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DCF III-1, Doc. 29
Carta de Joel de Deus Magno ao cónego Francisco Maria Félix, referindo-se à quinta aparição, em 13 de Setembro de 1917.
A - Original mutilado. AForm, Doss. 9, fl. 18, doc. 2.
Descrição do documento: Papel de carta (13X17,5cm). O texto completo foi escrito num total de 3 folhas (6 páginas). Resta apenas a última folha (duas páginas, numeradas pelo autor: 5 e 6). “Snr. Dr. Figueiredo [...] o estima e respeita. Joel de Deus Magno”. Editamos este documento, indicando em aparato crítico, as variantes B, D e E. O texto apresenta algumas abreviaturas usuais, que desdobramos.
Na transcrição, indicamos a numeração por folhas e por páginas.
Parte desta carta viria a ser publicada, com algumas alterações textuais, no jornal “A Guarda”, de 13 de Setembro de 1919, num artigo do Visconde de Montelo (Dr. Formigão), datado de 5 de Setembro de 1919, e no livro, do mesmo autor As grandes maravilhas de Fátima, Lisboa, União Gráfica, 1927.
Foi através destas publicações que tivémos conhecimento do que calculamos ser a primeira parte da carta que, supomos, terá sofrido algumas alterações ao ser transcrita pelo Dr. Formigão.
B - AForm., Doss. 1, fl. 2, doc. 3.
Rascunho feito pelo Dr. Formigão, do artigo que foi depois publicado em “A Guarda”.
Descrição do documento: Este rascunho foi feito em papel comercial (21x27cm), de 26 linhas cada página, com redacção a duas colunas por página. A p. 1, cols. 1-2 e p. 2, col. 3, apresenta o texto do artigo propriamente dito: “Approximava-se o dia 13 de Setembro [...] que não resisto ao desejo de também a transcrever”.
As três linhas finais da coluna 3 e as colunas 5 e 6 da p. 4, ficaram em branco. Presumivelmente, estas 82 linhas em branco destinavam-se à transcrição das quatro primeiras páginas da carta original, que começava “Como no mês proximo findo” e terminaria em “protecção maternal da Rainha do Mundo”.
Na p. 4, ao cimo da coluna 7, o Dr. Formigão transcreveu as últimas linhas da p. 4, desaparecida, do autógrafo: “Foi neste momento [...] Eu não vi e tenho pena disso”, e segue com a transcrição, não textual, das duas páginas que restam do autógrafo: “O Dr. F. [...] Era um lindo espectáculo”.
Nesta redacção, à luz da parte do autógrafo que subsistiu, verificamos que o Dr. Formigão não transcreveu todo o texto e alterou-o bastante, pelo que também as redacções seguintes se afastam do original autógrafo.
Da carta de que B é a primeira cópia conhecida, apresentamos o texto na sua forma inicial, dando, em aparato crítico, as emendas que foram introduzidas para a publicação em D.
C - Segunda redacção manuscrita do artigo do Dr. Formigão, enviada ao jornal A Guarda. Perdida. O texto seria o mesmo do texto B corrigido, e do texto D.
D - Publ.: VISCONDE DE MONTELO (FORMIGÃO, Manuel Nunes), Os episodios de Fatima - V, “A Guarda”, Guarda, 15 (657), 13 Set. 1919, p. 1, cols. 4-5. Data de redacção: 5 de Setembro de 1919. A redacção certamente segue o texto C, que não conhecemos, mas é muito semelhante ao texto B corrigido.
E - IDEM, As grandes maravilhas de Fátima, Lisboa, União Gráfica, 1927, p. 59-61. O autor, nesta edição, actualiza a ortografia e altera levemente o texto D, em certas passagens. Apresentamos essas alterações em aparato crítico.
X pernoitou em minha casa e no dia seguinte de manhã convidou-me a tomar logar no carro, convite a que accedi com alvoroço.
Na vespera tinham passado por esta povoação verdadeiros bandos de pessoas, que vinham dos lados do mar, tendo dormido aqui grande numero dellas. Á hora aprazada subimos para o carro e partimos. Durante a jornada commovi-me immenso e por mais duma vez me assomaram as lagrimas aos olhos ao constatar a fé e piedade ardente de tantos milhares de romeiros. Os caminhos e atalhos iam cheios de gente.
Não havia carreiro, por mais pequeno que fosse, que não trouxesse pessoas á estrada. Era uma peregrinação que verdadeiramente fazia chorar de commoção. Nunca me fora dado presencear em toda a minha vida uma tão grande e tão tocante manifestação de fé. Não se via nem se ouvia cousa alguma que traduzisse o mais imperceptivel sentimento de leviandade ou mesmo um proposito de divertimento innocente. O harmonio, indispensavel em todas as romarias e festas de aldeia, brilhava na sua ausencia. Não havia a desenvoltura propria da gente moça do campo nem ao menos as costumadas graças e chalaças inofensivas, acompanhadas de estridentes gargalhadas. Eram quasi dez horas quando atingimos o termo da nossa jornada. A multidão, que áquella hora já era enorme, aproximava-se cheia de respeito do local das apparições. Os homens descobriram-se. Quasi todas as pessoas se ajoelhavam e rezavam com fervor. Logo que chegámos, X e eu dirigimo-nos a casa das creanças, photographámo-las e conversámos com ellas. Foi essa a scena que mais me impressionou. Fiquei positivamente encantado. Aquella simplicidade angelica e aquella absoluta despreocupação que ellas manifestam não podem mentir. Não teem o acanhamento proprio das creanças rudes dos campos e das serras na presença de pessoas desconhecidas. Tanto se lhes dá fallar com uma pessoa estranha como com muitas. As respostas são sempre as mesmas. Parecem adultos na maneira de se exprimir. De casa das creanças seguimos para a residencia parochial, onde estavam, alem do parocho, alguns amigos meus e de X com os quaes trocámos impressões sobre o assumpto do dia. Passada meia hora, puzemo-nos a caminho do local das apparições.
Ao meio dia em ponto — hora astronomica, — o sol começou a perder o brilho. Não houve quem não notasse este facto, que desde maio precedente se repetia sempre no dia 13 de cada mez á mesma hora. Pouco depois a mais velha das videntes mandou aos circunstantes que rezassem.
Nunca esquecerei a violenta impressão que senti ao ver cahir de joelhos tantos milhares de fieis que chorando rezavam em voz alta e imploravam cheios de confiança a protecção maternal da Rainha do Ceu27.
Foi neste momento que muitas pessoas viram uma oval, de côr viva30 e brilhante, com a parte mais larga voltada para baixo, descrever uma comprida linha recta no firmamento. Algumas pessoas viram esse phenomeno por mais, outras por menos tempo. Eu não o vi e tenho pena disso. O Snr. Dr. Figueirêdo35 e muitas pessôas d'aqui viram36. Ha algumas pessôas e seriissimas d'aqui que viram uma especie de flôres que vinham de cima mas que não tocavam no chão37. — A atmosphéra tomou uma côr amarellada, talvez por causa do obscurecimento do sol. — O que se passou n'este rapido quarto d'hora nunca se esquece e tambem não é facil de descrever; depois direi mais algumas coisas para não estar a massar o Snr. Conego com uma carta tão enfadonha; nem eu tinha tenção de fazer uma tal descripção que não fica muito atraz da do mez passado; o Snr. Dr. Formigão (que eu lá não fui capaz de ver) e o Snr. Dr. Figueirêdo dirão bem melhor que eu o que houve. E
No depoimento da segunda testemunha do Inquérito Paroquial, datado de 31 de Dezembro de 1918, o pároco de Fátima, a propósito de uma declaração da testemunha ("na occasião passava sobre a Carrasqueira um não sei que de extraordinario, parecendo flores brancas e que outras pessoas tambem notaram tal phenomeno dizendo serem estrellas"), diz: "Aqui aproveito a occasião de dizer, que neste mesmo dia treze por cerca das trez horas da tarde, veiu a minha casa, residencia parochial, o Reverendo António Maria de Figueiredo meritissimo professor no Seminario Patriarchal em Santarem e declarou-me que viu estrellas numa região inferior á região estrellar, e que veiu a minha casa de proposito para me fazer tal declaração" (AEL, Documentos de Fátima, Dossier I-1 A, Inquérito Paroquial, fl. 15). Cf. DCF, vol. 1, Doc. 33, de 31 de Dezembro de 1918.
— Logo que o sol recuperou a luz habitual as creanças retiraram e com ellas as primeiras levas de pôvo que a pouco e pouco dispersou45. Os calculos mais reduzidos davam 15 a 17.000 pessôas, havendo quem afirmasse estarem muito mais de 20.000. Eu não dou a minha opinião mas creio que nunca vi tanta gente. Era um lindo espectaculo.
Recebi hontem carta do Jeronymo49, mas datada do dia 2 do corrente. Desde que elle sahiu d'ahi nunca mais soubemos d'elle; esperamol-o tôdos os dias. Recebi hôje carta do Pe. Firmo50 em que me diz que ficou isento do serviço militar e que foi ao Seminario depois de eu já ter sahido. — Gostei muitó de ir a Pataias. A festa foi bonita. O Pe. Casimiro51 trabalha. Coitado! tem de ir para a escola d'officiaes já em outubro, segundo parece. Fui tambem á Maceira no dia 8, à festa do Sagrado Coração de Jesus53; foi lindissima. A nossa que tambem foi bonita, foi no domingo proximo passado. — Não haverá difficuldades na nossa entrada este anno? Deus queira que não. Eu estou prompto para o que fôr preciso; peço-lhe, Snr Co. Felix que disponha de mim sem cerimonias. Meus Tios enviam-lhe muitos cumprimentos e [margem superior da fl. 3, p. 6] peço ao Snr. Conego Felix que me desculpe e abençôe o seu humilde subdito que muito o estima e respeita
Joel de Deus Magno
Notas dos editores
Trata-se do Pe. António Maria de Figueiredo. Nasceu no lugar da Mata, freguesia de Santa Eufémia, concelho de Torres Novas, a 11 de Julho de 1879. Doutorou-se em Filosofia e Teologia e bacharelou-se em Direito Canónico, pela Universidade de Santo Apolinário, em Roma. Foi ordenado presbítero a 19 de Dezembro de 1902, ficando a desempenhar as funções de prefeito e professor de Filosofia, Teologia Dogmática e Latinidade, no Seminário de Santarém. Foi pároco de Vale de Santarém, Várzea, Abitureiras, S. Nicolau, de Santarém, S. Nicolau, de Lisboa, e S. Jorge de Arroios. Foi cónego da Sé de Lisboa. Faleceu a 5 de Maio de 1963.
Aparato crítico e remissões (38)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.