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DCF III-1, Doc. 166
Minuta de uma carta do Cónego Manuel Nunes Formigão a D. Manuel Mendes da Conceição Santos2, bispo de Portalegre, sobre o artigo de Domingos Pinto Coelho.
A – AForm, Doss. 2, fl. 3A.
Descrição do documento: Este rascunho foi escrito em 2 folhas de papel, com linhas verticais e horizontais, com 10,5x27cm. A folha 1 e 1v estão escritas na totalidade enquanto que na folha 2 estão escritas apenas as sete primeiras linhas. Na margem superior da folha 1 foi escrito, posteriormente, por mão desconhecida: “Carta escrita em 24 de outubro de 1917”. Nas restantes linhas da folha 2, foi escrito, pela Madre Maria do Carmo Lopes da Fonseca, um conjunto de notas relativas a esta carta. No final diz: “isto soube do Sr. Cº Formigão [rubrica] 3-V-1955”.
Nas folhas 1 e 1v existem alguns borrões de tinta, que dificultam a leitura. No final, com caligrafia diferente: “= do Snr. Dr. Formigão para um seu Amigo – Senhor Arcebispo de Évora, então Bispo de Portalegre, D. Manuel Mendes da C. Santos
NOTAS = A tentativa, frustrada, de destruição da Azinheira do Milagre teve lugar na noite de 23 para 24 de Outubro de 1917.
= A “espada de Damocles” seria o cargo de Secretário para que o Senhor Bispo convidou diversas vezes o Senhor Dr. Formigão.
= O “Garcez” era o Pároco de Marvila (Santarem) – Conego Dr. José Cotrim da Silva Garcez, falecido.
= O “Bastos”, morreu santamente.
= Os “Carbonários” não levaram o tronco da azinheira do milagre, o que o Autor da carta ainda desconhecia na manhã seguinte ao atentado contra o qual protestou energicamente junto das autoridades distritais – Isto soube do Snr. Cº Formigão [rubrica] 3-V-1955”.
B - Desaparecido.
C – Cópia dactilografada do original da minuta. Antes do início do texto diz: “Carta que escrevi em 24 de Outubro de 1917 ao então Bispo de Portalegre e depois Arcebispo de Évora, Senhor D. Manuel Mendes da Conceição Santos”. No final, foi escrito pelo próprio Dr. Formigão: “Reconheço esta carta como realmente escrita por mim ao Senhor Arcebispo de Évora (então ainda Bispo de Portalegre) em 24 de Outubro de 1917. Cº Manuel Nunes Formigão”.
D – Cópia dactilografada, de parte do original da minuta, assinada pelo próprio Dr. Formigão e datada de “Fátima, 3 de Maio de 1955” (“Fui a Fátima [...]Ella ha-de vencer”). Antes do início do texto diz: “Extracto de uma carta escrita em 24 de Outubro de 1917 pelo Rev.mº Cónego Doutor Manuel Nunes Formigão (o sacerdote que acompanhou os acontecimentos extraordinários de Fátima desde o tempo das aparições e muito escreveu sobre o assunto sob o pseudónimo de Visconde de Montelo) para o Ex.mº e Rev.mº Senhor D. Manuel Mendes da Conceição Santos, então Bispo de Portalegre e depois Arcebispo de Évora”.
Existe ainda, a fotocópia de um cartão de visita: “Ao Rev.mº P.e Jos. Wagner, S.V.D. Manuel Nunes Formigão Cónego da Sé Patriarcal de Lisboa Capelão Honorário do Santuário de Nossa Senhora de Fátima [impresso] tem a honra e o prazer de, a pedido do rev.mº Senhor P.e Van Es, enviar a V. Rev.mª um trecho de uma carta minha escrita ao Senhor D. Manuel Mendes da Conceição Santos, Bispo de Portalegre que faleceu êste ano como Arcebispo de Évora. Essa carta foi escrita nos fins de 1917, ainda em Outubro, e está inédita. Cova da Iria (Fátima), 3 de Maio de 1955.
Editamos A, indicando as alterações em C e D.
Avisei o Garcez11, que certamente não pode ir ahi.
Cá fico ás suas ordens com a espada de Damocles14 sobre a cabeça. Que ella não me caia em cima antes do fim do anno lectivo, se fôr possivel, é o meu maior desejo.
Fui á Fatima e, como toda a gente, menos o Pinto Coelho, que, alem de ser um tanto vaidoso, tem a mania de se singularizar em tudo, vi o phenomeno solar e convenci-me de que era naturalmente inexplicavel como como cumprimento de profecia feita seis meses antes e como milagre em si mesmo, ao menos quoad modum. Os artigos da Ordem causaram grave escandalo, assombrando até muitos individuos que não são catholicos practicos e que não tinham ido á Fatima.
O articulista podia recomendar prudencia, cautela, reserva e que ninguem se antecipasse ao juizo da Egreja, mas não devia escrever de maneira tão insolita e irritante. Enviasse muito embora ao Sr. Patriarca o seu depoimento mas não viesse para publico num jornal catholico, com a auctoridade que lhe dão a sua edade, o seu prestigio e a sua longa folha de serviços á causa da Egreja, ferir as susceptibilidades dos crentes de boa fé procedendo com crueldade ou enervamento da ultima hora. Pois aquelle homem não saberá que as creanças diziam que Nossa Senhora havia de fazer um signal com que todo o povo acreditasse que era Ella que apparecia.
Em 27 de Setembro ouvi essa predição da bocca das creanças e a 13 de Outubro vi o signal e vi que todo o povo acreditou.
Portanto ainda que o phenomeno não fosse superior ás forças da natureza, restava ainda a prophecia, que se cumpriu precisamente no dia, no momento e no local em que tinha sido annunciado que se realizaria.
O Antonio Bastos de Valle de Figueira que foi meu condiscipulo no Seminario tinha perdido a fé e não sabia o que era rezar ha uns bons dez annos. Pois disse-me hoje que pois tendo ido á Fatima muito contrariado unicamente para acompanhar pessoas de familia, troçando de tudo e de todos pello caminho, á vista do prodigio, se converteu, rezou com devoção principiou a rezar o terço todos os dias, e estava-se preparando para fazer uma confissão geral.
Leu os artigos do Pinto Coelho, e convenceu-se em vista do que elle dizia de que tinha sido victima de uma illusão.
Deus illumine o Bastos e perdôe ao Pinto Coelho, que, apesar das suas boas intenções, foi um desastrado e fez um mal immenso com o seu zelo excessivo e imprudente.
Hontem á noite sahiu d'aqui secretamente para a Fatima um automovel com carbonarios, entre os quaes um certo Fialho, e alli pela calada da noite, como salteadores, arrancaram a armação de madeira, e trouxeram-na juntamente com a cruz, o arco de verdura e um quadro de Nossa Senhora, não trazendo tambem a carrasqueira porque restava apenas uma pequena parte do tronco d'ella, que não sei se se trouxeram. Ao front bater-se com os allemães é que elles não vão, os heroicos paysanos. Nem sequer á Fatima se atreveram a ir de dia, os valentes. Já me queria parecer que para obra de Deus a perseguição era pequena demais. E que ainda se estava no principio. O que me anima é a certeza de que se foi realmente N. Sra. que appareceu as cousas não ficam por aqui. Ella ha-de vencer.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (70)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.