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DCF III-2, Doc. 409
Artigo de “A Guarda”, Os episódios de Fatima, continuando a relatar os acontecimentos de Fátima. O autor reproduz uma carta de Joel de Deus Magno ao Cónego Francisco Maria Félix, de p.17 de Setembro de 1917, com alterações textuais (data de redacção: 05-09-1919).
Publ.: “A Guarda”, Guarda, 15 (655), 13 Set. 1919, p. 1, cols. 4-5.
OS EPISÓDIOS DE FÁTIMA
V
Aproximava-se o dia 13 de Setembro. A noticia dos estranhos acontecimentos do mez anterior tinha sido levada a todos os recantos do país pelos dois colossos de informação da imprensa periodica da capital. A população das povoações do concelho de Villa Nova d'Ourem e dos concelhos limitrophes era a que estava mais ao facto do que se tinha passado em virtude da relativa proximidade do local das apparições que permitia a muitos habitantes daquella vastissima area ir assistir sem grande incommodo e suas avultadas despezas aos phenomenos já conhecidos. Innumeras pessoas, que das outras vezes não tinham ido á Fatima estavam agora resolvidas a encetar a longa e encommoda viagem para satisfazerem, umas a sua devoção, outras a sua curiosidade. Todavia a imprensa catholica mantinha por dever de oficio a mais prudente reserva perante taes acontecimentos, cuja verdadeira origem se ignorava, e apenas um ou outro semanario de provincia alludiu de passagem a esse assumpto tão delicado e melindroso para pôr de sobreaviso os fieis contra machinações possiveis de homens mal intencionados ou do poder das trevas.
As creanças, que se proclamavam testemunhas oculares das apparições e que tinham sido presas arbitrariamente e á falsa fé, pelo administrador de Villa Nova d'Ourem, já estavam havia muito tempo em liberdade. Aquella auctoridade, tendo-as levado para sua casa, deteve-as ahi durante dois dias, confiando-as aos cuidados de sua esposa, que as tratou com todo o carinho. Durante esses dias submeteu-as a interrogatorios repetidos e capciosos, tentando debalde faze-las cahir em contradições e recorrendo tambem sem resultado a promessas e ameaças, já para as obrigar a confessar que estavam desempenhando uma comedia ensaiada, já para lhes arrancar o segredo que segundo ellas diziam, a Apparição lhes confiara e a ninguem podiam revelar. Desta sorte um abuso bastante censuravel da auctoridade administrativa, que tão profunda como justa indignação provocou em todos os que delle tiveram conhecimento, constituiu um acto providencial, que veiu reforçar a convicção geral, nesse tempo já formada, de que as creanças não faltavam conscientemente á verdade.
Cedendo a um sentimento irresistivel de curiosidade, justificado por factos tão extraordinarios, embora sem lograr vencer de todo a repugnancia que sentia em faze-los pelo receio de parecer dar uma importancia excessiva ao que talvez não passasse duma ridicula superstição popular, resolvi partir para a Fatima juntamente com alguns amigos e por isso tomei no dia 12 á tarde o comboio do norte e apeei-me em Torres Novas, d'onde na madrugada do dia immediato segui em carro para a povoação já tão afamada. O espectaculo que presenceei durante a jornada desde a princeza do Almonda até á patria adoptiva de Gonçalo Hermingues era por demais surprehendente. Decerto não levarás a mal que nesta altura dê a palavra ao signatario da carta discriptiva das scenas emocionantes do dia 13 de Agosto, o qual noutra carta para o mesmo destinatário narra com tanta precisão e com tanta encantadora singeleza os acontecimentos do dia 13 de Setembro, que não resisto ao desejo de tambem a transcrever.
É do theor seguinte. "Como no mez proximo findo, fui tambem este mez, no dia 13, á Fatima, mas desta vez sem o esperar, porque não era facil nem tinha tenção de lá ir.
Foi o caso que no dia 12 á noite chegou aqui X num enorme char-á-bancs, que transportava 16 pessoas da Benedicta para a Fatima, onde anceavam por assistir aos phenomenos que costumavam verificar-se no dia 13 de cada mez desde maio do corrente anno.
X pernoitou em minha casa e no dia seguinte de manhã convidou-me a tomar logar no carro, convite a que accedi com alvoroço.
Na vespera tinham passado por esta povoação verdadeiros bandos de pessoas que vinham do lado do mar, tendo dormido aqui grande numero dellas. Á hora aprazada subimos para o carro e partimos. Durante a jornada commovi-me immenso e por mais de uma vez me assomaram as lagrimas aos olhos ao constatar a fé e piedade ardente de tantos milhares de romeiros. Os caminhos e atalhos iam cheios de gente.
Não havia carreiro, por mais pequeno que fosse, que não trouxesse pessoas á estrada. Era uma peregrinação que verdadeiramente fazia chorar de commoção. Nunca me fora dado presencear em toda a minha vida uma tão grande e tão tocante manifestação de fé. Não se via nem se ouvia cousa alguma que traduzisse o mais imperceptivel sentimento de leviandade ou mesmo um proposito de divertimento innocente. O harmonio, indispensavel em todas as romarias e festas de aldeia, brilhava na sua ausencia. Não havia a desenvoltura propria da gente moça do campo nem ao menos as costumadas graças e chalaças inofensivas, acompanhadas de estridentes gargalhadas. Eram quasi dez horas quando atingimos o termo da nossa jornada. A multidão, que áquella hora já era enorme, aproximava-se cheia de respeito ao local das apparições. Os homens descobriram-se. Quasi todas as pessôas se ajoelhavam e rezavam com fervor. Logo que chegámos, X e eu dirigimo-nos a casa das creanças, photographámo-las e conversámos com ellas. Foi essa a scena que mais me impressionou. Fiquei positivamente encantado. Aquella simplicidade angelica e aquella absoluta despreocupação que ellas manifestam não podem mentir. Não teem o acanhamento proprio das creanças rudes dos campos e das serras na presença de pessoas desconhecidas. Tanto se lhes dá fallar com uma pessoa estranha como com muitas. As respostas são sempre as mesmas. Parecem adultos na maneira de se exprimir. De casa das creanças seguimos para a residencia parochial, onde estavam, alem do parocho, alguns amigos meus e de X com os quaes trocámos impressões sobre o assumpto do dia. Passada meia hora, puzemo-nos a caminho do local das apparições.
Ao meio dia em ponto – hora astronomica, – o sol começou a perder o brilho. Não houve quem não notasse este facto, que desde maio precedente se repetia sempre no dia 13 de cada mez á mesma hora. Pouco depois a mais velha das videntes mandou aos circunstantes que rezassem.
Nunca esquecerei a violenta impressão que senti ao ver cahir de joelhos tantos milhares de fieis que chorando rezavam em voz alta e imploravam cheios de confiança a protecção maternal da Rainha do Ceo. Foi neste momento que muitos circunstantes viram uma oval, pouco mais volumosa que um ôvo, de côr branca, viva e brilhante, com a parte mais larga voltada para baixo, descrever no firmamento uma comprida linha recta. Alguns observaram esse fenomeno por mais, outros por menos tempo. Eu não vi e tenho pena disso.
O dr. F. e muitos patricios meus affirmam que tambem o viram.
Alguns destes, cuja seriedade não é licito pôr em duvida, asseguram ter percebido uma especie de flores que cahiam do ceu, mas não tocaram no chão, desapparecendo ao chegarem a certa altura. A atmosphera tomou uma côr amarella, talvez por causa da diminuição da luz solar.
O que se passou nesse rapido quarto d'hora nunca esquece, mas não é facil de descrever. O aspecto da immensa multidão ajoelhada, a sua expectativa anciosa e inquieta, a devoção com que invocava a Santissima Virgem e emfim a augusta solemnidade do momento constituiam um espectaculo admiravel e enternecedor.
Logo que o sol recuperou a sua luz habitual, as creanças, que se tinham conservado sempre junto da carrasqueira e que declaravam ter-lhes apparecido pela quinta vez a Virgem Santissima, retiraram para suas casas e ao mesmo tempo partiram as primeiras levas de povo que pouco a pouco dispersou. Os calculos mais reduzidos avaliavam em quinze a dezasete mil as pessoas presentes no momento da apparição. Havia, porem, quem opinasse que estavam mais de vinte mil. Não dou o meu parecer, mas o certo é que nunca vi tanta gente junta. Era um lindo espectaculo”.
Obrigado pelo amor da verdade, não quero concluir sem dizer que as minhas impressões do que se passou neste dia em Fatima não foram animadoras.
Não me aproximei do local das apparições e quasi que não conversei com ninguem, ficando na estrada a cerca de trezentos metros de distancia, e apenas constatei a diminuição da luz solar, que me pareceu um phenomeno sem importancia devido por ventura á elevada altitude da serra. Continuei, por isso, a manter-me numa prudente mas benevola expectativa, como sucedia desde os acontecimentos de Agosto, porque antes delles esboçava invariavelmente um sorriso de absoluta incredulidade ao ouvir qualquer referencia ás apparições de Fatima.
E hoje fico por aqui, que esta já vae longa.
5-IX-919.
Teu amigo
Visconde de Montello
Aparato crítico e remissões (5)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.