Explorar / Relato

Leonor de Avelar e Silva Constâncio · 13 de agosto de 1917

Visitanteviúva, senhora católica que estava nas Caldas da Rainha
13 ago.Testemunho diretoViuNotaA multidãoLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagemDescida da temperaturaNuvem / coluna de fumo

Fomos pois ali no dia 13 de Agosto. Sahimos de casa às 9 1/2 da manhã; o dia estava bonito, mas não muito quente, havia até uma temperatura agradavel. Iamos commovidos, aprehensivos, recolhidos, esperando nem eu sei bem o quê. Depois de um passeio de perto de 3 horas de automovel, chegámos emfim a Fatima, e ali nos disseram que o local da apparição era na Cova da Iria, a uns trez kilometros da povoação, para onde nos dirigimos. Era já grande a agglomeração de gente quando ali chegámos. Na Fátima uma mulher do povo tinha-nos dito: “logo sabem onde é, hão de ver à sua direita um mundo de gente, é ahi.” E assim era. Deixámos o carro na estrada e percorremos a pé alguns metros até ao sitio onde a multidão era mais compacta, ouvindo-se cantar o Avé de Lourdes.

Indagamos se as creanças já tinham chegado pois difficil era ver quem rodeiava a carrasqueira, arbusto, onde segundo diziam pousava a apparição.

Responderam-nos negativamente, dizendo-nos que como a apparição só teria logar do meio dia para a uma, as creanças só viriam perto d’essa hora. Alegámos que sendo já perto de uma hora, as creanças já deveriam ali estar. “Por que horas se regulam?” (pergunta-nos uma mulher do povo) é pelas modernas? ... Nem a Senhora nem as meninas se regulam por ellas, mas sim pelas antigas, que são as verdadeiras”. — Emquanto esperavamos fômos conversando com o povo e indagando dos que já nos mezes anteriores ali tinham ido, o que costumava passar-se. Disseram-nos que á hora indicada o sol se encobriria por leves nuvens, e que um nevoeiro envolveria o arbusto sobre o qual, Nossa Senhora, descendo de uma nuvem, pousaria a fallar com as creanças.

A pouco e pouco fômos encontrando entre a multidão varias pessôas conhecidas, e até ainda nossas parentas. Juntamos-nos todas, fômos colhendo informações e commentando-as, achando umas algo extraordinarias e outras inverosimeis.

N’esta altura apparece um homem dizendo-nos que as creanças não viriam, porque tinham sido presas pelo administrador do concelho e por elle levadas para Villa Nova d’Ourem. De principio, ninguem acredita, julga-se que se trata de uma brincadeira de máu gosto, da parte do homem, mas é tal a intimativa com que elle o affirma, que uma Senhora se offerece para, no seu auto ir a Fatima, saber o que lá se passára. Voltou, e no seu rosto, vêmos todos que é verdadeira a noticia. O administrador offerecendo-se para levar as creanças para a Cova da Iria depois de as ter interrogado, leva-as traiçoeiramente presas para Villa Nova d’Ourem. Com que direito? O que tinham feito as creanças para serem presas?... nada, era a persiguição que principiava.

Todos protestam, todos se indignam, mas é um protesto ordeiro, e apesar de ali estar muita gente umas 5 a 6 mil pessôas, ninguem pensa em se revoltar, em luctar. Eram crentes, gente cheia de fé, e não brigões que ali se encontravam.

Das pessôas presentes, muitas pensam em ir-se embora, mas, do povo sobretudo, sahe este grito “Fiquemos e esperemos, ainda não chegou a hora, e se isto é coisa do Céu ha de manifestar-se, mesmo apesar de as creanças terem sido presas, pois contra o poder de Deus e da Virgem, a auctoridade não póde nada”.

Admiramos a fé do povo, e todos ficamos aguardando cheios de anciedade a hora annunciada.

Como nos não lembravamos dos 37 minutos já de ha muito adeantados; ás 2 horas pensávamos já todos em nos retirar, pensando que, por estarem ausentes as creanças, nada de anormal se passaria.

Mas justamente, n’esse momento ouvimos um enorme sussurro, que a todos nos fez voltar, e foi-nos dado então, o presenciar a mais commovente manifestação de fé a que jamais tinhamos assistido.

O povo cahindo todo de joelhos de mãos e olhos erguidos ao Ceu implorava Deus e a Virgem; os homens; e era d'elles a maioria, descobertos, de joelhos em terra, deixavam correr livremente as lagrimas. Era realmente impressionante.

Todos olhavam para o Ceu, que, uma ligeira nuvem, como que uma finissima renda branca, em sitios rosada, cobria. O sol, que por um instante se escondeu de todo, deixou-nos allumiados por uma luz exquisita, notando-se uma manchas amarellas no chão e sobre nós todos, e uma grande baixa de temperatura como succede quando ha um eclipse de sol. Alguem diz: — “Olhem o nevoeiro em volta da carrasqueira!” Olhámos e effectivamente elle lá estava; era realmente um nevoeiro? era fumo? era pó?... poderia ser qualquer d'estas coisas, mas a mim mais me parecia fumo que, sahindo como que de um perfumador se levantasse do chão em leves espiraes e se desfizesse logo em volta do arbusto.

Alguns, diziam ser pó, que uma leve brisa levantava, mas como explicar que a brisa só soprasse n'aquelle sitio, e que assim succedesse sempre no dia 13 de cada mez?! ... N'essa altura já o sol tinha retomado todo o seu antigo brilho. De subito um homem das Lapas, (logar não longe de Torres Novas) que ali tinha ido só para satisfazer a mulher, e que não acreditava na possibilidade do milagre, grita banhado em lagrimas: “Eu vejo, eu vejo a Senhora!!! Olhem, n'esta direcção entre aquellas duas nuvens, não a veem?” Todos olhámos na direcção indicada mas... nenhum de nós vio mais do que as nuvens. No entanto o homem cheio de fé dizia: “Prendam-me se quizerem, mas hei de sempre dizer o que vi”!

A mulher, não vio nada, mas estava radiante por ter sido o marido quem tinha visto, pois que, não acreditava, ella acreditava, não precisava vêr.

Veria realmente este homem alguma coisa, ou seria méra suggestão? — Não era nem um velho, nem uma creança, era um homem, dos seus quarenta annos, estava portanto em toda a força da vida e por isso talvez menos apto a ser suggestionado. Não era um atheu, pois que tinha vindo da sua casa ao Bairro, logar ali perto, para ouvir um sermão, mas era um incredulo do milagre.

Mais pessôas do povo diziam ter visto, mas o que viam? Não sei, mas d'aquelles com quem fallei o que mais me impressionou foi o homem das Lapas.

[…]

Voltámos pois da Fátima convencidos de que alguma coisa de anormal se tinha passado. Um eclipse de sol, é um facto conhecido, vulgar mesmo se quizerem, mas como se explica que em quatro mezes consecutivos, elle se desse sempre no mesmo dia, e á mesma hora, sem que a sciencia o tivesse annunciado? E o tal nevoeiro que só se via n'aquelle sitio?

DCF III-1, Doc. 129 · nota · depois de 19 out. 1917 (2 meses depois)Digitalizações (4)
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