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DCF III-1, Doc. 19

1 set. 1917FátimacartaPe. Manuel Marques Ferreira

O jornal "O Ouriense" publica a carta do Padre Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, ao redactor deste jornal.

Publ.: "O Ouriense", Vila Nova de Ourém, 2 (104), 1 Set. 1917, p. 4, col. 33.

Publicamos aqui esta carta dirigida ao "O Ouriense", tendo em conta as que o mesmo autor escreveu respectivamente ao redactor de "O Mensageiro" (Cf. Doc. 12, deste volume), e ao redactor de "A Ordem" (Cf. DCF, vol. 1, Doc. 40, p. 293-296)).

Entre as três redacções, não existe diferença essencial, se se excluir o post scriptum nesta carta enviada ao "Ouriense". Nota-se no pároco uma preocupação de adaptar cada carta à publicação a que era destinada. Assim, por exemplo, quando escreve para "O Ouriense", acrescenta "nesta freguesia", aludindo a um lugar conhecido dos leitores, e atenua expressões que poderiam ferir o administrador.

Sob o aspecto ortográfico, nota-se que, enquanto "O Mensageiro" se atém à reforma de 1911, "A Ordem" continua a arcaizar. A ortografia do texto do "O Ouriense" foi actualizada pelo Dr. José Galamba de Oliveira.

Ex. mo Snr. Redactor

Venho rogar a subida honra de publicar em logar comum do Ouriense o seguinte: — Aos crentes e não crentes.

Com tôdo a repulsão do coração de padre católico, venho tornar patente e asseverar perante todos os que tiveram conhecimento ou o possam vir a ter do boato tanto mais infamante e repelente quanto mais perigoso para a minha existência e dignidade paroquial de que fui cúmplice no brusco arrebatamento das criancinhas, que dizem ver Nossa Senhora nesta freguesia, à autoridade de seus pais e à satisfação que desejavam as 5 a 6 000 pessoas (segundo os cálculos) que, muitas à distância de tantas léguas e com enormes sacrifícios, vieram para as ver, falar e ouvir falar — digo — venho a repelir tão injusta como insidiosa calúnia, bradando ao mundo inteiro que não tomei parte por mínima que fosse, quer directa quer indirectamente, no odiosos e sacrílego acto.

O Administrador não me confiou o segredo de suas intenções.

E se foi Providencial — que foi — a autoridade levar furtivamente e sem ocasião de resistência as criancinhas, não foi menos Providencial a acalmação dos ânimos excitados pelo diabólico boato — aliás teria esta freguesia hoje a lamentar a morte de seu pároco como cumplice.

Mas desta vez ainda a cilada do demónio não logrou ferir de morte devido certamente à Virgem Mãe.

A autoridade, depois do longo interrogatório das criancinhas em suas casas, as fez conduzir a título de informações para minha casa; diz, para elas lhe descobrirem um segredo que ainda lhe não haviam revelado — donde em tempo que julgou oportuno as mandou subir para o carro e, dizendo aos pais e circunstantes que as levava ao local das Aparições, parte à desfilada para Vila Nova de Ourém.

Escolheu a minha casa com que fins?

Para se furtar às vias4 que seu acto iria provocar?

Para que o povo se amotinasse, como amotinou contra mim como cumplice? Para... outro fim?

Não sei. — Mas só o que sei, é, que declino tôda a responsabilidade que cabe a tal modo de proceder, e, que Deus pode sempre velar pelos seus.

Às obras de Deus ninguém pode pôr entraves.

Não foram necessárias, dizem milhares de testemunhas, as crianças para a Rainha dos Anjos5 revelar o seu poder, vão elas mesmo atestar os factos extraordinários e os fenómenos de que deram fé e que mais arreigaram sua crença.

Agora não são as 3 crianças de 9 a 11 anos, são os milhares de pessoas de todas as idades, classes e condições, vindas dos diferentes pontos do país.

Se a minha ausência como pároco no local se faz sentir aos crentes, não menos se faria sentir a minha presença aos descrentes, em desprimor da verdade dos factos.

A Virgem Mãe não precisa da presença do pároco para mostrar a sua bondade, e é necessário que os inimigos da religião não possam deslustrar o brilho de Sua Benevolência atribuindo a crença dos povos à presença ou conselho do pároco porque a fé é um dom de Deus e não dos padres: — eis o verdadeiro motivo da minha ausência e aparente indiferença em tão sublime e maravilhoso assunto: — eis porque não tenho dado meu claro parecer às mil interrogações e cartas que se me têm dirigido.

O inimigo não dorme. Ruge como o Leão.

Não foram os Apóstolos os primeiros a anunciar a Ressurreição do Filho da Virgem.

Abstenho-me de fazer a narração dos fenómenos dados no local das Aparições porque esta já vai longa, de que peço desculpa, e, porque certamente a esta hora já a imprensa se deve feito eco disso.

Creia-me muito agradecido.

De V. Ea
Mt. At. Vor. e Ob.

Pe. Manuel Marques Ferreira

P.S. — Chegou no dia 15, a autoridade com as crianças a minha casa, onde se juntaram os pais das mesmas e muitas outras pessoas perante as quais pretendeu com todas as amabilidades explicar o seu modo de proceder.

Notas dos editores

3 Como não nos foi possível encontrar este exemplar do "O Ouriense", apresentamos o texto publicado com ortografia actualizada, em UM OBSERVADOR, [OLIVEIRA, José Galamba de], Fátima à prova, Leiria, Gráfica, 1946, p. 52-54. Foi também publicado em "Voz da Fátima", 10 (112), 13 Jan. 1932, p. 4, col. 4 e 10 (116), 13 Mai. 1932, p. 4, cols. 3-4.
4 De acordo com as outras cartas, deve ser iras.
5 Esta expressão do pároco de Fátima, é também utilizada no Doc. 6, de 29 de Julho de 1917, o que nos leva a supôr que ele é também o autor desse documento. No Doc. 12 deste volume diz-se Rainha dos Campos.
Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 6, de 29 de Julho de 1917.
2 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 1, de c.27 de Maio de 1917, nota 4.
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