Testemunhas /

Maria Rosa Pereira

Gente da terra

Moradora no Casal da Fonte (Assentiz, Torres Novas), de 63 anos, casada com José Pereira Lopes, cujo depoimento foi abonado pelo Pe. António Lopes Larangeiro. Esteve perto dos videntes a 13 de outubro de 1917 e depôs a 13 de novembro.

Residência: Casal da Fonte, Assentiz (Torres Novas)A região em redor2 relatos · 13 de outubro de 1917
13 out.Testemunho diretoInterrogatórioA multidãoPalavras dos videntes

Em 13 de Outubro, achava-se proximo das creanças quando se deu a apparição. Do logar onde estava vi-as muito bem. Logo que chegaram, rezaram o terço, a confissão e o acto de contrição. Entretanto o povo comprimia-se cada vez mais de tal maneira que as creanças corriam perigo de ser esmagadas, apesar dos esforços que empregavam as pessoas que as rodeavam para conter aquella onda. Todos queriam ver e ouvir de perto, o que era impossivel. A Jacintha, distrahida e com muito medo chorava por causa dos empurrões que soffria. A Lucia acariciava-a e pedia-lhe que não chorasse porque ninguem lhe fazia mal. O Francisco tambem estava distrahido por causa do povo. De repente a Lucia disse-lhe que olhasse para a carrasqueira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era, tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os beiços. Em seguida ouvi-lhe fazer esta pergunta: O que é que vocemecê quer? Vocemecê disse que no dia de hoje que é 13 de Outubro me diria o que queria. Calou-se um momento e logo acrescentou: “Pois sim, mas se vocemecê não fizer algum milagre o povo diz que é mentira.” Depois calou-se por um pouco. Em seguida disse: “Mas o que hei-de eu pedir? Pedia que vocemecê salvasse este povo todo e o levasse para o Ceu e que curasse estes enfermos.” Nesta occasião estava muita gente a pedir. Não sei a quem se referia a pequena. Disse mais o seguinte: “Já aqui vim fallar umas poucas de vezes e nunca lhe perguntei como se chamava”. Depois de ouvir a resposta disse: “é a Senhora do Rosario.” Inclinando-se depois para a mãe, que estava proximo, mas sem se voltar para o povo, disse mais alto: “Diz Nossa Senhora que olhem para o sol, que ella se quer manifestar nos astros.” É então que a Jacintha exclama: “Já se vae embora a minha mãe do Ceu, olha onde vae ella!” Por sua vez diz o pequeno: “Já a não vejo!” Tornou-lhe a Jacintha: “Esta mesmo á endireitura do

Notas dos editores (1)

1 Parte deste depoimento vem inserido no Relatório da Comissão Canónica (DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930; capítulo: “O êxtase”, p. 174-175).

DCF III-1, Doc. 294 · depoimento · 13 nov. 1917 (4 semanas depois)Digitalizações (2)Ligação
13 out.Testemunho diretoViuDepoimento ajuramentadoA multidãoPalavras dos videntes

Trata-se do depoimento de Maria Rosa Pereira, de sessenta e três anos de idade, casada com José Pereira Lopes, do Casal da Fonte, freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas. O rev.do António Lopes Laranjeiro9, antigo professor do Seminário Patriarcal em Santarém, e então capelão no lugar das Moreiras Grandes, da mesma freguesia, declarou que conhecia perfeitamente a testemunha e que a considerava muito séria e absolutamente digna de crédito. Este depoimento foi feito a treze de novembro de mil e novecentos e dezassete e refere-se à aparição do dia treze de outubro anterior. Diz a testemunha que nesse dia se achava próximo das crianças quando se deu a aparição, vendo-as muito bem do lugar onde estava. O povo comprimia-se cada vez mais, de tal maneira que as crianças corriam perigo de ser esmagadas apesar do esforço que empregavam as pessoas que as rodeavam para conter aquela onda humana. Todos queriam ver e ouvir de perto, o que era impossível. A Jacinta distraída e cheia de medo chorava por causa dos empurrões que recebia. A Lúcia acariciava-a e pedia-lhe que não chorasse, porque ninguém lhe faria mal. O Francisco também estava distraído por causa do povo. De repente, a prima disse-lhe que olhasse para a azinheira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era, tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os lábios10. Maria Pereira que se expressou nestes termos com a maior simplicidade e naturalidade, ignorando o que eles podiam significar de muito extraordinário, era pessoa de condição humilde, sem cultura literária, possuindo uma educação religiosa elementar.

Notas dos editores (2)

9 Nasceu na freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas, em 1880. Frequentou o Seminário de Santarém e faleceu a 26 de junho de 1922, em Moreiras Grandes.

10 A depoente utilizou a palavra “beiços”.

DCF Seleção, Doc. 120 (= DCF II, Doc. 9) · documento oficial · 13 nov. 1917 (4 semanas depois)Digitalizações (2)Ligação
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