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DCF Seleção, Doc. 40 (= DCF I, Doc. 33)

31 dez. 1918FátimadepoimentoPe. Manuel Marques FerreiraOriginalmente DCF I, Doc. 33

Depoimento de Manuel Gonçalves Júnior, segunda testemunha do inquérito paroquial sobre as aparições de Fátima, nos dias 13 de julho a outubro de 1917.

Publ.: DCF, I - Doc. 33 (Este documento faz parte do Processo Paroquial de Fátima).

Depoimento da 2ª testemunha

Manuel Gonçalves Júnior, casado, proprietário, de trinta e quatro anos de idade, natural e morador no lugar do Montelo, desta freguesia de Fátima, sendo interrogado sobre o que sabia relativo aos factos ocorridos na Cova da Iria, disse que no dia treze de julho de mil novecentos e dezassete se dirigiu àquele local, onde estava à hora indicada pelas crianças videntes para a Aparição, e que notou que a essa hora o calor, que era demasiado, começou a abrandar. Nesta ocasião, chegaram as crianças, rezaram o terço com o povo, aplicado pela Lúcia, – não sabendo se foi de iniciativa sua ou se foi a pedido de alguma outra pessoa. Em seguida notou que a mesma Lúcia, estando todos, povo e videntes, de joelhos, começou a falar para a carrasqueira, como quem está a falar com outra pessoa, fazendo perguntas e esperando respostas; mas não percebeu o que dizia, pela distância a que se encontrava. Passado pouco tempo, levanta-se de repente, e de mãos postas aponta para o lado nascente dizendo:

– Querem ver Nossa Senhora?!...

Nesta ocasião, também notou que a certa altura da carrasqueira se formou uma espécie de névoa ou de nuvem, que se foi elevando seguindo para o nascente, chegando a impallidecer o brilho do sol, e desapareceu.

Declarou mais que no dia treze de agosto do mesmo ano, pouco depois da hora marcada para a Aparição, quando se comentava o rapto das crianças, notou que houve um forte e inexplicável estrondo, junto à carrasqueira, que atemorizou todo o povo, começando a fugir e a gritar comovidamente, – havendo até algumas síncopes –, e que junto do sol se formou uma nuvem com as cores do Arco-Íris.

Declarou, outrossim, que também no dia treze de setembro do mesmo anno, notara que a Lúcia estava a falar junto à carrasqueira, como quem está falando com outra pessoa, fazendo perguntas e esperando respostas, e que na ocasião passava sobre a carrasqueira um não sei quê de extraordinário, parecendo flores brancas e que as outras pessoas também notaram tal fenómeno, dizendo serem estrelas.

– “Aqui aproveito a ocasião para dizer, que, neste mesmo dia treze, por cerca das três horas da tarde, veio a minha casa, residência paroquial, o Rev.mo Dr. António Maria de Figueiredo1 meritíssimo professor no Seminário Patriarcal de Santarém e declarou-me que viu estrelas numa região inferior à região estelar, que veio a minha casa de propósito para me fazer tal declaração –”.

Mais disse que em treze de outubro do mesmo ano, à hora marcada pelas crianças para as Aparições, depois de ter cessado a chuva, viu elevar-se por várias vezes, saindo da carrasqueira, uma espécie de fumo, semelhante ao fumo do incenso na ocasião da incensação, ouvindo dizer às pessoas que estavam a seu lado, que era fumo de cigarro ou de fogueira, mas a ele só lhe parecia fumo igual ao da incensação, não lhe constando que naquela ocasião houvesse ali fumadores ou fogueira de espécie alguma.

De olhos sempre fixos na carrasqueira a fim de ver alguma coisa de extraordinário, sem, propositadamente, olhar para o sol, notou que, na mesma ocasião em que o povo estava em altos gritos e exclamações pelo que via no sol, tanto as pessoas como as árvores, e tudo quanto a sua vista atingia na direção da carrasqueira tomou diferentes cores. E mais não disse dando assim por findo o seu depoimento que depois de lhe ser lido o ratifica e jura como sendo verdadeiro e comigo o assina.

Paroquial de Fátima, 31 de dezembro de 1918

A testemunha Manuel Gonçalves Júnior
O Pároco Manuel Marques Ferreira.

Notas dos editores

1 Nasceu a 11 de julho de 1879, em Mata, concelho de Torres Novas. Doutorou-se em Filosofia e Teologia e bacharelou-se em Direito Canónico, em Roma. Foi ordenado sacerdote, a 19 de dezembro de 1902. Foi professor no Seminário de Santarém e pároco em várias paróquias, na mesma cidade e em Lisboa. Foi cónego da Sé de Lisboa. Faleceu a 5 de maio de 1963, em Torres Novas.
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