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DCF III-1, Doc. 83
15 out. 1917, Quinta de Cima1
A - Arquivo dos herdeiros de Maria Francisca de Castro5.
Descrição do documento: Sobrescrito tarjado de luto. Três folhas duplas (12 páginas); de papel de carta, tarjadas de luto e numeradas pela autora de 1 a 11, ficando a página 12 em branco. Seguimos esta numeração.
[Sobrescrito:] Exma Snr
Condessa de Valenças
"Aventura"
Parêde
Linha de Cascaes
[Carimbo:] Asseiceira 20 OUT.176.
[No verso do sobrescrito:] carimbo CORRº E TELº 22 OUT.17
- PAREDE.
Outubro de 1917
Minha querida Avó,
Aqui lhe venho contar o que se passou na Fátima. Vou repetir simplesmente o que as Saraivas disseram ter visto, e que julgo ser a maior verdade pois toda a gente o confirma.
Na sexta feira fomos a Thomar e das janelas das senhoras Mousinhos7 vimos passar carros cheios de gente muito calada e pensativa, vendo-se que ia dominada por um sentimento serio. Muitas pessoas a pé e em burros seguiam pelo mesmo caminho. Algumas deviam ser das serras, de muito longe; os homens tinham chapeus como o do Pai, à alemtejana, mas maiores, e cacetes revirados em cima como os dos antigos pastores. Não vimos mais nada. Os automoveis e trens de Thomar estavam todos alugados; em Ourem a mesma coisa, e em todas as cidades aqui ao pé. Chegaram a dar 100:000rs pelo aluguer d'um automovel de Ourem à Fátima, que é perto. Imagine a Avó...
Depois de 7 horas de trem com uma chuva medonha chegaram encharcadas ao campo do milagre... Gente era um por de mais!! Calcula-se para cima de 50:000 pessoas.
Entre o meio dia e a uma hora chegou a pequena acompanhada por alguns homens que impediam que com o excesso de simpatia a esmagassem.
A Lucia (a pequena) quando chegou ao pé da carrasqueira (pequeno arbusto) onde a Senhora aparece pediu ao povo que resasse o terço enquanto esperava. Juntavam-se então as familias aos grupos de 8 a 10 pessoas e resavam entre si o terço com a maior devoção. Era um espetaculo de fé mediaval [sic]. Esqueci-me de diser que quando a Lucia chegou a chuva parou imediatamente.
Derrepente começou o sol a ficar d'uma cor esverdiada, mudando sucessivamente para amarelo claro que fasia parecer a gente cadavérica; n'isto dá como uma reviravolta, um safanão, parecia que vinha a cair sobre a terra. Todos cahiram de joelhos e só se houvia os gritos de “Deus nos acuda! Jesus! Santissima Virgem! N'aquele momento o calor era tanto que quasi sofucava. Todos imaginaram que era o fim do mundo. Pessoas choravam. Durou isto 10 minutos. Quando voltaram a si d'aquela grande emoção já Nossa Senhora lá estava. Não se via nada mas a pequena olhava para um ponto fixo e sorria-se.
Quando a pequena voltou para casa o Dr. João do Val9 foi-lhe falar assim como as Saraivas.
Respondia a tudo com a maior das simplecidades e disse isto: “que Nossa-Senhora pedia aos homens que fizessem um esforso para serem melhores que seu amado filho já estava zangado, que a guerra acabaria em breve e que os soldados portuguezes voltariam às suas terras. Recomendava sobretudo que rezassem muito. Se quisessem, que fisessem ali uma capelinha, que a venerassem sob o nome de Na. Senhora do Rosario”.
Fazendo-se-lhe perguntas sobre a Na Senhora, disse que era linda, tinha um vestido branco mto direito (deve ser tunica) descalça e na cabeça um lenço azul muito comprido (manto). A sua voz é muito bonita, e chamava a pequena pelo seu nome: “Lucia”.
A pequena só responde ao que se pergunta, mas sem nenhum embaraço, sendo ela antes da aparição muito envergonhada.
Diz ela, como tambem das outras vezes que a Senhora lhe diz um segredo, que ela não diz a ninguem, nem mesmo à mãe. Uma senhora no outro dia mostrou-lhe na mão 10 notas de 100:000 disendo que lhas dava se ela lhe dicesse o segredo. Acho isto uma coisa muito mal feita mas a pequena não se deixou tentar.
Quando repete o que ouve a sua fala é correta, mas quando esplica outras coisas é a fala dos pequenos do campo: “Então vomecê não ouviu?” e assim neste genero.
A Lucia é pobre mas apesar disso não acceita nada que lhe queiram dar em dinheiro. Vêsse que não é impostura.
Apesar da chuva que encharcou todos, e do comprimento do caminho ninguem ficou doente. Parece tambem por Deus!
Isto é verdade, sem duvida pois já nos teem contado outras pessoas e é sempre a mesma coisa.
Acceite, querida Avò, o coração cheio de ternura da sua neta que lhe beija a mão
Ma Francisca d'Assis
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (4)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.