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DCF III-2, Doc. 406
Artigo do jornal “A Guarda”, Os episódios de Fátima continuando a relatar os acontecimentos de Fátima.
Publ: “A Guarda”, Guarda, 15 (655), 30 Ago. 1919, p. 1, cols. 4-5.
OS EPISODIOS DE FATIMA
IV
Meu caro amigo,
Era nos mezes de julho e agosto de ha annos. Os jornaes de grande circulação, pela penna dos seus correspondentes de Torres Novas e Vila Nova d'Ourem, publicavam noticias pormenorisadas de acontecimentos assombrosos sucedidos em Fatima no dia 13 desses meses. Esses correspondentes, creaturas por ventura honestas e sympathicas, mas sem as habilitações scientificas necessarias para poderem apreciar com justeza os referidos acontecimentos, commentavam-nos ineptamente á luz dos preconceitos da escola liberal e racionalista, hauridos no meio ignaro em que viviam e imperfeitamente assimilados. Excluiam á priori, como é claro, a existencia e até a mera possibilidade de uma intervenção divina. Todas as hypotheses, ainda as mais inverosimeis, que tentassem explicar de alguma fórma a origem e a natureza de sucessos tão extraordinarios, eram aceites desde o momento em que prescindissem por completo do sobrenatural. O correspondente do jornal “O Seculo”, no numero de 23 de julho, depois de dizer que no dia 13 desse mez, em Torres Novas, villa abundante em alquilarias, não havia sequer um carro para alugar, chegando mesmo a fechar bastantes estabelecimentos, acrescenta que no local das apparições se encontravam reunidos alguns milhares de pessoas e que se ouviu um ruido semelhante ao ribombar do trovão, irrompendo as creanças num choro aflictivo, fazendo gestos epilepticos e cahindo depois em extase e conclue declarando que o seu parecer é que se trata duma premeditada especulação financeira, cuja fonte de receita existe nas entranhas da serra, em qualquer manancial de aguas mineraes que recentemente tenha descoberto algum individuo astucioso que á sombra da religião quer transformar a serra d'Ayre numa estancia miraculosa como a velha Lourdes. O correspondente do "Diario de Noticias", se a memoria não me falha, pretende achar na suggestão a explicação cabal desses factos3.
Entretanto a noticia das apparições espalha-se por todo o paiz com a rapidez do relampago.
O nome de Fatima é pronunciado como uma esperança fagueira de benções e graças cobertos por centenas de milhares de labios de um extremo ao outro de Portugal. Os estranhos successos passados nesse recanto desconhecido da Estremadura attrahem dia a dia áquelle local um sem numero de pessoas de todas as classes e condições sociaes. A sêde do sobrenatural apodera-se de um povo fundamentalmente christão, que uma longa e intensa propaganda de doutrinas deleterias não lograra perverter. A perseguição acintosa feita durante sete annos á crença herdada de seus antepassados, longe de obliterar nelle o sentimento religioso, avivou-o e fortaleceu-o contra a espectativa os inimigos da religião, que são simultaneamente inimigos da Patria.
O peso das desgraças que opprimiam os portugueses obrigava-os, como em todas as epochas de grandes calamidades nacionaes, a levantar os olhos do pó da terra e a volvê-los para o ceu, donde unicamente esperavam o remedio para tantos e tão graves males. Por outro lado a hypothese de uma mystificação adrede preparada por pessoas interessadas, era instinctivamente repellida pelo bom senso da parte sã da população do paiz.
Não é pois de admirar a affluencia enorme de peregrinos que se verificou em julho e agosto, quando a noticia das apparições se tornara mais conhecida. Sobretudo os concelhos de Leiria, Villa Nova d'Ourem e Torres Novas quasi que se despovoaram.
O espectaculo da concorrencia do dia 13 de Agosto foi verdadeiramente emocionante. Eis como o descreve uma testemunha ocular fidedigna.
"Depois de descansar um pouco, fui andando devagar para o local das apparições. Quando lá cheguei, estavam muitas pessoas rezando e cantando versos a Nossa Senhora em torno do arbusto, onde se verificam as apparições. Esse arbusto é uma pequena azinheira que está já reduzida ao tronco, tantos são os ramos que lhe teem tirado. Entretive-me alguns momentos a conversar com diversas pessoas das minhas relações. Já lá se via a essa hora muita gente.
Eu e alguns amigos meus, que entretanto chegaram e vieram juntar-se comigo, fômos sentar-nos á sombra de uma arvore e alli nos conservámos bastante tempo. Então é que começou a affluir imenso povo. De todas as direcções vinham innumeras pessoas, mas principalmente dos dois lados da estrada districtal é que era uma verdadeira enchente.
Vehiculos de todos os tamanhos e de todos os feitios succediam-se uns aos outros sem interrupção. Vinha gente a pé, a cavallo e de bicycleta. A vista dos carros espalhados pela encosta, do gado a pastar á sombra, da longa serie de automoveis na estrada, dos montes gigantescos de bicicletes, constituia um espectaculo sobremodo interessante. Pelo meio dia astronomico, hora certa das apparições, comprimiam-se nesse local alguns milhares de pessoas.
Eu não sou versado na sciencia do calculo, mas parecia-me e era essa a opinião geral, que se achavam presentes mais de cinco mil almas. Estavam todos aguardando anciosamente a chegada das creanças, que já tardavam.
Entretanto apparece um rapaz com a triste noticia de que o administrador de Villa Nova d'Ourem, depois de ter dito aos paes das creanças a quem tinho ido visitar, que as levava de boa vontade na sua charrete para o local das apparições, os ludibriara miseravelmente, metendo as creanças na charrete e fugindo com ellas para Ourem. Com effeito, assim tinha succedido. Esse homem, perverso e cobarde, atraiçoara todo aquelle povo. Parece, porém, ter havido em tudo isto uma intervenção especial da providencia, porque aquelle logar, em que passa constantemente muita gente, estava quasi deserto áquella hora, sendo unicas testemunhas oculares o prior de Fatima e alguns amigos que estavam na varanda da residencia parochial e com quem pouco antes o administrador estivera conversando. O povo, quando soube o que se tinha passado, ficou indignadissimo. Eu e alguns amigos voltámos logo para a povoação de Fatima. Alli informamo-nos minuciosamente do modo como as cousas se tinham passado. D'ahi a poucos momentos chegaram uns homens muito contentes dizendo que Nossa Senhora tinha apparecido. Dirigi-me immediatamente a toda a pressa para o local. As estradas vinham já cheias de gente que commentava o assombroso facto. A cada grupo perguntava o que tinham visto. Todos a uma voz diziam que tinham ouvido um trovão e visto junto da carrasqueira um relampago e uma nuvem formosissima que se elevou nos ares e a breve trecho desappareceu. Numa palavra, todos tinham ficado satisfeitos e pelo que ouvi dizer a varios individuos de Villa Nova d'Ourem o administrador parece ter arriscado muito a vida com o rapto das creanças. Algumas pessoas instruidas e ponderadas disseram-me que, embora se tivessem verificado signaes mysteriosos, não havia prova sufficiente de sobrenaturalidade.
Outras asseguravam que não haviam notado nada de anormal.
Outras finalmente proclamavam que, depois de se ter fallado com as creanças, não se podia duvidar da realidade das apparições”.
Eis como uma carta a um amigo escripta por essa occasião, o signatario narra, a largos traços e com uma tocante singelesa, o que se passou no dia da quarta apparição5. De todos os periodos da carta transpira uma sinceridade sem igual, tanto mais para apreciar quanto é certo que essa carta não era destinada á publicidade. Julguei dever transcrevê-la para fazeres uma ideia approximada da importancia do concurso de peregrinos e curiosos no dia da quarta apparição e do estado geral dos espiritos em face de tão extraordinarios acontecimentos. Quero crer que não darás por malbaratado tempo que gastaste a lê-la.
20-VIII-919
Teu amigo dedicado
Visconde de Montello.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (3)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.