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DCF V-4, Doc. 1277

13 fev. 1930Lisboanotícia de imprensaGaspar Pizarro (carta), com notas do Visconde de Montelo

Carta de Gaspar Pizarro para D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria a responder a uma carta deste. Faz alguns reparos ao livros “As Grandes Maravilhas de Fátima”, do Visconde do Montelo.

A - Perdido.

Publ.: “Voz da Fátima”, Leiria, 8 (89), 13 Fev. 1930, p. 2, cols. 2-3.

“Foi uma surpresa gratíssima e uma grande consolação para mim a recepção da carta, que V. Ex.cia Rev.ma bondosamente se dignou escrever-me.

Dou a V. Ex.cia Rev.ma os parabens pelo incremento que a devoção à Virgem Senhora de Fátima vai tomando. O meu desejo é poder contribuir o mais possível para que tal incremento se estenda igualmente à Bélgica. As circunstâncias não me permitem grande coisa; mas o poucochinho, que fizer, valerá por muito, se lhe não faltar a bênção da Virgem Santíssima. Os belgas estão em geral de pé atrás em acontecimentos como os de Fátima, e isto devido à notícia de várias aparições que, após a grande guerra, se disse ter havido e que afinal se encontrou serem simples especulação.

Por êste motivo exigem factos positivos e muita documentação, e em especial a documentação fotográfica. Efectivamente esta representa a realidade, e apoia, com a sua linguagem muda mas sensível, a exposição oral dos factos.

Neste ponto já tenho um bom número de postais fotográficos sôbre o movimento religioso na Cova da Iria. Tenho pena, porém, de não ter obtido nenhuma fotografia nem da povoação de Fátima, nem da Igreja paroquial, nem dos arredores da Cova da Iria. Ora fotografias destas é que seriam grandemente apreciadas a par da dos videntes e da Imagem da Senhora do Rosário. Deus queira que para o ano já se encontre alguma coisa no género.

Agradeço muitíssimo os seis números da Revue du Rosaire. Tem sido muito apreciada a narração dos acontecimentos de Fátima neles descrita. No entanto eu tomo a liberdade de expor a V. Ex.cia Rev.ma a impressão que me deixou a leitura desta revista, bem como a dos livros sôbre o mesmo assunto: Fátima de Leopoldo Nunes e As grandes maravilhas de Fátima, pelo Visconde de Montelo.

Tenho constatado que não há conformidade de dados e pormenores, que poderia chamar históricos e fundamentais, entre estas diversas narrações das aparições de Fátima. Assim, por exemplo, não compreendo como o Sr. Visconde de Montelo diz, a pág. onze do seu livro, que a aparição parecia não ter mais de dezoito anos, sendo que a pág. noventa afirma ter dito a Lúcia que a Visão parecia ter uns quinze anos (1)2. A pág. doze fala dum rosário com uma cruz de ouro; depois na pág. setenta e quatro a cruz é branca, no dizer da Lúcia. (2)3. E há assim outras divergências que, sobretudo dentro de alguns anos serão um embaraço para quem quer que deseje fazer uma história de Fátima. Digo isto na esperança de que talvez V. Ex.cia Rev.ma possa obviar o tal inconveniente mandando proceder a uma redacção bem precisa quanto a datas, pormenores relativos à Senhora aparecida, aos videntes, etc., etc.

Creio bem que no meu artigo em francês haverá uma ou outra coisa menos exacta; no entanto procurei escrever o que me pareceu mais conforme às declarações dos videntes e, em geral, aos dados fornecidos pela Voz da Fátima.

Resta-me agradecer a colecção da Voz da Fátima que me elucidou sôbre alguns pontos e que brevemente remeterei a V. Ex.cia Rev.ma.

Peço perdão do tempo que tirei a V. Ex.cia Rev.ma e do meu atrevimento em expôr a minha desautorizada opinião; faço-o, porém para maior glória de Nossa Senhora do Rosário da Fátima”.

Visconde de Montelo

Notas dos editores

2 Nota do texto: (1) A pág. onze afirmo que a aparição parece não ter mais de dezoito anos, porque uma vez a mãe da Lúcia, na presença da filha e doutras pessoas, me disse, ao perguntar a idade aparente da Visão, que esta parecia ser como uma rapariga do lugar de Aljustrel, que estava presente e que tinha já completado dezasete anos. A pág. noventa declaro ter dito a Lúcia que a Visão parecia ter uns quinze anos, porque realmente o disse, embora ela fôsse uma pequena rude, apenas com dez anos de idade, e incapaz de calcular bem a idade de uma pessoa. De resto a diferença entre as expressões uns quinze anos e parecia não ter mais de dezoito anos nãe é grande e esta última expressão não só não contradiz nem exclue a primeira, senão que até a completa e permite uma maior aproximação da verdade. [Cf. Doc. 1229, de 22 de Janeiro de 1930].
3 Nota do texto: As palavras da pág. doze são uma transcrição do folheto Os episódios maravilhosos de Fátima, publicados em 1921. Foram escritas há cêrca de dez anos, decerto em face de apontamentos que agora não me é fácil encontrar entre os meus papéis. Mas, se me reportava a declarações das crianças que conservasse de memória, actualmente é-me de todo impossível precisar qual delas me assegurou que a cruz do rosário era ou parecia de ouro. Teria sido o Francisco? Teria sido a Jacinta? Não sei. Convém no entanto pesar que a Lúcia, assim como os primos, às vezes diziam ser brancas certas partes do corpo ou certas peças do traje da Visão por causa da luz clara e vivíssima que a envolvia e quási lhe ofuscava os olhos. A pág. 77, a Lúcia diz: “É que ela às vezes cega”. A pág. 94, diz o Francisco: “posso olhar para a cara dela, mas pouco, por causa da luz”. Mas, na hipótese, aliás muito improvável de que se trate dum lapso de memória ou da preocupação de arredondar a frase com prejuízo inadvertido da verdade histórica, o pormenor afigura-se-me tão insignificante que não vejo inconveniente nenhum em suprimir de futuro, pura e simplesmente, da referida descrição e impertinente qualificativo de ouro. V. M. [Cf. Doc. 1229, de 22 de Janeiro de 1930].
Aparato crítico e remissões (1)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 5-3, Doc. 1170, de 25 de Dezembro de 1929.
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