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DCF Seleção, Doc. 7 (= DCF I, Doc. 55)
Publ.: DCF, I - Doc. 55
Minha Prazeres
Soudos
8/9/917.
Como dizia na carta do dia 6, impossível me foi escrever ontem à minha Filhinha. Não porque chegasse muito cansado, mas sim muito moído...
Contudo, Prazeres agradeço-te e muito o teres de certo modo feito com que tivesse ido à Fátima!!!
Talvez o amorzito não tivesse desconfiado desta minha decisão e do motivo que a originou... Passou-me é certo tal ideia pela cabeça, confesso que talvez sem grande vontade de a pôr em prática, mas se a minha Filhinha me disse ou me deu a entender que gostava que fosse... Parece-me que encarei o passeio mais como uma prova desportiva, sem contudo lhe querer tirar o espírito de curiosidade (mais forte, que outro qualquer) que me levou até ao meio da serra. A dificuldade da companhia tinha-a resolvido e com muita felicidade, pois o Júlio é um ótimo companheiro. A do caminho não era também pequena. Mas com vontade todas desaparecem!!...
Tirei informações e depois de as pesar resolvi-me a seguir, o que à minha cabeça me parecia melhor. Ainda bem que assim fiz.
De noite mal cerrei os olhos!!! Creio que, se dormi, não foi além de duas horas!!... Às 6 horas (uma hora antes do sol fora!!), já estávamos montados e a sair do pátio!!... Que madrugada!!... Havia o ar do dia, que nos deixaria lobrigar o caminho...
Ao sol-fora já subíamos a serra. A manhã estava um pouco fria.
Para aquecer e estender as pernas ainda andámos a pé talvez um quilómetro!!... Antes de chegar à serra chegámos a perder-nos, mas como era uma região que conhecia, facilmente me orientava, sem chegar sequer a perder tempo. Na serra como a estrada era de macadame melhor se andava e não havia o perigo de nos perdermos. Que a paisagem era linda, não te poderei dizer, mas era interessante... Predominavam as pedras e em certos sítios os pinheiros!!!...
Com que ansiedade não estará a minha Filhinha de com o seu Carlos chegar à Fátima!!... Pois eram quase 10 horas, quando depois de aldeias várias e de atravessar terras agrestes, chegámos à... Fátima!!
À entrada a Igreja com um adro enorme. A descrição da Igreja não te interessa, nem ela, pobrezita, muito tem a descrever...
A casa do Prior ao lado. Uma bela residência paroquial!!... Instalámos os cavalos. Pelo adro gente vária, que nos olhava com certo ar desconfiado. Dois cavaleiros àquela hora!!!... Entrei na Igreja. Uma mole imensa de povo a enchia. Abandonei a ideia de poder entrar na sacristia, por ser impraticável. Entro pela porta principal. Ajoelho. Ao lado no confessionário o Vigário. A cara de espanto do Senhor quando me viu!!!... No fim da missa veio falar-nos. Confessei-me e na missa a seguir comunguei.
Ali entre o povo, onde tanta devoção havia, sentia-me bem orando...
Como se estava no tríduo para a festa do Sagrado Coração de Jesus disse-me o Vigário que se poderia ganhar indulgência plenária. Bela recompensa para o sacrifício de chegar lá em jejum... Depois atraía-me a ideia de comungar na sede de tal freguesia!!! ...O Vigário depois da missa dele veio fora falar-nos. Era meio-dia e ainda em jejum!!... Procurei ver se seria fácil alcançar um almoço ao prior da freguesia!!!... Disse ao Vigário que íamos procurar uma taberna, onde nos fosse possível comer qualquer coisa, que fingisse de almoço!!...
Protestou, foi logo falar com o Prior. O Snr. chegou e ficámos logo adidos à mesa do reverendo!!!... Eram 6 Padres e nós dois!!!... O almoço animado. Expliquei o motivo da minha ida. Trocámos impressões. Na véspera as Pequenas tinham estado na casa do Prior, para os padres as interrogarem. Mantiveram todas as suas afirmações de sempre, o que juntamente com a atitude das Pequenas, os impressionou. Não era razão suficiente para poderem formar um juízo, mas todos concordavam, que havia algo de extraordinário. O quê?
Esperemos a sequência dos factos, e que a vontade de Deus se manifeste. O almoço terminou. O Prior destaca como nosso oficial às ordens o seu criado com as maiores e melhores recomendações para a mãe das pequenas. Uma curiosidade intensa me prendia. A Mãe dos dois mais pequenos, depois do recado do prior recebe-me com o melhor dos sorrisos. Entrámos para a sala. A mãe, uma velhota seca, modos desembaraçados, todo de mulher ativa. Começa as suas explicações. Só a Jacinta (de 7 anos) e o Francisco (que vai em 9) eram seus filhos, a Lúcia (que vai em 11) é sua sobrinha. A Jacinta estava em casa da Lúcia. Mandou logo chamá-la.
O Francisco tinha chegado com o gadito e enquanto o jantar não chega fôra para junto do Pai roçar o matito. Estou só com a mãe.
Fala-me nas suas apreensões por causa do alvoroço que as Pequenas têm causado. “Ainda se nós fôssemos merecedores!!!...”. “Mas calcule que até o meu irmão (pai de Lúcia) não se importa com a Igreja e é um homem de vinho!!!...”.
Contou-me a visita do Administrador e a prisão das pequenas. Enfim foi falando até que chegou a Jacinta. A Lúcia tinha ido levar o jantar ao Pai, vinha já. A pequerrucha não queria vir sem a prima (são inseparáveis), foi preciso a irmã trazê-la às cavalitas. Muito pequerrucha, muito encolhidita foi chegando para ao pé de mim. Estava sentado, para melhor a apreciar sentei-a em cima de uma arca e eu ao pé. Observei-a então muito à vontade. O Vigário tinha-me dito que era um Anjo. Quis também formular opinião. Afirmo-te Prazeres, é um anjo, mas um anjo muito muito Amor!!!... Muitas vezes o pensei e algumas o disse, se a minha Prazeres a visse e falasse com ela, só a não raptaria, se não lhe fosse possível!!!... Um lenço com ramagem encarniçada embrulhado na cabeça com as pontas atadas atrás. Lenço velhito e já roto... Um casaquito, que também não primava muito pela limpeza, uma saia sobre o encarnado, mas com uma roda enorme à moda da terra.
Aqui tens o traje do nosso anjito. Queria descrever-te a carita, mas, creio bem, que nada conseguirei dizer-te, aproximado ao menos!!!...
O lenço da maneira como o usava ainda mais lhe realçava as feições: os olhos de uma vivacidade encantadora, uma expressão angélica, de uma bondade que nos seduz, num todo extraordinário, que não sei porquê, nos atrai.
Muito envergonhadita com dificuldade ouvíamos o pouco que falava em resposta a minhas perguntas. Faltava-lhe a sua Lúcia. Não estava bem!!... Depois de durante algum tempo a ter entretido, conversando e... (não te rias!!) brincando, chegou o Francisco. Carapuço enterrado pela cabeça, jaleca muito curta, colete deixando ver a camisa, calças justas, enfim um homem em miniatura. Bela cara de rapaz!... Olhar vivo e cara agarotada!!... Com ar desempenado responde a minhas perguntas. A Jacinta começa a ganhar confiança. Pouco depois chega a Lúcia. Não imaginas a alegria da Jacinta, quando a viu!!... Toda ela riu, correu para ela e nunca mais a largou!!!... Era um quadro lindo. A Lúcia num lado, não, a Lúcia ao centro, de um lado o Francisco e do outro, muito junto dela e com a cabecita mesmo em cima dela, a Jacinta.
A Lúcia não tem feições que nos impressionem. Só o olhar é vivo. As feições são vulgares. O tipo da região. Ao princípio também retraída. Mas em breve as tenho à vontade e então, sem embaraços, respondem e vão satisfazendo a minha curiosidade. Depois de me convencer que estaria completo o meu interrogatório, peço-lhes, se iriam comigo rezar o terço ao local da aparição. Se a mãe deixar, vão. Eu mesmo alcanço a licença. Apenas a mãe a deu, a Jacintita foi logo fazer a sua toilete... Pôs um lenço lavado, um outro casaco e um aventalito!!!... Esperas com ansiedade a minha impressão, não é verdade?... Pois vamos a ela, minha Filhinha. Como te disse examinei ou antes interroguei os três em separado. Todos dizem o mesmo sem a mais leve alteração. A base principal, que de tudo o que me dizem, eu deduzi é “– que a aparição quer que se espalhe a devoção do Terço –”. Todos os pequenos dizem sempre, que, quem lhes aparece, é a Senhora. Não sabem quem é... Só depois das 6 vezes, no dia 13 de Outubro, lhes diz quem é e o que quer!!... A naturalidade e ingenuidade, com que falam e contam o que viram é admirável e impressionante.
A Lúcia vê a Senhora, fala com ela e ouve-a. A Jacinta vê a Senhora, ouve-a, mas não fala com Ela. O Francisco vê a Senhora, mas não lhe fala, nem a ouve!!!... É interessante esta diferença, não achas Prazeres??... Mas além de interessante tem até mesmo muito de extraordinário!!... Ouvir as petizas, vê-las na sua simplicidade, examinar-lhes o seu todo, impressiona-nos de uma maneira extraordinária, e leva-me a concluir, que em tudo o que me dizem, alguma coisa existe de sobrenatural. Estar com elas choca-nos com uma forte intensidade... Hoje, Prazeres, é convicção minha que há um facto extraordinário, que a nossa razão não alcança. Qual?... Com ansiedade mais crescente ainda espero o próximo dia 13. O que é certo, é que nos sentimos bem junto das pequenas e chegamos a perder a noção do tempo. Há uma atração, que não sei como explicar... Uma das impressões mais intensas das crianças é a da beleza da Senhora. O rapaz para exprimir a sua admiração dizia-me que era “muito bonitica”!!!... Mostrei-lhe o teu retrato e perguntei: é mais bonita? “Muito mais!!...”. A Senhora vem toda de branco com ouro. Não traz nenhuma faixa azul como se dizia. Se é a Senhora da Paz.... Já te recordaste, o que disse na 2ª aparição?... Que aprendessem a ler... Dizia-me a Jacintita “que já ia na carreira do A”!!...
Enquanto as pequenas tomaram alguma coisa, conversei com o Pai. Fizeram-me comer pão com queijo e uvas!!... Para os não desconsolar fiz-lhe a vontade e ofereci-lhe em troca cigarros dos meus!!...
Também me parecia interessante ouvir os pais, por isso tudo correu às mil maravilhas. Só sabem o que as crianças dizem; os conhecimentos deles hoje não vão mais longe, que os meus!!!...
Depois da refeição deles fomos ao local com os petizes rezar o terço. Só eles nos acompanhavam. É ainda um bocado bom da casa deles. Pelo caminho perguntei-lhes:
- Não poderei arranjar uma folha da carrasqueira?
- Ela já não tem nada, mas eu tenho lá em casa, dizem-me eles.
- E não me arranjam uma??...
- Sim senhor.
Depois de vermos quem a iria buscar, esperamos que o Francisco voltasse a casa.
As duas pequerruchas brincavam. Jogavam os “pontos”; atirando com uma pedra para um certo sítio, ganhava quem mais perto ficasse. Era interessante vê-las brincar. Discutiam, mas sempre sem se alterarem e com a maior amizade. O Francisco chega, já não tinha nenhuma, mas trouxe das da Lúcia!!... (Que alegria para a minha Filhinha!!!!...). Um ramito só com duas folhas inteiras. Guardei-o. A minha Prazeres terá a sua folhita... Se mais não houvera isto me chegava para me dar por satisfeito com o passeio!!!...
Pelo caminho rimo-nos!!... Os “petizes” já muito à vontade e como amigos de há muito conhecidos foram todo o caminho brincando connosco!!... Ficavam para trás para ver se conhecíamos o caminho, riam-se, enfim éramos já... amigos!!!...
Assim já à vontade como a Jacinta era...amor... A Lúcia, apesar das feições menos corretas, prende-nos pelo seu todo, que tem um não sei quê, que nos encanta...
Chegámos ao local. Perto da estrada, numa encosta, em local magnífico, onde se pode ver muito à vontade de muito longe. A carrasqueira (pequena azinheira) está reduzida à expressão mais simples. Em volta um muro de pedra. Rodeando-a um arco de verdura. Em cima do muro, vasos com manjericos e outras flores. Os três ajoelham. A Lúcia, que está no meio, começa a recitar o terço. O recolhimento, o fervor com que ela vai rezando, impressiona-nos. O oferecimento do terço é interessante. É pelos soldados, que estão em guerra. Com que devoção, Prazeres, se reza ali o terço... Creio que nunca o rezei com tanta atenção!!!... No fim pedi licença às pequenas para guardar um ramito de manjerico. Todas elas depois me ofereceram um bocadito!!... Guardei o um raminho para ti, Prazeres. Guardei também uma outra folhita, que depois te levarei. São preciosas em demasia tais recordações para as confiar ao correio, por isso o teu Carlos será o portador. A oração, que dizem a Senhora lhes ensinou é simples, é a seguinte:
“Ó meu Jesus perdoai-me.
Livrai-me do fogo do inferno
Levai as alminhas todas
para o céu, principalmente
as que mais precisarem.”
Queres maior simplicidade? Achei interessante que a Senhora a tivesse ensinado, mas não lhe recomendasse que a rezassem.
Com saudades via que tinha de deixar as pequenas. Eram 6 horas. Tínhamos saído de casa do Prior às 4!!!... No fim do jantar o Prior ainda me leu o interrogatório, que tinha feito às crianças. Era quase sol-posto, mas ainda à pressa tomei uns rápidos apontamentos, depois mostrarei ao Amor. Nada porém adiantam, ao que já sabes. Aqui tens, Filhinha, as impressões do meu dia de ontem... Que conclusões tirarás depois de arrazoado tão comprido??!!...
À volta tinha mais por companhia o Vigário e um Prior aqui dos meus lados. As minhas pressas de pela manhã, antes de falar com as pequenas, deram depois em vagares. Eram 8 horas quando deixámos Fátima.
Procurámos outro caminho, que quase chamarei de... cabras!!...
A todos os momentos eu ia a ver que a minha Prazeres ficava sem o seu Carlos... Carreiros íngremes, cheios de pedras, já de noite sem ver o caminho e a minha égua não sabendo andar em tal piso... Enfim Nossa Senhora protegeu-me e sem novidade cheguei aos Soudos. Era... meia noite!!!!.
O Vigário ficou no caminho em casa do outro companheiro. As minhas criadas não me deixaram deitar, sem lhes contar as minhas impressões. Fiz-lhes a vontade e depois de beber um copo de água com chá, fui deitar-me. Com que vontade dormi...
Mas hoje às 9 já estava a pé a tratar da vida!!... Quando passou o rápido estava eu num figueiral ao pé do rancho, que andava apanhando passas. Fui ainda às hortas e só depois vim almoçar. Com que vontade o ataquei!!... No fim tratei de umas pequenas coisas e... fui fazer a vontade aos olhos, que se andavam a querer fechar... Dormi uma sesta de três horas!!!... sinto-me ótimo e capaz de novo passeio.
Tenho escrito todos os dias ao Amor. Mando as cartas para a estação da Lamarosa para um empregado nosso as deitar na ambulância. Ontem mandou-me duas, as dos dias 5 e 6, pois a caixa do correiro passa selada sem receber correspondência. A do 4 ainda eu mandei. Tê-las-ias recebido??... Há tantos dias sem notícias do Amor... Como terá passado? Como revolta esta greve... Com que ansiedade lhe esperamos o fim... Tenho um pressentimento íntimo que me diz o Amor tem passado muito bem... São 2 horas da manhã e amanhã é domingo!!! Adeus Filhinha
teu Carlos