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DCF III-1, Doc. 20

ago. 1917LisboacartaAssinante anónima do Raio de Luz

1 set. 1917, Lisboa

A revista “Raio de Luz”1, fazendo uma breve introdução, publica parte de uma carta2, onde vêm relatados os acontecimentos de Fátima.

Publ.: “Raio de Luz”, Lisboa, 5 (49), 1 Set. 1917, p. 11-13.

ANIMADORA NOVA

Vem correndo desde maio o edificante rumor de que em Fátima, perto de Torres Novas, é dado a 3 creancinhas pobres e humildes contemplar, precisamente no dia 13 de cada mez, uma visão sobrenatural.

Essa visão, com o aspecto d’uma senhora de extraordinaria beleza, aparece-lhes no campo em meio de uma nuvem, em logar fixo. Fala-lhes — limitando-se as creanças a dizer que a Senhora pedira ao pequenino de 3 annos que aprendesse a rezar o terço3, e ás duas pequenas que o rezassem pela patria e pela sua familia, acrescentando que em 13 de outubro lhes dirá o mais que d'ellas quer.

Nas epocas de grande provação, como esta que atravessamos, a alma crente dos povos está mais inclinada a aceitar o sobrenatural, e porventura Deus, na sua infinita misericordia, compadecido de tanto anceio e sofrimento resultante das terriveis luctas e confusões moraes, não menos desoladoras que os sofrimentos fisicos da guerra, se compraz em consentir nessas manifestações que levantam a alma acima deste triste mundo.

Emquanto a Egreja não intervem com a sua autoridade indiscutivel nada nos é dado assegurar em assumpto de tanta importancia, mas a simples titulo de piedosa crença consoladora e boa, inserimos com alvoroço nas paginas da nossa Revista, alguns trechos de uma carta conscienciosamente escripta por uma nossa assignante, alma abrazada em amor de Deus, que portanto mede rigorosamente as suas palavras, bem certa de que sómente com a verdade se serve ao Senhor.

Identicas impressões, ainda não autenticadas pela santa Egreja, nos são transmitidas pelos grandes diarios catholicos de França, a respeito de aparições do Sagrado Coração de Jesus, de Nossa Senhora, da Irmã Therezinha do Menino Jesus que, tendo dito: “Je passerai mon ciel à faire du bien sur la terre”, aparece, encaminha soldados de França á luz serena das suas beneficas indicações em meio das hecatombes que os aterram.

Passemos portanto á prometida transcripção:

“O local da aparição, chamemos-lhe assim, fica n'um descampado, de charneca, quasi sem arvores e onde predominam pequenas carvalheiras. Estava já uma multidão immensa em torno d'aquella em que a creança diz que pousa Nossa Senhora e muitos grupos espalhados por todo aquelle espaço de terreno mais proximo mas sem aspecto de arraial; notava-se um silencio respeitoso, uma compostura e socego admiravel, mesmo nos que comiam os seus farneis ou conversavam sobre o assumpto que alli os attrahia. Não exagero dizendo que estavam para cima de 4.000 pessoas e em volta do recinto privilegiado, rezava-se o terço, cantavam-se canticos, etc., com commovente devoção; muito se tem rezado naquele sitio ha dois mezes para cá!...

Todos estavam suspirando pela chegada das creanças, mas á hora d'ellas costumarem aparecer, chegou um rapaz em byciclette dizendo que o administrador d'Ourem as tinha levado para lá! Não queriam acreditar que pudesse sêr. Eu então lembrei-me de pedir a F...5 que fosse saber o que havia de verdade. Voltou pouco depois confirmando a noticia. O administrador que desde pela manhã estava em casa dos paes das creanças mandou-as, com o official de diligencias que levou comsigo, para casa do prior, onde lhe fez novo interrogatorio insistente e demorado. As creanças nunca se desdisseram; por mais que as intimidassem, até o pequenito de 6 annos6 dizia: “Não, não temos medo.” É extraordinario, não é verdade?!... Diz-se que pareciam tres cordeirinhos, e sem chorarem nem gritarem subiram para o carro, muito serenos, quando o administrador lhes disse que ia elle proprio leval-as ao local! Mas logo que as apanhou no carro tocou os cavallos e á desfilada seguiu com ellas em direcção de Villa Nova d'Ourem, que era o seu fim...

No entretanto, da charneca parecia que ninguem podia arrancar-se; estavam alli havia horas e horas e não tinham pressa de retirar. Eu disse a F...: “Já agora que aqui estamos gostava de ficar até ás duas horas que é afinal o meio dia solar. Tanto ella como a familia da C...8 concordaram e ficámos sentadas n'umas pedras. Pois filha, ás duas horas em ponto, pelo meu relogio, deu-se um abaixamento rapido da temperatura, sem vento, produzindo a sensação que se tem quando ha um eclipse do sol, e instantaneamente como se uma corrente electrica puzesse toda aquella multidão em communicação, todos os homens se descobriram e homens e mulheres tudo ajoellhou n'uma commoção bem manifesta e expontanea. Porquê, o que é que se deu? Não t'o sei dizer; muita gente, entre ella as minhas creadas, diziam que viram uma nuvem linda mesmo ao pé do sol e que em momentos desappareceu. Eu não vi nada, mas senti uma impressão d'arrepio e uma commoção extraordinaria e raros eram os olhos que não choravam ou não estavam marejados de lagrimas pelo menos.

O que foi que causou instantaneamente este effeito? Aguardemos o futuro. Mas o que é certo é que já ninguem esperava nada, estavam descoroçoados e começavam a pôr-se em movimento para retirar a custo d'alli, quando isto se deu, tal t'o descrevo. Olhei para o carrasqueiro e vi-o envolto no tal nevoeiro que dizem se tem notado sempre, e fil-o notar á F... Foi pó levantado pelo movimento do povo? Talvez, mas em nenhum outro ponto se deu, e repito, não havia vento; havia fresco. Pouco antes tinha me dito um homensito com quem eu estava conversando: "Olhe, minha senhora, os astros estão-se a pôr tal qual como faz hoje um mez." As nuvens diluiam-se e formavam como uma teia muito leve, é certo, mas nada que fosse extraordinario; extraordinaria foi a sensação que de repente se sentiu e todos sentiram."

Notas dos editores

1 Publicação mensal com permissão da autoridade eclesiástica. Editor e director: Henrique dos Santos Silva.
2 Esta carta, provavelmente, é pouco posterior a 13 de Agosto, pois diz: “Muito se tem rezado naquele sitio ha dois mezes para cá!...”, isto é, desde Junho de 1917. A autora é uma assinante da revista. A destinatária devia ser também uma senhora, da intimidade da autora, pois a trata por “filha”, sem que este tratamento signifique filiação, porque posteriormente refere: “muita gente, entre ella as minhas creadas”, expressão que não teria sentido se a destinatária fosse sua filha. Existe uma carta de Branca Falcão de Sommer a Elisa Tavares Bonacho dos Anjos Martins, datada de Monte Estoril, de 6 de Outubro de 1917 (Doc. 40, de 6 de Outubro de 1917): “Recebi o “Raio de Luz” assim como a sua amavel carta [...]. Não ha duvida, que a descripção da Fatima escusa de levar assignatura. Lêr o artigo é o mesmo que ouvir a nossa enthusiasta visinha!”. Branca de Sommer e Elisa Martins eram vizinhas em Lisboa (tinham residência respectivamente na Praça do Príncipe Real e Praça das Flores), e também na província (respectivamente na Quinta da Cardiga, freguesia e concelho da Golegã, e na Quinta da Várzea, Riachos, Torres Novas). Por isso, a “enthusiasta visinha” das duas, autora da carta, podia residir também em Lisboa, mas pomos a hipótese, mais provável, de se tratar de Maria de Jesus Xavier de Figueiredo de Mello de Oriol Pena Raposo, residente na Quinta de Carvalhais, entre Riachos e Torres Novas, muito próxima, portanto, da Quinta da Várzea e da Quinta da Cardiga.
3 A referência diz respeito, sem dúvida, ao Francisco, que tinha 8 anos em 13 de Maio de 1917, pois nascera a 11 de Junho de 1908 (cf. DCF, vol. 1, Doc. 1, de c.27 de Maio de 1917, nota 7).
5 Trata-se de uma pessoa do sexo feminino pois que, mais abaixo, se diz: “ella”, “sentadas” e “fil-o notar á F...”. Em nosso entender, F. e adiante C., são abreviaturas de Fulana e Cicrana. Ou indicarão antes as iniciais dos nomes próprios?
6 Deve haver aqui confusão: “O pequenito de 6 anos” melhor se referirá à “pequenita” Jacinta, a qual, no entanto, já tinha completado 7 anos.
8 Não identificada. Cf. nota 5.
Aparato crítico e remissões (4)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

4 Cf. nota 2
7 Cf. nota 5.
9 Cf. nota 2.
10 Cf. nota 5.
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