Testemunhas /

Joel de Deus Magno

CleroEstudante

Seminarista do Seminário de Santarém, nascido a 11 de outubro de 1894 em Vermelha (Cadaval), com 22 anos, que escreveu da Batalha ao cónego Francisco Maria Félix sobre as suas idas à Cova da Iria em agosto e setembro de 1917; mais tarde sacerdote, exerceu diversos cargos no seminário.

Residência: BatalhaA região em redorAtitude prévia: crente3 relatos · 13 de agosto de 1917, 13 de setembro de 1917
13 ago.Testemunho diretoCartaA multidão

Depois de descançar um pouco fui andando devagar para o logar da apparição. Quando lá cheguei estavam muitas pessôas rezando e cantando versos a N. Senhôra de roda do pequeno arbusto onde se dão as apparições; é uma pequena sobreira4 que está já reduzida ao tronco, tantos ramos lhe teem tirado. Comecei a fallar com algumas pessôas d’aqui que lá vi; já a esta hora lá estava muita gente; não tardaram a chegar alguns seminaristas que logo se dirigiram a mim e nunca mais nos separámos. Eram o António Ferreira5, o Manuel dos Santos6, o Penna7, o Caetano de Thomar8, que fez o 1º anno, o Pereira9 que é mesmo d'aqui e mais tarde chegou o António Poças10 e o Marques Vieira11 com um irmão12. Fomo-nos para uma sombra e ali estivemos muito tempo. Então é que começou a grande affluencia de pôvo; era de todos os lados mas d'um lado e d'outro da estrada é que era uma verdadeira enchente. Os carros succediam-se, gente a cavallo, a pé e de bicicleta; só a vista dos carros espalhados pela encosta e animaes á sombra, uma enfiada de automoveis na estrada e verdadeiros montes de bicicletas era interessante. Pelo meio dia (antigo)13, hora certa das apparições, estavam muitos milhares de pessôas no logar. Eu não presto para calculos, mas os que lhe davam menos fallavam em 5000 pessôas. — Já tardavam as creanças quando chegou o Poças com a triste noticia de que o administrador de Ourem dissera aos paes das creanças em cuja casa estava que as levava na sua charrete para o sitio mas que fugira com ellas para Ourem. E assim foi, aquelle homem mau e cobarde atraiçoou assim tôdo aquelle pôvo, mas n'isto parece bem ter havido intervenção de Deus por que aquelle logar em que passava constantemente muita gente estava deserto, sendo unicas testemunhas de visu o Prior, o Snr. Vigario de Torres Novas19 e o Pe. Manuel Poças20 que estavam na varanda d'elle

(priôr), cômo elles mesmos depois me disseram. O pôvo quando soube ficou indignadissimo e eu, cômo já eram umas 3 horas, fui á Fátima com alguns dos seminaristas saber do caso. Fiquei tão zangado que já nem sei o que lá disse; naturalmente aquelles padres chamaram-me ... tonto ou coisa que o valha... Estavamos n'isto quando apparecêram uns homens muito contentes dizendo que N. Senhôra tinha apparecido. Despedi-me logo dos padres e fui para cima. Vinham já as estradas cheias d'aquelle pôvo que comentava o estrondoso facto. A cada grupo eu perguntava o que tinham visto e em menos de um phosphoro via-me cercado de tôda aquella gente que em grande gritaria me contavam que ouviram um trovão e tôda a gente fugira; voltando depois, viram descer uma nuvem, azul e branca que brevemente se levantára e desapparecêra. Outros que tinham visto um relampago e havia mulhersinha que com as lagrimas nos olhos dizia convencidissima que vira N. Senhôra; emfim tôdos ficáram satisfeitos e pelo que ouvi aos de Ourem o administrador parece ter arriscado muito a vida com o tal rapto.

Notas dos editores (15)

1 Nasceu em Vermelha (Cadaval), a 11 de Outubro de 1894. Entrou no Seminário de Santarém no dia 8 de Outubro de 1907. Ordenado sacerdote, exerceu diversos cargos no mesmo Seminário. Foi secretário perpétuo do Cón. Francisco Maria Félix. Faleceu a 8 de Maio de 1962.

2 Nasceu no dia 11 de Fevereiro de 1874, em Óbidos. Ordenado sacerdote a 9 de Agosto de 1896, exerceu diversos cargos no Seminário de Santarém de que foi reitor desde 1 de Agosto de 1921. Faleceu no dia 5 de Junho de 1970.

3 Provavelmente terá sido o Pároco de Fátima, Pe. Manuel Marques Ferreira, que lhe guardou a bicicleta e lhe deu um pouco de vinho.

4 Nas suas transcrições desta carta para Os Episódios Maravilhosos de Fátima - IV, “A Guarda”, 15 (655), 30 Ago. 1919, e para As Grandes Maravilhas de Fátima, Lisboa, União Gráfica, 1927, p. 49-52, o Dr. Formigão corrige este erro, usando o termo “azinheira”.

5 Nasceu em Santa Catarina da Serra a 18 de Julho de 1899. Foi ordenado sacerdote a 27 de Junho de 1924. Faleceu em Barcelos a 9 de Agosto de 1970. Cf. “A Voz do Domingo”, Leiria, 38 (1950), 16 Ago. 1970, p. 8, col. 1.

6 Natural de Torres Novas. Não se ordenou.

7 Natural de Torres Novas. Não se ordenou.

8 José Caetano da Silva, de Tomar. Não se ordenou.

9 Francisco Pereira dos Reis, de Fátima. Faleceu devido à pneumónica em 1918-1919.

10 Poderá tratar-se do Pe. António Carreira Poças. Nasceu no Reguengo, Batalha, a 3 de Novembro de 1892. Faleceu em Belas, Sintra.

11 João Marques Vieira, do Olival (?).

12 Abílio Marques Vieira, do Olival (?).

13 Hora solar.

19 Pe. António de Oliveira Reis, nasceu em Montelo, Fátima, no dia 22 de Janeiro de 1874. Foi ordenado sacerdote a 28 de Junho de 1901. Faleceu a 22 de Junho de 1962.

20 Nasceu a 13 de Janeiro de 1881, no Reguengo, Batalha. Foi condiscípulo do Pe. Joel e pároco de S. João de Porto de Mós, de 1908 a 15 de Novembro de 1939. Faleceu a 8 de Agosto de 1944. Segundo referiu o Sr. Marto ao Dr. Fischer, o Pe. Manuel Carreira Poças interrogou as crianças oito ou nove dias antes de 13 de Outubro. Cf. FISCHER, Ludwig - Die Botschaft unserer Lieben Frau von Fátima, Bamberg, Fátima-Verlag, 1937, p. 147. Cf. DCF, vol. 1, Doc. 54, de 13-15 de Agosto de 1917, nota 7.

DCF III-1, Doc. 7 · carta · depois de 13 ago. 1917 · também publicado em DCF III-2, Doc. 406Digitalizações (3)Ligação
13 set.Testemunho diretoEm parteCartaA multidãoLuz a diminuirCores nas pessoas e na paisagemPalavras dos videntes

Como no mez proximo findo, fui tambem este mez, no dia 13, á Fatima, mas desta vez sem o esperar, porque não era facil nem tinha tenção de lá ir.

Foi o caso que no dia 12 á noite chegou aqui6 X7 num enorme char-á-bancs, que transportava 16 pessoas da Benedicta para a Fatima, onde anceavam por assistir aos phenomenos que costumavam verificar-se no dia 13 de cada mez desde maio do corrente anno.

X pernoitou em minha casa e no dia seguinte de manhã convidou-me a tomar logar no carro, convite a que accedi com alvoroço.

Na vespera tinham passado por esta povoação verdadeiros bandos de pessoas, que vinham dos lados do mar, tendo dormido aqui grande numero dellas. Á hora aprazada subimos para o carro e partimos. Durante a jornada commovi-me immenso e por mais duma vez me assomaram as lagrimas aos olhos ao constatar a fé e piedade ardente de tantos milhares de romeiros. Os caminhos e atalhos iam cheios de gente.

Não havia carreiro, por mais pequeno que fosse, que não trouxesse pessoas á estrada. Era uma peregrinação que verdadeiramente fazia chorar de commoção. Nunca me fora dado presencear em toda a minha vida uma tão grande e tão tocante manifestação de fé. Não se via nem se ouvia cousa alguma que traduzisse o mais imperceptivel sentimento de leviandade ou mesmo um proposito de divertimento innocente. O harmonio, indispensavel em todas as romarias e festas de aldeia, brilhava na sua ausencia. Não havia a desenvoltura propria da gente moça do campo nem ao menos as costumadas graças e chalaças inofensivas, acompanhadas de estridentes gargalhadas. Eram quasi dez horas quando atingimos o termo da nossa jornada. A multidão, que áquella hora já era enorme, aproximava-se cheia de respeito do local das apparições. Os homens descobriram-se. Quasi todas as pessoas se ajoelhavam e rezavam com fervor. Logo que chegámos, X e eu dirigimo-nos a casa das creanças, photographámo-las e conversámos com ellas. Foi essa a scena que mais me impressionou. Fiquei positivamente encantado. Aquella simplicidade angelica e aquella absoluta despreocupação que ellas manifestam não podem mentir. Não teem o acanhamento proprio das creanças rudes dos campos e das serras na presença de pessoas desconhecidas. Tanto se lhes dá fallar com uma pessoa estranha como com muitas. As respostas são sempre as mesmas. Parecem adultos na maneira de se exprimir. De casa das creanças seguimos para a residencia parochial, onde estavam, alem do parocho, alguns amigos meus e de X com os quaes trocámos impressões sobre o assumpto do dia. Passada meia hora, puzemo-nos a caminho do local das apparições.

Ao meio dia em ponto — hora astronomica, — o sol começou a perder o brilho. Não houve quem não notasse este facto, que desde maio precedente se repetia sempre no dia 13 de cada mez á mesma hora. Pouco depois a mais velha das videntes mandou aos circunstantes que rezassem.

Nunca esquecerei a violenta impressão que senti ao ver cahir de joelhos tantos milhares de fieis que chorando rezavam em voz alta e imploravam cheios de confiança a protecção maternal da Rainha do Ceu27.

Foi neste momento que muitas pessoas viram uma oval, de côr viva30 e brilhante, com a parte mais larga voltada para baixo, descrever uma comprida linha recta no firmamento. Algumas pessoas viram esse phenomeno por mais, outras por menos tempo. Eu não o vi e tenho pena disso. O Snr. Dr. Figueirêdo35 e muitas pessôas d'aqui viram36. Ha algumas pessôas e seriissimas d'aqui que viram uma especie de flôres que vinham de cima mas que não tocavam no chão37. — A atmosphéra tomou uma côr amarellada, talvez por causa do obscurecimento do sol. — O que se passou n'este rapido quarto d'hora nunca se esquece e tambem não é facil de descrever; depois direi mais algumas coisas para não estar a massar o Snr. Conego com uma carta tão enfadonha; nem eu tinha tenção de fazer uma tal descripção que não fica muito atraz da do mez passado; o Snr. Dr. Formigão (que eu lá não fui capaz de ver) e o Snr. Dr. Figueirêdo dirão bem melhor que eu o que houve.

[…]

Logo que o sol recuperou a luz habitual as creanças retiraram e com ellas as primeiras levas de pôvo que a pouco e pouco dispersou45. Os calculos mais reduzidos davam 15 a 17.000 pessôas, havendo quem afirmasse estarem muito mais de 20.000. Eu não dou a minha opinião mas creio que nunca vi tanta gente. Era um lindo espectaculo.

Notas dos editores (8)

6 Entenda-se à Batalha.

7 Em E está F[ulano]. Trata-se do Padre Joaquim António do Carmo (Cf. Doc. 24 e Doc. 25, de 13 de Setembro de 1917).

27 Desde o princípio deste documento Como no mez findo até Rainha do Ceu só se encontra em D e E.

30 B de côr viva corr. pouco mais volumosa que um ovo, de côr branca, viva. D e E pouco mais volumosa que um ôvo, de côr branca, viva.

35 B e D corr. F.; E corr. B.
Trata-se do Pe. António Maria de Figueiredo. Nasceu no lugar da Mata, freguesia de Santa Eufémia, concelho de Torres Novas, a 11 de Julho de 1879. Doutorou-se em Filosofia e Teologia e bacharelou-se em Direito Canónico, pela Universidade de Santo Apolinário, em Roma. Foi ordenado presbítero a 19 de Dezembro de 1902, ficando a desempenhar as funções de prefeito e professor de Filosofia, Teologia Dogmática e Latinidade, no Seminário de Santarém. Foi pároco de Vale de Santarém, Várzea, Abitureiras, S. Nicolau, de Santarém, S. Nicolau, de Lisboa, e S. Jorge de Arroios. Foi cónego da Sé de Lisboa. Faleceu a 5 de Maio de 1963.

36 B e D muitos patricios meus affirmam que tambem o viram. E o dr. B e muitos patricios meus afirmam que também o viram.

37 B alguns destes, de cuja seriedade não é lícito duvidar, asseguram ter avistado uma especie de flores, que cahiam do Ceu, mas que não tocavam no chão, desappareciam ao chegarem a certa altura. corr. Alguns destes, cuja seriedade não é licito pôr em duvida, asseguram ter distinguido uma especie de flores, que cahiam do ceu, mas não tocavam no chão desapparecendo ao chegarem a certa altura. D reproduz o texto B corrigido, modificando apenas distinguido para percebido e tocavam para tocaram. E reproduz o texto D, modificando de novo tocaram para tocavam.

45 B acrescentou o seguinte texto, depois de corrigido: a luz habitual as tres creanças que se conservaram sempre junto da carrasqueira e que declararam ter-lhes apparecido pela quinta vez a Virgem Santissima, retiraram para suas casas e ao mesmo tempo partiram as primeiras levas de povo que pouco a pouco dispersou. D e E reproduzem o texto B acrescentando apenas sua [luz habitual] e eliminando tres [creanças].

DCF III-1, Doc. 29 · carta · depois de 17 set. 1917 (4 dias depois) · também publicado em DCF III-2, Doc. 409; DCF III-2, Doc. 407Digitalizações (6)Ligação
13 set.Testemunho diretoRecordação posteriora 2 km

em 1917 era seminarista e encontrava-me na Batalha em férias grandes, em fins de Julho ou princípios de Agosto. Antes de 13 de Agosto, mas não em nenhum dia 13, apareceu na Batalha o Pe. Carmo que o convidou a acompanhá-lo até Fátima. Encontraram os videntes com os quais conversaram. A azinheira estava reduzida ao tronco. O Revº Pe. Joaquim António do Carmo levava uma máquina fotográfica e tirou o retrato ali mesmo aos videntes"

DCF III-1, Doc. 24 · fotografia · jul. 1960 (43 anos depois)Digitalizações (2)Ligação
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