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DCF III-2, Doc. 370

1 jun. 1918LisboacartaAna Maria da Câmara

Carta de Ana Maria da Câmara a sua irmã Maria de Jesus2, contando a sua ida a Fátima, no dia 13 de Maio de 1918.

A – Paradeiro desconhecido.

B – Cópia dactilografada, tirada de uma colectânea de escritos, numerada por folhas, oferecida ao Santuário de Fátima, a 19 de Maio de 1981, por Maria Eugénia da Câmara Rebelló de Andrade, sobrinha da autora da carta, filha de Antónia da Câmara. Cópia incompleta, fls. 383v-385.

1.6.1918

[...]

A nossa mana Emilia, graças a Deus vai melhorando. Logo que aumente mais um kilo, vai para o Tortozendo onde o ar é optimo. O Anibal de Castro6 esteve cá ontem e confirmou as melhoras que tinha encontrado nas duas ultimas vezes que cá esteve.

Agora vou-lhe contar um grande passeio que eu dei. Imagine que fui passar o dia 13 a Fátima. Era um plano que eu tinha encasquetado ha muito tempo e pude realiza-lo. Parti no domingo ás 8,50 com a M. Inocencia7 e chegamos a Chão de Maçãs ás 3 e meia da tarde. Fomos hospedadas para casa de um conhecimento da M. Inocencia: Jaime Landal e mulher. Essas duas criaturas e uma pequena de 12 anos foram de uma amabilidade comigo que eu nem sei como agradecer-lhes, mas muito me poderiam ter desanimado na minha crença sobre a visita de Nossa Senhora, se eu a não tivesse tão arreigada. Ouvi isto tudo: “A pequena mais velha, a Lucia, é uma espertalhona, sustenta o seu papel ha um ano. Imita em tudo a Bernadette, descreve N. Senhora tal qual como a de Lourdes, falando sempre na faixa azul; pede dinheiro a toda a gente, etc, etc. Alguem que queria uma capela ali, inventou isto tudo. O Francisco não fala com ninguem, e se o faz, é só para contradizer a Lucia, etc., etc.”

Eu ouvia e ia dizendo o que me parecia saltar aos olhos: se alguem se lembrasse de querer armar uma historia destas, arranjava uma heroina, nunca três; e talvez pudesse despachar tudo numa só sessão, sem o perigo de estender uma invenção por seis compridos meses. “E os sinais?” perguntava eu triunfante. “Ilusão, sugestão” etc. Quem falava eram cristãos e praticantes, não havia da sua parte a menor má vontade. Mas eles ainda não tinham ido falar com os pequenos. Partimos ás 10 da manhã de carruagem. Chegámos perto da 1 hora. Lá está o altar tosco, as lampadas de lata, muitas flores; quem chega junta o seu ramo ao monte. O que resta da carrasqueira, um tronco raso ao chão, está resguardado por pedras, e nos intervalos destas, ardem algumas vélas. Tudo primitivo e duma simplicidade que dispõe bem. Pouca gente. Uma mulher resa alto o rosario, dizendo as intenções dos mistérios com palavras lindas. Não se ouve senão rezar pelos nossos soldados, vivos e mortos, pelas familias, pela conversão dos pecadores pela nossa terra. Alguem me mostra o Francisco e, momentos depois, acabado o rosario vou ter com ele. É um pequenito, tem um olhar lindo. Sento-me ao pé dele e começo a minha conversa: “Viste Nossa Senhora?” — “Vi”. “Como vinha vestida?” — “Toda de branco e oiro.” “E não trazia nada de côr?” — “Não”. “E na cabeça?” — “Um manto.” “E mais nada?” — “Sim, trazia uma coisa.” “O quê?” — “Não sei, uma coisa.” “E via-se o cabelo?” — “Não”. “E os olhos de que côr eram?” — “Eram pretos.” Estas respostas eram dadas com um ar de uma naturalidade enorme, um pouco arrastadas. Todas as três crianças com quem falei separadamente, mudam de tom descrevendo o olhar de N. Senhora. Vê-se que foi o que mais as impressionou. A Lucia diz dos olhos: “Eram muito escuros.” “E o fato?” — “Branco e oiro.”

“Com cinto de côr?” — “Não, com estrelas de oiro; olhe, tinha uma no peito.” “E na cabeça?” — “Um manto e uma coisa, assim...” “Mas o quê?” — “Não sei, era assim um açafatico” (um açafatesinho). Eu nem disse a palavra corôa que me veio logo á ideia; deixar a pequena explicar-se como sabe e confesso que achei de apetite a comparação. “E via-se o cabelo?” — “Não.” “Olha, N. Senhora estava a rir-se, alegre?” — “Não, estava séria.” “Zangada?” — “Não, séria.” “Trazia as contas, não trazia?” — “Sim, umas contas brancas e quando falava abria as mãos, assim...” A pequena tirou as contas da algibeira e explicou o que tinha visto: A certa altura diz-me que N. Senhora tinha muita luz. “Como o sol?” — “Mais do que o sol.” Uma senhora que ali estava, diz-lhe: “Porque tiveste medo ao principio? Se eu te aparecesse, tu não fugias.” — “É que a senhora não me cegava.” Diz que N. Senhora pede ao povo que se emende, que reze muito o terço e faça uma capela a N. Senhora do Rosario. A pequena repete muitas vezes: “O povo não se emenda, o povo não se emenda...”

O que ninguem pode dizer é que a igreja ajuda a isto. Tem estado de uma reserva que quasi parece má vontade. Mas tem de ser assim, emquanto não houver grandes milagres a confirmar esta graça. Fala-se de uma rapariga tuberculosa em 3º grau, curada por N. Senhora do Rosario de Fatima, mas o Padre Formigão10 que se ocupa em recolher todos os depoimentos, não conseguiu ainda falar com os medicos que a trataram. Vi uma mulher que ha 8 meses sofria de um tumor no peito. O medico dizia que só poderia melhorar depois de ser operada em Lisbôa. Faz a promessa de ir com 9 companheiras a Fatima se se curar. Em poucos dias o tumor que era aberto, fecha e o estado geral volta ao antigo. Lá estava cumprindo a promessa. Igualmente vi uma creancinha que durante uns poucos de meses trouxe uma perninha encolhida, sem que as receitas do médico, banhos, etc, dessem o menor resultado.

A mãe faz a promessa de 2 vélas e uma perninha de cêra a N. Senhora da “Azinheira”, vai lavar ao Rio e, quando volta, o pequenino tinha a perna igual á outra. Agora N. Senhora fará o resto, se foi Ela que nos visitou, e se nós não a recebemos mal demais.

... Recebemos as suas noticias pelo J. P. Ficámos todos contentissimos. Veja se manda dizer pouco mais ou menos, quando pensa vir até cá, que é para irmos fazendo “pontaria” para essa alegria. Ontem esteve cá o Janiquinho. É uma amor de simpatia. Assim que se lhe pega encosta a cabecinha á nossa cara. Os olhos são enormes e escuros, mas não o acho nada Ribeira. Acho-o atrazadinho e não é alegre, mas lembro-me sempre do outro João que era assim, tal qual e se tornou um colosso de saude e alegria.

Tudo por cá está bem, graças a Deus. Estou-lhe escrevendo á luz de uma véla o mais tremeliques que é possivel.

Aceite saudades enormes de todos.

O maior beijo da irmã amicissima

Ana Maria11

Notas dos editores

2 Segundo informação da ofertante da carta, Maria de Jesus encontrava-se a residir em França.
6 Riscou indicação de nota, riscando também a própria nota: um dos melhores medicos da sua epoca.
7 (2) corr. (1) Maria Inocência Caldas de Magalhães. Nota do texto.
10 Manuel Nunes Formigão. Cf. DCF, vol. 1, Doc. 7, de 27 de Setembro de 1917, nota 2.
11 Segue outra carta: Da Avó para a tia Maria – Da nossa Junqueira 1-6-1918 – Queridissima filha – Estamos contentissimos [...] Ele [...]
Aparato crítico e remissões (6)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 93, de 16 de Outubro de 1917, nota 2.
3 Manuscrito a lápis.
4 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 125, de 19 de Outubro de 1917, nota 7.
5 No texto Trotozendo.
8 açafatico, sublinhado no texto.
9 corôa, sublinhado no texto.
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