Explorar / Relato

Manuel Marques Ferreira · 13 de agosto de 1917

Cleropároco de Fátima
13 ago.Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoa 2 kmA multidão

No dia treze de agosto por cerca das dez horas da manhã, compareceu em minha casa, residência paroquial, onde me encontrava com o M. R. Vigário da Vara de Torres Novas, Pe. António de Oliveira Reis, o administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, trazendo no carro que o transportava o R.do Pe. Manuel Carreira Poças, Prior de Porto de Mós. Notando eu a este padre a minha admiração por ele acompanhar a autoridade civil em assunto de tal natureza, me disse que não havia novidade alguma, porque vinham de interrogar as crianças em suas casas, e que o administrador, bem como ele, estava crente do que dizem as crianças; que lhes não restam dúvidas, mas que vêm a minha casa para eu interrogar as crianças – que estão a chegar – sobre um segredo (primeira vez que ouvi falar no segredo), que elas dizem que a Senhora lhes disse, mas que não lhes revelaram; e depois que o mesmo administrador as leva ao local da Aparição, onde deseja também ir. Igual declaração me faz também o administrador, aparentando senão de crédulo, pelo menos de curioso. Cerca de meia hora depois apareceram as crianças e seus pais. O administrador pede-me para eu as interrogar, o que fiz na sua presença. Ao interrogar a menina Lúcia sobre quem lhe tinha ensinado a dizer o que tem dito; responde que foi aquela Senhora que viu na Cova da Iria. Ao dizer-lhe que vai para o inferno quem diz mentiras que causam tanto prejuízo como o que causa o que ela diz – se fôr mentira, por tanta gente vir enganada – responde, que, se quem diz mentiras vai para o inferno, ela que não vai para o inferno por causa disso, porque não diz mentiras, mas só diz o que viu e o que a Senhora lhe disse, e que se o povo vem é porque quer, que ainda não chamou ninguém. Pergunto-lhe se a Senhora lhe tinha dito algum segredo. Responde que sim; mas, que me o não diz. Feitas várias interrogações sobre ele, responde: Olhe!... se quer... vou lá acima e pergunto à Senhora se Ela me dá licença para eu dizer o segredo e se Ela me der licença, então digo-lhe. A isto responde o administrador: são coisas sobrenaturais... vamos-nos embora. Levanta-se, manda sair as crianças do meu escritório, onde nos encontrávamos, e subir para o carro. Isto na presença dos pais e dos Rev.dos sacerdotes acima referidos. Segue algum tempo o caminho que conduz à Cova da Iria, e .... depois, volta à desfilada a caminho de Vila Nova de Ourém, para onde as transporta e onde as retém até ao dia quinze em que veio entregá-las aos pais. A notícia do rapto é levada com a rapidez do relâmpago ao local das Aparições onde cerca de quinze a dezoito mil pessoas esperavam com ansiedade a sua chegada.

Passados poucos minutos, chegam à porta da residência paroquial um automóvel e alguns ciclistas exaltados, dando parte da indignação da grande massa de povo que se achava na Cova da Iria, reclamando o meu linchamento como cúmplice no atentado do arrebatamento das crianças. Apresento a minha inculpabilidade, e até indignação por tal ato. E graças à Virgem Santíssima não fui enxovalhado, a não ser por algumas inconveniências proferidas por um paroquiano desta freguesia.

DCF Seleção, Doc. 36 (= DCF I, Doc. 31) · documento oficial · 6 ago. 1918 (12 meses depois)Digitalizações (2)
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