A respeito de perseguições, só me lembro – 1º - Que em certa noite foi roubado na Cova da Iria, um quadro, 2 lanternas e uns ramos de azinheira cortados em vários – fazendo-os passar por aquela onde Nossa Senhora aparecia – isto foi levado para Santarém onde esteve em Exposição, e onde andaram parodiando pelas ruas em procissão. Parece que não foi alheio a isto Artur de Oliveira Santos. – 2º - Um comício, que foi resolvido em Vila Nova de Ourém, para se realizar em Fátima, às 11 horas, à saída da missa paroquial, de propaganda contra as Aparições e a ida dos fiéis à Cova da Iria – tendo eu tido conhecimento dois ou três dias antes, preveni o povo – avisei e mandei avisar às missas da manhã que a missa do dia era na Ortiga, onde fui celebrar. Chegando os comiceiros à hora da Missa não encontrando ninguém a não ser algum mirone ou alguém enviado meu, barafustaram, perguntando por mim, mandaram vigiar, por guardas, a residência, e porque naquele dia não voltei a casa, não me encontraram nem eu os vi; – parece que a casa onde me recolhi aquela noite também foi, de noite, rondada às ordens ou complacência de Francisco da Silva, que era o democrático da terra, creio que Regedor também. Não me lembro se nesta altura era administrador Artur de Oliveira Santos, creio que sim. – 3º - Recebi uma carta anónima, de pessoa amiga, avisando-me que foi resolvido na chafarica em Santarém (ou não me recordo, em Torres Novas) sequestrar-me de noite e aos videntes, pelo que avisei que não saía de noite, em virtude das ciladas, que me estavam armando, a não ser em casos extremos quando chamado por pessoas de reconhecida confiança e aos pais dos videntes preveni-os de que se acautelassem e não entregassem seus filhos a pessoas desconhecidas ou que não fossem acompanhadas por mim, ou por minha indicação.
Notas dos editores (1)
1 Nasceu no dia 4 de fevereiro de 1903, no lugar de Aldeia Nova, freguesia do Olival, concelho de Ourém. Entrou no Seminário Patriarcal de Santarém, em 1914. Após o curso de preparatórios, ingressou na Universidade Gregoriana de Roma, em 1919, concluindo o doutoramento em Filosofia em 1922 e o bacharelato em Teologia e Direito Canónico. Por falta de saúde, interrompeu os estudos em 1924, regressando a Portugal e concluiu os estudos teológicos em 1926, no Seminário Diocesano de Leiria. Foi ordenado presbítero por D. José Alves Correia da Silva, a 11 de julho de 1926. Fundou o semanário “A Voz do Domingo”, a 19 de março de 1933. Foi nomeado cónego da Sé de Leiria em 1943 e Monsenhor em 1983. Sempre ligado aos acontecimentos de Fátima, escreveu o livro “Jacinta” (1938), que teve oito edições em português, e “Fátima à prova” (1946). Foi um dos maiores estudiosos e divulgadores da história e do conteúdo da Mensagem de Fátima. Faleceu a 25 de setembro de 1984.