É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado Cova da Iria?
– É verdade.
– Quantas vezes te apareceu já?
– Cinco vezes, sendo uma cada mês.
– Em que dia do mês?
– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo sr. administrador. Nesse mês vi-a só alguns dias depois, a dezanove, no sítio dos Valinhos.
– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há de verdade a este respeito?
– O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano); nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não era exato.
[…]
Donde é que ela vem? Das bandas do nascente?
- Não sei; não a vejo vir de parte alguma; aparece sobre a carrasqueira, e quando se retira é que toma a direção donde nasce o sol.
- Quanto tempo se demora? Muito ou pouco?
- Pouco tempo.
- O suficiente para se recitar um Padre Nosso e uma Avé Maria, ou mais?
- Mais, bastante mais, mas nem sempre o mesmo tempo (talvez não chegasse para rezar o terço).
- Da primeira vez que a viste não ficaste assustada?
- Fiquei, e tanto assim que quis fugir, com a Jacinta e o Francisco, mas Ela disse-nos que não tivéssemos medo, porque não nos faria mal. Disse: “não tenham medo que eu não vos faço mal.”
- Como é que está vestida?
- Tem um vestido branco, que desce até um pouco abaixo do meio da perna, e cobre-lhe a cabeça um manto, da mesma cor, e do mesmo comprimento que o vestido.
- O vestido não tem enfeites?
- Veem-se nele, na parte anterior, dois cordões dourados, que descem do pescoço e se reunem por uma borla, também dourada, à altura do meio do corpo.
- Tem algum cinto ou alguma fita?
- Não tem.
- Usa brincos nas orelhas?
- Usa umas argolas pequenas e de cor amarela.
- Qual das mãos segura as contas?
- A mão direita.
- Eram um terço ou um rosário?
- Não reparei bem.
- Terminavam por uma cruz?
- Terminavam por uma cruz branca, sendo as contas também brancas. A cadeia era também branca.
- Perguntaste-lhe alguma vez quem era?
- Perguntei, mas declarou que só o diria a 13 de outubro.
- Não lhe perguntaste de onde vinha?
- Perguntei de onde era, e ela respondeu-me que era do Céu.
- E quando foi que lhe fizeste essa pergunta?
- Da segunda vez, a treze de junho.
- Sorriu-se alguma vez ou mostrou-se triste?
- Nunca se sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria.
- Recomendou-te, e aos teus primos, que rezassem algumas orações?
- Recomendou-nos que rezássemos o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário, a fim de se alcançar a paz para o mundo.
- Mostrou desejos de que no dia treze de cada mês estivessem presentes muitas pessoas na Cova da Iria?
- Não disse nada a esse respeito.
- É certo que te disse um segredo, proibindo que o revelasses a quem quer que fosse?
- É certo.
- Diz respeito só a ti ou também aos teus companheiros?
- A todos três.
- Não o podes manifestar ao menos ao teu confessor?
(A esta pergunta guardou silêncio, parecendo um tanto enleada e julguei não dever insistir, repetindo a pergunta).
- Consta que, para te veres livre das importunações do sr. administrador, no dia em que foste presa, lhe contaste, como se fosse o segredo uma coisa que o não era, enganando-o assim e gabando-te depois de lhe teres feito essa partida: é verdade?
- Não é; o sr. administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim. O que fiz foi contar tudo o que a Senhora me disse, exceto o segredo, e talvez por esse motivo o sr. administrador ficasse julgando que eu lhe tinha revelado também o segredo. Não o quis enganar.
- A Senhora mandou que aprendesses a ler?
- Mandou, sim, da segunda vez que apareceu.
- Mas se a Senhora disse que te levaria para o Céu no mês de outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler?
- Não é verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa.
- O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao pé da carrasqueira?
- Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova.
- Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?
- Não sei: ela não o disse.
- Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?
- Estou.
- No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só?
- Vem também S. José com o menino, e será concedida a paz ao mundo.
- E fez mais alguma revelação?
- Declarou que no dia 13 fará com que todo o povo acredite que ela realmente aparece.
- Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?
- É que ela às vezes cega.
- Ensinou-te alguma oração?
- Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário.
- Sabes de cor essa oração?
- Sei.
- Diz lá...
- Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem10.
Notas dos editores (1)
10 O Dr. Formigão fez um apontamento, possivelmente na mesma data, em que escreveu: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, e aquelas que mais precisarem. Para se recitar depois de cada mistério do rosário. Posteriormente, o Dr. Formigão acrescentou: e aliviai as almas do Purgatório, principalmente as mais abandonadas.