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DCF III-1, Doc. 211
O jornal "A Ordem", do Porto, publica uma carta de uma senhora, residente em Alcobaça2, a um sacerdote do Porto, sobre o dia 13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria.
Publ.: "A Ordem", Porto, 5 (233), 27 Out. 1917, p. 1, cols. 1-3
O CASO DE FÁTIMA
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Desejando antes peccar por excesso de prudencia do que pelos pruridos de novidade, em tudo em que seja chamado a intervir o juizo da auctoridade ecclesiastica, abstivemo-nos durante meio anno3 de noticiar qualquer coisa relativamente aos factos extraordinarios que se dizia virem succedendo no dia 13 de cada mez na freguezia de Fátima, concelho de Villa Nova de Ourem, patriarchado de Lisboa, e a 18 kilometros de Leiria, a cuja extincta diocese pertenceu.
Os ultimos acontecimentos, ocorridos lá em 13 do corrente, a que assistiram dezenas de milhar de pessoas, idas de todos os pontos do paiz, inclusivé do Porto, e já narrados em toda a imprensa, inclusivé nos diarios catholicos, obrigam-nos a pôr de parte a nossa mais que escrupulosa reserva, dando a palavra a uma illustrada senhora, por meio d'uma carta que ella escreveu a um dos mais respeitaveis sacerdotes do Porto, sem nunca pensar que nós a arrancariamos á intimidade que a dictou para a luz da publicidade.
Guardamos, por isso para nós, o nome da sua signataria, que escreveu, como os leitores vão vêr, com o coração nas mãos e sob a impressão do que acabava de presenciar em Fátima.
Nada pondo de nossa casa, nada aventuramos tambem ácerca da intervenção ou não intervenção do sobrenatural no caso de que se trata. Como no caso do Barral, é ao Ordinario respectivo que pertence dar a sentença. D'um e d'outro a esperamos, certos como estamos de que a Egreja nada lucra com milagres fingidos, mas regista sempre nos seus archivos os milagres verdadeiros, que não são nem podem ser, como suppõe um certo snobismo religioso, mas estrangeirado, apanagio da França, nem mesmo quando ella tinha melhores titulos do que actualmente a ser considerada a filha primogenita da Egreja.
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Rev.mo Snr. — No cumprimento da minha promessa aqui me tem V. Rev.ma a dar-lhe conta do deslumbrante e maravilhoso espectaculo que tive a felicidade de presencear. Como elle merece ser tratado, não poderei nem saberei eu fazel-o! Exporei simplesmente os factos que ha seis mezes se passam n'esta ditosissima região.
Desde o dia 13 de maio que na freguezia de Fatima apparece Nossa Senhora a uns pastorinhos, em egual dia de cada mez. Das creanças remetto os retratos4. A mais velha — a principal vidente — tem 10 annos; a mais pequenina, 6; e o rapazito, creio que tem 8. São primos entre si. Este acontecimento, que tem sido acreditado por uns, contestado por outros e renegado por muitos, levou o administrador do concelho — Villa Nova de Ourem — a sequestrar as creanças no dia 13 de agosto, indo pôl-as em casa do rev. parocho da freguezia dias depois de as ter conservado presas. N'aquella data não deixou comtudo de se dar qualquer coisa de anormal no firmamento, precedida de um ou mais trovões, que o povo ouviu.
Seguiu-se o 13 de setembro; e n'este, depois da apparição, disseram as creanças que a 13 de outubro faria Nossa Senhora um milagre tão grande que a ninguem poderia deixar duvidas. Quem presenciou o de 13 de setembro diz que das 12 para a 1, hora antiga, estando um dia formosissimo de sol ardente, a temperatura havia de repente baixado, dando-se um pequeno eclipse n'aquelle astro. Havia pessoas que diziam ter visto nuvens côr de rosa aqui e ali. Nem de todos eram acreditadas5.
As creanças tinham ido para o logar á hora do costume, e nós, que por causa da chuva tinhamos ficado no automovel6 a grande distancia, vimos muito bem quando o povo ajoelhou e calculamos que seria quando a vidente annunciou a apparição da Virgem. Ouvem-se canticos. Olhamos: o ceo e a tristeza certamente se haviam apoderado de todos os corações, porque a chuva cahia incessante e nenhum phenomeno se apresentava! A hora adeantava-se, e nada! Olhavamos porém o logar da apparição e lá viamos ainda a enorme multidão, que não se havia retirado. Era signal que a vidente ainda lá se achava. E a esperança renascia. O Luiz Alvaiazere, já meio descrente, tambem disse: Ainda agora, no sitio onde estão as creanças dizia-se que a vidente affirmára que hoje seria á uma hora em ponto. Vêem-se os relogios. Faltavam 2 minutos. De repente, a chuva cessa como por encanto, o sol rompe brilhantissimo, e seguem-se coisas que mil annos que eu viva nunca da minha memoria se poderão apagar!! É uma indescriptivel maravilha o que os nossos olhos vêem! Mas para mim que sou crente — e hoje mais do que nunca — o mais maravilhoso d'esta maravilha consiste em ter sido annunciada por uma simples creança de 10 annos; e, precisamente no dia e á hora para que ella a annunciou, o phenomeno deslumbra-nos! Os sabios saberão explicar este; mas o que elles certamente não saberão, não poderão, nem quererão explicar, é o poder sobrenatural que o produziu. Não confessarão talvez o milagre; mas creio bem que nos seus corações o reconhecem, porque é indiscutivel.
Fômos hontem entrevistar os videntes. A Lucia que é a unica que falla com Nossa Senhora, estava na igreja, onde tinha ido com a mãe para ouvir missa e commungar. Recebeu a primeira communhão aos 7 annos. É muito meiga. Disse-nos — a brincar sempre com as nossas mãos ou os nossos lorgnons — que Nossa Senhora quer que se reze o terço todos os dias; que peçamos muito perdão dos nossos peccados, porque Nosso Senhor está muito offendido; e que se lhe levante n'aquelle logar uma capellinha. Apresenta-se sob a invocação de Nossa Senhora do Rosario. Veste de branco; descalça; manto branco na cabeça e umas contas tambem brancas na mão direita. Annunciou para já — a vidente diz “hoje” — a cessação da guerra, e que os nossos militares veem brevemente. Nossa Senhora disse-lhe um segredo, que ella tem sido instada a divulgar, mas que persiste em não dizer. Respondeu a um homem: — Nossa Senhora disse-me que não dissesse a ninguem; e vocemecê é alguem. Na occasião do milagre tudo chorava, e de quasi todas as bocas saía o angustiado grito de: — Minha Mãe Santissima, salvae os nossos Filhos! Minha Nossa Senhora, salvae Portugal!
Que grande graça para este paiz, que grandissima graça para esta região! Alcobaça, que não fica de Fátima muito distante, considera-se uma das terras mais civilisadas. É porém uma das mais avariadas em materia de religião, e portanto uma das que mais precisa da misericordiosa intercessão da Virgem Nossa Senhora.
Está o correio a partir, e eu quero que esta vá hoje. Perdoe-me V. Rev.ma o mal alinhavado d'esta e permitta-me que com a mais respeitosa consideração, me subscreva, de V. Rev.ma muito sinceramente reconhecida, Alcobaça, 16-10-917.
M. C. S. P.
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D'esta exposição tão encantadora na sua singeleza, mas que denota um espirito observador e intelligente, embora crente, resulta alguma coisa de consolador e que póde e deve animar-nos a esperar com alvoroçada esperança d'exito o veredictum do Ordinario de Lisboa.
Perante elle incondicionalmente nos curvamos quer venha engastar mais uma gemma preciosissima no diadema refulgentissimo da excelsa
Padroeira dos Portuguezes, adquirindo mais um titulo á gratidão nacional, quer se incline para o lado negativo e nos demonstre que nada de sobrenatural houve nos successos de Fátima.
O mesmo diremos do caso do Barral, onde tambem até agora nada ha, antes pelo contrario, que nos possa desilludir da bem fundada esperança, que os successos lá occorridos em maio do presente anno, nos vieram trazer, de que a Immaculada continúa a proteger bem visivelmente a nação portugueza, apesar das suas infidelidades particulares e da sua apostasia official.
A Maria Santissima recorramos, cada vez com mais fervor, para que nos salve da perdição que humanamente parece estar preparada para a nossa nacionalidade.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (6)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.