Na manhã do dia 13 de maio de mil novecentos e dezassete, a cerca de dois quilómetros e meio da igreja paroquial de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, distrito de Santarém, na direção do oeste, a margem da estrada distrital, num sítio vulgarmente chamado “Cova da Iria”, três crianças apascentavam um pequeno rebanho. Eram duas meninas e um rapaz. A mais velha das meninas, que tinha dez anos de idade, chamava-se Lúcia de Jesus e a mais nova, apenas com seis anos1, Jacinta Marto. O nome do rapaz, de nove anos, era Francisco Marto. Moravam em Aljustrel, uma das quarenta aldeias da vasta freguesia de Fátima, e uma das mais próximas da igreja e do presbitério. O Francisco e a Jacinta eram irmãos e a Lúcia sua prima coirmã. Os pais desta foram António dos Santos, que faleceu no ano seguinte2, e Maria Rosa dos Santos, e os daqueles Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. As crianças possuíam uma instrução religiosa muito rudimentar, tendo só a Lúcia feito a sua primeira Comunhão. Nenhuma delas sabia ler e escrever. Aproximava-se a hora do meio-dia solar. A devoção mais querida naquela região é a recitação do terço do Rosário. É rara a família, cujo chefe, à noite, depois da lida dos campos, não reze o terço juntamente com os seus, antes da ceia que é a refeição principal. As três crianças, como era seu costume, rezaram o terço em comum, e depois puseram-se a fazer uma casa em miniatura, servindo-se para isso das pedras soltas que havia em grande abundância no local, como há quase por toda a parte na serra de Aire. De repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante, sulcou o espaço. As crianças suspenderam o seu entretenimento e olharam admiradas para as alturas. O céu estava diáfano e sem nuvens, não soprava a mais leve brisa e o sol brilhava em pleno zénite. Não obstante, a Lúcia convidou os primos a retirarem-se sem demora para casa, com o receio de que se desencadeasse alguma trovoada. Eles acederam sem relutância e todos três puseram-se a tocar o gado pela encosta abaixo. Ao chegarem ao ponto, onde se encontra atualmente a primeira fonte, veem fuzilar um novo relâmpago e, a poucos passos de distância, de pé sobre uma pequena azinheira, no sítio onde mais tarde foi erigida a capela das aparições, um vulto de Senhora bastante nova, de incomparável formosura. Assustadas com a inesperada aparição, as crianças tiveram vontade de fugir e preparavam-se para isso, mas conteve-as um sinal da Senhora, que disse que não tivessem medo, porque não lhes fazia mal. A Aparição parecia não ter mais de dezoito anos de idade. O vestido era duma alvura puríssima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, duma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha um não sei quê de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário, cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, duma formosura impossível de descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana. Entre a Aparição e a Lúcia travou-se um diálogo que durou cerca de dez minutos. A Aparição convidou as crianças a voltarem lá todos os meses, no dia treze, até outubro seguinte, assegurando que no último dia lhes diria quem era e o que queria.
Notas dos editores (2)
1 Jacinta tinha já sete anos (nasceu a 11 de março de 1910, data oficial; cf. Doc. 1, nota 5).
2 António dos Santos faleceu, dois anos depois, a 31 de julho de 1919.