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DCF Seleção, Doc. 36 (= DCF I, Doc. 31)
Índice (10 secções)
Relatório do Pe. Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, sobre os factos ocorridos na sua freguesia, nos dias 13 de maio a outubro de 1917. Contém os depoimentos dos videntes Lúcia de Jesus, Jacinta Marto e Francisco Marto.
Publ.: DCF, I - Doc. 31
Ex.mo e Rev.mo Senhor
Arcebispo de Mitilene de Lisboa
Em obediência ao que me foi ordenado por Va Ex.cia Rev.ma em ofício de três de novembro de mil novecentos e dezassete, referente aos factos ocorridos neste freguesia de Fátima, desta Diocese de Leiria, nos dias treze de maio a outubro do referido ano de mil novecentos e dezassete, relativos às singulares graças do Céu de que se dizem favorecidas três crianças desta freguesia, cumpre-me expôr o que hei averiguado das aludidas crianças e de algumas pessoas fidedignas.
Primeira Aparição a 13 de maio
As crianças que se dizem favorecidas do Céu pela Visão ou Aparição de Nossa Senhora são: Lúcia de Jesus, de dez anos de idade, Francisco de nove anos, e Jacinta de sete anos de idade. A Lúcia de Jesus é filha de António dos Santos1 e Maria de Jesus, e o Francisco e a Jacinta são filhos de Manuel Pedro Marto2 e Olímpia de Jesus, todos naturais e moradores no lugar de Aljustrel desta freguesia e são primos co-irmãos.
[Depoimento de Lúcia]
Logo que começou a correr a notícia de que Nossa Senhora havia aparecido no dia treze de maio às referidas crianças, e que disso tive conhecimento, o que foi cerca de quinze dias depois, mandei vir a minha casa, e residência paroquial, a mãe da vidente Lúcia e que se fizesse acompanhar desta. Vem a mãe com a filha, mas toda lastimosa por julgar, diz ela, que tudo é mentira; manda à filha que desdiga o que havia dito, que será um grande mal tal mentira. Ameaça, e diz já ter ameaçado a filha com muitas coisas que lhe hão de acontecer se ela continuar a dizer que viu Nossa Senhora e mentir. Diz que só estas coisas lhe estavam reservadas para ela, etc., etc.
Procuro serenar a aflita mãe, dizendo-lhe que, se fôr verdade o que dizem, é uma grande glória para ela e sua família. Oh!!... se fôr verdade... mas se fôr mentira?!... exclama a duvidosa mãe. Aconselho-a a ter pela filha os mesmos cuidados que até ali tem tido; que na ocasião, em que, porventura, a filha haja de ir ao local da Aparição a não mande nem a estorve, e que a traga à minha presença sempre, e só, após o dia da Aparição, caso ela diga que continua a ter a graça de ver Nossa Senhora; o que tudo prometeu fazer, oferecendo-se até, a vir, na véspera ou ante-véspera, com a filha à minha presença para eu lhe indicar qualquer coisa que a filha houvesse de fazer ou dizer na ocasião da Aparição. Disso a dissuadi para evitar algum mau conceito que a impiedade ou os mal intencionados pudessem fazer, como ainda assim fizeram.
Posto isto, procedi ao interrogatório da filha – a dita vidente Lúcia – a qual disse que no dia treze do corrente mês de maio, andava pastoreando as ovelhas, com os primos Francisco e Jacinta, no sítio chamado Cova da Iria – fica a dois quilómetros a noroeste desta Igreja Paroquial de Fátima, junto à estrada que segue para a Batalha – por cerca de uma hora da tarde – hora solar – e que tendo acabado de rezar as contas – o terço – (o que fazia muitas vezes), viu um relâmpago de que teve muito medo; começou logo a ajuntar as ovelhas e a mandar os primos ajuntá-las para se irem embora, – para casa –, dizendo que vinha lá trovoada, mas não via nuvens. De repente, viu outro relâmpago e logo uma Senhora, de mediana estatura e extraordinária beleza, em cima de uma carrasqueira – azinheira pequena – e que lhe disse:
– Não tenhas medo que te não faço mal.
E que ficando logo sem medo algum Lhe perguntou:
– Que lugar é o de Vossemecê?
E a Senhora lhe respondeu:
– O meu lugar é o Céu.
– O que vem Vossemecê cá fazer ao mundo?
– Venho cá para te dizer que venhas aqui todos os meses até fazer seis meses, e no fim dos seis meses te digo o que quero.
– Vossemecê sabe-me dizer se a guerra ainda dura muito tempo ou se acaba breve?
– Não te posso dizer ainda, enquanto te não disser também o que quero.
– Sabe-me dizer se eu vou para o Céu?
– Tu vais.
– E a minha prima?
– Vai.
– E o meu primo?
– Esse ainda há de rezar as contas dele...
– Dito isto que a Senhora se começou a elevar, no ar, seguindo para o nascente até desaparecer.
A visão
Disse a Lúcia que a Senhora, que ela e seus primos viram, tinha um pouco mais ou menos de um metro de altura e vinha vestida de branco. A saia era branca e dourada aos cordõezinhos ao comprido e a atravessar e era curta, isto é não descia até aos pés. O casaco era branco não dourado. Manto branco, que ia da cabeça até à orla da saia, dourado aos cordõezinhos de alto a baixo e a atravessar, nas orlas o ouro era mais junto. O casaco tinha dois ou três cordõezinhos dourados nos punhos. Não tinha cinto, fita, faixa à cintura. Tinha as mão postas, um pouco acima da cintura e delas pendia um terço branco. Todas as vezes que falava, separava as mãos, pouco mais ou menos, à distância dos ombros. Tinha os olhos pretos, e era tão linda no rosto, como nunca tinha visto Senhora alguma. Quase a cegava a sua beleza, e nunca se cansava de olhar para Ela.
Parecia-lhe que tinha meias brancas, não douradas, mas que não dava a certeza porque para pouco mais olhava do que para o rosto. Até mesmo em uma ocasião na minha presença, estando também a Jacinta, ela volta-se para esta e pergunta-lhe se Ela trazia meias, porque não tinha reparado.
Segunda Aparição a 13 de junho
Logo após o dia treze de junho comparece na minha presença e residência paroquial, a menina Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório da Lúcia, a qual me disse que no dia treze do corrente mês de junho, por cerca da uma hora da tarde, se dirigiu com seus primos Francisco e Jacinta para a Cova da Iria. Chegados lá, rezou o terço, com as pessoas que estavam presentes. Terminado o terço, iam as pessoas para rezar a Ladainha, e ela, que já tinha visto o relâmpago, lhes disse: não comecem que já não têm tempo.
Que vai mais para o pé da carrasqueira e vê chegar a Senhora, vindo do nascente. E lhe pergunta:
– Então o que é que me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que voltes cá nos dias treze e que aprendas a ler para te dizer o que quero.
– Então não me quer mais nada?
– Não te quero mais nada.
E logo se começou a elevar e desapareceu.
Terceira Aparição a 13 de julho
Procedi ao interrogatório, e ela, – a vidente Lúcia – disse que no dia treze deste mês de julho, se dirigiu com os seus primos, Francisco e Jacinta, à hora do costume, para a Cova da Iria, e que chegados lá pediu o terço – isto é, presidiu à sua recitação, – rezando-o com o povo (calculado em duas mil pessoas) –. Terminado o terço esperou um bocadito, e logo viu o relâmpago e em seguida veio a Senhora. Levanta-se, estava ajoelhada, e diz ao povo que se chegue para trás alguma coisa; que ajoelhem os que puderem e quiserem, e tornando a ajoelhar pergunta à Senhora:
– O que é que me quer hoje?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que voltes cá no dia treze: Rezem o terço a Nossa Senhora do Rosário que abrande a guerra que só Ela é que lhe pode valer.
– Tenho aqui por pedido se Vossemecê converte uma mulher do Pedrógão e uma de Fátima, e se melhora um menino da Moita?
E que a Senhora lhe respondeu que os convertia e melhorava dentro de um ano.
– Tenho aqui por pedido se Vossemecê leva um homem da Atouguia para o Céu o mais depressa melhor.
E Ela respondeu:
– Levo mas... (aqui não sei que mais disse).
– Faça um milagre para que todos acreditem!?
E a Senhora respondeu:
– Daqui a três meses faço então com que todos acreditem.
– Não me quer mais nada?!
– Não te quero mais nada.
Dito isto, que se elevou como das outras vezes seguindo para o nascente e desapareceu.
Quarta Aparição a 19 de agosto
No dia treze de agosto por cerca das dez horas da manhã, compareceu em minha casa, residência paroquial, onde me encontrava com o M. R. Vigário da Vara de Torres Novas, Pe. António de Oliveira Reis, o administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, trazendo no carro que o transportava o R.do Pe. Manuel Carreira Poças, Prior de Porto de Mós. Notando eu a este padre a minha admiração por ele acompanhar a autoridade civil em assunto de tal natureza, me disse que não havia novidade alguma, porque vinham de interrogar as crianças em suas casas, e que o administrador, bem como ele, estava crente do que dizem as crianças; que lhes não restam dúvidas, mas que vêm a minha casa para eu interrogar as crianças – que estão a chegar – sobre um segredo (primeira vez que ouvi falar no segredo), que elas dizem que a Senhora lhes disse, mas que não lhes revelaram; e depois que o mesmo administrador as leva ao local da Aparição, onde deseja também ir. Igual declaração me faz também o administrador, aparentando senão de crédulo, pelo menos de curioso. Cerca de meia hora depois apareceram as crianças e seus pais. O administrador pede-me para eu as interrogar, o que fiz na sua presença. Ao interrogar a menina Lúcia sobre quem lhe tinha ensinado a dizer o que tem dito; responde que foi aquela Senhora que viu na Cova da Iria. Ao dizer-lhe que vai para o inferno quem diz mentiras que causam tanto prejuízo como o que causa o que ela diz – se fôr mentira, por tanta gente vir enganada – responde, que, se quem diz mentiras vai para o inferno, ela que não vai para o inferno por causa disso, porque não diz mentiras, mas só diz o que viu e o que a Senhora lhe disse, e que se o povo vem é porque quer, que ainda não chamou ninguém. Pergunto-lhe se a Senhora lhe tinha dito algum segredo. Responde que sim; mas, que me o não diz. Feitas várias interrogações sobre ele, responde: Olhe!... se quer... vou lá acima e pergunto à Senhora se Ela me dá licença para eu dizer o segredo e se Ela me der licença, então digo-lhe. A isto responde o administrador: são coisas sobrenaturais... vamos-nos embora. Levanta-se, manda sair as crianças do meu escritório, onde nos encontrávamos, e subir para o carro. Isto na presença dos pais e dos Rev.dos sacerdotes acima referidos. Segue algum tempo o caminho que conduz à Cova da Iria, e .... depois, volta à desfilada a caminho de Vila Nova de Ourém, para onde as transporta e onde as retém até ao dia quinze em que veio entregá-las aos pais. A notícia do rapto é levada com a rapidez do relâmpago ao local das Aparições onde cerca de quinze a dezoito mil pessoas esperavam com ansiedade a sua chegada.
Passados poucos minutos, chegam à porta da residência paroquial um automóvel e alguns ciclistas exaltados, dando parte da indignação da grande massa de povo que se achava na Cova da Iria, reclamando o meu linchamento como cúmplice no atentado do arrebatamento das crianças. Apresento a minha inculpabilidade, e até indignação por tal ato. E graças à Virgem Santíssima não fui enxovalhado, a não ser por algumas inconveniências proferidas por um paroquiano desta freguesia. No dia vinte e um compareceu na minha presença a menina Lúcia e disse que no dia treze em que foi levada pelo administrador para Vila Nova de Ourém, e onde esteve, na casa do mesmo administrador, até ao dia quinze, não viu nada de extraordinário. No dia dezanove, que fôra domingo, andava a pastorear as ovelhas, no sítio do Valinho, com o primo Francisco e um irmão deste chamado João, mais velho que o Francisco, e vendo os ares semelhantes àqueles em que costumavam ver a Senhora, pede ao primo João, oferecendo-lhe um vintém, para ir chamar a Jacinta que estava em casa dos pais. E logo que esta chegou lhes apareceu a Senhora em cima de uma carrasqueira; que todos a viram, menos o primo João, irmão do Francisco e da Jacinta. E então que lhe perguntou:
– Então o que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora lhe respondeu:
– Quero dizer-te que voltes lá à Cova da Iria: se não tivessem abalado contigo para a Aldeia (Vila Nova de Ourém), o milagre seria mais conhecido. Havia de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo. Havia de vir Nosso Senhor benzer o povo. Vinha Nossa Senhora do Rosário com um anjinho de cada lado. Vinha Nossa Senhora das Dores com um arco de flores à roda.
– Aquele dinheiro que Vossemecê tem, o que é que Vossemecê quer feito dele? (É o dinheiro das esmolas oferecidas).
Feita esta pergunta, a Senhora respondeu:
– Aquele dinheiro... façam dois andorzinhos; um leva-o tu e mais três meninas como tu e vão de branco, e outro leve-o o Francisco e mais três meninos como ele, levem uma capa branca, levem-nos à Senhora do Rosário e apliquem-nos a Ela.
Dito isto, desapareceu, elevando-se pelo ar acima. Da primeira ou segunda vez que lhe apareceu perguntou-lhe quem era, – e a Senhora respondeu que lho dizia no último dia. Disse também que da segunda vez ou terceira vez que lhe apareceu, lhe ensinou uma oração que costuma rezar, entre os mistérios do terço quando o reza, na Cova da Iria. – A oração é: Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno:
levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem.
Quinta aparição a 13 de setembro
No dia quinze do mês de setembro, compareceu na minha presença e residência paroquial a vidente Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório. A qual disse que no dia treze do corrente mês de setembro, se dirigiu com seus primos, Francisco e Jacinta, ao sítio chamado Cova da Iria, e à hora do costume viu um relâmpago e logo viu chegar a Senhora que tinha visto das outras vezes; que lhe parecia a mesma vestida de branco, mas que para pouco mais olhava do que para o rosto, para tomar sentido no que Ela dizia. E lhe perguntou:
– O que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que continues a rezar o terço sempre à Senhora do Rosário, que abrande Ela a guerra; que a guerra está para acabar. Para o último dia há-de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo e Nosso Senhor dar a bênção ao povo. E que venhas cá para o dia treze de outubro.
Está aqui esta menina que é muda e mouca, se Vossemecê a melhora?! Lhe disse a Lúcia. E que a Senhora lhe respondeu, dizendo que daqui a um ano acharia algumas melhoras.
Tenho aqui muitos pedidos – uns para converter e outros para os melhorar!...
E a Senhora lhe respondeu:
– Melhoro uns, outros não, porque Nosso Senhor não quer crer neles.
– O povo muito gostava aqui duma capelinha!
– Metade do dinheiro que ajuntaram até hoje façam os andores e levem-nos à Senhora do Rosário, e outra metade seja para ajuda da Capelinha – lhe respondeu a Senhora.
Disse mais a Lúcia que lhe ofereceu duas cartas e um vidro – pequeno frasco – com água de cheiro, que lhe foram apresentadas por um homem da freguesia do Olival, e que quando lhas oferecia lhe disse:
– Deram-me isto... se Vossemecê as quer?!...
E a Senhora respondeu:
– Isso não é conveniente lá para o Céu.
Dito isto, que se elevou indo para o lado do nascente.
E então ela – a Lúcia – que se voltou para o povo e que diz: se A querem ver voltem-se para acolá. – E aponta para onde Ela ia.
Sexta Aparição a 13 de outubro
No dia dezasseis do corrente mês de outubro compareceu na minha presença, e residência paroquial a vidente Lúcia acompanhada de sua mãe. Procedi ao interrogatório da Lúcia, a qual disse que no dia treze do mês corrente tendo-se dirigido, com seus primos, Francisco e Jacinta, para o local chamado Cova da Iria, uma vez ali viu à mesma hora das outras vezes um relâmpago – o que sempre se tem dado nos dias treze desde maio, – que se voltou para o nascente, tendo dito ao povo que se calasse que já se tinha dado o relâmpago, e logo viu descer Nossa Senhora pelo ar abaixo; e que disse outra vez ao povo: calem-se... que já lá vem Nossa Senhora! Olhem!... Veem-nA... veem-nA... veem-nA?... E a Senhora veio e se pôs com os pés em cima das fitas de seda e flores de rosa, que estavam a cobrir os troncozinhos da carrasqueira.
E então que Lhe perguntou:
– O que é que Vossemecê me quer?
E a Senhora respondeu:
– Quero-te dizer que não ofendam mais a Nosso Senhor que está muito ofendido; que rezem o terço a Nossa Senhora. Façam aqui uma Capelinha à Senhora do Rosário (a Lúcia tem dúvida se foi assim como fica dito ou se foi: façam aqui uma Capelinha – Sou a Senhora do Rosário). A guerra acaba ainda hoje, esperem cá pelos seus militares muito breve.
– Tenho muitos pedidos, se Vossemecê os despacha todos ou não?!
– Uns despacharei, outros não.
– Já me não quer mais nada?
– Já te não quero mais nada – respondeu a Senhora.
– E eu também Lhe não quero mais nada. Dito isto, a Senhora abalou pelo mesmo caminho e na mesma direção das outras vezes. E então se voltou para o povo e lhe disse:
– Olhem... lá vai Ela – lá vai Ela – lá vai Ela!... E que foi subindo até desaparecer da vista. Uma vez perdida de vista, olhou para o sol – mas não por Ela mandar – e viu S. José, a meio corpo, vestido de branco, com o menino assentado no braço esquerdo. S. José estava à esquerda do sol e abençoava o povo com a mão direita. Parece-lhe que fez três ou quatro cruzes sobre o povo. O Menino Jesus, viu-O a todo o corpo, vestido de encarnado. E viu, ao lado direito do sol, Nossa Senhora, a todo o corpo, vestida de encarnado com um manto azul pela cabeça, brochado ao pescoço e as mãos à cintura com os dedos entrelaçados.
Desapareceu esta visão, diz ela, e ficou tudo amarelo por alguns instantes – e logo viu aparecer Nosso Senhor, a meio corpo, vestido de branco, à direita do Sol; e à direita de Nosso Senhor viu Nossa Senhora, a todo o corpo, de pé, vestida de branco, com um manto azul pela cabeça, e as mãos sobre o peito de palmas para dentro, uma ao lado da outra em posição horizontal. O manto não era brochado como o da primeira visão. Nossa Senhora em nenhuma destas visões se apresentou com o Menino. Todas estas visões tinham resplendor amarelo, exceto a de S. José.
Na ocasião em que estava a ver estas representações o povo gritava: Olhem... Olhem... Olhem... tão bonito!!! Declarou mais a Lúcia que neste momento também disse ao povo que olhasse para lá – para o sol – que estava lá S. José – e – depois Nosso Senhor. Sendo interrogada sobre o que se há de fazer ao dinheiro, disse que é para uma Capela; e sobre quem há de fazer a Capela e tomar a direção da obra, disse que não sabia porque a Senhora lhe o não tinha dito. E sendo também interrogada sobre quando Nossa Senhora lhe tornava a aparecer, ou esperava tornar a vê-la, disse que não esperava mais por Ela, porque lhe não tinha prometido senão para seis meses ou seis vezes, – e estas já vieram – e que agora só espera tornar a vê-la no Céu.
Depoimento da Jacinta
Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador do concelho, mas que nesse mês A viu no domingo seguinte – dia dezanove – no sítio chamado Valinho, onde foi chamada por seu irmão João, a pedido da Lúcia.
Disse que viu uma Senhora muito bonita, toda vestida de branco, com fato dourado aos cordõezinhos, com um véu ou manto pela cabeça, do tamanho de F. – indica uma rapariga de regular estatura e dos seus catorze anos – e que trazia umas contas muito branquinhas penduradas nas mãos e seguras entre os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, que tinha erguidas à cintura, e que separava uma da outra, pouco mais ou menos à largura dos ombros, quando falava à Lúcia.
Quando Ela falava para a Lúcia, que ouvia uma voz muito piedosa, mas que não se lembra de ouvir dizer, senão que a gente – elas videntes – ia para o Céu. Pelas várias vezes que a interroguei nunca se contradisse no essencial, havendo todavia coisas acidentais, algumas contradições, verdadeiras ou aparentes. Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:
– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.
Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:
– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.
Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:
– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!
Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.
Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta. A respeito do segredo também não consegui que me o revelasse; apenas disse que ele – segredo – não era mau para elas, videntes. Disse mais, que a Senhora lhe apareceu mais três vezes: uma no dia da Ascensão do Senhor na Igreja durante a missa e que lhe ensinou a rezar as contas; outra vez, à noite, sobre o alçapão do sótão estando a família a dormir; e mais uma, debaixo (ou salvo erro em cima) duma mesa, sem nada lhe dizer, até que ela, Jacinta, disse para a mãe: Olhe... não vê a Senhora, que lá vi em cima, ali debaixo?!... Olhe!!! Como a própria mãe me declarou.
Depoimento do Francisco
Algumas vezes e em diversas ocasiões interroguei o Francisco e sempre me disse que viu uma Senhora muito bonita na Cova da Iria e no Valinho nos mesmos dias que suas companheiras tinham indicado e que vinha vestida de branco, mas que não A ouvia falar. A respeito do segredo nada consegui que me revelasse. Dizendo-lhe eu que, não ouvindo ele a Senhora, não tinha segredo algum, respondeu que sim, tem, que lhe disse a Lúcia. Disse-lhe que, como foi a Lúcia que o disse, podia-me dizer, porque não é segredo nem Nossa Senhora lhe disse que o não dissesse, respondeu: não digo, que é pecado, que a Lúcia disse que o não dissesse eu, por isso não digo. Aqui recordo-me que a Lúcia em certa ocasião me havia dito que Senhora só lhe deu licença ou mandou que o dissesse ao Francisco e à Jacinta. Não segui um interrogatório tão minucioso e tanto a tempo, com a Jacinta e Francisco, como era muito meu desejo, e como fiz com a Lúcia, porque o pai demasiadamente crente – se não alucinado – da primeira vez que mandei pedir para a mãe vir com os filhos a minha casa, em vez de vir a mãe ou ele com os filhos, vem ele só, e diz que, sim, mos manda, mas que é se eu acreditar e não para abusar. Fiquei surpreendido ao ouvir tais palavras e outras que muito me desanimaram: verdadeira antítese dos pais de Lúcia. Em virtude do que fiquei esperando os acontecimentos e não mais convidei os pais a que me os trouxessem a minha casa, interrogando-os só quando a ocasião se me proporcionava, porque julguei sempre de meu dever mostrar-me indiferente enquanto não houvesse provas evidentes ou a Igreja falasse. Fora realmente maravilhosa a manifestação de fé dos milhares de pessoas, que acorreram ao local durante os seis meses de Aparições – calculadas: – da primeira vez somente as três crianças; da segunda Aparição, em cinquenta pessoas; da terceira Aparição, em quatro a cinco mil pessoas; da quarta Aparição em quinze a dezoito mil pessoas; da quinta Aparição, em vinte e cinco a trinta mil pessoas; da sexta Aparição, em quarenta a cinquenta mil pessoas, de todas as idades classes e condições. Por verdade e como me dita a consciência salvo algum involuntário erro o Juro in verbo sacerdotis e assino.
Paroquial de Fátima 6 de agosto de 1918.
O Pároco Manuel Marques Ferreira