Testemunhas /
Senhora não identificada, assinante do Raio de Luz
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Senhora anónima, assinante da revista lisboeta Raio de Luz, que publicou duas cartas suas em 1917; tinha criadas, esteve na Cova da Iria a 13 de agosto e foi de camião de Torres Novas a 13 de outubro. Os editores consideram que seria muito provavelmente Maria de Jesus de Oriol Pena Raposo, da Quinta de Carvalhais (Torres Novas), mas tal não está comprovado.
Residência: zona de Torres Novas (provavelmente)A região em redorAtitude prévia: crente2 relatos · 13 de agosto de 1917, 13 de outubro de 1917
13 ago.Testemunho diretoEm parteCartaA multidãoDescida da temperaturaLuz a diminuirNuvem / coluna de fumo O local da aparição, chamemos-lhe assim, fica n'um descampado, de charneca, quasi sem arvores e onde predominam pequenas carvalheiras. Estava já uma multidão immensa em torno d'aquella em que a creança diz que pousa Nossa Senhora e muitos grupos espalhados por todo aquelle espaço de terreno mais proximo mas sem aspecto de arraial; notava-se um silencio respeitoso, uma compostura e socego admiravel, mesmo nos que comiam os seus farneis ou conversavam sobre o assumpto que alli os attrahia. Não exagero dizendo que estavam para cima de 4.000 pessoas e em volta do recinto privilegiado, rezava-se o terço, cantavam-se canticos, etc., com commovente devoção; muito se tem rezado naquele sitio ha dois mezes para cá!...
Todos estavam suspirando pela chegada das creanças, mas á hora d'ellas costumarem aparecer, chegou um rapaz em byciclette dizendo que o administrador d'Ourem as tinha levado para lá! Não queriam acreditar que pudesse sêr. Eu então lembrei-me de pedir a F...5 que fosse saber o que havia de verdade. Voltou pouco depois confirmando a noticia. O administrador que desde pela manhã estava em casa dos paes das creanças mandou-as, com o official de diligencias que levou comsigo, para casa do prior, onde lhe fez novo interrogatorio insistente e demorado. As creanças nunca se desdisseram; por mais que as intimidassem, até o pequenito de 6 annos6 dizia: “Não, não temos medo.” É extraordinario, não é verdade?!... Diz-se que pareciam tres cordeirinhos, e sem chorarem nem gritarem subiram para o carro, muito serenos, quando o administrador lhes disse que ia elle proprio leval-as ao local! Mas logo que as apanhou no carro tocou os cavallos e á desfilada seguiu com ellas em direcção de Villa Nova d'Ourem, que era o seu fim...
No entretanto, da charneca parecia que ninguem podia arrancar-se; estavam alli havia horas e horas e não tinham pressa de retirar. Eu disse a F...: “Já agora que aqui estamos gostava de ficar até ás duas horas que é afinal o meio dia solar. Tanto ella como a familia da C...8 concordaram e ficámos sentadas n'umas pedras. Pois filha, ás duas horas em ponto, pelo meu relogio, deu-se um abaixamento rapido da temperatura, sem vento, produzindo a sensação que se tem quando ha um eclipse do sol, e instantaneamente como se uma corrente electrica puzesse toda aquella multidão em communicação, todos os homens se descobriram e homens e mulheres tudo ajoellhou n'uma commoção bem manifesta e expontanea. Porquê, o que é que se deu? Não t'o sei dizer; muita gente, entre ella as minhas creadas, diziam que viram uma nuvem linda mesmo ao pé do sol e que em momentos desappareceu. Eu não vi nada, mas senti uma impressão d'arrepio e uma commoção extraordinaria e raros eram os olhos que não choravam ou não estavam marejados de lagrimas pelo menos.
O que foi que causou instantaneamente este effeito? Aguardemos o futuro. Mas o que é certo é que já ninguem esperava nada, estavam descoroçoados e começavam a pôr-se em movimento para retirar a custo d'alli, quando isto se deu, tal t'o descrevo. Olhei para o carrasqueiro e vi-o envolto no tal nevoeiro que dizem se tem notado sempre, e fil-o notar á F... Foi pó levantado pelo movimento do povo? Talvez, mas em nenhum outro ponto se deu, e repito, não havia vento; havia fresco. Pouco antes tinha me dito um homensito com quem eu estava conversando: "Olhe, minha senhora, os astros estão-se a pôr tal qual como faz hoje um mez." As nuvens diluiam-se e formavam como uma teia muito leve, é certo, mas nada que fosse extraordinario; extraordinaria foi a sensação que de repente se sentiu e todos sentiram."
Notas dos editores (3)
5 Trata-se de uma pessoa do sexo feminino pois que, mais abaixo, se diz: “ella”, “sentadas” e “fil-o notar á F...”. Em nosso entender, F. e adiante C., são abreviaturas de Fulana e Cicrana. Ou indicarão antes as iniciais dos nomes próprios?
6 Deve haver aqui confusão: “O pequenito de 6 anos” melhor se referirá à “pequenita” Jacinta, a qual, no entanto, já tinha completado 7 anos.
8 Não identificada. Cf. nota 5.
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cair Ficara combinado juntar-nos em Torres Novas todos os que deviam seguir no camion que nos levaria a Fátima. Com que commoção escrevo e pronuncio o nome d’esta terra abençoada!
Ás 9 horas menos 10 minutos partiamos debaixo de uma chuva continua que nos acompanhou até lá e que, a meu ver, era o primeiro beneficio que a Virgem Santissima nos alcançava, depois de 5 mezes de estiagem. Chegando a Villa Nova d’Ourem, começámos a subir para Fátima, não podes calcular a quantidade de vehiculos de toda a especie e de gente a pé por quem iamos passando e tanto primeiro do que nós tinham partido de suas casas. Apezar da chuva insistente, ninguem se via desanimado, todos olhavam prazenteiros, felizes, como que dizendo: “Cá vamos tambem animados da mesma fé.” Sentimo-nos todos como fazendo parte da mesma familia, e na verdade assim era.
Parámos na egreja, aonde fômos adorar o Santissimo Sacramento e renovar a Nossa Senhora a prece de que não permittisse que o Seu povo ficasse dasapontado. Eu por certo não descria do poder de Deus, descria de que nos fôsse dado vêl-o manifestar-se em nosso favor depois de tão ultrajado, tão desconhecido!...
Era meio dia, comemos alguma coisa dos nossos farneis, mais por reflexão do que por necessidade. Á 1 hora partimos para o local... e não podes fazer ideia da extensão de terreno occupada por uma multidão compacta, no maior socego e respeito; da quantidade de automoveis, carruagens, galeras e transportes de toda a especie que enchia a estrada n’uma extensão de quasi um kilometro, mal deixando passar a custo quem se aventurasse a atravessal-a a pé. Estivemos dentro do camion nem era possivel outra coisa.
Aproximava-se a hora e eu tinha a certeza que o tempo ia levantar. Effectivamente um bocadinho antes das 2 horas parou a chuva, conservando-se porem o céo de chumbo. De repente, toda aquella gente possuida de indiscriptivel anciedade e parte d’ella talvez desanimada começou a notar uma ligeira nevoa no sitio da carrasqueira e passando-se alguns minutos vimos todos a voltarem se para o lado do sol. Ouvi depois que Nossa Senhora tinha dito n’esse instante a Lucia (uma das creanças): “Manda o Povo olhar para o sol.”
De repente um disco luminoso do tamanho d’uma hostia grande, mas que todos podiam fitar como se fita a lua, como que se destacou do sol, (ou antes se lhe antepoz) baixando visivelmente n’uma rotação seguida que depois d’uma paragem se repetiu. Uma nuvem linda ora côr de fogo, ora roxa, ora côr de rosa, ora dourada se mostrava e desaparecia sucessivamente reflectindo-se a côr não só em todos os circumstantes como em todo aquelle recinto. A côr amarella sobretudo foi muito impressionante e já das outras vezes se tinha feito notar mas menos intensa. O horizonte, era limitado em circulo perfeito por focos luminosos eguaes em tamanho e distancia uns dos outros dando um pouco a impressão de quémadas mas no tom amarellado que por vezes se nota ao pôr do sol. Todo este effeito foi duradouro e os fócos a que alludo foram surgindo uns apoz outros. Simplesmente maravilhoso e assombroso!
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Levei uma lista das pessoas por quem queria pedir especialmente. Parecia que advinhára que lá só poderia gritar: “Louvado seja Deus, louvado seja Deus”; e isto sem cessar!
Muitos viram (e pessoas de todo o credito) uma estrella linda a caminhar na direcção da carvalheira com clarão.
Estive com as duas pequenitas que iam vestidinhas de branco com umas corôasinhas muito singelas nas cabecinhas. Disséram-me que Nossa Senhora lhes apareceu com S. José e o Menino ao pé, disse que era a Senhora do Rosario, que o rezassem muito, que isto era um aviso mas que se se não arrependessem e continuassem a offender o seu Divino Filho, Este mandaria um grande castigo a Portugal.
As duas pequenas em separado, fizeram a descripção da visão da mesma fórma e a Lucia, que, dado a sua pouca edade deveria estar doida no meio d'aquelle alvoroço de que se via rodeada, ia dizendo a todos em voz clara e sem se alterar, á medida que ia passando (ao collo do pae) — o que Nossa Senhora lhe disséra