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DCF Seleção, Doc. 40 (= DCF I, Doc. 33)
Depoimento de Manuel Gonçalves Júnior, segunda testemunha do inquérito paroquial sobre as aparições de Fátima, nos dias 13 de julho a outubro de 1917.
Publ.: DCF, I - Doc. 33 (Este documento faz parte do Processo Paroquial de Fátima).
Depoimento da 2ª testemunha
Manuel Gonçalves Júnior, casado, proprietário, de trinta e quatro anos de idade, natural e morador no lugar do Montelo, desta freguesia de Fátima, sendo interrogado sobre o que sabia relativo aos factos ocorridos na Cova da Iria, disse que no dia treze de julho de mil novecentos e dezassete se dirigiu àquele local, onde estava à hora indicada pelas crianças videntes para a Aparição, e que notou que a essa hora o calor, que era demasiado, começou a abrandar. Nesta ocasião, chegaram as crianças, rezaram o terço com o povo, aplicado pela Lúcia, – não sabendo se foi de iniciativa sua ou se foi a pedido de alguma outra pessoa. Em seguida notou que a mesma Lúcia, estando todos, povo e videntes, de joelhos, começou a falar para a carrasqueira, como quem está a falar com outra pessoa, fazendo perguntas e esperando respostas; mas não percebeu o que dizia, pela distância a que se encontrava. Passado pouco tempo, levanta-se de repente, e de mãos postas aponta para o lado nascente dizendo:
– Querem ver Nossa Senhora?!...
Nesta ocasião, também notou que a certa altura da carrasqueira se formou uma espécie de névoa ou de nuvem, que se foi elevando seguindo para o nascente, chegando a impallidecer o brilho do sol, e desapareceu.
Declarou mais que no dia treze de agosto do mesmo ano, pouco depois da hora marcada para a Aparição, quando se comentava o rapto das crianças, notou que houve um forte e inexplicável estrondo, junto à carrasqueira, que atemorizou todo o povo, começando a fugir e a gritar comovidamente, – havendo até algumas síncopes –, e que junto do sol se formou uma nuvem com as cores do Arco-Íris.
Declarou, outrossim, que também no dia treze de setembro do mesmo anno, notara que a Lúcia estava a falar junto à carrasqueira, como quem está falando com outra pessoa, fazendo perguntas e esperando respostas, e que na ocasião passava sobre a carrasqueira um não sei quê de extraordinário, parecendo flores brancas e que as outras pessoas também notaram tal fenómeno, dizendo serem estrelas.
– “Aqui aproveito a ocasião para dizer, que, neste mesmo dia treze, por cerca das três horas da tarde, veio a minha casa, residência paroquial, o Rev.mo Dr. António Maria de Figueiredo1 meritíssimo professor no Seminário Patriarcal de Santarém e declarou-me que viu estrelas numa região inferior à região estelar, que veio a minha casa de propósito para me fazer tal declaração –”.
Mais disse que em treze de outubro do mesmo ano, à hora marcada pelas crianças para as Aparições, depois de ter cessado a chuva, viu elevar-se por várias vezes, saindo da carrasqueira, uma espécie de fumo, semelhante ao fumo do incenso na ocasião da incensação, ouvindo dizer às pessoas que estavam a seu lado, que era fumo de cigarro ou de fogueira, mas a ele só lhe parecia fumo igual ao da incensação, não lhe constando que naquela ocasião houvesse ali fumadores ou fogueira de espécie alguma.
De olhos sempre fixos na carrasqueira a fim de ver alguma coisa de extraordinário, sem, propositadamente, olhar para o sol, notou que, na mesma ocasião em que o povo estava em altos gritos e exclamações pelo que via no sol, tanto as pessoas como as árvores, e tudo quanto a sua vista atingia na direção da carrasqueira tomou diferentes cores. E mais não disse dando assim por findo o seu depoimento que depois de lhe ser lido o ratifica e jura como sendo verdadeiro e comigo o assina.
Paroquial de Fátima, 31 de dezembro de 1918
A testemunha Manuel Gonçalves Júnior
O Pároco Manuel Marques Ferreira.