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DCF Seleção, Doc. 23 (= DCF I, Doc. 41)

10 nov. 1917Viseunotícia de imprensaMaria José de Lemos QueirósOriginalmente DCF I, Doc. 41

O jornal “Correio da Beira”1 publica um artigo de Maria José de Lemos Queirós2, sobre os acontecimentos ocorridos na Cova da Iria, no dia 13 de outubro de 1917 [data de redação: 30 de Outubro de 1917].

Publ.: DCF, I - Doc. 41 (Este documento faz parte do Processo Paroquial de Fátima).

FÁTIMA

Peço ao... sr. Diretor do acreditado periódico, o “Correio da Beira”, o favor de dispensar um cantinho do seu jornal para estas breves palavras.

Tendo visto já em vários jornais falar do extraordinário acontecimento de Fátima, como eu e minha filha3 fomos testemunhas presenciais, vou apenas dizer com toda a sinceridade que me caracteriza o que os nossos olhos mortaes viram!

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Na véspera do dia 13 de outubro alugámos um carro, tendo sido muitos felizes em encontrar naquela altura um coupé, em Torres Novas. Saindo dali à ½ ou 1 hora da tarde, seguimos para Fátima aonde chegámos ao toque das Avé Marias, tendo apenas descansado na Charneca4, talvez um quarto de hora, para dar folga aos cavalos.

Já que falei em Charneca, devo acrescentar que percorremos, de 7 léguas de Torres Novas a Fátima, talvez 4 ou 5 de charneca; e esta tem o nome e a propriedade! Toda fragosa e pedras soltas, com boas oliveiras, que produzem melhor do que as nossas da Beira Alta, embora sejam bem tratadas e aquelas apenas alimentadas nos lezins das mesmas pedras e no solo barrento.

Paisagem para nós agradável por nos ser desconhecida.

Em Fátima, descansámos na casa do dig.mo Prior e fomos por este e sua boa irmã5 tratadas com todo o cuidado e atenção.

No dia seguinte, dia 13, fomos logo de manhã para o lugar da aparição. Entretanto é-me agradável dizer que Fátima é um pequeno lugarejo, bonitinho, talvez de cento e tantos fogos.

Às 8½, a estrada para o campo da aparição, já ia ladeada de carros, automóveis, carroças, burricos, e muita gente a pé. Devem ser 2 quilómetros de Fátima ao local do fenómeno.

Chegadas ali, o nosso trem retirou-se ao lado da estrada, como fizeram outros, para darem lugar ao trânsito. Já a essa hora estava imensa gente. Dentro do coupé envidraçado defrontávamos com o extensíssimo campo, parecendo um alguidar, levantado nos lados e abatido ao centro, formando a vastíssima bacia, com grupos aqui e além, e um extenso vale, que nos lembrava se deverá parecer com o Vale de Josafá!

Lá, muito ao longe, a um lado, víamos muita gente rodeando o local da aparição, marcado por 2 postes de madeira com uma cruz ao centro e 2 lanternas nos postes.

O dia 13 apresentou-se de chuva, o céu plúmbeo e vento.

Às 9 ou 9½ mais escureceu e mais chovia, parecendo-nos não poder melhorar o dia. Como víssemos que a chuva continuava, às 11 horas, tomámos a resolução de sair da nossa estufa e do mirante..., e seguimos com os ranchos em direção ao local que uns pastorinhos anunciaram como teatro de cenas sobrenaturais. Ao meio dia chegaram os 3 pastorinhos. Lúcia, de 10 a 11 anos, é que fala; os outros, Jacinta, a mais nova, e Francisco, irmãos um do outro e primos de Lúcia, diziam ter visto uma Senhora muito linda, toda vestida de branco com uma nuvem aos pés.

Passados minutos, depois da chegada dos pastorinhos, cessou a chuva, e o céu, até ali escuro, precisamente à hora (seria 1 da tarde) em que os 3 astrónomos anunciaram o caso mais fenomenal que se podia dar, em frente ao local da anunciada aparição, o céu aclarou um pouco, o que fez que quase todos os olhares instintivamente fitassem o mesmo local.

Cena verdadeiramente impressionável, presenciada por 40:000 a 50:000 pessoas, tantas foram aproximadamente calculadas!

Não afirmo o que não vi. Não vimos a Nossa Senhora, nem nos consideramos dignas disso. Mas vimos no sol, por si só, a afirmação dum fenómeno, dum caso sobrenatural!

Como foi e donde veio, não sabemos explicar. Mas o facto deu-se e contra factos não há argumentos.

Como já disse, à 1 hora, no céu, lugar onde a nuvem se desviara, aclarou; e qual o nosso espanto, quando apareceu um globo, prateado, fazendo um pequeno giro e aparecendo atravessado aqui e além pelas nuvens! Isto por 3 vezes, com intervalo, talvez, de 3 a 4 minutos.

Nesta ocasião, à nossa retaguarda, dava-se a cena dos pastorinhos junto à azinheira; nós ficámos a 7 ou a 10 metros deste local para escaparmos à turba-multa. A mais velha das pastorinhas impôs nesta altura silêncio e o resto da cena, ali, era para os 3! Depois deste simpático ensaio ou prelúdio ao Astro-Rei, como que eclipsado pelas nuvens, mas não de todo encoberto, de súbito rompe em todo o esplendor, muito diferente do usual, uma nuvem ou chama vermelha brilhantissima que o encobria, e passados momentos aquelle globo ou esfera se agitava nervosamente como impelido por eletricidade. Parecia avolumar-se e querer precipitar-se ou falar para a terra, a anunciar um caso de regozijo e pavor!

Mudou este cenário uma nuvem amarela, dourada; e assim foi desaparecendo esta realidade, que aos mortais parecera um sonho! Desejava poder descrever este acontecimento, único, maravilhoso, em frase burilada; limito-me a narrá-lo com a simples expressão da verdade, por nós presenciada.

Se tudo houvera sido anunciado por homens de ciência, astrónomos, nada admirava; mas não.

Só a voz simples e inocente das crianças despertou a curiosidade de milhares de pessoas.

Ora não é natural que estas simples crianças tivessem a arrojada pretensão de trazer aos sábios novidades: nem se propunham ensinar os mestres!

A sua aspiração era mais modesta; apenas em muito simples palavras agora afirmavam terem visto uma Senhora muito linda, de mãos postas e vestida de branco, que lhes disse que deviam naquele local mandar construir uma capela com a denominação de Nossa Senhora do Rosário; que se deixassem de ofender a Deus, que já estava de mais ofendido! Que a guerra ia acabar, e que viriam os nossos soldados.

Anteriormente, a mesma Senhora lhes dissera uma coisa que a pastorinha Lucia não pode revelar.

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Quando entrámos no carro, em Torres Novas, a criada do hotel veio trazer-nos o farnel para auxilio naquelas inóspitas paragens, e disse-nos em tom misterioso:

“Parece que vai haver lá grande barulho!” O veículo rodou. Eu disse para a minha filha: habituei-me a rezar a São Bartolomeu (advogado do medo). Como não fazemos mal a ninguém, cremos que ninguém terá o direito de no-lo fazer a nós! Nossa Senhora nos guardará e a todos que ali vão, que não têm culpa de que o milagre se realize ou não!

Mal diríamos que o havíamos de presenciar no momento em que o sol nervoso tinha suspenso o auditório. Parecia vir para a terra, anunciando o milagre e saudando a Rainha do Céu e do universo, que naqueles momentos falava para os 3 pastorinhos, como as três crianças espontânea e intemeratamente6 afirmam.

Acredito e nada me repugna acreditar, em face do que vi. Mas, como a minha voz é fraca e débil no deserto, esperemos que outras vozes mais fortes e autorizadas o confirmem.

Logo que o astro-rei entrara na sua normalidade, tudo se retirou na melhor ordem e silêncio, subjugado pela verdade dos factos! Peripécias: o vasto campo do milagre era todo de barro, separado em arretos de pedras soltas.

Como choveu, ficou feito em lama. Logo que saí do carro, enterrei as botas na lama e os pés pesavam, que julguei não poder andar! Lá fomos indo, indo até parar bem próximo da azinheira, já cortada e depenada, cujos raminhos davam-se aos devotos, como os nossos irmãos que vão para o front levam lembranças e relíquias da família.

Comoveu-nos, no entanto, ver colegas nossas de sapatinho branco, julgando encontrar terreno seco e firme, onde só era barro movediço! Pena foi não subirem mais alto... calcando indiferentes a lama da terra!

Como vai já longa, termino e desde já muito agradeço a paciência de me aturar.

Também nos não admira que entre milhares de pessoas alguma apareça como o nosso cocheiro, a quem, tendo ficado junto do carro, no alto do vale, perguntei:

– Então, sr. Manuel, gostou e viu o sol?...

Parece que nessa ocasião estava a dar de comer aos cavalos! Grande materialista (sendo aliás muito boa pessoa)...

Nada admira.

Uma assinante do seu jornal.

Aldeia Central7, 30 - outubro, 1917.

J.

Notas dos editores

1 Publicação periódica, fundada em Viseu, a 1 de abril de 1911.
2 A autora deste artigo, que se designa apenas como “Uma assinante do seu jornal”, e que rubrica com um simples “J”, é identificada pelo Pe. Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, no Processo Paroquial, de 18 de abril de 1919, fl. 17v. Nasceu na Quinta da Cruz, S. Salvador, Viseu, a 5 de fevereiro de 1859. Casou com o Dr. Henrique de Queirós Pinto de Ataíde de Serpa e Melo São Nicolau. Teve dois filhos: Maria do Amparo de Lemos Queirós Pinto Ataíde e Henrique de Queirós Pinto Ataíde e Lemos.
3 Cf. nota anterior. Nasceu em Treixedo, Santa Comba Dão. Casou a 15 de agosto de 1920, com o Dr. Joaquim Martins da Cunha e Almeida (Visconde de Rio-Torto). Maria do Amparo faleceu em Lisboa, a 15 de março de 1964. É autora, pelo menos, de duas cartas ao Dr. Formigão: 9 de março e 14 de abril de 1918.
4 Charneca, povoação da freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias, concelho de Ourém. Pelo Decreto nº 37.890/50, de 21 de julho de 1950, foi alterado o nome de Charneca para Vilar dos Prazeres (“Diário do Governo”, I série, nº 143, de 21 de Julho de 1950).
5 Joaquina Amélia nasceu em Casal Menino, Espite, a 24 de fevereiro de 1890 e faleceu a 1 de outubro de 1970, no mesmo lugar.
6 Confusão com “intimoratamente” (destemidamente, corajosamente)
7 Deve tratar-se de um nome fictício, pois a autora residia na cidade de Viseu.
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