Testemunhas /

Manuel Marques Ferreira

Clero

O Pe. Manuel Marques Ferreira, nascido a 22 de março de 1880 em Casal Menino (Espite, Ourém), com 37 anos, foi pároco (prior) de Fátima de 1914 a 1919. Interrogou os videntes, foi acusado pela multidão de cumplicidade quando o administrador os levou a 13 de agosto de 1917, manteve-se afastado da Cova da Iria nos dias 13 e mais tarde compilou o inquérito paroquial.

Residência: FátimaFreguesia de Fátima (da terra)Atitude prévia: neutra6 relatos

13 de agosto de 1917 4 relatos

13 ago.Testemunho diretoCartaa 3 km

A auctoridade depois de longo interrogatorio das creancinhas em suas casas, mandou-as conduzir, a titulo de informações, para minha casa, — diz, para elas lhes descobrirem um segredo que até então lhe não tinham revelado — donde, em tempo que julgou oportuno, as mandou subir para o carro e dizendo aos pais e circunstantes que as levava ao local das aparições, parte á desfilada para Vila Nova d'Ourem.

Escolheu minha casa com que fim? Para se furtar ás iras que seu acto iria promover? Para que o povo se amotinasse, como amotinou, contra mim, como cumplice?

DCF III-1, Doc. 12 · carta · 14 ago. 1917 (1 dia depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 19Digitalizações (2)Ligação
13 ago.Testemunho diretoCartaa 2 kmA multidão

O reverendo Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, em carta datada de quinze de agosto de mil novecentos e dezassete, publicada no mesmo jornal, defende-se das acusações que injustamente lhe são feitas de cumplicidade com o administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém no rapto dos videntes realizado no dia treze desse mês. Afirma nela que a sua vida chegou a correr perigo, tão grande era a excitação dos ânimos, provocada pelo rapto e pela calúnia que lhe foi assacada. Finalmente, expõe as razões da sua ausência sistemática do local das aparições no dia treze de cada mês, a qual é devida à convicção em que se acha de que a sua presença não é necessária, se as aparições são realmente sobrenaturais, e ao desejo de não fornecer aos inimigos da Igreja um pretexto para que atribuam a fé da multidão à presença ou aos conselhos do pároco de Fátima.

DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · 15 ago. 1917 (2 dias depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho diretoCartaa 3 km

P.S. — Chegou no dia 15, a autoridade com as crianças a minha casa, onde se juntaram os pais das mesmas e muitas outras pessoas perante as quais pretendeu com todas as amabilidades explicar o seu modo de proceder.

DCF III-1, Doc. 19 · carta · antes de 1 set. 1917 (3 semanas depois)DigitalizaçãoLigação
13 ago.Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoa 2 kmA multidão

No dia treze de agosto por cerca das dez horas da manhã, compareceu em minha casa, residência paroquial, onde me encontrava com o M. R. Vigário da Vara de Torres Novas, Pe. António de Oliveira Reis, o administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, trazendo no carro que o transportava o R.do Pe. Manuel Carreira Poças, Prior de Porto de Mós. Notando eu a este padre a minha admiração por ele acompanhar a autoridade civil em assunto de tal natureza, me disse que não havia novidade alguma, porque vinham de interrogar as crianças em suas casas, e que o administrador, bem como ele, estava crente do que dizem as crianças; que lhes não restam dúvidas, mas que vêm a minha casa para eu interrogar as crianças – que estão a chegar – sobre um segredo (primeira vez que ouvi falar no segredo), que elas dizem que a Senhora lhes disse, mas que não lhes revelaram; e depois que o mesmo administrador as leva ao local da Aparição, onde deseja também ir. Igual declaração me faz também o administrador, aparentando senão de crédulo, pelo menos de curioso. Cerca de meia hora depois apareceram as crianças e seus pais. O administrador pede-me para eu as interrogar, o que fiz na sua presença. Ao interrogar a menina Lúcia sobre quem lhe tinha ensinado a dizer o que tem dito; responde que foi aquela Senhora que viu na Cova da Iria. Ao dizer-lhe que vai para o inferno quem diz mentiras que causam tanto prejuízo como o que causa o que ela diz – se fôr mentira, por tanta gente vir enganada – responde, que, se quem diz mentiras vai para o inferno, ela que não vai para o inferno por causa disso, porque não diz mentiras, mas só diz o que viu e o que a Senhora lhe disse, e que se o povo vem é porque quer, que ainda não chamou ninguém. Pergunto-lhe se a Senhora lhe tinha dito algum segredo. Responde que sim; mas, que me o não diz. Feitas várias interrogações sobre ele, responde: Olhe!... se quer... vou lá acima e pergunto à Senhora se Ela me dá licença para eu dizer o segredo e se Ela me der licença, então digo-lhe. A isto responde o administrador: são coisas sobrenaturais... vamos-nos embora. Levanta-se, manda sair as crianças do meu escritório, onde nos encontrávamos, e subir para o carro. Isto na presença dos pais e dos Rev.dos sacerdotes acima referidos. Segue algum tempo o caminho que conduz à Cova da Iria, e .... depois, volta à desfilada a caminho de Vila Nova de Ourém, para onde as transporta e onde as retém até ao dia quinze em que veio entregá-las aos pais. A notícia do rapto é levada com a rapidez do relâmpago ao local das Aparições onde cerca de quinze a dezoito mil pessoas esperavam com ansiedade a sua chegada.

Passados poucos minutos, chegam à porta da residência paroquial um automóvel e alguns ciclistas exaltados, dando parte da indignação da grande massa de povo que se achava na Cova da Iria, reclamando o meu linchamento como cúmplice no atentado do arrebatamento das crianças. Apresento a minha inculpabilidade, e até indignação por tal ato. E graças à Virgem Santíssima não fui enxovalhado, a não ser por algumas inconveniências proferidas por um paroquiano desta freguesia.

DCF Seleção, Doc. 36 (= DCF I, Doc. 31) · documento oficial · 6 ago. 1918 (12 meses depois)Digitalizações (2)Ligação

Outros acontecimentos de 1917 2 relatos

Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoPalavras dos videntes

Em uma ocasião – dia 21 de agosto – dirigi-me a casa dos pais dela acompanhado de cinco senhoras – D. Maria de Jesus Raposo, de Torres Novas, e outras da Quinta da Cardiga – uma das quais, dos seus quinze anos de idade, ia vestida de branco. Ao chegar a casa dos pais chamei... Veio a Jacinta, que estava só, e que ao ver as inesperadas visitas, ficou embaraçada, como é próprio duma criança do povo e de quem poucos dias antes tinha sido restituída aos pais do rapto que lhe haviam feito. Depois de algumas palavras de animação, disse-lhe eu:

– Olha, Jacinta, vê se foi alguma destas senhoras que viste na Cova da Iria, ou se aqui está alguma parecida com A que lá viste.

Ela levanta os olhozitos, percorre-as todas com a vista, dos pés à cabeça, e diz:

– Não foi nenhuma destas... a outra é muito mais bonita.

Faço-lhe notar a que vinha vestida de branco, dizendo-lhe:

– Então não foi esta Senhora, vestida de branco, tão bonita que tu lá viste em cima?!

Esta Senhora, respondeu ela, é muito bonita, mas A que eu lá vi é muito mais bonita.

Dirigimo-nos a casa dos pais da Lúcia e ao encontrar esta, fiz-lhe a mesma pergunta obtendo idêntica resposta.

Outros de 1917Testemunho diretoRecordação posteriora 2 km

A respeito de perseguições, só me lembro – 1º - Que em certa noite foi roubado na Cova da Iria, um quadro, 2 lanternas e uns ramos de azinheira cortados em vários – fazendo-os passar por aquela onde Nossa Senhora aparecia – isto foi levado para Santarém onde esteve em Exposição, e onde andaram parodiando pelas ruas em procissão. Parece que não foi alheio a isto Artur de Oliveira Santos. – 2º - Um comício, que foi resolvido em Vila Nova de Ourém, para se realizar em Fátima, às 11 horas, à saída da missa paroquial, de propaganda contra as Aparições e a ida dos fiéis à Cova da Iria – tendo eu tido conhecimento dois ou três dias antes, preveni o povo – avisei e mandei avisar às missas da manhã que a missa do dia era na Ortiga, onde fui celebrar. Chegando os comiceiros à hora da Missa não encontrando ninguém a não ser algum mirone ou alguém enviado meu, barafustaram, perguntando por mim, mandaram vigiar, por guardas, a residência, e porque naquele dia não voltei a casa, não me encontraram nem eu os vi; – parece que a casa onde me recolhi aquela noite também foi, de noite, rondada às ordens ou complacência de Francisco da Silva, que era o democrático da terra, creio que Regedor também. Não me lembro se nesta altura era administrador Artur de Oliveira Santos, creio que sim. – 3º - Recebi uma carta anónima, de pessoa amiga, avisando-me que foi resolvido na chafarica em Santarém (ou não me recordo, em Torres Novas) sequestrar-me de noite e aos videntes, pelo que avisei que não saía de noite, em virtude das ciladas, que me estavam armando, a não ser em casos extremos quando chamado por pessoas de reconhecida confiança e aos pais dos videntes preveni-os de que se acautelassem e não entregassem seus filhos a pessoas desconhecidas ou que não fossem acompanhadas por mim, ou por minha indicação.

Notas dos editores (1)

1 Nasceu no dia 4 de fevereiro de 1903, no lugar de Aldeia Nova, freguesia do Olival, concelho de Ourém. Entrou no Seminário Patriarcal de Santarém, em 1914. Após o curso de preparatórios, ingressou na Universidade Gregoriana de Roma, em 1919, concluindo o doutoramento em Filosofia em 1922 e o bacharelato em Teologia e Direito Canónico. Por falta de saúde, interrompeu os estudos em 1924, regressando a Portugal e concluiu os estudos teológicos em 1926, no Seminário Diocesano de Leiria. Foi ordenado presbítero por D. José Alves Correia da Silva, a 11 de julho de 1926. Fundou o semanário “A Voz do Domingo”, a 19 de março de 1933. Foi nomeado cónego da Sé de Leiria em 1943 e Monsenhor em 1983. Sempre ligado aos acontecimentos de Fátima, escreveu o livro “Jacinta” (1938), que teve oito edições em português, e “Fátima à prova” (1946). Foi um dos maiores estudiosos e divulgadores da história e do conteúdo da Mensagem de Fátima. Faleceu a 25 de setembro de 1984.

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