezam o terço e entoam cânticos em honra da Virgem.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (4 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde o mez de Maio ultimo na Cova da Iria no dia treze de cada mez durante o tempo da apparição.

Entre mim e elle estabeleceu-se o curto dialogo que se segue:

- Que é que tens visto na Cova da Iria nos ultimos mezes?
- Tenho visto Nossa Senhora.
- Onde é que ella apparece?
- Em cima de uma carrasqueira.
- Apparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?
- Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e collocar-se sobre a carrasqueira.
- Vem devagar ou depressa?
- Vem sempre depressa.
- Ouves o que ella diz á Lucia?
- Não ouço.
- Fallaste alguma vez com a Senhora? Ella já te dirigiu a palavra?
- Não, nunca lhe perguntei nada; falla só com a Lucia.
- Para quem olha, tambem para ti e para a Jacinta ou só para a Lucia?
- Olha para todos tres; mas olha durante mais tempo para a Lucia.
- Já alguma vez chorou ou se sorriu?
- Nem uma cousa nem outra; está sempre séria.
- Como está vestida?
- Tem um vestido comprido e por cima um manto que lhe cobre a cabeça e desce até á extremidade do vestido.
- Qual é a côr do vestido e do manto?
- É branca, tendo o vestido riscos dourados.
- Qual é a attitude da Senhora?

– É a de quem está a rezar. Tem as mãos postas á altura do peito.

– Traz alguma coisa nas mãos?

– Traz entre a palma e as costas da mão direita umas contas que estão pendentes sobre o vestido.

– E nas orelhas o que tem?

– As orelhas não se vêem, porque estão cobertas com o manto.

– De que côr são as contas?

– São tambem brancas.

– A Senhora é bonita?

– É, sim.

– Mais bonita que aquella menina que tu alli vês?

– Mais.

– Mas ha senhoras muito mais bonitas que aquella menina...

– É mais bonita que qualquer pessoa que eu visse.

DCF III-2, Doc. 414 · notícia de imprensa · 27 set. 1917 (5 meses depois) · também publicado em DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (4)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Concluido o interrogatorio do Francisco, chamei de parte a Jacinta, que andava a brincar na rua com outras creanças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatorio logrando obter della respostas completas e minuciosas como as do irmão.

– Tens visto Nossa Senhora no dia treze de cada mez desde Maio para cá?

– Tenho visto.

– Donde é que ella vem?

– Vem do Ceu, do lado do sol.

– Como está vestida?

– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça um manto tambem branco.

– De que côr são os cabelos?

– Não se lhe vêem os cabelos, que estão cobertos com o manto.

– Traz brincos nas orelhas?

– Não sei, porque tambem não se lhe vêem as orelhas

– Qual é a posição das mãos?

– As mãos estão postas á altura do peito, com os dedos voltados para cima.

– As contas estão na mão direita ou na esquerda?

A esta pergunta a creança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a uma insistencia propositada e capciosa da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia á mão que a Apparição segurava o rosario.

– O que foi que Nossa Senhora recommendou á Lucia com mais empenho?

– Mandou que rezassemos o terço todos os dias.

– E tu reza-lo?

– Rezo-o todos os dias com o Francisco e com a Lucia.

DCF III-2, Doc. 414 · notícia de imprensa · 27 set. 1917 (5 meses depois) · também publicado em DCF Seleção, Anexo (Os episódios maravilhosos de Fátima, 1921)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Que é que tens visto na Cova da Iria nos últimos meses?
- Tenho visto Nossa Senhora.
- Onde aparece ela?
- Em cima duma carrasqueira
- Aparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?

– Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e colocar-se sobre a carrasqueira.

– Vem devagar ou depressa?

– Vem sempre depressa.

– Ouves o que ela diz à Lúcia?

– Não ouço.

– Falaste alguma vez com a Senhora? Ela já te dirigiu a palavra?

– Não, nunca lhe perguntei nada; fala só com a Lúcia.

– Para quem olha ela, também para ti e para a Jacinta, ou só para a Lúcia?

– Olha para todos três; mas olha durante mais tempo para a Lúcia.

Notas dos editores (1)

3 Nasceu em Aljustrel a 31 de maio de 1869. Casou com José Ferreira da Rosa, a 6 de fevereiro de 1888, ficando viúva em 1895. Deste matrimónio nasceram dois filhos, António Ferreira Rosa e Manuel Ferreira Rosa. A 11 de fevereiro de 1898, casou com Manuel Pedro Marto. Faleceu, em Aljustrel, a 3 de abril de 1957.

DCF Seleção, Doc. 10 (= DCF I, Doc. 7) · interrogatório · 27 set. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Tens visto Nossa Senhora no dia 13 de cada mês desde maio para cá?

– Tenho visto.

– Donde é que ela vem?

– Vem do Céu, do lado do sol.

– Como está vestida?

– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça tem um manto, também branco. Em volta da cintura há uma fita doirada que desce até à orla do vestido.

– Usa botas ou sapatos?

– Não usa botas nem sapatos.

– Então tem só meias?

– Parece que tem meias, mas talvez os pés sejam tão brancos que pareçam trazer meias calçadas.

– De que cor são os cabelos?

– Não se lhe veem os cabelos, que estão cobertos com o manto.

– Traz brincos nas orelhas?

– Não sei, porque não se lhe veem também as orelhas.

– Qual é a posição das mãos?

– As mãos estão postas sobre o peito, com os dedos voltados para cima.

– As contas estão na mão direita ou na mão esquerda?

– .....

A esta pergunta a criança responde primeiro que estavam na mão direita, mas em seguida, devido a insistência da minha parte, mostra-se perplexa e confusa, não sabendo precisar bem qual das suas mãos correspondia à mão com que a Senhora segurava o Rosário.

- O que é que a Senhora recomendou à Lúcia com mais empenho?
- Mandou que rezássemos o terço todos os dias.
- E tu reza-lo?
- Rezo-o todos os dias com o Francisco e a Lúcia.

DCF Seleção, Doc. 10 (= DCF I, Doc. 7) · interrogatório · 27 set. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria?

– É verdade.

– Quantas vezes te apareceu já?

– Cinco vezes, sendo uma cada mês.

– Em que dia do mês?

– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo sr. administrador. Nesse mês vi-a só alguns dias depois, a dezanove, no sítio dos Valinhos.

– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há de verdade a este respeito?

– O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano); nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não era exato.

[…]

Donde é que ela vem? Das bandas do nascente?
- Não sei; não a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a carrasqueira, e quando se retira é que toma a direção donde nasce o sol.
- Quanto tempo se demora? Muito ou pouco?
- Pouco tempo.
- O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Avé Maria, ou mais?
- Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo (talvez não chegasse para rezar o terço).
- Da primeira vez que a viste não ficaste assustada?
- Fiquei, e tanto assim que quis fugir, com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que não tivéssemos medo, porque não nos faria mal. Disse: “não tenham medo que eu não vos faço mal.”
- Como é que está vestida?
- Tem um vestido branco, que desce até um pouco abaixo do meio da perna, e cobre-lhe a cabeça um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido.
- O vestido não tem enfeites?
- Veem-se nele, na parte anterior, dois cordões dourados, que descem do pescoço e se reunem por uma borla, também dourada, à altura do meio do corpo.
- Tem algum cinto ou alguma fita?
- Não tem.
- Usa brincos nas orelhas?
- Usa umas argolas pequenas e de cor amarela.
- Qual das mãos segura as contas?
- A mão direita.
- Eram um terço ou um rosário?
- Não reparei bem.
- Terminavam por uma cruz?
- Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas também brancas. A cadeia era também branca.
- Perguntaste-lhe alguma vez quem era?
- Perguntei, mas declarou que só o diria a 13 de outubro.
- Não lhe perguntaste de onde vinha?
- Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do Céu.
- E quando foi que lhe fizeste essa pergunta?
- Da segunda vez, a treze de junho.
- Sorriu-se alguma vez ou mostrou-se triste?

- Nunca se sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria.
- Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas orações?
- Recomendou-nos que rezássemos o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário, a fim de se alcançar a paz para o mundo.
- Mostrou desejos de que no dia treze de cada mês estivessem presentes muitas pessoas na Cova da Iria?
- Não disse nada a esse respeito.
- É certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse?
- É certo.
- Diz respeito só a ti ou também aos teus companheiros?
- A todos três.
- Não o podes manifestar ao menos ao teu confessor?
(A esta pergunta guardou silêncio, parecendo um tanto enleada e julguei não dever insistir, repetindo a pergunta).
- Consta que, para te veres livre das importunações do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o não era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: é verdade?
- Não é; o sr. administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o sr. administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado também o segredo. Não o quis enganar.
- A Senhora mandou que aprendesses a ler?
- Mandou, sim, da segunda vez que apareceu.
- Mas se a Senhora disse que te levaria para o Céu no mês de outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler?
- Não é verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa.
- O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao pé da carrasqueira?
- Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova.
- Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?
- Não sei: ela não o disse.

- Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?
- Estou.
- No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só?
- Vem também S. José com o menino, e será concedida a paz ao mundo.
- E fez mais alguma revelação?
- Declarou que no dia 13 fará com que todo o povo acredite que ela realmente aparece.
- Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?
- É que ela às vezes cega.
- Ensinou-te alguma oração?
- Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário.
- Sabes de cor essa oração?
- Sei.
- Diz lá...
- Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem10.

Notas dos editores (1)

10 O Dr. Formigão fez um apontamento, possivelmente na mesma data, em que escreveu: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, e aquelas que mais precisarem. Para se recitar depois de cada mistério do rosário. Posteriormente, o Dr. Formigão acrescentou: e aliviai as almas do Purgatório, principalmente as mais abandonadas.

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Disseste-me há dias que Nossa Senhora queria que o dinheiro oferecido pelo povo fosse levado para a igreja da freguesia em dois andores. Como é que arranjam os andores e quando é que eles devem ser levados para a igreja?

– Os andores compram-se com o dinheiro oferecido e serão levados nas festas da Senhora do Rosário.

2a – Sabes com certeza em que sítio é que Nossa Senhora deseja que seja edificada uma capela em sua honra?

– Não sei ao certo, mas julgo que Ela quer a capela na Cova da Iria.

3a – O que é que Ela disse que havia de fazer para que todo o povo acreditasse que ela aparecia?

– Disse que havia de fazer um milagre.

4a – Quando foi que ela disse isso?

– Disse-o umas poucas de vezes, mas só uma vez, na ocasião da primeira aparição é que lhe fiz essa pergunta.

5a – Não tens medo de que o povo te faça mal se não vir nada de extraordinário nesse dia?

– Não tenho medo nenhum.

6a – Sentes dentro de ti alguma coisa, alguma força que te arraste para a Cova da Iria no dia 13 de cada mês?

– Sinto vontade de lá ir e ficava triste se não fosse.

7a – Viste alguma vez a Senhora benzer-se, rezar ou desfiar as contas do Rosário?

– Não vi.

8a – Mandou-te rezar?

– Mandou-me rezar umas poucas de vezes.

9a – Disse-te que rezasses pela conversão dos pecadores?

– Não disse; mandou-me só rezar a Nossa Senhora do Rosário para que acabasse a guerra.

10a – Viste os sinais que outras pessoas dizem ter visto, como uma estrela, rosas a despregarem-se do vestido da Senhora, etc.?

– Não vi a estrela nem outros sinais extraordinários.

11a – Ouviste algum rumor, trovão ou tremor de terra?

– Nunca ouvi.

12a – Sabes ler?

– Não sei.

13a – Andas a aprender a ler?

– Não ando.

14a – Como cumpres então a ordem que a Senhora te deu nesse sentido?

!.....

15a – Quando dizes ao povo que ajoelhe e reze, é a Senhora que manda que o digas?

– Não é a Senhora que manda, sou eu que quero.

16a – Sempre que ela aparece, tu ajoelhas?

- Às vezes fico de pé, outras vezes ajoelho-me.
16a – Quando fala, a sua voz é doce e agradável?
– É.
17a – Que idade parece ter a Senhora?
– Parece ter uns quinze anos.
18a – De que cor é o cadeado do rosário?
– É branco.
19a – E a do crucifixo?
– O crucifixo também é branco.
20a – O véu cobre a testa da Senhora?
– Não cobre. Vê-se-lhe a testa bem.
21a – O esplendor que a envolve é bonito?
– É mais bonito que a luz do sol e muito brilhante.
22a – A Senhora nunca te saudou com a cabeça ou com as mãos?
– Nunca.
23a – Nunca se sorriu para ti?
– Também não.
24a – Costuma olhar para o povo?
– Nunca a vi olhar para ele.
25a – Ouves as conversas, rumores e gritos do povo, durante o tempo que vês a Senhora?
– Não ouço.
26a – A Senhora pediu-te em maio que voltasses todos os meses até outubro à Cova da Iria?
– Disse que voltássemos lá de mês a mês durante seis meses, no dia 13.
27a – Ouviste ler a tua mãe o livro chamado “Missão abreviada” onde se conta a história da aparição de Nossa Senhora a um menino e uma menina?
– Ouvi.
28a – Pensavas muitas vezes nessa história e falavas dela a outras crianças?
– Não pensava nessa história nem a contei a ninguém.

Notas dos editores (4)

6 Manuel Gonçalves da Silva, residente em Aljustrel, casado com Maria dos Prazeres.

7 Pode tratar-se de Manuel Henriques, nascido em 1850, casado com Maria Violante, então residente em Fátima, ou de seu filho, também Manuel Henriques, nascido a 15 de fevereiro de 1891, que veio a casar com Maria dos Anjos.

8 Filho de António Carreira Ribeiro e de Rosa de Jesus Ribeiro. Nasceu na Moita do Martinho, freguesia de S. Mamede, concelho da Batalha, a 19 de novembro de 1865. Casou com Maria da Cunha. Faleceu a 18 de janeiro de 1919. No Rol dos Confessados de 1917, não consta nenhum Francisco Rodrigues, mas sim Francisco Ribeiro. Deve tratar-se de um lapso do autor.

5 Anastácio Vieira, de Aljustrel. Padrinho de batismo de Lúcia, casado, a 29 de novembro de 1882, com Teresa de Jesus, tia paterna e madrinha de batismo de António dos Santos, pai de Lúcia.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (3)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Que idade é que tens?
– Tenho nove anos feitos.
2a – Só vês a Senhora ou ouves também o que Ela diz?
– Só a vejo, não ouço nada do que Ela diz.
4a – Tem algum clarão em volta da cabeça?

- Tem.
5a – Podes olhar bem para a cara dela?
- Posso olhar, mas pouco, por causa da luz.
6a – Tem alguns enfeites no vestido?
- Tem uns cordões de ouro.
7a – De que cor é o crucifixo do rosário?
- É branco.
8a – E a cadeia do rosário?
- Também é branca.
9a – O povo ficava triste se soubesse o segredo?
- Ficava.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Jacinto de Sousa Bento

Gente da terrahomem de Assentiz
13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuNotaNuvem / coluna de fumoLuz a diminuirDescida da temperaturaTrovão / ruídoPalavras dos videntesA multidão

Cerca da Fátima ou Aljustrel, Cova da Iria, ao lado de Aljustrel, [perto] da estrada [de] macadame, ao lado do norte. Casos presenciados por mim. No dia 13 de Junho fui lá a primeira vez, à qual não fui a tempo ao acto, mas falei com as pequenas no adro da Fátima. Interroguei-as atentamente e vi nelas o que me pareceu impossível não ser verdade. Desde essa hora fiquei crente que era a Virgem Santíssima que ali vinha. No dia 13 de Julho compareci também. À hora da aparição [via-se] uma nevoazinha. O sol perdeu a força deixando de fazer calor, o que até ali fazia muito. E muita gente disse que, quando a aparição falava, ouviam-na mas não

[…]

presenciavam [percebiam] o que Ela dizia. Eu só ouvi quando a Lúcia disse: lá vai Ela! Ouvi no ar um rugido. Parecia o princípio de um trovão. No dia 13 de Agosto compareci também. As meninas e o menino foram presos. Estava muita gente. Às mesmas horas da aparição os astros e o sol representaram o mesmo das outras vezes; e um sinal extraordinaríssimo nos astros. No dia 13 de Setembro compareci também. O sol e os astros fizeram a mesma figura. O povo entusiasmado a olhar para o ar, dizendo uns que viam estrelas, outros que viam uma pomba, outros que viam estrelas a correr e andorinhas a acompanhar. Era um entusiasmo em todos. Ainda outros que viam flores a cair. No dia 13 de Outubro choveu quase toda a manhã. À hora próxima à aparição deixou de chover. Os factos extraordinários que se deram no sol! Toda a gente presenciou: quem tinha os olhos abertos; quem os fechou não viu nada. E talvez houvesse quem visse e dissesse que não viu para não dar honras à Mãe do Céu. Haja o equívoco que houver com respeito à guerra, os [factos] extraordinários que lá houve são inegáveis.

DCF III-1, Doc. 77 · nota · depois de 13 out. 1917 (4 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

A ser certa a visão, haveria uma certa differença entre a maneira como ella se revelava a cada creança. Assim, a mais velha Lucia, era de certo a mais priveligiada, via, ouvia e fallava com a apparição, fazendo-lhe pedidos e perguntas, e obtendo respostas. A mais novita, Jacintha, via e ouvia a Senhora mas nunca lhe fallou, nem Esta se lhe dirigio directamente. O rapazito, Francisco, via a Senhora, mas nunca a ouvio fallar nem sequer a vio mecher os labios, e nunca A vio tão distinctamente como em 13 de Outubro.

[…]

Lá foram as creanças na sua piedosa romaria todos os dias 13 de cada mez á Cova da Iria, excepto em Agosto, em que foram presas. Dizem que viram sempre a Senhora, que a Lucia fallou sempre com Ella, que lhe pedio algumas curas e conversões; que a Senhora lhe prometteu, curar e converter uns, outros não. Que lhes recommendou sempre que rezassem o terço, e lhes disse que queria n’aquelle sitio uma Capellinha dedicada á Senhora do Rosario.

[…]

s creanças descrevem a apparição, como sendo uma Senhora

muito linda, a mais linda que tivessem visto, (palavras textuaes) de mãos erguidas para o Ceu, toda vestida de branco e ouro, tendo pendente do braço direito um terço todo branco.

Uma vez, a Lucia perguntou á Senhora: “De onde é Vocemecê e para onde vae?” e diz que a Senhora lhe respondeu: “Sou do Céu e vou para o Céu”. E perguntando-lhe a Lucia se ella, a Jacintha e o Francisco tambem irião para o Céu, que a Senhora lhe respondera que ella e a Jacintha irião, e que o Francisco tambem iria, mas teria de rezar mais o terço. Desde então o pequeno, tem por vezes rezado dez terços por dia!

DCF III-1, Doc. 129 · nota · 19 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (4)Ligação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe de Lúcia
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioAtitude céticaa 2 kmA multidão

Como soube que a Senhora apareceu à sua filha da primeira vez? Foi ela que lhe contou?

– Tive conhecimento desse facto pela família das outras crianças, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros a não dizerem nada com receio de que lhes ralhassem. Só depois de interrogada por mim é que disse o que tinha visto.

3a – Nunca repreendeu sua filha por ir à Cova da Iria? Deu-lhe sempre inteira liberdade de lá ir, no dia 13 de cada mês?

– Nunca a proibi de ir a esse sítio. Umas vezes perguntava-lhe se queria ir e ela respondia afirmativamente, outras vezes ela mesma dizia que ia, se eu lhe desse licença.

4a – As três crianças costumam ir sozinhas ao local das aparições ou vão acompanhadas de outras crianças?

– Vão sós. Quase sempre vão também outras crianças, mas acompanhadas dos pais e ficam ao pé deles, não se juntam com a Lúcia e os primos dela.

5a – As crianças guardavam gado? A quem é que ele pertencia?

– A Lúcia guardava um pequeno rebanho de ovelhas e os primos outro. Pertenciam esses rebanhos às respetivas famílias. Às vezes juntavam o gado, mas unicamente porque queriam. As ovelhas que a Lúcia guardava, já as vendi.

6a – Como é que as crianças têm ido vestidas?

– Da primeira vez iam mal arranjadas, como andam quase sempre os pastores. Das outras vezes, no dia 13 de cada mês, vão vestidas de fato claro e levam um lenço branco na cabeça.

[…]

Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituissem aos pais?

– Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas a casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima.

11a – Tem vindo muita gente ver sua filha?

– Tem vindo muita gente quase todos os dias.

DCF Seleção, Doc. 11 (= DCF I, Doc. 12) · interrogatório · 11 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesLuz a diminuir

Antes de cada aparição vias algum relâmpago?

– Às vezes via um, outras vezes via dois. Os ares estavam turvos, como de trovoada.

29a – Da primeira vez que a Senhora te apareceu o céu estava sem nuvens?

– Não me recordo se havia nuvens.

30a – Quando a Senhora te apareceu da 1a vez o que é que estavas a fazer?

– Rezei o terço antes dela vir.

31a – Quando sucedeu a primeira aparição ajoelhaste-te ou ficaste de pé?

– Da primeira vez fiquei de pé.

32a – A Senhora vinha sempre envolta num esplendor?

– Vinha.

– De que côr era esse esplendor?

– Era muito claro, muito branco.

33a – O esplendor aparecia primeiro que a Senhora?

– Aparecia quase ao mesmo tempo que a Senhora.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (6 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Sento-me ao pé dele e começo a minha conversa: “Viste Nossa Senhora?” — “Vi”. “Como vinha vestida?” — “Toda de branco e oiro.” “E não trazia nada de côr?” — “Não”. “E na cabeça?” — “Um manto.” “E mais nada?” — “Sim, trazia uma coisa.” “O quê?” — “Não sei, uma coisa.” “E via-se o cabelo?” — “Não”. “E os olhos de que côr eram?” — “Eram pretos.” Estas respostas eram dadas com um ar de uma naturalidade enorme, um pouco arrastadas. Todas as três crianças com quem falei separadamente, mudam de tom descrevendo o olhar de N. Senhora. Vê-se que foi o que mais as impressionou.

DCF III-2, Doc. 370 · carta · 13 mai. 1918 (12 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

A Lucia diz dos olhos: “Eram muito escuros.” “E o fato?” — “Branco e oiro.”

“Com cinto de côr?” — “Não, com estrelas de oiro; olhe, tinha uma no peito.” “E na cabeça?” — “Um manto e uma coisa, assim...” “Mas o quê?” — “Não sei, era assim um açafatico” (um açafatesinho). Eu nem disse a palavra corôa que me veio logo á ideia; deixar a pequena explicar-se como sabe e confesso que achei de apetite a comparação. “E via-se o cabelo?” — “Não.” “Olha, N. Senhora estava a rir-se, alegre?” — “Não, estava séria.” “Zangada?” — “Não, séria.” “Trazia as contas, não trazia?” — “Sim, umas contas brancas e quando falava abria as mãos, assim...” A pequena tirou as contas da algibeira e explicou o que tinha visto: A certa altura diz-me que N. Senhora tinha muita luz. “Como o sol?” — “Mais do que o sol.” Uma senhora que ali estava, diz-lhe: “Porque tiveste medo ao principio? Se eu te aparecesse, tu não fugias.” — “É que a senhora não me cegava.” Diz que N. Senhora pede ao povo que se emende, que reze muito o terço e faça uma capela a N. Senhora do Rosario. A pequena repete muitas vezes: “O povo não se emenda, o povo não se emenda...”

DCF III-2, Doc. 370 · carta · 13 mai. 1918 (12 meses depois)Digitalizações (4)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuRecordação posteriorFiguras / visões

O vestido de Nossa Senhora era destas cores; o vestido era todo branco; tinha dos estrelas da cinta para baixo uma na direção da outra; ao pescosso um cordão com uma bola chegava até á cinta; as mãos postas, e delas caia umas contas não sei se era Rosario se era Terço branco com um cruxifixo tambem branco. O manto cobria-lhe a cabeça até ao fim do vestido. tinha uma beirinha doirada; os pés não sei se tinha maias se vinha descalços, porque eu não lhe defrençava os dedos, era porcausa da luz que me não deixava fitalos tudo em vol[ta] dela era uma luz tam brilhante e tam forte que me não deixava ver como eu queria porque parecia cegar-me.

Paresseme que já disse quase tudo se me falta alguma coisa duque ela disse para escrever não me lembro.

DCF III-3, Doc. 685 · documento · 5 jan. 1922 (5 anos depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

Os teus primos falaram alguma vez com a Senhora?”. Respondeu: “Nunca falaram; uma vez combinámos que a Jacinta lhe falasse, mas, chegando lá, a Jacinta não disse nada.”

– “O semblante da Senhora era risonho?”. Respondeu: “Era triste; quando falava, abria as mãos que estavam juntas e erguidas de encontro ao peito”.

[…]

Tens a certeza de que viste realmente uma Senhora em cima da carrasqueira e de que não te enganaste?”. Respondeu: “Tenho a certeza de que a vi e de que não me enganei; ainda que me matassem, ninguém me faria dizer o contrário.

– “E quem era essa Senhora?”. Respondeu: “Antes de ela dizer que era a Senhora do Rosário, não sabia quem era; agora estou convencida de que era Nossa Senhora”.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Outros de 1917Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador do concelho, mas que nesse mês A viu no domingo seguinte – dia dezanove – no sítio chamado Valinho, onde foi chamada por seu irmão João, a pedido da Lúcia.

Disse que viu uma Senhora muito bonita, toda vestida de branco, com fato dourado aos cordõezinhos, com um véu ou manto pela cabeça, do tamanho de F. – indica uma rapariga de regular estatura e dos seus catorze anos – e que trazia umas contas muito branquinhas penduradas nas mãos e seguras entre os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, que tinha erguidas à cintura, e que separava uma da outra, pouco mais ou menos à largura dos ombros, quando falava à Lúcia.

Quando Ela falava para a Lúcia, que ouvia uma voz muito piedosa, mas que não se lembra de ouvir dizer, senão que a gente – elas videntes – ia para o Céu. Pelas várias vezes que a interroguei nunca se contradisse no essencial, havendo todavia coisas acidentais, algumas contradições, verdadeiras ou aparentes. Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:

– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.

Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:

– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.

Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:

– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!

Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.

Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta. A respeito do segredo também não consegui que me o revelasse; apenas disse que ele – segredo – não era mau para elas, videntes. Disse mais, que a Senhora lhe apareceu mais três vezes: uma no dia da Ascensão do Senhor na Igreja durante a missa e que lhe ensinou a rezar as contas; outra vez, à noite, sobre o alçapão do sótão estando a família a dormir; e mais uma, debaixo (ou salvo erro em cima) duma mesa, sem nada lhe dizer, até que ela, Jacinta, disse para a mãe: Olhe... não vê a Senhora, que lá vi em cima, ali debaixo?!... Olhe!!! Como a própria mãe me declarou.

13 jun.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes

Quando foi que perguntaste à Senhora o que é que fazia para que o povo acreditasse que era ela que te aparecia?

– Perguntei-lhe umas poucas de vezes; a primeira vez que perguntei cuido que foi em junho.

61a – Quando te disse o segredo?

– Parece-me que foi da 2a vez.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (5 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 jun.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes

Que disse a Senhora da segunda vez, em junho?

– A Lúcia disse: O que me quer? A senhora respondeu: quero que aprendam a ler.

5a – A Lúcia fez mais alguma pergunta?

– Pediu pelos doentes e pecadores e a Senhora disse que melhorava uns e os convertia, outros não.

6a – A Senhora disse mais alguma coisa?

– Naquele dia não disse mais nada.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (5 meses depois)DigitalizaçãoLigação

Maria Rosa dos Santos

Família dos videntesGente da terramãe da vidente Lúcia
13 jun.Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaa 2 kmA multidão

Mas logo se ajuntou gente no dia treze de junho para a acompanhar e por isso não foi. Nesse dia, entre as pessoas que a acompanhavam estavam duas mulheres de Boleiros. Deixou ir a filha. Vestiu-a melhor porque ia dali para a festa de Santo António na igreja paroquial. A mãe foi para a festa para ouvir a missa. No caminho encontrou um grupo de cinco ou seis pessoas que iam de Fátima para Aljustrel. Julgando que queriam ir à festa, disse-lhes: “Os senhores estão enganados, a festa é para ali”. “Nós não vimos para a festa”, retorquiram eles, “vimos em cata de três crianças que dizem ter visto Nossa Senhora”. Admirou-se da resposta e perguntou-lhes de onde eram. Disseram que eram dos Carrascos. Não lhes confessou que era a mãe de uma das crianças. Eles perguntaram onde estavam as crianças.

Respondeu-lhes que estavam em Aljustrel e seguiu para a Missa. Ia cada vez mais pensativa, julgando que fazia mal em não ir ao local das aparições, porque podiam bater nas crianças por mentirem, mas não queria passar pela vergonha a que se expunha se não houvesse nada. As crianças, logo que tudo acabou, foram ter à Fátima. Quando saíam da missa já lá estavam, vendo-se muita gente em roda delas.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntesA multidão

33 - A Senhora disse a que horas vinha e os dias?

33 - Que vinha ao meio dia.

34 - Da 2ª vez foi gente assistir? O que viram?

34 - Foram umas 50 pessoas.

35 - Da 2ª

Da 3ª

Da 4ª

Da 5ª

[...]

36 - O que queria a Senhora? Disse a que vinha?

36 - Nunca ouviu dizer à Senhora a que vinha. A Senhora falava devagar.

DCF Seleção, Doc. 15 (= DCF I, Doc. 46) · interrogatório · 19 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

José Alves

Gente da terramorador da Moita, de 58 anos
13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoNão viu nadaDepoimento ajuramentadoAtitude cética

Quase todos os meses José Alves foi lá no dia treze depois de maio e não viu nada, só ouvia dizer aos outros que viam coisas no céu. Não ouviu o estrondo em agosto. Ouvia dizer muitas vezes que aparecia um fumozinho.

DCF Seleção, Doc. 80 (= DCF II, Doc. 4) · interrogatório · 28 set. 1923 (6 anos depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes

33 - Nunca disse a que horas vinha mas nós íamos lá àquelas horas.

[37]4

[37-] A Senhora disse-lhe um segredo mas ela não o revelará.

Notas dos editores (1)

4 Quase certamente, o autor dispensou-se de fazer as perguntas nº 34 a 36. Tal como no interrogatório anterior, o Pe. Lacerda também aqui continuou a conversa com a Lúcia, de que resultaram as duas respostas seguintes.

DCF Seleção, Doc. 15 (= DCF I, Doc. 46) · interrogatório · 19 out. 1917 (5 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visões

O que a Senhora trazia nos pés eram meias? Tens a certeza disso?

– Cuido que eram meias, mas podiam não ser.

4ª – Tu nunca disseste o segredo, nem mesmo disseste que o povo ficava triste se o soubesse. O Francisco e a Jacinta dizem que ficava triste. Se tu não podes dizer isso, também eles o não podiam dizer. Que te parece?

– Não sei se eles deviam ou não dizer, que o povo ficava triste. Nossa Senhora disse que não devíamos dizer nada a ninguém. Por isso não posso dizer nada.

2a – Tu disseste uma vez que a Senhora tinha meias brancas. Então eram as meias ou eram os pés?

– Se eram meias, eram brancas, mas eu não sei ao certo se eram meias ou se eram os pés.

3a – A saia era sempre do mesmo comprimento?

– A saia da última vez parecia mais comprida.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 2 nov. 1917 (6 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioPalavras dos videntes

Quando foi que a Senhora te ensinou a oração que devias rezar depois de cada mistério?

– Parece-me que foi no terceiro mês.

2a – Quantas foram as pessoas que a Senhora prometeu curar e converter?

– Eu pedi por muitas e ela disse que curava e convertia umas, outras não.

3a – Quantas vezes lhe fizeste esse pedido?

– Parece-me que foi cinco vezes, ora por umas pessoas, ora por outras.

DCF Seleção, Doc. 22 (= DCF I, Doc. 17) · interrogatório · 3 nov. 1917 (6 meses depois)DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Algumas vezes e em diversas ocasiões interroguei o Francisco e sempre me disse que viu uma Senhora muito bonita na Cova da Iria e no Valinho nos mesmos dias que suas companheiras tinham indicado e que vinha vestida de branco, mas que não A ouvia falar. A respeito do segredo nada consegui que me revelasse. Dizendo-lhe eu que, não ouvindo ele a Senhora, não tinha segredo algum, respondeu que sim, tem, que lhe disse a Lúcia. Disse-lhe que, como foi a Lúcia que o disse, podia-me dizer, porque não é segredo nem Nossa Senhora lhe disse que o não dissesse, respondeu: não digo, que é pecado, que a Lúcia disse que o não dissesse eu, por isso não digo.

Testemunhos indiretos 16

O que uma testemunha contou a outra pessoa, tal como essa pessoa o relatou.

13 jun.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria dos Santos (Maria da Capelinha, da Moita), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Ali perguntaram à Lúcia qual era a azinheira sobre a qual tinha aparecido a Senhora e ela indicou-a com a mão. Depois dirigiram-se para a sombra de uma azinheira grande que ficava próxima, onde estiveram algum tempo à espera. Pouco depois, tendo-lhe perguntado se a Senhora tardava muito tempo, respondeu que não. Uma rapariga pediu que rezassem todos a ladainha, declarando a Lúcia que já não havia tempo. Quase ao mesmo tempo levantou-se e disse que lá vinha Nossa Senhora, pois já tinha feito o relâmpago. Correu para o pé da azinheira, ajoelhou-se e todos fizeram como ela. Momentos depois perguntou à Aparição: “Vossemecê mandou-me aqui vir, faça favor de me dizer o que me quer”. Ouviu uma zunida que vinha da azinheira, não compreendendo uma só palavra da resposta. A Lúcia olhava para a azinheira, assim como as outras duas crianças, estando todos de mãos postas. A depoente não compreendeu bem o que ela depois disse à Aparição mas as outras pessoas disseram-lhe que a pequena lhe tinha perguntado se lhe queria mais alguma coisa. Em seguida disse: – “Olhem! Querem-na ver?... Lá vai ela, lá vai ela!”

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Carlos de Azevedo Mendes

Como te disse examinei ou antes interroguei os três em separado. Todos dizem o mesmo sem a mais leve alteração. A base principal, que de tudo o que me dizem, eu deduzi é “– que a aparição quer que se espalhe a devoção do Terço –”. Todos os pequenos dizem sempre, que, quem lhes aparece, é a Senhora. Não sabem quem é... Só depois das 6 vezes, no dia 13 de Outubro, lhes diz quem é e o que quer!!... A naturalidade e ingenuidade, com que falam e contam o que viram é admirável e impressionante.

A Lúcia vê a Senhora, fala com ela e ouve-a. A Jacinta vê a Senhora, ouve-a, mas não fala com Ela. O Francisco vê a Senhora, mas não lhe fala, nem a ouve!!!... É interessante esta diferença, não achas Prazeres??... Mas além de interessante tem até mesmo muito de extraordinário!!... Ouvir as petizas, vê-las na sua simplicidade, examinar-lhes o seu todo, impressiona-nos de uma maneira extraordinária, e leva-me a concluir, que em tudo o que me dizem, alguma coisa existe de sobrenatural. Estar com elas choca-nos com uma forte intensidade... Hoje, Prazeres, é convicção minha que há um facto extraordinário, que a nossa razão não alcança. Qual?... Com ansiedade mais crescente ainda espero o próximo dia 13. O que é certo, é que nos sentimos bem junto das pequenas e chegamos a perder a noção do tempo. Há uma atração, que não sei como explicar... Uma das impressões mais intensas das crianças é a da beleza da Senhora. O rapaz para exprimir a sua admiração dizia-me que era “muito bonitica”!!!... Mostrei-lhe o teu retrato e perguntei: é mais bonita? “Muito mais!!...”. A Senhora vem toda de branco com ouro. Não traz nenhuma faixa azul como se dizia. Se é a Senhora da Paz.... Já te recordaste, o que disse na 2ª aparição?... Que aprendessem a ler... Dizia-me a Jacintita “que já ia na carreira do A”!!...

[…]

A oração, que dizem a Senhora lhes ensinou é simples, é a seguinte:

“Ó meu Jesus perdoai-me.

Livrai-me do fogo do inferno

Levai as alminhas todas para o céu, principalmente as que mais precisarem.”

Queres maior simplicidade? Achei interessante que a Senhora a tivesse ensinado, mas não lhe recomendasse que a rezassem.

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Relatório da comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Reproduz-se aqui, em resumo, o relato das aparições.

A Senhora diz que o seu lugar é o Céu, promete a felicidade eterna às três crianças, comunica-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensina-lhes uma pequena oração4, recomenda a Lúcia que aprendam a ler, manda que todos rezem o terço, para que a guerra acabe, anuncia o aparecimento de Nosso Senhor, de S. José com o Menino Jesus, de Nossa Senhora sob as invocações do Rosário, do Carmo e das Dores, recomenda de novo a recitação do terço, declara que a guerra acabava brevemente e no último dia afirma que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens, suplica que não O ofendam mais, insiste mais uma vez em que rezem o terço, declara que ela é a Senhora do Rosário e ordena que se edifique ali uma capela em sua honra. O depoimento da Jacinta confirma, dum modo geral, o depoimento da Lúcia, assim como o do Francisco, que contudo só via a Senhora, não ouvindo nada do que ela dizia a sua prima.

Notas dos editores (1)

4 Jaculatória: Ó Meu Jesus perdoai-nos...

13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

Mas se me reportava a declarações dos videntes que conservasse de memoria, é-me totalmente impossivel precisar, depois de tantos annos, qual das crianças me assegurou que a cruz do rosario era ou parecia de ouro. Teria sido o Francisco? Teria sido a Jacinta? Não sei. Importa acentuar que a Lucia, assim como os primos, ás vezes diziam ser brancas certas partes do corpo ou certas peças do vestuario da visão por causa da luz clara e brilhante que a envolvia e que quasi lhes cegava os olhos. Pag. 77, Lucia: "É que ella ás vezes cega". Pag. 94, Francisco: "Posso olhar para a cara della, mas pouco, por causa da luz".

DCF V-4, Doc. 1229 · carta · 1917 · também publicado em DCF V-4, Doc. 1277DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo), entrevistado por A Guarda

Duas pastorinhas e um zagalete afirmaram que uma senhora de incomparavel beleza lhes aparecia no dia treze de cada mês desde Maio a Outubro dêsse ano, fazendo-lhes diversas comunicações, algumas delas de caracter secreto. A Visão, segundo o testemunho das tres creanças, prometeu dizer no dia treze de Outubro quem era e operar nesse dia um prodigio, para que todos acreditassem nas suas palavras, pedindo ao mesmo tempo que erigissem uma capela em sua honra no local das aparições.

Por varias vezes declarou que Deus estava muito ofendido com os pecados dos homens e que graves castigos os ameaçavam, recomendou a todos que fizessem penitencia, aconselhou a recitação frequente do terço e por ultimo disse que era a Senhora do Rosário.

DCF III-3, Doc. 775 · notícia de imprensa · 13 mar. 1922 (5 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria

A 13 de maio de 1917, três crianças da freguesia da Fátima, vigararia de Ourém, desta Diocese, apascentavam um pequeno rebanho num lugar, então ermo, chamado Cova da Iria.

A mais velha, Lúcia de Jesus, tinha 10 anos de idade, Francisco nove e Jacinta seisa. Estes eram irmãos e a primeira prima deles.

Nenhum sabia ler nem escrever.

Aproximava-se o meio dia e as crianças, conforme o costume da sua terra, rezaram o terço do Rosário de Nossa Senhora.

Terminada a oração, entretinham-se a fazer uma pequenina casa com pedras soltas quando, de repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante, sulcou o espaço. Apesar de o céu estar diáfano e sem nuvens, as crianças, com receio de alguma trovoada, juntaram o gado e iam retirar-se. Ao chegarem, porém, perto do ponto onde se encontram atualmente as bicas de água, fuzila novo relâmpago e, a poucos passos de distância, de pé sobre uma pequena azinheira no sítio onde está a pequenina e pobre Capela das Aparições, veem, com espanto, o vulto duma Senhora de incomparável formosura, envolvida num vestido de alvura puríssima; um manto, orlado de ouro, cobre-lhe a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, duma beleza celeste, sobrenatural, apresentava-se sereno, grave e toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário.

De todo o vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz.

As crianças aproximaram-se, travou-se um diálogo entre a Senhora e a mais velha, convidando-os a irem ali todos os dias 13 de cada mês até outubro.

Como consta do testemunho das crianças e de muitas pessoas, as aparições foram seis, todas no dia 13 de cada mês, exceto em agosto que se realizou alguns dias depois por a autoridade administrativa ter as crianças presas em Ourém.

A Senhora disse-lhes que o seu lugar é o céu, confiou-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensinou-lhes uma pequena jaculatória, recomendou a recitação do Rosário, aconselhou a Lúcia a aprender a ler, insistiu na necessidade de oração e penitência para a guerra acabar, afirmou que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens e sobretudo com o pecado da carne, ordenou que se edifique ali uma capela em sua honra e declara que é a Senhora do Rosário...

Notas dos editores (4)

15 Mat VII, 15.

16 Mat VII, 16, 18.

17 Jo X, 37, 38.

a Jacinta tinha já sete anos. A data oficial do nascimento de Jacinta é 11 de março de 1910.

DCF Seleção, Doc. 133 (= DCF II, Doc. 11) · documento oficial · 13 out. 1930 (13 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
13 jun.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Pedro Marto (pai de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Em junho a Jacinta pediu à Mãe que não fosse à feira dos treze nas Pedreiras, a uma légua de Porto de Mós, para poder ir ver Nossa Senhora. A Mãe ao ouvir este pedido, disse-lhe: “Ah! tu não vais lá, Nossa Senhora não te aparece”. Ao que a pequena retorquiu: – “Aparece sim, Nossa Senhora disse que aparecia e por isso aparece.” A Mãe replicou: “Então não vais à festa de Santo António?” “Não, confirmou a pequena, Nossa Senhora é mais bonita que Santo António”.

13 jun.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Olímpia de Jesus (mãe de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

No dia 13 de junho, Olímpia de Jesus e seu marido foram para uma feira, apesar de a Jacinta ter dito na véspera à noite: “Minha Mãe, não vá amanhã à feira, vá à Cova da Iria, vem lá Nossa Senhora”. E a Mãe não queria acreditar e disse à filha: “Tu queres ir para Santo António, não queres ir para a Cova da Iria!” Como que a dar a entender que era um pretexto para ir à festa. Ela respondeu: “O Santo António não é bonito”. “Porquê?”, interrogou a mãe. “Porque Nossa Senhora é mais bonita”, concluiu a filha. “Eu vou à Cova da Iria mais a Lúcia e o Francisco e se Nossa Senhora disser que vamos ao Santo António então vamos”.

13 jun.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Olímpia de Jesus (mãe de Francisco e Jacinta), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

No dia treze à noite, quando a mãe chegou, contaram-lhe que Nossa Senhora lhes tinha aparecido outra vez, como em treze de maio, e que tinha dito à Lúcia que fossem lá todos os meses e que fizessem penitência.

13 jun.Testemunho indiretoViuDepoimento ajuramentadoFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Maria Rosa (mãe de Lúcia), depoimento ajuramentado perante a comissão canónica (Dr. Manuel Nunes Formigão, relator)

Quando mais tarde pude chegar ao pé dela, perguntou-lhe o que tinha visto. Respondeu que tinha visto a mesma mulherzinha do outro dia. Perguntou-lhe o que ela tinha dito. Disse que tinha dito que continuassem a ir lá e que aprendessem a ler.

13 mai.13 jun.13 jul.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Diretor do Raio de Luz (Henrique dos Santos Silva)

Essa visão, com o aspecto d’uma senhora de extraordinaria beleza, aparece-lhes no campo em meio de uma nuvem, em logar fixo. Fala-lhes — limitando-se as creanças a dizer que a Senhora pedira ao pequenino de 3 annos que aprendesse a rezar o terço3, e ás duas pequenas que o rezassem pela patria e pela sua familia, acrescentando que em 13 de outubro lhes dirá o mais que d'ellas quer.

Notas dos editores (3)

1 Publicação mensal com permissão da autoridade eclesiástica. Editor e director: Henrique dos Santos Silva.

2 Esta carta, provavelmente, é pouco posterior a 13 de Agosto, pois diz: “Muito se tem rezado naquele sitio ha dois mezes para cá!...”, isto é, desde Junho de 1917. A autora é uma assinante da revista. A destinatária devia ser também uma senhora, da intimidade da autora, pois a trata por “filha”, sem que este tratamento signifique filiação, porque posteriormente refere: “muita gente, entre ella as minhas creadas”, expressão que não teria sentido se a destinatária fosse sua filha. Existe uma carta de Branca Falcão de Sommer a Elisa Tavares Bonacho dos Anjos Martins, datada de Monte Estoril, de 6 de Outubro de 1917 (Doc. 40, de 6 de Outubro de 1917): “Recebi o “Raio de Luz” assim como a sua amavel carta [...]. Não ha duvida, que a descripção da Fatima escusa de levar assignatura. Lêr o artigo é o mesmo que ouvir a nossa enthusiasta visinha!”. Branca de Sommer e Elisa Martins eram vizinhas em Lisboa (tinham residência respectivamente na Praça do Príncipe Real e Praça das Flores), e também na província (respectivamente na Quinta da Cardiga, freguesia e concelho da Golegã, e na Quinta da Várzea, Riachos, Torres Novas). Por isso, a “enthusiasta visinha” das duas, autora da carta, podia residir também em Lisboa, mas pomos a hipótese, mais provável, de se tratar de Maria de Jesus Xavier de Figueiredo de Mello de Oriol Pena Raposo, residente na Quinta de Carvalhais, entre Riachos e Torres Novas, muito próxima, portanto, da Quinta da Várzea e da Quinta da Cardiga.

3 A referência diz respeito, sem dúvida, ao Francisco, que tinha 8 anos em 13 de Maio de 1917, pois nascera a 11 de Junho de 1908 (cf. DCF, vol. 1, Doc. 1, de c.27 de Maio de 1917, nota 7).

DCF III-1, Doc. 20 · notícia de imprensa · 1 set. 1917 (4 meses depois)Digitalizações (3)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Leonor de Avelar e Silva Constâncio, a partir de informação do Prior de Fátima (Pe. Manuel Marques Ferreira)

Só ali soubemos, que as trez creanças, naturaes de Aljustrel, pequena povoação da freguezia da Fatima, diziam que uma Senhora lhes apparecia no dia 13 de cada mez, fallava com ellas, respondia ás suas perguntas, e lhes recommendava que rezassem o terço e o offerecessem á Senhora do Rosario.

DCF III-1, Doc. 129 · nota · depois de 19 out. 1917 (5 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Lúcia, Francisco e Jacinta

VidenteGrupovidentes (as duas meninas, Lúcia e Jacinta)
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotícia de imprensaFiguras / visões
Transmitido por: Anna Maria dos Santos, do Caneiro

Seguimos a viagem e quando chegámos á Fatima o Ex.mo Snr. Pedro perguntou pelas pequenas, onde ellas então vinham a sair da escola e depois por mandado da Sn.a professora as meninas chegaram ao pé do carro e falaram com mais pessoas que ali estavam, onde lhe perguntámos com respeito a N. Senhora e ellas afirmaram sempre a mesma cousa, que a viram, ouviram e falaram com ella:

DCF III-1, Doc. 322 · notícia de imprensa · 6 nov. 1917 (6 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuCartaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo)

R. A pag. 11 affirmo que a apparição parece não ter mais de 18 annos, porque uma vez a mãe da Lucia, na presença da filha e doutras pessoas, me disse, ao perguntar a edade da visão, que ella parecia ser como uma rapariga do logar de Aljustrel que estava presente e que já tinha completado 17 annos. A pag. 90 declaro ter dito a Lucia que a Visão parecia ter uns 15 annos, porque realmente o disse, embora fosse uma pequena rude e ignorante, apenas com 10 annos de edade, e incapaz de calcular com exactidão a edade de uma pessoa. De resto, a differença entre uns quinze annos e não mais de dezoito annos não é grande e a expressão que emprego a pag. 90 não só não contradiz nem exclue a affirmação da pag. 11 senão que até a completa e permitte uma maior approximação da verda

DCF V-4, Doc. 1229 · carta · 1917 · também publicado em DCF V-4, Doc. 1277DigitalizaçãoLigação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visõesPalavras dos videntes
Transmitido por: Manuel Nunes Formigão (resumindo o inquérito paroquial do Pe. Manuel Marques Ferreira)

O Franc. morreu no dia 4 de abril de 1919. Recebeu os ult. sac. com grande lucidez e piedade E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Vallinho3.

Notas dos editores (1)

3 O Dr. Formigão resume, nas p. 7-19, o processo paroquial de Fátima, seguindo os depoimentos dos videntes e de outras testemunhas até à declaração final do padre Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, sobre o falecimento do Francisco. Não publicamos este resumo, pois o processo foi editado, na íntegra, em DCF, vol. I, Docs. 31-37, p. 245-287.

DCF III-2, Doc. 485 · nota · 3 abr. 1919 (23 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
13 mai.13 jun.13 jul.13 ago.13 set.13 out.Testemunho indiretoViuNotaFiguras / visões
Transmitido por: Manuel Marques Ferreira (aditamento ao inquérito paroquial)

O Francisco – vidente – faleceu às dez horas da noite, do dia 4 de abril corrente, vitimado por uma prolongada ralação de 5 meses da pneumónica tendo recebido os Sacramentos com grande lucidez e piedade – E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinho.

DCF Seleção, Doc. 44 (= DCF I, Doc. 36) · documento oficial · 18 abr. 1919 (24 meses depois)DigitalizaçãoLigação
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