Testemunhas /

Maria José de Lemos Queirós

Aristocrata

Nascida a 5 de fevereiro de 1859 na Quinta da Cruz (S. Salvador, Viseu), com 58 anos, mulher do Dr. Henrique de Queirós Pinto de Ataíde de Serpa e Melo São Nicolau. Assistiu com a filha Maria do Amparo e descreveu o dia no Correio da Beira como «Uma assinante do seu jornal», recordando que, à partida, disse à filha que Nossa Senhora guardaria todos os que lá iam, «que não têm culpa de que o milagre se realize ou não».

Residência: ViseuVeio de longeAtitude prévia: neutra1 relato · 13 de outubro de 1917
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarSol a mudar de corSol a cair

No dia seguinte, dia 13, fomos logo de manhã para o lugar da aparição. Entretanto é-me agradável dizer que Fátima é um pequeno lugarejo, bonitinho, talvez de cento e tantos fogos.

Às 8½, a estrada para o campo da aparição, já ia ladeada de carros, automóveis, carroças, burricos, e muita gente a pé. Devem ser 2 quilómetros de Fátima ao local do fenómeno.

Chegadas ali, o nosso trem retirou-se ao lado da estrada, como fizeram outros, para darem lugar ao trânsito. Já a essa hora estava imensa gente. Dentro do coupé envidraçado defrontávamos com o extensíssimo campo, parecendo um alguidar, levantado nos lados e abatido ao centro, formando a vastíssima bacia, com grupos aqui e além, e um extenso vale, que nos lembrava se deverá parecer com o Vale de Josafá!

Lá, muito ao longe, a um lado, víamos muita gente rodeando o local da aparição, marcado por 2 postes de madeira com uma cruz ao centro e 2 lanternas nos postes.

O dia 13 apresentou-se de chuva, o céu plúmbeo e vento.

Às 9 ou 9½ mais escureceu e mais chovia, parecendo-nos não poder melhorar o dia. Como víssemos que a chuva continuava, às 11 horas, tomámos a resolução de sair da nossa estufa e do mirante..., e seguimos com os ranchos em direção ao local que uns pastorinhos anunciaram como teatro de cenas sobrenaturais. Ao meio dia chegaram os 3 pastorinhos. Lúcia, de 10 a 11 anos, é que fala; os outros, Jacinta, a mais nova, e Francisco, irmãos um do outro e primos de Lúcia, diziam ter visto uma Senhora muito linda, toda vestida de branco com uma nuvem aos pés.

Passados minutos, depois da chegada dos pastorinhos, cessou a chuva, e o céu, até ali escuro, precisamente à hora (seria 1 da tarde) em que os 3 astrónomos anunciaram o caso mais fenomenal que se podia dar, em frente ao local da anunciada aparição, o céu aclarou um pouco, o que fez que quase todos os olhares instintivamente fitassem o mesmo local.

Cena verdadeiramente impressionável, presenciada por 40:000 a 50:000 pessoas, tantas foram aproximadamente calculadas!

Não afirmo o que não vi. Não vimos a Nossa Senhora, nem nos consideramos dignas disso. Mas vimos no sol, por si só, a afirmação dum fenómeno, dum caso sobrenatural!

Como foi e donde veio, não sabemos explicar. Mas o facto deu-se e contra factos não há argumentos.

Como já disse, à 1 hora, no céu, lugar onde a nuvem se desviara, aclarou; e qual o nosso espanto, quando apareceu um globo, prateado, fazendo um pequeno giro e aparecendo atravessado aqui e além pelas nuvens! Isto por 3 vezes, com intervalo, talvez, de 3 a 4 minutos.

Nesta ocasião, à nossa retaguarda, dava-se a cena dos pastorinhos junto à azinheira; nós ficámos a 7 ou a 10 metros deste local para escaparmos à turba-multa. A mais velha das pastorinhas impôs nesta altura silêncio e o resto da cena, ali, era para os 3! Depois deste simpático ensaio ou prelúdio ao Astro-Rei, como que eclipsado pelas nuvens, mas não de todo encoberto, de súbito rompe em todo o esplendor, muito diferente do usual, uma nuvem ou chama vermelha brilhantissima que o encobria, e passados momentos aquelle globo ou esfera se agitava nervosamente como impelido por eletricidade. Parecia avolumar-se e querer precipitar-se ou falar para a terra, a anunciar um caso de regozijo e pavor!

Mudou este cenário uma nuvem amarela, dourada; e assim foi desaparecendo esta realidade, que aos mortais parecera um sonho! Desejava poder descrever este acontecimento, único, maravilhoso, em frase burilada; limito-me a narrá-lo com a simples expressão da verdade, por nós presenciada.

[…]

Mal diríamos que o havíamos de presenciar no momento em que o sol nervoso tinha suspenso o auditório. Parecia vir para a terra, anunciando o milagre e saudando a Rainha do Céu e do universo, que naqueles momentos falava para os 3 pastorinhos, como as três crianças espontânea e intemeratamente6 afirmam.

Acredito e nada me repugna acreditar, em face do que vi. Mas, como a minha voz é fraca e débil no deserto, esperemos que outras vozes mais fortes e autorizadas o confirmem.

Logo que o astro-rei entrara na sua normalidade, tudo se retirou na melhor ordem e silêncio, subjugado pela verdade dos factos! Peripécias: o vasto campo do milagre era todo de barro, separado em arretos de pedras soltas.

Como choveu, ficou feito em lama. Logo que saí do carro, enterrei as botas na lama e os pés pesavam, que julguei não poder andar! Lá fomos indo, indo até parar bem próximo da azinheira, já cortada e depenada, cujos raminhos davam-se aos devotos, como os nossos irmãos que vão para o front levam lembranças e relíquias da família.

Comoveu-nos, no entanto, ver colegas nossas de sapatinho branco, julgando encontrar terreno seco e firme, onde só era barro movediço! Pena foi não subirem mais alto... calcando indiferentes a lama da terra!

[…]

Também nos não admira que entre milhares de pessoas alguma apareça como o nosso cocheiro, a quem, tendo ficado junto do carro, no alto do vale, perguntei:

– Então, sr. Manuel, gostou e viu o sol?...

Parece que nessa ocasião estava a dar de comer aos cavalos! Grande materialista (sendo aliás muito boa pessoa)...

Notas dos editores (2)

5 Joaquina Amélia nasceu em Casal Menino, Espite, a 24 de fevereiro de 1890 e faleceu a 1 de outubro de 1970, no mesmo lugar.

6 Confusão com “intimoratamente” (destemidamente, corajosamente)

DCF Seleção, Doc. 23 (= DCF I, Doc. 41) · notícia de imprensa · 30 out. 1917 (2 semanas depois)Digitalizações (4)Ligação
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