Em setembro apressou a sua vinda por estar ansioso de saber bem e presenciar o que se passava. Em treze de setembro foi à Cova da Iria, mas não viu senão muito povo, que muitos calculavam em cinquenta mil pessoas. Esteve pouco mais ou menos à distância de sete metros das crianças, que viu chegar no meio de uma grande multidão que as acompanhava e viu-as ajoelhadas junto da azinheira a rezar o terço. A certa altura as pessoas que estavam próximo disseram que se descobrissem, porque as crianças o tinham mandado por Nossa Senhora estar presente. Onde ele estava todos se descobriram respeitosamente. Uns estavam de pé, outros de joelhos. Quase todos ajoelharam quando elas deram a ordem. Houve pessoas que disseram ter visto uma estrela. Outros lastimaram-se de não ter visto nada. Em seguida foi a casa das crianças e primeiro à da Jacinta. Ali encontrou muita gente. Umas senhoras estavam interrogando a Jacinta e pedindo-lhe que rezasse para que acabasse a guerra. Por isso foi para casa da Lúcia. Estavam ela e os pais. Falou com a mãe. Também estava a casa tão cheia de povo, que quase ninguém podia lá mover-se. Perguntou então à mãe o resultado. A mãe respondeu que a filha depois da primeira aparição foi para casa à noite e que lhe disse ter visto Nossa Senhora na Cova da Iria. Não quis acreditar porque a filha não era o que ela desejava que fosse, com méritos para ver Nossa Senhora. Quis bater-lhe. A Lúcia com medo dela, começou a dizer por fora o que se passava e não queria contar à mãe mais nada. Como a mãe soubesse, disse-lhe: “Então tu andas a dizer por fora, que Nossa Senhora te aparece e a mim não me dizes nada?” A pequena respondeu: “Então a minha mãe queria-me bater!” Depois perguntou à filha que tamanho a Senhora tinha. Ela disse que a comparava com uma menina dali de quinze anos. Era de uma beleza tal que nunca tinha visto igual. Um sacerdote de longe pediu licença ao pai para falar à filha, e ele disse que não consentia, porque não acreditava nas aparições e davam cabo da filha, que estava ao pé do pai muito sucumbida. Ouviu dizer que por fim sempre tinha conseguido falar-lhe. Depois o depoente dirigiu-se com o pai a casa de uma tia dele, de nome Teresa, com quem queria falar, o qual o acompanhou para lhe indicar onde ela morava. A tia perguntou-lhe se tinha visto alguma coisa na Cova da Iria. Respondeu que não tinha visto senão uma borboleta branca, ao que ela disse: “Isso há por aí muitas; depois senhor Manuel” acrescentou ela, “que será de nós?”. “Porquê?” perguntou o depoente. “Porque passaram por aqui pessoas fazendo os seus comentários, ameaçando e dizendo que os pequenos e as famílias precisavam de ser processados, porque andavam a enganar o povo. O depoente disse-lhe desta maneira: “esteja descansada, porque se for obra de Deus ou de Nossa Senhora, não há razão para se assustarem, porque nada havia nem podia haver contra ela”. O pai estava um pouco exaltado e por isso não lhe falou em mais nada.
Manuel António de Paula
Natural de Boleiros (freguesia de Fátima) e residente em Lisboa, com 61 anos quando depôs sob juramento perante a comissão canónica, em 1923. Tendo sabido dos acontecimentos por carta e pedido a um amigo que averiguasse a verdade, veio para Boleiros em setembro e outubro de 1917, esteve presente a 13 de setembro (a cerca de 7 m dos videntes) e a 13 de outubro e visitou as famílias dos videntes.
No dia treze do mês de outubro quando saiu de Boleiros com outras pessoas, começou a chover. A irmã estava com medo de não voltar, porque diziam que lançavam bombas, mas ele sossegou-a dizendo que se fosse Nossa Senhora que ali aparecia, não lhe sucederia mal algum, pois Nossa Senhora não o havia de consentir. A chuva era muita e o vento soprava com força de maneira que se molhou bastante apesar de levar chapéu de chuva. Por isso quando chegou ao pé da igreja paroquial foi a casa de uma prima e enxugou-se. A certa altura da conversa que teve com ela, disse-lhe: “Naturalmente as crianças não vão lá com esta chuva.” – “Vão, disse ela, nem que chova a potes”. Muitas pessoas estavam aflitas por causa dos animais que as tinham transportado, mas não consta que lhes sucedesse mal por causa da chuva. Tendo passado a chuva, cerca da uma hora, dirigiu-se para o local e perto da estrada encontrou um sacerdote de Penacova, que lhe perguntou onde era o local da aparição, indicando-lhe o depoente o ponto onde se via uma névoa, um fumozinho, bastante denso, que não estranhou por julgar que era incenso queimado em honra de Nossa Senhora, ficando depois admirado quando lhe disseram que não havia lá fumo nenhum, que não se tinha lá feito lume de qualidade nenhuma, nem um fósforo se tinha acendido. De repente o sacerdote olha para o sol e diz que o sol em eclipse não era assim. O depoente olhou também e viu que o sol não dava luz; sobre ele corria uma névoa branca, era uma lua sem brilho. O sol ficava à esquerda, estando o resto do céu encoberto. Tirando os olhos do sol, viu o povo de um encarnado muito vivo; e exclamou: “Ai, senhores, o povo como está todo encarnado!” E respondeu-lhe o sacerdote: “serão lenços encarnados?” Ao que ele observou: “Como pode ser? Então tinham-se todos combinado para terem lenços encarnados sobre as costas?! “Depois o povo apareceu da cor do ouro. Os movimentos de rotação do sol não os viu. O povo nessa ocasião gritava muito, ajoelhado e com as mãos levantadas, gritando por Nossa Senhora, não se importando com a lama que era muita, invocando repetidamente Nossa Senhora. A impressão do povo foi extraordinária.