Testemunhas /
Leonor de Avelar e Silva Constâncio
Visitante
Viúva sem filhos (o marido, um Sr. Constâncio, morrera novo, antes de 1917), que estava nas Caldas da Rainha em 1917. Foi à Cova da Iria a 13 de agosto, a 13 de setembro e a 13 de outubro de 1917 (dessa vez chegou depois do fenómeno solar) para saber o que se passava, e assistiu ao interrogatório dos videntes pelo Dr. Formigão a 19 de outubro.
Residência: Caldas da RainhaA região em redorAtitude prévia: neutra4 relatos
13 de agosto de 1917 1 relato
13 ago.Testemunho diretoViuNotaA multidãoLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagemDescida da temperaturaNuvem / coluna de fumo Fomos pois ali no dia 13 de Agosto. Sahimos de casa às 9 1/2 da manhã; o dia estava bonito, mas não muito quente, havia até uma temperatura agradavel. Iamos commovidos, aprehensivos, recolhidos, esperando nem eu sei bem o quê. Depois de um passeio de perto de 3 horas de automovel, chegámos emfim a Fatima, e ali nos disseram que o local da apparição era na Cova da Iria, a uns trez kilometros da povoação, para onde nos dirigimos. Era já grande a agglomeração de gente quando ali chegámos. Na Fátima uma mulher do povo tinha-nos dito: “logo sabem onde é, hão de ver à sua direita um mundo de gente, é ahi.” E assim era. Deixámos o carro na estrada e percorremos a pé alguns metros até ao sitio onde a multidão era mais compacta, ouvindo-se cantar o Avé de Lourdes.
Indagamos se as creanças já tinham chegado pois difficil era ver quem rodeiava a carrasqueira, arbusto, onde segundo diziam pousava a apparição.
Responderam-nos negativamente, dizendo-nos que como a apparição só teria logar do meio dia para a uma, as creanças só viriam perto d’essa hora. Alegámos que sendo já perto de uma hora, as creanças já deveriam ali estar. “Por que horas se regulam?” (pergunta-nos uma mulher do povo) é pelas modernas? ... Nem a Senhora nem as meninas se regulam por ellas, mas sim pelas antigas, que são as verdadeiras”. — Emquanto esperavamos fômos conversando com o povo e indagando dos que já nos mezes anteriores ali tinham ido, o que costumava passar-se. Disseram-nos que á hora indicada o sol se encobriria por leves nuvens, e que um nevoeiro envolveria o arbusto sobre o qual, Nossa Senhora, descendo de uma nuvem, pousaria a fallar com as creanças.
A pouco e pouco fômos encontrando entre a multidão varias pessôas conhecidas, e até ainda nossas parentas. Juntamos-nos todas, fômos colhendo informações e commentando-as, achando umas algo extraordinarias e outras inverosimeis.
N’esta altura apparece um homem dizendo-nos que as creanças não viriam, porque tinham sido presas pelo administrador do concelho e por elle levadas para Villa Nova d’Ourem. De principio, ninguem acredita, julga-se que se trata de uma brincadeira de máu gosto, da parte do homem, mas é tal a intimativa com que elle o affirma, que uma Senhora se offerece para, no seu auto ir a Fatima, saber o que lá se passára. Voltou, e no seu rosto, vêmos todos que é verdadeira a noticia. O administrador offerecendo-se para levar as creanças para a Cova da Iria depois de as ter interrogado, leva-as traiçoeiramente presas para Villa Nova d’Ourem. Com que direito? O que tinham feito as creanças para serem presas?... nada, era a persiguição que principiava.
Todos protestam, todos se indignam, mas é um protesto ordeiro, e apesar de ali estar muita gente umas 5 a 6 mil pessôas, ninguem pensa em se revoltar, em luctar. Eram crentes, gente cheia de fé, e não brigões que ali se encontravam.
Das pessôas presentes, muitas pensam em ir-se embora, mas, do povo sobretudo, sahe este grito “Fiquemos e esperemos, ainda não chegou a hora, e se isto é coisa do Céu ha de manifestar-se, mesmo apesar de as creanças terem sido presas, pois contra o poder de Deus e da Virgem, a auctoridade não póde nada”.
Admiramos a fé do povo, e todos ficamos aguardando cheios de anciedade a hora annunciada.
Como nos não lembravamos dos 37 minutos já de ha muito adeantados; ás 2 horas pensávamos já todos em nos retirar, pensando que, por estarem ausentes as creanças, nada de anormal se passaria.
Mas justamente, n’esse momento ouvimos um enorme sussurro, que a todos nos fez voltar, e foi-nos dado então, o presenciar a mais commovente manifestação de fé a que jamais tinhamos assistido.
O povo cahindo todo de joelhos de mãos e olhos erguidos ao Ceu implorava Deus e a Virgem; os homens; e era d'elles a maioria, descobertos, de joelhos em terra, deixavam correr livremente as lagrimas. Era realmente impressionante.
Todos olhavam para o Ceu, que, uma ligeira nuvem, como que uma finissima renda branca, em sitios rosada, cobria. O sol, que por um instante se escondeu de todo, deixou-nos allumiados por uma luz exquisita, notando-se uma manchas amarellas no chão e sobre nós todos, e uma grande baixa de temperatura como succede quando ha um eclipse de sol. Alguem diz: — “Olhem o nevoeiro em volta da carrasqueira!” Olhámos e effectivamente elle lá estava; era realmente um nevoeiro? era fumo? era pó?... poderia ser qualquer d'estas coisas, mas a mim mais me parecia fumo que, sahindo como que de um perfumador se levantasse do chão em leves espiraes e se desfizesse logo em volta do arbusto.
Alguns, diziam ser pó, que uma leve brisa levantava, mas como explicar que a brisa só soprasse n'aquelle sitio, e que assim succedesse sempre no dia 13 de cada mez?! ... N'essa altura já o sol tinha retomado todo o seu antigo brilho. De subito um homem das Lapas, (logar não longe de Torres Novas) que ali tinha ido só para satisfazer a mulher, e que não acreditava na possibilidade do milagre, grita banhado em lagrimas: “Eu vejo, eu vejo a Senhora!!! Olhem, n'esta direcção entre aquellas duas nuvens, não a veem?” Todos olhámos na direcção indicada mas... nenhum de nós vio mais do que as nuvens. No entanto o homem cheio de fé dizia: “Prendam-me se quizerem, mas hei de sempre dizer o que vi”!
A mulher, não vio nada, mas estava radiante por ter sido o marido quem tinha visto, pois que, não acreditava, ella acreditava, não precisava vêr.
Veria realmente este homem alguma coisa, ou seria méra suggestão? — Não era nem um velho, nem uma creança, era um homem, dos seus quarenta annos, estava portanto em toda a força da vida e por isso talvez menos apto a ser suggestionado. Não era um atheu, pois que tinha vindo da sua casa ao Bairro, logar ali perto, para ouvir um sermão, mas era um incredulo do milagre.
Mais pessôas do povo diziam ter visto, mas o que viam? Não sei, mas d'aquelles com quem fallei o que mais me impressionou foi o homem das Lapas.
[…]
Voltámos pois da Fátima convencidos de que alguma coisa de anormal se tinha passado. Um eclipse de sol, é um facto conhecido, vulgar mesmo se quizerem, mas como se explica que em quatro mezes consecutivos, elle se desse sempre no mesmo dia, e á mesma hora, sem que a sciencia o tivesse annunciado? E o tal nevoeiro que só se via n'aquelle sitio?
13 de setembro de 1917 1 relato
13 set.Testemunho diretoEm parteNotaA multidãoDescida da temperaturaLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagemEstrela / globo luminoso Nesse dia estavamos nas Caldas da Rainha, mas lá fomos outra vez á Fatima. A manhã estava linda, o céu de um azul intenso estava completamente limpo de nuvens, um sol brilhante e muito quente, não havia a mais ligeira brisa.
Chegámos ali perto do meio dia, era ainda muito maior a concorrencia de gente, do que em Agosto. Não sei calcular, mas em Agosto avaliaram estarem ali umas 5 a 6 mil pessôas, e em Setembro umas 15 a 20 mil.
Todos receiavam que as creanças fossem de novo impedidas de vir, mas Deus não permittio tal. As pessoas presentes iam no entretanto cantando o Avé, e outros canticos, sendo um á Senhora da Carrasqueira, de que ainda não consegui obter a lettra, cantico feito pelo povo, outras rezavam o terço. Chegaram as creanças e começaram a rezar o terço que a mais velha meditava; rezaram depois a Ladainha. De repente, sem que o ceu se toldasse, sentio-se uma differença na temperatura, vio-se que a intensidade do calor do sol tinha diminuido, e viram-se no chão as manchas amarellas que tambem se notavam sobretudo nas blusas brancas que algumas senhoras tinham. Foi um só instante, tudo passou rapidamente. O povo, como em Agosto cahio por terra de joelhos, manifestando a sua fé.
Em Agosto não havia ali um só padre, não queriam que se dissesse que elles iam ali suggestionar o povo, em Setembro vi lá alguns, mas todos procuravam vêr os phenomenos naturaes e convencer-se de que só isso havia. Nada diziam, quazi não fallavam ao povo, a não ser que com elles fallassem, e a um ouvi eu, ao passar, que não se devia nem afirmar nem dar credito por emquanto aquellas coisas.
Eu só vi o ligeiro eclipse de sol, mas muitas pessoas viram uma estrella, ou antes uma pequenissima nuvem, como que um pequenino floco de algodão branco, que qual estrella cadente, atravessou o firmamento, vinda do nascente para o poente, e desappareceu no espaço como que submergida de repente! Ouvi isto a mais de uma pessôa contado da mesma maneira, sem que estas pessôas estivessem juntas ou ouvissem as outras contar. Merece-me pois todo o credito. Coincidio esta passagem da nuvem ou estrella por cima da carrasqueira, com a hora a que as creanças dizem ter visto a Senhora.
Houve também quem dissesse ter visto duas estrellas, e algumas pessôas affirmavam ter visto trez! Não seria muita estrella junta?!... Não sei, mas o que me pareceu, foi que, os que diziam tê-las visto estavam convencidos de que diziam a verdade.
Voltámos para as Caldas impressionadas, e o mesmo succedeu a muitas outras pessôas que das Caldas lá foram e tanto nos impressionou, que as pessôas conhecidas que a nossa casa foram saber novas, fizeram logo tenção de ir á Fatima em Outubro. E no entanto nós affirmavamos a todos, nada ter visto, senão um leve eclipse de sol, e uma extraordinaria manifestação de fé.
13 de outubro de 1917 1 relato
13 out.Testemunho diretoNão viu nadaNotaA multidão Continuámos a nossa jornada, e chegámos finalmente á Fatima, mas só meia hora depois de se ter dado o maravilhoso phenomeno, hoje já de todos conhecido pelas lindas descripções publicadas pelo "Seculo" e outros jornaes.
Que immenso ferro não o ter eu visto!
Chegáda á Fatima procuro ver pessôas conhecidas, para trocar impressões. Todos me dizem o mesmo, todos viram... Mas viram o quê?... lhes pergunto: "Vimos o sol, coberto como que por uma chapa de prata, n'um constante movimento de rotação, despedindo raios vermelhos, amarellos, roxos, e parecendo desprender-se do Céu e aproximar-se da terra."
Fallei com o povo, dizia-me o mesmo, posto que, por outras palavras. Diziam-me ter visto N. Senhora, S. José, o Menino Jesus, e que sei eu?... toda a corte celestial; ao mesmo tempo que tinham visto dançar o sol. Não acreditei em tanta visão.
É certo, que é possível que julgassem ter visto; sugestão talvez. O nosso povo, em geral muito ignorante é muito crédulo, e facil lhe seria o convencer-se de que realmente via, o que desejava ver. É mesmo graças a esta facilidade de convicção que por vezes as doutrinas demagogicas, teem sido ouvidas e acreditadas por elle!
Nas classes mais cultas ninguem me disse ter visto a apparição celeste, mas certo é, que todos, illustrados e não illustrados, manifestavam a sua fé. E que magnifica e imponente manifestação de fé, a d'aquella enorme multidão de cêrca de 50 mil pessoas, quazi todas ali levadas pela fé, pelo desejo de se certificarem da veracidade dos factos que tinham ouvido narrar! Em quazi todos os olhos haviam lagrimas, mas lagrimas da alegria infinda que lhes ia n'alma. Todos se convenciam que alguma coisa de sobrenatural se havia passado, e agradeciam a Deus, lembrar-se ainda d'este pobre e tão culpado Portugal.
Magnifica a profissão de fé do Eng.eiro Sr. João Amado, que, sem respeitos humanos, nem receios, a proclama bem alto. É lindo o seu gesto, quer n'esse momento, quer quando humildemente se accusa de peccador; lindo e edificante. Oxalá tenha imitadores.
Ainda d'esta vez não conseguimos fallar ás creanças, que todos cercavam procurando fallar-lhes, e como se fazia tarde, voltámos para casa.
Outros acontecimentos de 1917 1 relato
Voltei á Fatima no dia 19 de Outubro, fui vêr as creanças e fallar com ellas. Foi comnosco um sacerdote que já por vezes as tinha interrogado, sendo interessantissimos esses interrogatorios.
Ao contrario do que succedera a algumas pessôas, agradaram-me immenso as creanças, que são robustas, sadias, alegres, francas e sympathicas, com uma desinvoltura propria da sua edade. Não fugiram de nós, antes nos receberam amavelmente. Assistimos a um demorado interrogatorio, feito a cada creança separadamente. Respondem francamente, promptamente, e com a maior singeleza. No entanto vê-se que gostam pouco de ser interrogadas, que isso as massa, e que só respondem, por se acharem obrigadas a isso.