O almoço animado. Expliquei o motivo da minha ida. Trocámos impressões. Na véspera as Pequenas tinham estado na casa do Prior, para os padres as interrogarem. Mantiveram todas as suas afirmações de sempre, o que juntamente com a atitude das Pequenas, os impressionou. Não era razão suficiente para poderem formar um juízo, mas todos concordavam, que havia algo de extraordinário. O quê?
Esperemos a sequência dos factos, e que a vontade de Deus se manifeste. O almoço terminou. O Prior destaca como nosso oficial às ordens o seu criado com as maiores e melhores recomendações para a mãe das pequenas. Uma curiosidade intensa me prendia. A Mãe dos dois mais pequenos, depois do recado do prior recebe-me com o melhor dos sorrisos. Entrámos para a sala. A mãe, uma velhota seca, modos desembaraçados, todo de mulher ativa. Começa as suas explicações. Só a Jacinta (de 7 anos) e o Francisco (que vai em 9) eram seus filhos, a Lúcia (que vai em 11) é sua sobrinha. A Jacinta estava em casa da Lúcia. Mandou logo chamá-la.
O Francisco tinha chegado com o gadito e enquanto o jantar não chega fôra para junto do Pai roçar o matito. Estou só com a mãe.
Fala-me nas suas apreensões por causa do alvoroço que as Pequenas têm causado. “Ainda se nós fôssemos merecedores!!!...”. “Mas calcule que até o meu irmão (pai de Lúcia) não se importa com a Igreja e é um homem de vinho!!!...”.
Contou-me a visita do Administrador e a prisão das pequenas. Enfim foi falando até que chegou a Jacinta. A Lúcia tinha ido levar o jantar ao Pai, vinha já. A pequerrucha não queria vir sem a prima (são inseparáveis), foi preciso a irmã trazê-la às cavalitas. Muito pequerrucha, muito encolhidita foi chegando para ao pé de mim. Estava sentado, para melhor a apreciar sentei-a em cima de uma arca e eu ao pé. Observei-a então muito à vontade. O Vigário tinha-me dito que era um Anjo. Quis também formular opinião. Afirmo-te Prazeres, é um anjo, mas um anjo muito muito Amor!!!... Muitas vezes o pensei e algumas o disse, se a minha Prazeres a visse e falasse com ela, só a não raptaria, se não lhe fosse possível!!!... Um lenço com ramagem encarniçada embrulhado na cabeça com as pontas atadas atrás. Lenço velhito e já roto... Um casaquito, que também não primava muito pela limpeza, uma saia sobre o encarnado, mas com uma roda enorme à moda da terra.
Aqui tens o traje do nosso anjito. Queria descrever-te a carita, mas, creio bem, que nada conseguirei dizer-te, aproximado ao menos!!!...
O lenço da maneira como o usava ainda mais lhe realçava as feições: os olhos de uma vivacidade encantadora, uma expressão angélica, de uma bondade que nos seduz, num todo extraordinário, que não sei porquê, nos atrai.
Muito envergonhadita com dificuldade ouvíamos o pouco que falava em resposta a minhas perguntas. Faltava-lhe a sua Lúcia. Não estava bem!!... Depois de durante algum tempo a ter entretido, conversando e... (não te rias!!) brincando, chegou o Francisco. Carapuço enterrado pela cabeça, jaleca muito curta, colete deixando ver a camisa, calças justas, enfim um homem em miniatura. Bela cara de rapaz!... Olhar vivo e cara agarotada!!... Com ar desempenado responde a minhas perguntas. A Jacinta começa a ganhar confiança. Pouco depois chega a Lúcia. Não imaginas a alegria da Jacinta, quando a viu!!... Toda ela riu, correu para ela e nunca mais a largou!!!... Era um quadro lindo. A Lúcia num lado, não, a Lúcia ao centro, de um lado o Francisco e do outro, muito junto dela e com a cabecita mesmo em cima dela, a Jacinta.
A Lúcia não tem feições que nos impressionem. Só o olhar é vivo. As feições são vulgares. O tipo da região. Ao princípio também retraída. Mas em breve as tenho à vontade e então, sem embaraços, respondem e vão satisfazendo a minha curiosidade. Depois de me convencer que estaria completo o meu interrogatório, peço-lhes, se iriam comigo rezar o terço ao local da aparição. Se a mãe deixar, vão. Eu mesmo alcanço a licença. Apenas a mãe a deu, a Jacintita foi logo fazer a sua toilete... Pôs um lenço lavado, um outro casaco e um aventalito!!!... Esperas com ansiedade a minha impressão, não é verdade?... Pois vamos a ela, minha Filhinha. Como te disse examinei ou antes interroguei os três em separado. Todos dizem o mesmo sem a mais leve alteração. A base principal, que de tudo o que me dizem, eu deduzi é “– que a aparição quer que se espalhe a devoção do Terço –”. Todos os pequenos dizem sempre, que, quem lhes aparece, é a Senhora. Não sabem quem é... Só depois das 6 vezes, no dia 13 de Outubro, lhes diz quem é e o que quer!!... A naturalidade e ingenuidade, com que falam e contam o que viram é admirável e impressionante.
A Lúcia vê a Senhora, fala com ela e ouve-a. A Jacinta vê a Senhora, ouve-a, mas não fala com Ela. O Francisco vê a Senhora, mas não lhe fala, nem a ouve!!!... É interessante esta diferença, não achas Prazeres??... Mas além de interessante tem até mesmo muito de extraordinário!!... Ouvir as petizas, vê-las na sua simplicidade, examinar-lhes o seu todo, impressiona-nos de uma maneira extraordinária, e leva-me a concluir, que em tudo o que me dizem, alguma coisa existe de sobrenatural. Estar com elas choca-nos com uma forte intensidade... Hoje, Prazeres, é convicção minha que há um facto extraordinário, que a nossa razão não alcança. Qual?... Com ansiedade mais crescente ainda espero o próximo dia 13. O que é certo, é que nos sentimos bem junto das pequenas e chegamos a perder a noção do tempo. Há uma atração, que não sei como explicar... Uma das impressões mais intensas das crianças é a da beleza da Senhora. O rapaz para exprimir a sua admiração dizia-me que era “muito bonitica”!!!... Mostrei-lhe o teu retrato e perguntei: é mais bonita? “Muito mais!!...”. A Senhora vem toda de branco com ouro. Não traz nenhuma faixa azul como se dizia. Se é a Senhora da Paz.... Já te recordaste, o que disse na 2ª aparição?... Que aprendessem a ler... Dizia-me a Jacintita “que já ia na carreira do A”!!...
Enquanto as pequenas tomaram alguma coisa, conversei com o Pai. Fizeram-me comer pão com queijo e uvas!!... Para os não desconsolar fiz-lhe a vontade e ofereci-lhe em troca cigarros dos meus!!...
Também me parecia interessante ouvir os pais, por isso tudo correu às mil maravilhas. Só sabem o que as crianças dizem; os conhecimentos deles hoje não vão mais longe, que os meus!!!...
Depois da refeição deles fomos ao local com os petizes rezar o terço. Só eles nos acompanhavam. É ainda um bocado bom da casa deles. Pelo caminho perguntei-lhes:
- Não poderei arranjar uma folha da carrasqueira?
- Ela já não tem nada, mas eu tenho lá em casa, dizem-me eles.
- E não me arranjam uma??...
- Sim senhor.
Depois de vermos quem a iria buscar, esperamos que o Francisco voltasse a casa.
As duas pequerruchas brincavam. Jogavam os “pontos”; atirando com uma pedra para um certo sítio, ganhava quem mais perto ficasse. Era interessante vê-las brincar. Discutiam, mas sempre sem se alterarem e com a maior amizade. O Francisco chega, já não tinha nenhuma, mas trouxe das da Lúcia!!... (Que alegria para a minha Filhinha!!!!...). Um ramito só com duas folhas inteiras. Guardei-o. A minha Prazeres terá a sua folhita... Se mais não houvera isto me chegava para me dar por satisfeito com o passeio!!!...
Pelo caminho rimo-nos!!... Os “petizes” já muito à vontade e como amigos de há muito conhecidos foram todo o caminho brincando connosco!!... Ficavam para trás para ver se conhecíamos o caminho, riam-se, enfim éramos já... amigos!!!...
Assim já à vontade como a Jacinta era...amor... A Lúcia, apesar das feições menos corretas, prende-nos pelo seu todo, que tem um não sei quê, que nos encanta...
Chegámos ao local. Perto da estrada, numa encosta, em local magnífico, onde se pode ver muito à vontade de muito longe. A carrasqueira (pequena azinheira) está reduzida à expressão mais simples. Em volta um muro de pedra. Rodeando-a um arco de verdura. Em cima do muro, vasos com manjericos e outras flores. Os três ajoelham. A Lúcia, que está no meio, começa a recitar o terço. O recolhimento, o fervor com que ela vai rezando, impressiona-nos. O oferecimento do terço é interessante. É pelos soldados, que estão em guerra. Com que devoção, Prazeres, se reza ali o terço... Creio que nunca o rezei com tanta atenção!!!... No fim pedi licença às pequenas para guardar um ramito de manjerico. Todas elas depois me ofereceram um bocadito!!... Guardei o um raminho para ti, Prazeres. Guardei também uma outra folhita, que depois te levarei. São preciosas em demasia tais recordações para as confiar ao correio, por isso o teu Carlos será o portador. A oração, que dizem a Senhora lhes ensinou é simples, é a seguinte:
“Ó meu Jesus perdoai-me.
Livrai-me do fogo do inferno
Levai as alminhas todas para o céu, principalmente as que mais precisarem.”
Queres maior simplicidade? Achei interessante que a Senhora a tivesse ensinado, mas não lhe recomendasse que a rezassem.
Com saudades via que tinha de deixar as pequenas. Eram 6 horas. Tínhamos saído de casa do Prior às 4!!!... No fim do jantar o Prior ainda me leu o interrogatório, que tinha feito às crianças.
[…]
À volta tinha mais por companhia o Vigário e um Prior aqui dos meus lados. As minhas pressas de pela manhã, antes de falar com as pequenas, deram depois em vagares. Eram 8 horas quando deixámos Fátima.