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DCF III-1, Doc. 129

19 out. 1917notaLeonor de Avelar e Silva Constâncio

depois de 19 out. 19171

Testemunho de Leonor de Avelar e Silva Constâncio2, sobre as aparições de Fátima.

A - Arquivo de Joaquim José Mello Santos Lima, residente na Quinta do Vale de Lobos, Santarém, sobrinho-neto da autora do testemunho.

Publ.: “Boletim da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima”, nº 83, Out. 1997, p. 23-32.

Descrição do documento: Catorze páginas de 152x223mm. Embora não seja perceptível pelas fotocópias, parece que as folhas estão escritas de um lado e de outro. Também não é perceptível que o papel tenha linhas impressas. De facto, à excepção da folha 1 (p. 1), que tem 34 linhas, e da fl. 7v (p. 14), de 31 linhas, todas as outras têm 35 linhas.

O Milagre?... da Fátima

Tendo-nos constado nos fins de julho, que havia na freguesia da Fátima, em plena Serra d’Aire, trez pastorinhos que desde Maio, eram a 13 de cada mez favorecidos por uma apparição celeste, resolvemos ir lá em Agosto e nos dois mezes seguintes, visto as creanças dizerem que a apparição lhes revelára que viria ali durante seis mezes. Queriamos colher informações, averiguar o que havia, embora tivessemos a certeza que mesmo que isto fosse verdade, nos não veriamos, essa apparição, mas queriamos ao menos vêr as creanças, vêr a sua attitude durante a apparição, fallar depois com ellas.

Fomos pois ali no dia 13 de Agosto. Sahimos de casa às 9 1/2 da manhã; o dia estava bonito, mas não muito quente, havia até uma temperatura agradavel. Iamos commovidos, aprehensivos, recolhidos, esperando nem eu sei bem o quê. Depois de um passeio de perto de 3 horas de automovel, chegámos emfim a Fatima, e ali nos disseram que o local da apparição era na Cova da Iria, a uns trez kilometros da povoação, para onde nos dirigimos. Era já grande a agglomeração de gente quando ali chegámos. Na Fátima uma mulher do povo tinha-nos dito: “logo sabem onde é, hão de ver à sua direita um mundo de gente, é ahi.” E assim era. Deixámos o carro na estrada e percorremos a pé alguns metros até ao sitio onde a multidão era mais compacta, ouvindo-se cantar o Avé de Lourdes.

Indagamos se as creanças já tinham chegado pois difficil era ver quem rodeiava a carrasqueira, arbusto, onde segundo diziam pousava a apparição.

Responderam-nos negativamente, dizendo-nos que como a apparição só teria logar do meio dia para a uma, as creanças só viriam perto d’essa hora. Alegámos que sendo já perto de uma hora, as creanças já deveriam ali estar. “Por que horas se regulam?” (pergunta-nos uma mulher do povo) é pelas modernas? ... Nem a Senhora nem as meninas se regulam por ellas, mas sim pelas antigas, que são as verdadeiras”. — Emquanto esperavamos fômos conversando com o povo e indagando dos que já nos mezes anteriores ali tinham ido, o que costumava passar-se. Disseram-nos que á hora indicada o sol se encobriria por leves nuvens, e que um nevoeiro envolveria o arbusto sobre o qual, Nossa Senhora, descendo de uma nuvem, pousaria a fallar com as creanças.

A pouco e pouco fômos encontrando entre a multidão varias pessôas conhecidas, e até ainda nossas parentas. Juntamos-nos todas, fômos colhendo informações e commentando-as, achando umas algo extraordinarias e outras inverosimeis.

N’esta altura apparece um homem dizendo-nos que as creanças não viriam, porque tinham sido presas pelo administrador do concelho e por elle levadas para Villa Nova d’Ourem. De principio, ninguem acredita, julga-se que se trata de uma brincadeira de máu gosto, da parte do homem, mas é tal a intimativa com que elle o affirma, que uma Senhora se offerece para, no seu auto ir a Fatima, saber o que lá se passára. Voltou, e no seu rosto, vêmos todos que é verdadeira a noticia. O administrador offerecendo-se para levar as creanças para a Cova da Iria depois de as ter interrogado, leva-as traiçoeiramente presas para Villa Nova d’Ourem. Com que direito? O que tinham feito as creanças para serem presas?... nada, era a persiguição que principiava.

Todos protestam, todos se indignam, mas é um protesto ordeiro, e apesar de ali estar muita gente umas 5 a 6 mil pessôas, ninguem pensa em se revoltar, em luctar. Eram crentes, gente cheia de fé, e não brigões que ali se encontravam.

Das pessôas presentes, muitas pensam em ir-se embora, mas, do povo sobretudo, sahe este grito “Fiquemos e esperemos, ainda não chegou a hora, e se isto é coisa do Céu ha de manifestar-se, mesmo apesar de as creanças terem sido presas, pois contra o poder de Deus e da Virgem, a auctoridade não póde nada”.

Admiramos a fé do povo, e todos ficamos aguardando cheios de anciedade a hora annunciada.

Como nos não lembravamos dos 37 minutos já de ha muito adeantados; ás 2 horas pensávamos já todos em nos retirar, pensando que, por estarem ausentes as creanças, nada de anormal se passaria.

Mas justamente, n’esse momento ouvimos um enorme sussurro, que a todos nos fez voltar, e foi-nos dado então, o presenciar a mais commovente manifestação de fé a que jamais tinhamos assistido.

O povo cahindo todo de joelhos de mãos e olhos erguidos ao Ceu implorava Deus e a Virgem; os homens; e era d'elles a maioria, descobertos, de joelhos em terra, deixavam correr livremente as lagrimas. Era realmente impressionante.

Todos olhavam para o Ceu, que, uma ligeira nuvem, como que uma finissima renda branca, em sitios rosada, cobria. O sol, que por um instante se escondeu de todo, deixou-nos allumiados por uma luz exquisita, notando-se uma manchas amarellas no chão e sobre nós todos, e uma grande baixa de temperatura como succede quando ha um eclipse de sol. Alguem diz: — “Olhem o nevoeiro em volta da carrasqueira!” Olhámos e effectivamente elle lá estava; era realmente um nevoeiro? era fumo? era pó?... poderia ser qualquer d'estas coisas, mas a mim mais me parecia fumo que, sahindo como que de um perfumador se levantasse do chão em leves espiraes e se desfizesse logo em volta do arbusto.

Alguns, diziam ser pó, que uma leve brisa levantava, mas como explicar que a brisa só soprasse n'aquelle sitio, e que assim succedesse sempre no dia 13 de cada mez?! ... N'essa altura já o sol tinha retomado todo o seu antigo brilho. De subito um homem das Lapas, (logar não longe de Torres Novas) que ali tinha ido só para satisfazer a mulher, e que não acreditava na possibilidade do milagre, grita banhado em lagrimas: “Eu vejo, eu vejo a Senhora!!! Olhem, n'esta direcção entre aquellas duas nuvens, não a veem?” Todos olhámos na direcção indicada mas... nenhum de nós vio mais do que as nuvens. No entanto o homem cheio de fé dizia: “Prendam-me se quizerem, mas hei de sempre dizer o que vi”!

A mulher, não vio nada, mas estava radiante por ter sido o marido quem tinha visto, pois que, não acreditava, ella acreditava, não precisava vêr.

Veria realmente este homem alguma coisa, ou seria méra suggestão? — Não era nem um velho, nem uma creança, era um homem, dos seus quarenta annos, estava portanto em toda a força da vida e por isso talvez menos apto a ser suggestionado. Não era um atheu, pois que tinha vindo da sua casa ao Bairro, logar ali perto, para ouvir um sermão, mas era um incredulo do milagre.

Mais pessôas do povo diziam ter visto, mas o que viam? Não sei, mas d'aquelles com quem fallei o que mais me impressionou foi o homem das Lapas.

Fui para a Fatima sem ter a presumpção de ver N. Senhora, embora acreditasse que Ella poderia bem mostrar-se ás creanças, e ás almas puras e innocentes; mas se não vim consolada nem por ter sido favorecida com a visão, nem por ter adquirido a certeza que ali ia buscar, de que N. Senhora apparecia realmente ás creanças, vim no entanto muito consolada com a grande e expontanea manisfestação de fé a que assisti, e a que não contava assistir nunca n'este nosso Portugal, onde as doutrinas erroneas tanto teem abalado a fé do povo. Mas louvado seja Deus! ainda ha muita fé em Portugal, e nos dois mezes seguintes veria eu ainda crescer o numero dos manifestantes muito alem de toda a minha expectativa.

D'ali fômos, todos muito impressionados a casa do Revo Prior da Fatima, para colher mais informações, e sobretudo informações a que pudessemos dar credito. Mas S. Rev.cia foi de uma grande reserva, dizendo-nos, não querer contribuir de forma alguma para suggestionar os outros.

Só ali soubemos, que as trez creanças, naturaes de Aljustrel, pequena povoação da freguezia da Fatima, diziam que uma Senhora lhes apparecia no dia 13 de cada mez, fallava com ellas, respondia ás suas perguntas, e lhes recommendava que rezassem o terço e o offerecessem á Senhora do Rosario. O Revo. Prior, nem sequer nos quiz dizer, como as creanças descreviam a apparição.

Voltámos pois da Fátima convencidos de que alguma coisa de anormal se tinha passado. Um eclipse de sol, é um facto conhecido, vulgar mesmo se quizerem, mas como se explica que em quatro mezes consecutivos, elle se desse sempre no mesmo dia, e á mesma hora, sem que a sciencia o tivesse annunciado? E o tal nevoeiro que só se via n'aquelle sitio? Soubemos depois, que, as creanças postas em liberdade no dia 15, diziam ter sido no dia 19 favorecidas com nova apparição, não na Cova da Iria, mas nos Valinhos, onde andavam apascentando o gado. Que a Senhora lhes recommendára novamente que rezassem o terço em honra da Senhora do Rosario para abrandar a guerra, e que por terem sido presas no dia 13 não se veriam no proximo mez, os mesmos signaes, e que o milagre seria mais conhecido. Mas que Ella viria no dia 13 de Setembro à Cova da Iria, e que fossem as creanças tambem lá.

Nesse dia estavamos nas Caldas da Rainha, mas lá fomos outra vez á Fatima. A manhã estava linda, o céu de um azul intenso estava completamente limpo de nuvens, um sol brilhante e muito quente, não havia a mais ligeira brisa.

Chegámos ali perto do meio dia, era ainda muito maior a concorrencia de gente, do que em Agosto. Não sei calcular, mas em Agosto avaliaram estarem ali umas 5 a 6 mil pessôas, e em Setembro umas 15 a 20 mil.

Todos receiavam que as creanças fossem de novo impedidas de vir, mas Deus não permittio tal. As pessoas presentes iam no entretanto cantando o Avé, e outros canticos, sendo um á Senhora da Carrasqueira, de que ainda não consegui obter a lettra, cantico feito pelo povo, outras rezavam o terço. Chegaram as creanças e começaram a rezar o terço que a mais velha meditava; rezaram depois a Ladainha. De repente, sem que o ceu se toldasse, sentio-se uma differença na temperatura, vio-se que a intensidade do calor do sol tinha diminuido, e viram-se no chão as manchas amarellas que tambem se notavam sobretudo nas blusas brancas que algumas senhoras tinham. Foi um só instante, tudo passou rapidamente. O povo, como em Agosto cahio por terra de joelhos, manifestando a sua fé.

Em Agosto não havia ali um só padre, não queriam que se dissesse que elles iam ali suggestionar o povo, em Setembro vi lá alguns, mas todos procuravam vêr os phenomenos naturaes e convencer-se de que só isso havia. Nada diziam, quazi não fallavam ao povo, a não ser que com elles fallassem, e a um ouvi eu, ao passar, que não se devia nem afirmar nem dar credito por emquanto aquellas coisas.

Eu só vi o ligeiro eclipse de sol, mas muitas pessoas viram uma estrella, ou antes uma pequenissima nuvem, como que um pequenino floco de algodão branco, que qual estrella cadente, atravessou o firmamento, vinda do nascente para o poente, e desappareceu no espaço como que submergida de repente! Ouvi isto a mais de uma pessôa contado da mesma maneira, sem que estas pessôas estivessem juntas ou ouvissem as outras contar. Merece-me pois todo o credito. Coincidio esta passagem da nuvem ou estrella por cima da carrasqueira, com a hora a que as creanças dizem ter visto a Senhora.

Houve também quem dissesse ter visto duas estrellas, e algumas pessôas affirmavam ter visto trez! Não seria muita estrella junta?!... Não sei, mas o que me pareceu, foi que, os que diziam tê-las visto estavam convencidos de que diziam a verdade.

Voltámos para as Caldas impressionadas, e o mesmo succedeu a muitas outras pessôas que das Caldas lá foram e tanto nos impressionou, que as pessôas conhecidas que a nossa casa foram saber novas, fizeram logo tenção de ir á Fatima em Outubro. E no entanto nós affirmavamos a todos, nada ter visto, senão um leve eclipse de sol, e uma extraordinaria manifestação de fé.

Chegou o dia 13 de Outubro e apesar da manhã estar feia e chuvosa, e de ter chovido durante a noite, o que não succedia ha mezes, e que era portanto já uma graça que Deus nos fazia, pois os campos estavam sequissimos; enchemo-nos de coragem e lá partimos para à Fatima. Ao chegarmos a Torres Novas chovia torrencialmente. No entanto marchámos, depois, de por uns minutos nos termos abrigado n'uma garage. Tinhamos pressa de chegar, mas Deus tinha resolvido que não chegariamos a horas de vêr o phenomeno solar, que a todos tanto impressionou.

Pouco depois de sahirmos de Torres Novas, succedeu-nos um desastre de que só milagrosamente escapámos. Enterrou-se-nos o carro na beira da estrada, onde o terreno era falso, e este começou a desabar pouco a pouco. Uma roda do jogo deanteiro já estava no ar, e a de traz não se achava a mais de um palmo afastada do abysmo, e mesmo esse pouco terreno parecia querer desabar tambem. Sahimos do carro, e julgamos não o poder tirar d'ali, e démos graças a Deus por termos escapado. Engatam-se dois bois ao carro e ao primeiro arranco, fica peor do que estava. O carro é muito grande e muito pesado, vão-se portanto buscar mais bois, e engatam-se-lhe quatro. O mais pequeno movimento falso faria rolar o carro por uma ribanceira de uns trez metros de altura, arrastando na queda alguns homens. É grande o perigo, invocamos a Senhora do Rosario e dá-se o signal para que todos puxassem na mesma direcção. Um só arranco, e o carro deslisa lindamente para o meio da estrada. Passámos n'isto uma hora e quarenta minutos, em que estivémos parados na estrada sob uma chuva miudinha e persistente, e com os pés encharcados. Estava constipadissima e muito rouca, e apesar de ter apanhado muita chuva e de ter humedecido muito os pés, não peorei, antes pelo contrário, voltei para casa menos rouca.

Outra graça me fez Deus. Sou de ordinario muito pouco paciente, pois apesar de ter um grande ferro de vêr que não chegava a horas não me impacientei. Antes pelo contrario, senti-me sempre conformada e bem disposta.

Continuámos a nossa jornada, e chegámos finalmente á Fatima, mas só meia hora depois de se ter dado o maravilhoso phenomeno, hoje já de todos conhecido pelas lindas descripções publicadas pelo "Seculo" e outros jornaes.

Que immenso ferro não o ter eu visto!

Chegáda á Fatima procuro ver pessôas conhecidas, para trocar impressões. Todos me dizem o mesmo, todos viram... Mas viram o quê?... lhes pergunto: "Vimos o sol, coberto como que por uma chapa de prata, n'um constante movimento de rotação, despedindo raios vermelhos, amarellos, roxos, e parecendo desprender-se do Céu e aproximar-se da terra."

Fallei com o povo, dizia-me o mesmo, posto que, por outras palavras. Diziam-me ter visto N. Senhora, S. José, o Menino Jesus, e que sei eu?... toda a corte celestial; ao mesmo tempo que tinham visto dançar o sol. Não acreditei em tanta visão.

É certo, que é possível que julgassem ter visto; sugestão talvez. O nosso povo, em geral muito ignorante é muito crédulo, e facil lhe seria o convencer-se de que realmente via, o que desejava ver. É mesmo graças a esta facilidade de convicção que por vezes as doutrinas demagogicas, teem sido ouvidas e acreditadas por elle!

Nas classes mais cultas ninguem me disse ter visto a apparição celeste, mas certo é, que todos, illustrados e não illustrados, manifestavam a sua fé. E que magnifica e imponente manifestação de fé, a d'aquella enorme multidão de cêrca de 50 mil pessoas, quazi todas ali levadas pela fé, pelo desejo de se certificarem da veracidade dos factos que tinham ouvido narrar! Em quazi todos os olhos haviam lagrimas, mas lagrimas da alegria infinda que lhes ia n'alma. Todos se convenciam que alguma coisa de sobrenatural se havia passado, e agradeciam a Deus, lembrar-se ainda d'este pobre e tão culpado Portugal.

Magnifica a profissão de fé do Eng.eiro Sr. João Amado, que, sem respeitos humanos, nem receios, a proclama bem alto. É lindo o seu gesto, quer n'esse momento, quer quando humildemente se accusa de peccador; lindo e edificante. Oxalá tenha imitadores.

Ainda d'esta vez não conseguimos fallar ás creanças, que todos cercavam procurando fallar-lhes, e como se fazia tarde, voltámos para casa.

Não voltei da Fatima com a inteira convicção de que N. Senhora apparecera ás creanças, comquanto nada me repugnasse a acredita-lo. A Deus nada é impossivel, mas tinha duvidas, e persistem ainda essas duvidas, pois só á Egreja reconheço o direito de se pronunciar claramente sobre o caso.

Mas se não tive a consolação, de ver desfeitas as minhas duvidas, por qualquer prova retumbante, consolou-me, e muito, o vêr aquella agglomeração de gente, que ali foi com grande fé e enthusiasmo. Nem a chuva persistente que encharcou os caminhos os impedio de ali irem! E Deus sabe com que sacrificio muitos lá foram, uns sacrificando uma saude mais ou menos fragil, e por isso arriscados a adoecerem, outros fazendo sacrificios monetarios, já porque alguns perdiam dois e trez dias para lá irem, já porque os meios de transporte eram carissimos, attendendo a grande distancia que separa a Fatima, de qualquer estação de caminho de ferro.

Fiquei convencida que em Portugal, ha ainda muita fé, e que do nosso povo que é bom, ainda alguma coisa se pode fazer e que elle pelo seu ideal é capaz de trabalhar e de se sacrificar com amôr alegria e enthusiasmo. — E para prova, era vê-los marchar pelas lamas, pelas estradas encharcadas, pelas pedras escorregadias, alegres, sem desfallecimento, cheios de coragem, ora entoando alegremente o “Avé” e outros canticos, ora recitando piedosamente o terço em comum. Certamente d’este povo ainda se pode esperar um ressurgimento.

Voltei á Fatima no dia 19 de Outubro, fui vêr as creanças e fallar com ellas. Foi comnosco um sacerdote que já por vezes as tinha interrogado, sendo interessantissimos esses interrogatorios.

Ao contrario do que succedera a algumas pessôas, agradaram-me immenso as creanças, que são robustas, sadias, alegres, francas e sympathicas, com uma desinvoltura propria da sua edade. Não fugiram de nós, antes nos receberam amavelmente. Assistimos a um demorado interrogatorio, feito a cada creança separadamente. Respondem francamente, promptamente, e com a maior singeleza. No entanto vê-se que gostam pouco de ser interrogadas, que isso as massa, e que só respondem, por se acharem obrigadas a isso.

A ser certa a visão, haveria uma certa differença entre a maneira como ella se revelava a cada creança. Assim, a mais velha Lucia, era de certo a mais priveligiada, via, ouvia e fallava com a apparição, fazendo-lhe pedidos e perguntas, e obtendo respostas. A mais novita, Jacintha, via e ouvia a Senhora mas nunca lhe fallou, nem Esta se lhe dirigio directamente. O rapazito, Francisco, via a Senhora, mas nunca a ouvio fallar nem sequer a vio mecher os labios, e nunca A vio tão distinctamente como em 13 de Outubro.

Interrogámos as creanças, para saber como se tinha dado a primeira apparição. Responderam com simplicidade que no dia 13 de Maio, quando na Cova da Iria andavam apascentando o seu rebanho, fez uma grande trovoada. Pensavam em juntar o rebanho e irem-se embora, quando d’um relampago viram apparecer uma Senhora. Amedrontados, quizeram fugir, mas a apparição disse-lhes que não fugissem, pois nenhum mal lhes faria. Antes de começar a trovoada as creanças estavam rezando o seu terço, e a apparição recommendou-lhes que rezassem o terço á Senhora do Rosario, para abrandar a guerra, e que voltassem ali todos os mezes, pois durante seis mezes consecutivos ali viriam. — As creanças voltaram ali em junho e dizem ter-lhes apparecido a Senhora que d’esta vez lhes recommendou que aprendessem a lêr, o que as creanças não fizeram logo, porque não havia nem nunca houve professora na Fatima. Agora, sem que ninguem a reclamasse, apparece nomeada para ali, por dois annos uma professora das escolas moveis, e as creanças começaram já a frequentar a escola com bastante aproveitamento, sobretudo da Lucia.

Lá foram as creanças na sua piedosa romaria todos os dias 13 de cada mez á Cova da Iria, excepto em Agosto, em que foram presas. Dizem que viram sempre a Senhora, que a Lucia fallou sempre com Ella, que lhe pedio algumas curas e conversões; que a Senhora lhe prometteu, curar e converter uns, outros não. Que lhes recommendou sempre que rezassem o terço, e lhes disse que queria n’aquelle sitio uma Capellinha dedicada á Senhora do Rosario. Que haverá em tudo isto? — As creanças não mentem, estou certa d’isso, creem que viram, o que affirmam ter visto. — Suggestão nervosa então?... Talvez, mas as creanças parecem-me robustas e sadias, e nem sequer mostram os mais leves symptomas de nervosismo, e mesmo, o meio em que vivem parece-me pouco proprio a suggestões d’este genero.

Uma exploração como muitos dizem!? ... Mas com que fim? Os paes das creanças, são, (no meio em que vivem) abastados, e ellas não recebem donativo algum; repellem mesmo altivamente quem lh’o offereça, dizendo não precisarem de dinheiro.

Se ha até quem diga que é uma mulher que explora este caso!! Uma mulher, mas que mulher? onde está ella? com que intenção, como o explora? Confesso que não percebo, a minha comprehensão não attinge tanto. Na Fatima nem sequer ha onde se gaste dinheiro, não será pois tambem o commercio d'ali que pense em explorar o caso, pois parece-me que bem pouco ganhou com a concorrencia ali! — Outros foram mais longe, pretenderam até que as obras feitas na Egreja da Fatima eram já custeadas pelas esmolas que ás creanças tinham sido dadas! Maldade? Ignorância? ou o quê? É certamente vontade de querer dizer mal e de querer vêr coisas que não existem. As obras da Egreja já estavam adeantadissimas quando da primeira apparição e lá teem continuado sem necessitar de recorrer a explorações.

E posta de parte a ideia de toda e qualquer exploração, resta só a da suggestão nervosa, e essa ponho-a eu de parte desde que vi as creanças e lhes fallei. Que ha pois? Não sei, não posso, nem devo dizer nada, a Egreja o dirá.

Mas seria por sugestão que as crenças previam os phenomenos, que annunciavam para dias certos com tanta antecedencia? E que poder de suggestão tiveram essas trez creanças ignorantes, para suggestionar tanta e tanta gente, que ali foi, só chamada pela palavra d'ellas? Ha aqui algo de extraordinario.

Poderia é certo a apparição não ser celeste, ser mesmo demoniaca, ha muitos que assim o teem pensado tambem. E não ha duvida, poderia ser assim, o demonio é muito esperto, e serve-se de tantos meios para conseguir os seus fins! Mas seria então natural que elle aconselhasse a que não pecassem mais, a que se arrependessem e a que rezassem o Rosario, arma com que S. Domingos o combateu e venceu?

Todos estes argumentos que a minha razão me suscita me fazem pôr de parte, tanto a ideia de exploração, como a de suggestão nervosa, como até mesmo a de intervenção demoniaca. Aguardemos a resolução da Egreja.

As creanças descrevem a apparição, como sendo uma Senhora

muito linda, a mais linda que tivessem visto, (palavras textuaes) de mãos erguidas para o Ceu, toda vestida de branco e ouro, tendo pendente do braço direito um terço todo branco.

Uma vez, a Lucia perguntou á Senhora: “De onde é Vocemecê e para onde vae?” e diz que a Senhora lhe respondeu: “Sou do Céu e vou para o Céu”. E perguntando-lhe a Lucia se ella, a Jacintha e o Francisco tambem irião para o Céu, que a Senhora lhe respondera que ella e a Jacintha irião, e que o Francisco tambem iria, mas teria de rezar mais o terço. Desde então o pequeno, tem por vezes rezado dez terços por dia!

Notas dos editores

1 O documento não está datado, mas é seguramente posterior a 19 de Outubro de 1917, pois refere o interrogatório feito pelo Dr. Formigão nesse dia, feito na presença de Maria Cândida e suas três filhas Laura, Maria e Leonor (cf. DCF, vol. 1, Doc. 16, de p.19 de Outubro de 1917). A data “post quam non” não é fácil de definir, embora pareça ser ainda do ano de 1917, uma vez que esse ano nunca é referido, dando a entender que era esse o ano corrente. Os videntes já frequentavam a escola, pois faz-se referência ao facto de ter sido contratada uma professora das escolas móveis “e as creanças começaram já a frequentar a escola com bastante aproveitamento, sobretudo da Lúcia”. Por outro lado, não se referem acontecimentos que presumivelmente seriam referidos, se já tivessem acontecido, como por exemplo o roubo dos objectos da Cova da Iria por pessoas que os levaram para Santarém ou a revolta sidonista (que se iniciou a 4 de Dezembro e triunfou a 8 do mesmo mês). No entanto, o documento termina abruptamente, o que pode significar que eventualmente ainda narraria mais acontecimentos posteriores a 19 de Outubro de 1917.
2 Tia-avó de Maria Leonor Lobo da Silveira Gomes Pereira, servita de Nossa Senhora de Fátima, que ofereceu a fotocópia deste testemunho, e que, do conhecimento que tem da caligrafia, tem a certeza ser de Leonor de Avelar e Silva Constâncio, uma das pessoas presentes no interrogatório do Dr. Formigão. Leonor de Avelar e Silva Constâncio era viúva de um Sr. Constâncio, falecido prematuramente antes de 1917. Não houve filhos deste matrimónio.
Aparato crítico e remissões (36)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

3 um mundo de gente, sublinhado no texto.
4 Senhora, sublinhado no texto.
5 umas escrito sobre emenda.
6 isto, sublinhado no texto.
7 coisa, sublinhado no texto.
8 Céu, sublinhado no texto.
9 pensávamos, escrito sobre emenda.
10 Senhora, sublinhado no texto.
11 Senhora, sublinhado no texto.
12 Senhora da Carrasqueira, sublinhado no texto.
13 Avivou ceu se toldasse.
14 só isso, sublinhado no texto.
15 Coimcidio corr. Coincidio
16 Senhora, sublinhado no texto.
17 ao escrito sobre emenda.
18 Senhora do Rosario, sublinhado no texto.
19 puxassem, escrito sobre rasura de palavra ilegível.
20 hu escrito sobre emenda.
21 por sobre rasura de palavra ilegível.
22 avivou se certificarem.
23 Cf. Doc. 87, de 15 de Outubro de 1917, nota 11 e Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 4.
24 de escrito sobre emenda.
25 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 7, nota 86 e Doc. 16, notas 43 a 50.
26 Senhora, sublinhado no texto.
27 esta corr. Esta.
28 Senhora, sublinhado no texto.
29 a corr. A.
30 Senhora, sublinhado no texto.
31 Senhora, sublinhado no texto.
32 explorações, sublinhado no texto.
33 -dessem, escrito sobre rasura.
34 Senhora muito linda, a mais linda que tivessem visto, sublinhado no texto.
35 Senhora, sublinhado no texto.
36 de corr. De.
37 Palavra rasurada.
38 irião escrito sobre rasura.
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