Ficara combinado juntar-nos em Torres Novas todos os que deviam seguir no camion que nos levaria a Fátima. Com que commoção escrevo e pronuncio o nome d’esta terra abençoada!
Ás 9 horas menos 10 minutos partiamos debaixo de uma chuva continua que nos acompanhou até lá e que, a meu ver, era o primeiro beneficio que a Virgem Santissima nos alcançava, depois de 5 mezes de estiagem. Chegando a Villa Nova d’Ourem, começámos a subir para Fátima, não podes calcular a quantidade de vehiculos de toda a especie e de gente a pé por quem iamos passando e tanto primeiro do que nós tinham partido de suas casas. Apezar da chuva insistente, ninguem se via desanimado, todos olhavam prazenteiros, felizes, como que dizendo: “Cá vamos tambem animados da mesma fé.” Sentimo-nos todos como fazendo parte da mesma familia, e na verdade assim era.
Parámos na egreja, aonde fômos adorar o Santissimo Sacramento e renovar a Nossa Senhora a prece de que não permittisse que o Seu povo ficasse dasapontado. Eu por certo não descria do poder de Deus, descria de que nos fôsse dado vêl-o manifestar-se em nosso favor depois de tão ultrajado, tão desconhecido!...
Era meio dia, comemos alguma coisa dos nossos farneis, mais por reflexão do que por necessidade. Á 1 hora partimos para o local... e não podes fazer ideia da extensão de terreno occupada por uma multidão compacta, no maior socego e respeito; da quantidade de automoveis, carruagens, galeras e transportes de toda a especie que enchia a estrada n’uma extensão de quasi um kilometro, mal deixando passar a custo quem se aventurasse a atravessal-a a pé. Estivemos dentro do camion nem era possivel outra coisa.
Aproximava-se a hora e eu tinha a certeza que o tempo ia levantar. Effectivamente um bocadinho antes das 2 horas parou a chuva, conservando-se porem o céo de chumbo. De repente, toda aquella gente possuida de indiscriptivel anciedade e parte d’ella talvez desanimada começou a notar uma ligeira nevoa no sitio da carrasqueira e passando-se alguns minutos vimos todos a voltarem se para o lado do sol. Ouvi depois que Nossa Senhora tinha dito n’esse instante a Lucia (uma das creanças): “Manda o Povo olhar para o sol.”
De repente um disco luminoso do tamanho d’uma hostia grande, mas que todos podiam fitar como se fita a lua, como que se destacou do sol, (ou antes se lhe antepoz) baixando visivelmente n’uma rotação seguida que depois d’uma paragem se repetiu. Uma nuvem linda ora côr de fogo, ora roxa, ora côr de rosa, ora dourada se mostrava e desaparecia sucessivamente reflectindo-se a côr não só em todos os circumstantes como em todo aquelle recinto. A côr amarella sobretudo foi muito impressionante e já das outras vezes se tinha feito notar mas menos intensa. O horizonte, era limitado em circulo perfeito por focos luminosos eguaes em tamanho e distancia uns dos outros dando um pouco a impressão de quémadas mas no tom amarellado que por vezes se nota ao pôr do sol. Todo este effeito foi duradouro e os fócos a que alludo foram surgindo uns apoz outros. Simplesmente maravilhoso e assombroso!
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Levei uma lista das pessoas por quem queria pedir especialmente. Parecia que advinhára que lá só poderia gritar: “Louvado seja Deus, louvado seja Deus”; e isto sem cessar!
Muitos viram (e pessoas de todo o credito) uma estrella linda a caminhar na direcção da carvalheira com clarão.
Estive com as duas pequenitas que iam vestidinhas de branco com umas corôasinhas muito singelas nas cabecinhas. Disséram-me que Nossa Senhora lhes apareceu com S. José e o Menino ao pé, disse que era a Senhora do Rosario, que o rezassem muito, que isto era um aviso mas que se se não arrependessem e continuassem a offender o seu Divino Filho, Este mandaria um grande castigo a Portugal.
As duas pequenas em separado, fizeram a descripção da visão da mesma fórma e a Lucia, que, dado a sua pouca edade deveria estar doida no meio d'aquelle alvoroço de que se via rodeada, ia dizendo a todos em voz clara e sem se alterar, á medida que ia passando (ao collo do pae) — o que Nossa Senhora lhe disséra