Explorar / Documento
DCF Seleção, Doc. 133 (= DCF II, Doc. 11)
Carta Pastoral de D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, sobre o culto a Nossa Senhora de Fátima.
Publ.: DCF, II - Doc. 11; DCF, V-6 - Doc. 1813
Obs.: As notas indicadas com algarismos (1-30) são do próprio documento.
As notas indicadas com letras (a-c) são nossas.
D. JOSÉ, BISPO DE LEIRIA CARTA PASTORAL SOBRE O CULTO DE NOSSA SENHORA DA FÁTIMA
Composto e impresso nas
Oficinas da “UNIÃO GRÁFICA”
Travessa do Despacho 16 - 1º
LISBOA
D. José Alves Correia da Silva, pela Graça de Deus
e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Leiria.
Aos que esta nossa carta pastoral virem,
saúde, paz e bênção
em Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador
A Providência Divina, que rege e governa todas as criaturas, tem para com o homem, dotado de alma imortal, ternuras especiais.
Assim como um bom chefe de família não pode, porque nunca deve, abandonar a esposa nem os filhos, também Deus infinitamente bom, que nos criou por um ato livre de amor, não nos pode abandonar.
É o que a história e a experiência demonstram.
Que carinhos teve o Senhor para com o povo escolhido, às vezes tão ingrato e infiel!...
Como o defendeu dos seus inimigos; como o conservou no culto da verdadeira religião, apesar das suas tendências idólatras! Como, até nos castigos se mostra Pai carinhoso e amorável!...
Quando chegou a hora bendita da Redenção, o próprio Filho de Deus desce do Céu à terra, assume a natureza humana e morre na Cruz para nos remir e salvar!...
E mesmo depois da sua Morte fica connosco, cumprindo a sua promessa1: Eis que estou convosco até à consumação dos séculos!
A esta obra de Redenção e Salvação o Senhor quis associar a sua Santa Mãe.
Relembremos a agonia no Calvário.
Jesus, como um pai que passa a vida a trabalhar pelos filhos, tinha-nos dado tudo sem medida e sem reserva.
Dera-nos a sua doutrina e com ela a luz e a vida. Dera-nos a graça e com ela o perdão e a ressurreição. Tinha instituído os sacramentos – outros tantos meios de santificação. Mas o seu amor não está ainda satisfeito.
Agora que vai morrer, quer dispôr do que lhe resta; ditar o seu testamento.
Mas Ele tem apenas a sua boa Mãe...
É essa que nos vai legar!
Como é solene aquele momento!
Todos os homens são seus herdeiros: os gentios representados pelos soldados romanos; o povo judeu, pelos habitantes de Jerusalém que ali tinham acorrido para presenciar a sua morte; os pecadores, pelos dois ladrões também crucificados; e os justos, pelas Santas Mulheres que acompanharam Jesus até ao Gólgota.
João, o Santo Evangelista, é o encarregado de fixar pela escrita as palavras do Senhor2.
E Maria Santíssima, a Virgem pura, tesouro dos Céus e da terra, a escrava do Senhor5 – recebe-nos como seus filhos, gerados nas dores imensas do Calvário!
Prostrados diante de Nossa Senhora não podemos deixar de dizer como a Santa Igreja, com os cristãos de todos os tempos: Salvé Rainha,
mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salvé! A vós
bradamos, os degredados filhos de Eva, a vós suspiramos, gemendo
e chorando neste vale de lágrimas! Salvé!
Cumprindo o legado de Jesus, ei-la com os Apóstolos esperando a
descida do Divino Espírito Santo, orando com os primitivos cristãos,
tomando parte nas suas aflições6.
E como tem sido Mãe tão carinhosa em todos os séculos!...
Embora fôsse possível contar as areias do mar e as estrelas do Céu,
não era possível enumerar os dons que a Virgem Santíssima, a cheia de
graça7 tem espalhado sobre as almas.
É ver a quantidade de instituições de caridade espalhadas pelo mundo,
criadas sob a sua proteção; é contar os inúmeros templos erguidos em
sua honra – votos de almas e nações agradecidas pelos seus benefícios...
E sem ir mais longe, não saindo da nossa querida Pátria, basta apontar
as capelas, igrejas, monumentos, padrões de glória erguidos pela fé de
nossos pais, tantos e tantos em honra da querida Mãe do Céu, Senhora
da terra portuguesa.
Mas é sobretudo nas horas calamitosas, quando os seus filhos ou as
nações estão para soçobrar, vítimas das suas ingratidões e dos seus
pecados, quando, como diz o profeta8 clamei e não me respondestes,
falei e não me escutastes, que se ouve a voz de Maria, chamando os
homens à penitência como em La Sallete, Lourdes e ultimamente em
Fátima.
Outrora Jeremias, ameaçando os hebreus em nome de Jehovah9
exclamava: num momento pronuncio o decreto de extermínio sobre
um povo e contra um reino para o perder e destruir até às raízes.
Mas, se essa nação fizer penitência dos males pelos quais a ameacei,
arrepender-me-ei, eu mesmo, do mal que tinha resolvido fazer-lhe.
Este cuidado e zelo do Pai do Céu e da nossa Mãe vindo até nós
inspirar-nos, falar-nos, é o que há de mais natural.
Pois poderíamos acaso admitir que um bom pai não fale a seu filho?
Que uma mãe não tenha um carinho para aquele a quem trouxe nas
entranhas e amamentou?
Umas vezes é a linguagem muda, mas nem por isso menos persuasiva,
dum gesto do nosso pai, a lágrima que brota espontânea dos olhos da mãe...; são os avisos e conselhos prudentes que nos guiam no caminho do dever; são os sorrisos que nos animam e as ameaças que nos aterram.
Quem de nós não sentiu em si a ação da graça? Esses bons pensamentos e santas inspirações que iluminam a nossa inteligência... esses generosos movimentos e piedosos impulsos que incitam a nossa vontade à prática do bem?
É Deus, o bom pai do Céu quem nos fala...
Quantas vezes essas luzes divinas não nos detêm, quando, prestes a resvalar numa ação criminosa, nos afastam duma ocasião que nos perderia?... Quantas vezes a tristeza e o remorso nos fazem envergonhar dum ato da vida passada e no meio das aflições, das lágrimas, surge a esperança da regeneração, a visão luminosa do prémio que Deus promete àqueles que combatem o bom combate12 e perseveram até ao fim?...13
Tudo isto são inspirações que a bondade divina nos concede diretamente ou por intermédio da bendita Mãe do Céu.
Além destas graças que são concedidas a todos para nosso proveito espiritual, há outras concedidas mais raramente a uma ou outra alma, não tanto para sua utilidade própria, mas para bem da religião, dos povos, das nações, duma comunidade...
Tais são os dons de milagres, de profecias, as visões sobrenaturais.
Essas graças, concedidas quase sempre só aos santos, por si, não santificam a pessoa que delas é favorecida, porque a santidade exige um esforço próprio, uma cooperação continuada, mas aproveitam à coletividade, às vezes ao mundo inteiro.
Foi o que Jesus quis significar quando pediu ao Pai o grande milagre da ressurreição de Lázaro como prova da sua divina missão14.
Mas se é próprio do homem errar, porque muito fraca é a sua inteligência e limitadíssimos os seus conhecimentos, a Santa Igreja, nunca impondo as visões como de fé católica, exige provas severas para nos deixar acreditar nelas, embora com fé meramente humana, para nossa instrução e edificação.
Devemos notar que a Santa Igreja nunca tem pressa, especialmente nestes assuntos melindrosos, por maiores que sejam as impaciências dos homens.
Caminha através dos séculos numa lentidão majestosa, assistida pelo Divino Espírito Santo, com a consciência da sua perpetuidade, ouvindo a todos, tudo apreciando, para resolver conforme as leis sapientíssimas que lhe deixou o seu Fundador.
Efetivamente Jesus neste ponto, como em tudo, ensinou-nos como devíamos proceder, acautelando-nos dos falsos profetas15.
“Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas de espinhos ou figos dos abrolhos? Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos”16.
E aplica à sua divina Missão este mesmo critério, dizendo17: “se eu não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas se eu as faço, quando não queirais crer em mim, crede nas minhas obras para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu no Pai”.
Para distinguirmos de que lado está a verdade nas visões, profecias e outras manifestações sobrenaturais, temos de examinar as qualidades das pessoas por elas favorecidas, se as move qualquer interesse material, se a doutrina que apresentam está ou não conforme aos ensinamentos da Santa Madre Igreja, se o fim que move os videntes é bom e sobrenatural...
As considerações que acabámos de fazer, vêm a propósito do caso tão conhecido da Fátima.
A mais velha, Lúcia de Jesus, tinha 10 anos de idade, Francisco nove e Jacinta seisa. Estes eram irmãos e a primeira prima deles.
Nenhum sabia ler nem escrever.
Aproximava-se o meio dia e as crianças, conforme o costume da sua terra, rezaram o terço do Rosário de Nossa Senhora.
Terminada a oração, entretinham-se a fazer uma pequenina casa com pedras soltas quando, de repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante, sulcou o espaço. Apesar de o céu estar diáfano e sem nuvens, as crianças, com receio de alguma trovoada, juntaram o gado e iam retirar-se. Ao chegarem, porém, perto do ponto onde se encontram atualmente as bicas de água, fuzila novo relâmpago e, a poucos passos de distância, de pé sobre uma pequena azinheira no sítio onde está a pequenina e pobre Capela das Aparições, veem, com espanto, o vulto duma Senhora de incomparável formosura, envolvida num vestido de alvura puríssima; um manto, orlado de ouro, cobre-lhe a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, duma beleza celeste, sobrenatural, apresentava-se sereno, grave e toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário.
De todo o vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz.
As crianças aproximaram-se, travou-se um diálogo entre a Senhora e a mais velha, convidando-os a irem ali todos os dias 13 de cada mês até outubro.
Como consta do testemunho das crianças e de muitas pessoas, as aparições foram seis, todas no dia 13 de cada mês, exceto em agosto que se realizou alguns dias depois por a autoridade administrativa ter as crianças presas em Ourém.
A Senhora disse-lhes que o seu lugar é o céu, confiou-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar, ensinou-lhes uma pequena jaculatória, recomendou a recitação do Rosário, aconselhou a Lúcia a aprender a ler, insistiu na necessidade de oração e penitência para a guerra acabar, afirmou que Nosso Senhor está muito irritado com os pecados dos homens e sobretudo com o pecado da carne, ordenou que se edifique ali uma capela em sua honra e declara que é a Senhora do Rosário...
Como, pouco a pouco, aumentasse extraordinariamente a multidão e, nesse tempo, estivesse a diocese de Leiria, canonicamente ereta nesse anob, governada por sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, de santa memória, Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Arcebispo de Mitilene, hoje venerando Bispo de Vila Real e então Vigário Geral do Patriarcado, mandou abrir um inquérito.
Tendo nós vindo para Bispo desta Diocese em 1920, não podendo nem devendo ignorar o que se passou, publicámos a 6 de maio de 1922c uma Provisão e nomeámos uma Comissão de Rev.os Sacerdotes para ouvir as testemunhas a favor ou contra na mais ampla liberdade e apresentar-nos o relatório dos seus trabalhos.
Dois membros dessa Comissão já foram chamados à presença de Deus, mas os restantes continuaram os seus trabalhos.
Ultimamente apresentaram-nos um largo relatório que examinámos com todo o cuidado.
Aos Rev.os Sacerdotes que formaram parte dessa Comissão, queremos deixar exarado o nosso agradecimento, salientando duma maneira especial o Rev.mo Cónego da Sé Patriarcal de Lisboa e ilustre Professor do Seminário de Santarém, Dr. Manuel Nunes Formigão Júnior, que nesta Comissão como em tudo quanto se relaciona com o culto de Deus e glória de Nossa Senhora, é verdadeiramente incansável e digno de imitação.
Tendo sido encarregado pela Santa Igreja do Bispado de Leiria e competindo-nos, como Bispo, reger os fiéis que nos foram confiados18 e seguindo o exemplo de venerandos Prelados em casos semelhantes, depois de termos estudado atentamente, durante 10 anos, os acontecimentos, vimos dar a nossa sentença, declarando desde já que submetemos humildemente à Santa Sé, o nosso juízo.
Caros Diocesanos:
Referindo-se ao pequeno número de sábios, de poderosos e nobres entre os cristãos da Igreja primitiva, acrescenta S. Paulo19: “as coisas loucas, segundo o mundo, escolheu-as Deus para confundir os sábios; e as coisas fracas segundo o mundo escolheu-as Deus para confundir os fortes: e Deus escolheu as coisas vis e desprezíveis segundo o mundo e aquelas que não são, para destruir as que são para que nenhum homem se glorie diante dele... porque, como está escrito: o que se gloria, glorie-se no Senhor”.
A história demonstra com factos estas observações.
Os Apóstolos, escolhidos pelo Senhor para pregarem a doutrina cristã em todo o mundo, eram pescadores; S. Gregório 7º, o campeão da liberdade da Igreja, era oriundo duma pobre família de camponeses; S. Joana de Arc que libertou a França, a Beata Bernadette Soubirous – a feliz vidente de Lourdes – eram pobres pastoras.
Em Fátima verifica-se o mesmo.
O lugar escolhido para as Aparições é pedregoso, sem atrativo de espécie alguma.
Portugal é rico de belas paisagens, terras verdejantes, panoramas soberbos.
A Cova da Iria, além de ser uma verdadeira cova, não tinha coisa alguma que atraísse.
As crianças videntes são humildes criaturas das nossas serras, modestamente vestidas, sem instrução, não sabendo ler, apenas com uma rudimentar instrução religiosa.
Não são nervosas, mas afáveis e carinhosas no meio da sua rudez, amigas da família, obedientes aos pais, alegres...
Não se vislumbra nelas qualquer interesse ou vaidade. Não aceitam esmolas ou prendas que lhes querem dar. E, quando resolvemos chamar a Nós a direção das obras e do movimento religioso, entregaram-nos honradamente, até na mesma espécie, os dinheiros e os objetos de valor que o povo, no seu ardor, deixava ficar no local das Aparições.
Os seus pais eram remediados de bens e hoje continuam a viver na sua mediania; viviam do seu trabalho, do seu trabalho continuam a viver. Nada se alterou na sua vida, passados 13 anos.
As crianças, ora interrogadas em conjunto, ora separadas, respondem com a mesma precisão, sem contradições sensíveis, aos diferentes interrogatórios quer oficiais, quer particulares, a que foram sujeitas.
São presas pelo representante da autoridade administrativa, ameaçadas de serem fritas e nem assim se desdizem.
Nada dizem que seja contra a fé ou costumes segundo a palavra do Apóstolo: Ninguém que fale pelo Espírito de Deus diz anátema a Jesus20.
Finalmente os dois irmãos mais pequenos, atingidos pela pneumónica que ceifou tantas vidas no mundo inteiro, tiveram morte edificante e a Lúcia, única sobrevivente, abraçou livre e voluntariamente, sem coação de espécie alguma, depois de obter o consentimento de sua mãe, a vida religiosa.
São de considerar também as circunstâncias que acompanharam as visões.
Sendo pequenas, rudes e humildes as crianças favorecidas, devem existir provas para nós podermos ligar-lhes crédito.
A Senhora, segundo as videntes, aparecia-lhes numa azinheira pequena, raquítica, como são geralmente as árvores daquelas terras pedregosas; e centenas, milhares de pessoas cuja veracidade não podemos pôr em dúvida, viram uma coluna de fumo que, à maneira de incenso, envolvia a árvore durante as Aparições. Este fenómeno, humanamente inexplicável, repetiu-se várias vezes.
Como faz lembrar a exclamação do livro dos Cantares21, aplicada pela Santa Igreja à Virgem Santíssima: “Quem é esta que sobe pelo deserto, como uma varinha de fumo composta de aromas de mirra e de incenso e de toda a casta de perfumes odoríferos?”
O fenómeno solar de 13 de outubro de 1917, descrito nos jornais da época, foi o mais maravilhoso e o que maior impressão causou aos que tiveram a felicidade de o presenciar.
As crianças fixaram com antecedência o dia e a hora em que se havia de dar. A notícia correu veloz por todo o Portugal e apesar de o dia estar desabrido, chover copiosamente, juntaram-se milhares e milhares de pessoas que, à hora da última Aparição, presenciaram todas as manifestações do astro-rei, homenageando a Rainha do Céu e da terra, mais brilhante do que o sol no auge das suas luzes22.
Esse fenómeno, que nenhum observatório astronómico registou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilómetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão colectiva.
Às aparições de Fátima não faltou também o argumento das perseguições, que são um sinal das obras de Deus23.
Ninguém foi mais perseguido do que Jesus, e a Santa Igreja tem sofrido contradições em todos os séculos.
Uma multidão inumerável de Santos sofreram o martírio no meio de espantosos tormentos.
S. Pedro de Alcântara dizia a Santa Teresa que um dos maiores castigos neste mundo era o que ela tinha sofrido, isto é, a contradição das pessoas de bem24.
Jeremias, o Santo Profeta, dizia25: Sou todos os dias objeto de escárneo; todos me insultam.
Os videntes de Fátima foram presos pela autoridade, ameaçados de serem lançados em azeite a ferver.
É de todos sabido que as autoridades fizeram todos os esforços para proibir as peregrinações, dificultando as passagens, enquanto certos publicistas escarneciam e ludibriavam da fé ardente do bom povo português.
A crença nas Aparições resistiu a todas as violências que, afinal, só serviram para aumentar o fervor religioso e propagar as graças e benefícios que Nossa Senhora espalha sobre os que a invocam.
E não se diga que Fátima foi uma invenção do Clero, pois se os governos, apesar da força e prestígio de que dispõem, não conseguiram vencer a crença em Nossa Senhora da Fátima, como é que o nosso Clero humilde, espoliado pela revolução de todos os haveres que a piedade cristã entregou à Santa Igreja para o seu sustento, o clero tantas vezes perseguido e caluniado e demais nesta Diocese de Leiria, a mais pequenina e pobre, teria poder para criar o movimento religioso da Fátima que hoje se estende a todo o Portugal e se desenvolve consoladoramente em tantos países estrangeiros?
Além disso, Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca D. António Mendes Belo, que Deus haja, proibiu o Rev. Clero de animar e tomar parte em quaisquer manifestações religiosas relativas à Fátima, sábias prescrições que conservámos ainda algum tempo depois da nossa entrada neste Bispado.
Mas voltemos à sentença do divino Mestre acima citada:
Se não quereis acreditar em mim, acreditai nas minhas obras26.
O culto de Nossa Senhora da Fátima propagou-se rapidamente, como acabámos de dizer, tanto nesta diocese como em todo o Portugal e hoje estende-se a todas as partes do mundo não só entre nações católicas, mas protestantes e até pagãs.
O olhar amoroso e triste da Virgem Santíssima – amando-nos como Mãe, embora triste pelas nossas faltas – vai-se espalhando por toda a terra, levantando os corações e avivando a fé.
As multidões aos milhares, de toda a parte, compostas de pessoas de todas as classes sociais, vindas de todos os recantos do país, sem reclame de espécie alguma, sem nenhuns atrativos, e sem comodidades, com viagens dificílimas, acorrem em massa à Fátima.
Onde é que se têm reunido multidões como na Fátima, na melhor ordem, com o mais profundo respeito?
E não é uma vez por outra. O movimento é contínuo, constante, aumenta de ano para ano.
A voz do povo responde à voz de Deus.
Os doentinhos acodem ali com tantos sacrifícios, tantos trabalhos!...
Quantas curas admiráveis não se têm dado por intermédio da Virgem Santíssima?
E quanta resignação não manisfestam os enfermos, embora não tenham obtido a cura dos seus males físicos?
E se são aos milhares os doentes do corpo que vão a Fátima, em muito maior número são os aflitos moralmente. Nossa Senhora é a saúde dos enfermos e o refúgio dos pecadores. Quantos corações transviados não têm encontrado ali o perdão? Quantos indiferentes e afastados não têm encontrado ali a fé dos seus pais?
Ah! se os confessionários da Fátima não estivessem rigorosamente fechados pelo sigilo sacramental – sempre inviolável – que prodígios da graça não nos contariam!
Bendita e louvada seja a Mãe de Misericórdia!
Deixai-nos ainda fazer outra consideração.
Muitos de vós conheceram o lugar da Cova da Iria, ermo, árido, sem vida. Tendes visto também as construções que ali se estão a fazer, que naturalmente exigem muito dinheiro.
Pois bem: até hoje não se abriu uma subscrição, não se pediu uma esmola, não se fez um apelo, em público ou particular, à caridade dos fiéis.
As esmolas são oferecidas espontaneamente, quase todas anónimas.
Como é grande a força da fé!
Como é prodigioso o poder da Virgem Santíssima que arrasta as multidões para uma montanha escalvada e em poucos anos transforma um local sem vida num centro magnífico de piedade, no mais espantoso milagre da vida religiosa do nosso tempo!...
Caros Diocesanos:
Não queremos, nem precisamos de nos alongar mais.
Em virtude das considerações expostas e outras que omitimos por brevidade, invocando humildemente o Divino Espírito Santo e confiados na proteção de Maria Santíssima, depois de ouvirmos os Rev. Consultores desta nossa Diocese:
Havemos por bem
1º declarar como dignas de crédito as visões das crianças na Cova da Iria, freguesia de Fátima, desta Diocese, nos dias 13 de maio a outubro de 1917;
2º permitir oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima.
Resta-nos, amados Filhos em Nosso Senhor, advertir-vos que, se para nós é um grande motivo de alegria e consolação a graça que a Santíssima Virgem nos concedeu, maior é a obrigação de correspondermos à sua bondade.
A experiência de anos demonstra que “os olhos de Deus estão abertos e os ouvidos atentos às preces neste lugar”27, mas é preciso que pela pureza da nossa vida, prática dos Mandamentos da Lei de Deus, observância dos Preceitos da Igreja, respeito e submissão às direções da Sé Apostólica, nos mostremos integralmente católicos, pois nem todo o que diz: “Senhor Senhor, entrará no reino dos Céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse entrará no reino dos Céus”28.
A Santa Igreja, referindo-se ao Mistério da Incarnação do Verbo divino, exclama:
Ó benefício digno duma eterna gratidão! Deus fez-se conhecer a nós dum modo visível afim de que, vendo-O, sejamos abrasados no amor das belezas invisíveis!29
Recomendamos duma maneira especial aos nossos Caros Diocesanos o amor a Nosso Senhor Sacramentado, a devoção à Santíssima Virgem, a S. José, às benditas almas do Purgatório, a recitação diária, ao menos, do Terço do Rosário, a fuga do pecado da carne, das modas imodestas e leituras imorais, a prática da penitência em que Jesus tanto insistiu e a Virgem, Senhora Nossa, tanto lembrou, caridade para com todos os irmãos e principalmente para com os doentes e pobrezinhos...
Se assim fizermos, podem aplicar-se à nossa Pátria as palavras do Profeta: se dirigirdes bem os vossos passos, habitarei convosco neste lugar: na terra que dei aos vossos pais, há tantos séculos.
Esta nossa Carta Pastoral será enviada aos Rev. Párocos para a lerem e explicarem aos fiéis, na forma do costume.
Leiria, 13 de outubro de 1930.
† José, Bispo de Leiria