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DCF III-1, Doc. 12

14 ago. 1917FátimacartaPe. Manuel Marques Ferreira

22 ago. 1917, Leiria

O jornal "O Mensageiro" publica a carta do Pe. Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, ao redactor deste jornal. Nesta carta, o pároco de Fátima defende-se da acusação de cumplicidade com o administrador de Vila Nova de Ourém, Artur de Oliveira Santos no rapto das crianças, no dia 13 de Agosto de 1917 (data da redacção: 14 de Agosto de 1917).

Publ.: "O Mensageiro", Leiria, 3 (151), 22 Ago. 1917, p. 2, cols. 2-3.

OUTRA CARTA

"V.N. d'Ourem — Fátima, 14-8-917.

Sr. Redactor d' O MENSAGEIRO: Venho pedir a subida fineza de publicar no seu conceituado e muito lido jornal o seguinte:

AOS CRENTES E NÃO CRENTES

Com toda a repulsão do coração de padre católico, venho tornar patente e asseverar perante todos os que tiveram conhecimento ou o possam vir a ter do boato tanto mais infamante e repelente quanto mais perigoso para a minha existencia e dignidade paroquial, de que fui cumplice no brusco arrebatamento das creancinhas, que dizem vêr Nossa Senhora, á auctoridade de seus pais e á satisfação de 5 a 6 mil pessôas (segundo os calculos) que, muitos á distancia de tantas legoas e com enormes sacrificios, vieram para as vêr, falar e ouvir falar — digo, venho repelir tão injusta como insidiosa calumnia, bradando ao mundo inteiro que não tomei parte, por minima que fôsse, quer directa quer indirectamente em tão odioso e sacrilego acto.

O administrador não me confiou o segredo das suas intenções.

E se foi Providencial — que foi — a auctoridade levar as creanças furtivamente e sem ocasião de resistencia, não menos Providencial foi a acalmação dos animos excitados pelo diabólico boato, aliás teria esta freguezia, hoje, a lamentar a perda de seu pároco.

Mas desta vez ainda a cilada do demonio não logrou ferir-me de morte, devido, certamente, á Divina Providencia.

A auctoridade depois de longo interrogatorio das creancinhas em suas casas, mandou-as conduzir, a titulo de informações, para minha casa, — diz, para elas lhes descobrirem um segredo que até então lhe não tinham revelado — donde, em tempo que julgou oportuno, as mandou subir para o carro e dizendo aos pais e circunstantes que as levava ao local das aparições, parte á desfilada para Vila Nova d'Ourem.

Escolheu minha casa com que fim? Para se furtar ás iras que seu acto iria promover? Para que o povo se amotinasse, como amotinou, contra mim, como cumplice?

Para...outro fim?...

Não sei! Mas só o que sei, é que detesto tal proceder e que Deus ha de velar sempre pelos seus.

Ás obras de Deus ninguem póde pôr entraves. Não fôram necessarias, dizem milhares de testemunhas, as creanças para revelar o segredo da Rainha dos Campos5; são elas mesmo a atestar os factos extraordinarios e os fenómenos de que deram fé e que mais e mais arreigaram essa crença.

Agora não são as creanças é a enorme massa de povo de todas as classes e condições vindas dos diversos pontos do paiz.

Se a minha ausencia como pároco no local da Aparição se fez sentir aos crentes, a minha presença não menos se faria sentir os descrentes em desprimôr da verdade dos factos.

A Virgem Mãe não precisa da presença do pároco para mostrar a sua bondade e é necessário que os inimigos da religião não possam deslustrar o brilho da Sua Benevolencia atribuindo a crença dos povos á presença ou conselho do pároco, porque a fé é um Dom de Deus e não dos padres; — eis o motivo verdadeiro da minha ausencia e aparente indiferença em tão sublime e maravilhoso assumpto: — eis porque não tenho dado meu claro parecer ás mil interrogações e cartas que me teem dirigido. — O inimigo não dorme. — Ruge como leão. Não fôram os Apostolos os primeiros a anunciar a Ressurreição do Filho da Virgem?

Abstenho-me de fazer a narração do que se passou no local das Aparições á contemplação mais ou menos clara das 5 a 6 mil pessôas porque certamente a esta hora já a imprensa mundial o terá feito.

Agradecendo a publicação desta, subscrevo-me, com estima, etc.

Pe. Manoel Marques Ferreira”

Notas dos editores

5 Ver DCF, vol. 1, Doc. 40, p. 295 e DCF, vol. 3 - 1, Doc. 19, p. 69: Anjos.
Aparato crítico e remissões (6)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 5, de 25 de Julho de 1917.
2 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 1, de c.27 de Maio de 1917, nota 4.
3 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 53, de 11 de Agosto de 1917, nota 1.
4 Sic.
6 Sic.
6 Pelo sentido da frase, deve excluir-se o ponto de interrogação, como de resto se verifica na versão publicada em “O Ouriense” (Doc. 19, de 1 de Setembro de 1917).
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