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DCF III-3, Doc. 685

5 jan. 1922Porto (Asilo de Vilar)documentoLúcia de Jesus

Primeiro escrito da vidente Lúcia sobre as aparições, feito a pedido do seu confessor, no Asilo de Vilar, Pe. Manuel Pereira Lopes.

A – ASF – AMM, Núcleo 3, pasta C, doc. 12.

Publ.: REIS, Sebastião Martins dos – Uma vida ao serviço de Fátima, Deus e o Diabo na Quinta do Inferno, Cucujães, 1973, p. 304-320, e MARTINS, António Maria – Documentos de Fátima, Porto, 1976, p. 468-476; IDEM - Novos Documentos de Fátima, Porto, Livraria A.I., 1984, p. 96-103, todos com actualização da ortografia.

Descrição do documento: Quatro folhas duplas (16 páginas) de um caderno escolar (17x22 cm), de 23 linhas. Apenas foram escritas as folhas 1 a 5. As restantes estão em branco.

Acontecimentos de 1917

Maio 13-1917

Andava guardando as ovelhas na cova de Iria na companhia do meu primo Francisco e da Jacinta, brincando fazendo um muro á volta duma moita; e virmos um relampago; e disse eu para o Francisco, vamos embora porque está a dar relampagos e pode vir trevoáda, voltarmos as ovelhas para nos virmos embora; chegando ao meio da fazenda, deu outro relampago e virmos uma Senhora em sima duma carrasqueira; ficarmos muito assustados por vermos a quele resplendor que a envolvia. Entam disse-nos Ela; não tenham medo porque eu não vos faço mal. Perguntei-lhe eu Dedonde é vossemecê? Eu sou do céu. O que é que vossemecê me quer? Quero que venhas aqui durante 6 meses e no fim te direi o que quero. Perguntei-lhe pela Maria do José das Neves e Ela me disse está no céu perguntei-lhe pela Amelia e disse-me que estava no purgatorio. Se me disse mais alguma coisa neste mez não me lembro E nisto dezapareceu subindo tam alta que chegou a ponto de não a vermos mais.

Junho 13-1917

Estava-mos á espera que a Senhora aparece-se junto da carrasqueira, e deu um relampago e a Senhora apareceu em sima da carrasqueira.

Perguntei-lhe o que me queria; a resposta. Quero que continuêm a vir aqui todos os meses, e que aprendam a ler. Pedi-lhe para curar um côcho e algumas pessoas que me tinham pedido; umas duentes outras pela coverção de alguns peccadores. Resposta; Daqui a um ano seram curados. Com isto desapareceu subindo para o lado do nascente e indo tam alta que as nuvens e o azul do céu não nos deixou ver mais. Se êste mez aconteceu mais alguma coisa não me lembro.

Julho 13-1917

Pela hora do meio dia assim como todos os outros mezes aprossimarmo-nos da carrasqueira para vermos a Senhora. Deu um relampago e apareceu a Senhora em sima da asinheira. Pergunta. O que é que vosseme-se me quer hoge? Resposta. Quero que continuem a a vir aqui o resto dos mezes Querem aprender uma oração Queremos sim, é a seguinte. Ó meu Jesus perdoai-nos, livrae-nos do fogo do inferno e levai as alminhas todas para o céu pricipalmente aquelas que mais d'ele precizarem.

Em seguida confiou-nos algumas palavrinhas; disendo-nos. Não digão histo a ninguem só o podem dizer ao Francisco. Quero-lhe pedir por algumas pessoas que me pediram para eu lhe pedir por élas; umas cégas outras aleijàdas outras mudas. Daqui a um ano algumas seram curadas.

E nisto subio ao céu como todos os outros mezes.

Agosto 13-1917

Ea-mos a caminho para o sitio da carrasqueira e disséram-nos que primeiro tinha-mos de ir a casa do Senhor Prior; formos pençando que êle nos queria alguma coisa; chegando lá subir-mos para a baranda esperando pelas ordens que nos davam; ninguem nos queria para nada.

Disseram-nos então. Subam para este carro para que cheguem mais de pressa lá ao sitio; primeiro meu pai disse que nós ia mos a pé; mas o Senhor Admenistrador mandou-nos subir de novo para o carro dizendo que indo no carro iamos livres do povo. Então por ordem do meu pai subi para o carro e os meus primos em vez de irem com nosco para a cova de Iria foram para Vila Nova de Ourem. Disse eu não é para aqui para êste lado; mas o Senhor Admenistrador respondeu dizendo que nós iamos a Ourem a casa do Senhor Prior e depois vinhamos num altemovel que ainda cá chegavamos a tempo; E assim que chegamos a Ourem fichou-nos dentro dum quarto prometendu-nos não sair-mos da-li enquanto não dissésse-mos o segredo que a Senhora nos tinha cofiado; e assim se passaram trez dias amiacando-nos com diversos castigos e prometendu-nos algumas peças de oiro mas nada conseguiram de nós. Entam vieram-nos por em casa do Senhor Prior.

Chegando a nossa casa formos logo pastar as ovelhas para um sitio chamado Valinho; andando na companhia do Francisco e do João a Jassinta tinha ficado em casa; então eu desconfiava que nossa Senhora nos fise-se alguma vesita e por inspiração de nossa Senhora, pedi ao João que fosse a casa chamar a Jassinta e como êle não quise-se ir prometi dar-lhe um vintem que tinha; então êle foi; chegando a Jassinta deu um relampago e apareceu a Senhora em sima du-ma carrasqueira.

Então o que é que vosse-messe me quer hoge? Quero que continuem a [ir] o resto dos meses á cova de Iria; Se não tivessem ido embora o milágre não era tam conhessido. A mulher que tem o dinheiro manda perguntar o que é que quer que se faça á quele dinheiro. Quero que façam dois andores no dia da festa de nossa Senhora do Rosario; um leva-o o Francisco com mais três rapazitos outro levano as meninas com mais duas. Quero lhe pedir por algumas peçôas que me pediram para a Senhora as curar; daqui a um ano algumas Seram curadas. E nisto subio como todos os outros mezes inclinada para o lado do nascente.

Setembro 13-1917

Pela hora do meio dia lá estavamos á espera que a Senhora viesse. Deu então um relampago e apareceu a Senhora. O que é que vossemece me quer hoje? Quero que continuem a vir aque o resto dos meses e que continuem a rezar o terço todos os dias; quero lhe pedir para fazer um milagre para que todo o povo aquerdite; no ultimo mez farei um sinal no sol para que aquerditem; e vira Santo José com o menino Jesus dar a bença ao mundo. Nossa Senhora do Rosario. Depois Nossa Senhora das Dôres e Nosso Senhor. Quero lhe pedir por algumas peçoas que me pediram; para a Senhora as curar umas cochas outras mudas outras cega e outras duensas daqui a um ano alguma seram curadas. Se me disse mais coizas neste mez não me lembro. Subio para o lado do nascente como todos os outros mezes.

Outubro 13-1917

Como todos os outros mezes derigirmo-nos ao pé da carrasqueira para vermos a Senhora. Deu um relampago; e apareceu a Senhora. O que é que vocemecê me quer hoje? Quero te dizer que não ofendam mais a Deus nosso Senhor porque já está muito ofendido e que continuem a rezar o terço todos os dias e quero que fação aque uma Capelinha á Senhora do Rosario. Então como é que vossemece se chama? Eu sou a Senhora do Rosario. Agora eu compriendi que ela disse assim. Quando Eu chegar ao céu a guerra acaba hoje. Mas a minha prima Jacinta disse que ela tinha dicto deste modo. Se o povo se imendar a guera acaba hoje. Por isto não não posso afirmar de qual foi o modo que ela pronuciou estas palavras. Quero-lhe pedir por a quelas pessoas que me pediram para a Senhora as curar; umas cochas outras cegas outras mudas outras duentes; umas curo outras não.

e Nisto subio para o lado do nascente como todos os outros mezes; indo a tal altura que o azul do céu e as nuvens não nos deixaram ver mais. Tendo-se escondido olharmos para o sol e virmos ao lado direito do sol um homem da cinta para cima, com um menino ao colo fazendo cruzes + com a mão direita; e na outra tinha um menino vestidinho de branco tinhão em volta um grande resplandor que nos não deixava olhar à nossa vontade. Ao lado esquerdo Nossa Senhora talqual tinha descido á azinheira.

Acabandó de Fazer as cruzes Santo José com o menino e Nossa Senhora dezapareceram. Logo em seguida apareceu ao lado direito do Sól Nosso Senhor vendo só da cinta para cima tinha o vestido vermelho. Do outro lado Nossa Senhora das Dôres com um manto rocho; e sempre cobertos com o resplendo[r] que parecia cegarnos; com isto dezapareceram e nunca mais vi nada até hoje.

O vestido de Nossa Senhora era destas cores; o vestido era todo branco; tinha dos estrelas da cinta para baixo uma na direção da outra; ao pescosso um cordão com uma bola chegava até á cinta; as mãos postas, e delas caia umas contas não sei se era Rosario se era Terço branco com um cruxifixo tambem branco. O manto cobria-lhe a cabeça até ao fim do vestido. tinha uma beirinha doirada; os pés não sei se tinha maias se vinha descalços, porque eu não lhe defrençava os dedos, era porcausa da luz que me não deixava fitalos tudo em vol[ta] dela era uma luz tam brilhante e tam forte que me não deixava ver como eu queria porque parecia cegar-me.

Paresseme que já disse quase tudo se me falta alguma coisa duque ela disse para escrever não me lembro.

Peço desculpa de ir tam mal escrito mas não sei melhor. ainda ando a estudar.

5-1-1922 Lúcia de Jesus.

Notas dos editores

2 O presente documento foi escrito pela vidente Lúcia a pedido do seu confessor, no Asilo de Vilar, Pe. Manuel Pereira Lopes, como se depreende de uma carta dirigida pelo mesmo a D. João Pereira Venâncio a 26 de Julho de 1961: “Tive grande satisfação em ser incluido no número dos sacerdotes que, por incumbencia do Exmo Snr. Dom José saudoso Bispo de Leiria, assistiram aos depoimento della na primeira sessão do Processo Oficial das Aparições de Fátima (cf. DCF, vol. 2, Doc. 8, de 8 de Julho de 1924). O que então lhe ouvi e consta do processo, confirmou uma narração que ela, a meu pedido tinha escrito sobre essas aparições. Descrição simples, com incorrecções ortográficas, que exalava um suave perfume de espontaneidade e sinceridade. Infelizmente esse original que eu tinha em grande apreço, emprestei-o a alguém que não me restituiu. Decerto, nada tirava nem acrescentava ao seu depoimento posterior” (AEL, Documentos de Fátima, J-29). Esteve em poder do Dr. Sebastião dos Reis que o publicou e entregou ao Pe. António Maria Martins e que, após a morte deste, foi entregue, pela Província Portuguesa da Companhia de Jesus, ao Santuário de Fátima.
Aparato crítico e remissões (51)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 2, Doc. 7, de 8 de Julho de 1924, nota 1.
3 1917 escrito sobre rasura de 1922
4 ela corr. Ela
5 maria corr. Maria
6 ela corr. Ela
7 Rasurou que
8 e corr. E
9 desapareceu corr. dezapareceu
10 subiu corr. subindo
11 virmos corr. vermos
12 meses corr. mezes
13 a vir aqui o resto dos mezes Querem aprender uma oração, escrito sobre rasura de rezar todos os dias o terço
14 confiou-me corr. confiou-nos
15 palabrinhas corr. palavrinhas
16 disendo-me corr. disendo-nos
17 por élas, escrito sobre rasura de palavra ilegível.
18 segas corr. cégas
19 todas as corr. todos os
20 disséram-nos escrito sobre rasura.
21 prior corr. Prior
22 esperando escrito sobre rasura de palavra ilegível.
23 admenistrador corr. Admenistrador
24 não corr. Não
25 Avivou Ourem
26 Avivou Ourem
27 Rasurou e avivou -or
28 No texto, Senhor
29 fisa-se corr. fise-se
30 a [ir] o resto dos meses escrito sobre rasura de rezar o terço
31 ido em, escrito sobre rasura.
32 no dia da, escrito sobre rasura.
33 rosario corr. Rosario
34 d corr. três
35 e corr. E
36 do Rosario escrito sobre rasura de das Dores
37 das Dôres escrito sobre rasura de do Rosario
38 ou corr. alguma
39 Rasurou Nossa
40 Rasurou im
41 Sic.
42 palabras corr. palavras
43 Quero-lhe pedir por a escrito sobre rasura de O que é que vocemessê me
44 dir corr. para
45 tinha corr. tinhão
46 Avivou azinheira
47 nossa corr. Nossa
48 Sic.
49 co corr. branco
50 pes corr. fim
51 Sic, por meias
52 Rasurou Maria das
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