Disseste-me há dias que Nossa Senhora queria que o dinheiro oferecido pelo povo fosse levado para a igreja da freguesia em dois andores. Como é que arranjam os andores e quando é que eles devem ser levados para a igreja?
– Os andores compram-se com o dinheiro oferecido e serão levados nas festas da Senhora do Rosário.
2a – Sabes com certeza em que sítio é que Nossa Senhora deseja que seja edificada uma capela em sua honra?
– Não sei ao certo, mas julgo que Ela quer a capela na Cova da Iria.
3a – O que é que Ela disse que havia de fazer para que todo o povo acreditasse que ela aparecia?
– Disse que havia de fazer um milagre.
4a – Quando foi que ela disse isso?
– Disse-o umas poucas de vezes, mas só uma vez, na ocasião da primeira aparição é que lhe fiz essa pergunta.
5a – Não tens medo de que o povo te faça mal se não vir nada de extraordinário nesse dia?
– Não tenho medo nenhum.
6a – Sentes dentro de ti alguma coisa, alguma força que te arraste para a Cova da Iria no dia 13 de cada mês?
– Sinto vontade de lá ir e ficava triste se não fosse.
7a – Viste alguma vez a Senhora benzer-se, rezar ou desfiar as contas do Rosário?
– Não vi.
8a – Mandou-te rezar?
– Mandou-me rezar umas poucas de vezes.
9a – Disse-te que rezasses pela conversão dos pecadores?
– Não disse; mandou-me só rezar a Nossa Senhora do Rosário para que acabasse a guerra.
10a – Viste os sinais que outras pessoas dizem ter visto, como uma estrela, rosas a despregarem-se do vestido da Senhora, etc.?
– Não vi a estrela nem outros sinais extraordinários.
11a – Ouviste algum rumor, trovão ou tremor de terra?
– Nunca ouvi.
12a – Sabes ler?
– Não sei.
13a – Andas a aprender a ler?
– Não ando.
14a – Como cumpres então a ordem que a Senhora te deu nesse sentido?
!.....
15a – Quando dizes ao povo que ajoelhe e reze, é a Senhora que manda que o digas?
– Não é a Senhora que manda, sou eu que quero.
16a – Sempre que ela aparece, tu ajoelhas?
- Às vezes fico de pé, outras vezes ajoelho-me.
16a – Quando fala, a sua voz é doce e agradável?
– É.
17a – Que idade parece ter a Senhora?
– Parece ter uns quinze anos.
18a – De que cor é o cadeado do rosário?
– É branco.
19a – E a do crucifixo?
– O crucifixo também é branco.
20a – O véu cobre a testa da Senhora?
– Não cobre. Vê-se-lhe a testa bem.
21a – O esplendor que a envolve é bonito?
– É mais bonito que a luz do sol e muito brilhante.
22a – A Senhora nunca te saudou com a cabeça ou com as mãos?
– Nunca.
23a – Nunca se sorriu para ti?
– Também não.
24a – Costuma olhar para o povo?
– Nunca a vi olhar para ele.
25a – Ouves as conversas, rumores e gritos do povo, durante o tempo que vês a Senhora?
– Não ouço.
26a – A Senhora pediu-te em maio que voltasses todos os meses até outubro à Cova da Iria?
– Disse que voltássemos lá de mês a mês durante seis meses, no dia 13.
27a – Ouviste ler a tua mãe o livro chamado “Missão abreviada” onde se conta a história da aparição de Nossa Senhora a um menino e uma menina?
– Ouvi.
28a – Pensavas muitas vezes nessa história e falavas dela a outras crianças?
– Não pensava nessa história nem a contei a ninguém.
Notas dos editores (4)
6 Manuel Gonçalves da Silva, residente em Aljustrel, casado com Maria dos Prazeres.
7 Pode tratar-se de Manuel Henriques, nascido em 1850, casado com Maria Violante, então residente em Fátima, ou de seu filho, também Manuel Henriques, nascido a 15 de fevereiro de 1891, que veio a casar com Maria dos Anjos.
8 Filho de António Carreira Ribeiro e de Rosa de Jesus Ribeiro. Nasceu na Moita do Martinho, freguesia de S. Mamede, concelho da Batalha, a 19 de novembro de 1865. Casou com Maria da Cunha. Faleceu a 18 de janeiro de 1919. No Rol dos Confessados de 1917, não consta nenhum Francisco Rodrigues, mas sim Francisco Ribeiro. Deve tratar-se de um lapso do autor.
5 Anastácio Vieira, de Aljustrel. Padrinho de batismo de Lúcia, casado, a 29 de novembro de 1882, com Teresa de Jesus, tia paterna e madrinha de batismo de António dos Santos, pai de Lúcia.