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DCF Seleção, Doc. 110
Carta do Pe. Manuel Marques Ferreira para o Dr. José Galamba de Oliveira1 a responder a questões relacionadas com os acontecimentos de Fátima, durante o período em que foi pároco de Fátima (1914-1919).
Publ.: DCF, V-3 - Doc. 1138
Rev.mo. Senhor
A respeito do que me pergunta, sou a dizer que a autoridade nunca me escreveu – que eu me lembre.
A respeito de perseguições, só me lembro – 1º - Que em certa noite foi roubado na Cova da Iria, um quadro, 2 lanternas e uns ramos de azinheira cortados em vários – fazendo-os passar por aquela onde Nossa Senhora aparecia – isto foi levado para Santarém onde esteve em Exposição, e onde andaram parodiando pelas ruas em procissão. Parece que não foi alheio a isto Artur de Oliveira Santos. – 2º - Um comício, que foi resolvido em Vila Nova de Ourém, para se realizar em Fátima, às 11 horas, à saída da missa paroquial, de propaganda contra as Aparições e a ida dos fiéis à Cova da Iria – tendo eu tido conhecimento dois ou três dias antes, preveni o povo – avisei e mandei avisar às missas da manhã que a missa do dia era na Ortiga, onde fui celebrar. Chegando os comiceiros à hora da Missa não encontrando ninguém a não ser algum mirone ou alguém enviado meu, barafustaram, perguntando por mim, mandaram vigiar, por guardas, a residência, e porque naquele dia não voltei a casa, não me encontraram nem eu os vi; – parece que a casa onde me recolhi aquela noite também foi, de noite, rondada às ordens ou complacência de Francisco da Silva, que era o democrático da terra, creio que Regedor também. Não me lembro se nesta altura era administrador Artur de Oliveira Santos, creio que sim. – 3º - Recebi uma carta anónima, de pessoa amiga, avisando-me que foi resolvido na chafarica em Santarém (ou não me recordo, em Torres Novas) sequestrar-me de noite e aos videntes, pelo que avisei que não saía de noite, em virtude das ciladas, que me estavam armando, a não ser em casos extremos quando chamado por pessoas de reconhecida confiança e aos pais dos videntes preveni-os de que se acautelassem e não entregassem seus filhos a pessoas desconhecidas ou que não fossem acompanhadas por mim, ou por minha indicação. 4º - Quanto ao rapto das crianças no dia 13 de agosto, vem descrito no meu relatório das Aparições referente ao mês de agosto, que me consta Sa. Ex.cia o Senhor Bispo tem em seu poder.
Nada mais me consta de sensacional. As bombas e destruição da capela não são do meu tempo.
Seu amigo mtº obgo.
Pe. Manuel Marques Ferreira