Explorar / Documento

DCF III-1, Doc. 55

13 out. 1917Monte RedondocartaPe. Manuel Pereira da Silva

Carta do Pe. Manuel Pereira da Silva1, pároco de Monte Redondo, ao Pe. António Pereira d'Almeida2, então na paróquia de Mata Mourisca, concelho de Pombal, sobre a aparição do dia 13 de Outubro de 1917.

A – Original desaparecido3.

B – AEL, Documentos de Fátima, J1-3. Cópia com comentários, feita pelo autor, em 19324.

C – ASF - Cópia dactilografada encontrada no espólio do Pe. António Pereira d'Almeida.

Bem dita e amada seja Nossa Mãe Santíssima!

Meu caro

O prometido é devido. Escrevo-lhe de Monte Redondo às 9 e 1/2 da noite de 13 do corrente.

Nossa Senhora fez-me a vontade. Dignou-se dar signal evidente da sua aparição ás pequenas da Fatima.

Ao meio dia estavam na Fatima mais de noventa automoveis, uma infinidade de carros de todos os tamanhos, formas e feitios, e uma multidão enorme de pessoas (multitudo magna ... ex omnibus gentibus (?) et linguis (?)). Tudo molhadinho, encharcado, a escorrer mas alegre.

Cerca do meio dia vieram as pequenas ao local e começaram, como de costume, resando o terço. Acabado elle, perguntaram os pequenos10 a N. Senhora do Rosario se dava o tal signal prometido. Imediatamente apareceu o sol com a circunferencia bem definida. Aproxima-se como que até á altura das nuvens e começa girando sobre si mesmo vertiginosamente como uma roda de fogo prêso, com algumas intermitencias, durante mais de oito minutos. Ficou tudo quasi escuro e as feições de cada um eram amareladas. Tudo ajoelhou mesmo na lama.

Em todo o tempo, aqui e além, cantava-se, rezava-se, etc. Tudo saiu satisfeito. As pequenas disseram que apareceu N. Senhora do Rosario. Depois apareceu (quando o sol deu signal) S. José. As pequenas disseram que este dissera que hoje, ou breve, seria arvorada a bandeira da paz16; que resassem o terço que em breve cá teriam as nossas tropas; que fizessem penitencia, que mudassem de vida porque, de contrario, se acabaria o mundo.

Ai! que me parece que é N. Senhora quem ainda ampara este barco com a sua omnipotencia suplicante!

Um grande abraço e... fique-se com Deus, pois que amanhã, ás 4 horas, hei de marchar para a Bajouca22 e por isso são horas de ir roncar (media boca roncabat aberta, diz o Palito Métrico23).

Seu
Pe. Silva

(Leia ao Pe. Alexandre24. Diga-lhe que o Pe. Paulo25 não foi por lhe faltar, á ultima hora, o cavalo).

Docs. 56 a 68

1917-10-13

Treze fotografias tiradas na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917, por Judah Bento Ruah

A - ASF - Arquivo fotográfico

A série de fotografias indicadas nos documentos seguintes tem sido atribuída a Joshua Benoliel, jornalista e fotógrafo de "O Século" e "Ilustração Portuguesa", desde 1906. Nasceu em Lisboa a 13 de Janeiro de 1873 e faleceu a 3 de Fevereiro de 1932 (cf. mais desenvolvida biografia de Joshua Benoliel em Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. IV, p. 533-534). De facto, as fotografias publicadas em "Ilustração Portuguesa" (Doc. 228, de 29 de Outubro de 1917), são identificadas como "Clichés" Benoliel. No entanto, sabe-se pelo próprio Avelino de Almeida que não foi Benoliel o fotógrafo que o acompanhou, pois se encontrava doente, mas Judah Bento Ruah: "Por um facil equivoco, o trem que nos devia conduzir, a Judah Ruah e a mim, até á vila, não apareceu e decidimo-nos a calcorriar corajosamente cerca de duas leguas [...]" (cf. Doc. 87, de 15 de Outubro de 1917). Judah Bento Ruah, filho de Hassan Bento Ruah e de Sol Benshaia Ruah, nasceu a 28 de Março de 1892, em Faro. Foi para Lisboa com oito anos. Freqüentou o Liceu Passos Manuel, seguindo depois para o Instituto Superior Técnico, onde se formou como engenheiro electrotécnico. Emigrou para Moçambique, depois da guerra. Regressou a Portugal, vinte anos depois. Foi Director dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal de Lisboa. Faleceu em Lisboa a 16 de Maio de 1958. (Informações fornecidas pelo Dr. David Micael Benoliel e sua filha Luna Ruah Benoliel, respectivamente filho e neta de Joshua Benoliel).

"A 22 de Maio de 1947, e por causa de trabalhar na sua obra, Fátima à luz da História, Lisboa, Portugália Editora, 1948, Costa Brochado adquire os clichés que, também em parte, aproveitou para publicar. No dia 9 de Julho de 1978, ele os entregou ao autor desta obra para poderem ser reproduzidos na íntegra [...]. Os clichés estão em boas condições, com quanto o tempo tenha deixado neles os seus vestígios. Apenas um [...] aparece partido." (De uma nota escrita pelo Pe. Dr. Joaquín María Alonso e que se encontra entre a documentação preparatória desta obra). Por seu lado, o Pe. Luciano Coelho Cristino redigiu uma nota do seguinte teor: "O Padre Joaquín María Alonso, num dado momento, disse-me: a partir de hoje as fotos são pertença do Santuário de Fátima. Confirmou-me em Agosto de 1981 que lhe foram entregues por Costa Brochado, para o Santuário de Fátima".

Notas dos editores

1 Nasceu a 30 de Agosto de 1877, na freguesia de Monte Real, concelho de Leiria. Foi ordenado a 22 de Janeiro de 1899. Faleceu a 15 de Fevereiro de 1951, no Santuário de Fátima.
2 Natural de Coja, diocese de Coimbra. Em 1915 acompanhou, como secretário particular, o novo bispo da Guarda, D. José Alves Matoso, seu conterrâneo. Foi cónego da Sé Catedral da Guarda.
3 Possuímos uma cópia dactilografada do original, encontrada no espólio do Pe. António Pereira de Almeida e oferecida ao Santuário de Fátima pela Secretaria Episcopal da Diocese da Guarda, a 19 de Julho de 1991. Segundo informação da mesma Secretaria, não foi encontrado o original desta carta no espólio referido. É de supôr que o original desta carta tivesse sido oferecido pelo Pe. António Pereira de Almeida a alguém.
4 O Padre António Pereira de Almeida, em carta datada de 23 de Setembro de 1932, escrita de Moura, lugar da freguesia de Avô, concelho de Oliveira do Hospital, enviou ao Padre Manuel Pereira da Silva o original da carta deste, não renunciando, porém, à sua propriedade. Por isso o Padre Pereira da Silva fez uma cópia com uma introdução e breves comentários, que enviou ao Dr. Fischer. Em 13 de Setembro de 1955, Mons. Viktor Kürzer entregou no Paço Episcopal de Leiria, um dossier de documentos, entre os quais esta cópia da carta de 13 de Outubro de 1917. A introdução, escrita a tinta vermelha, diz o seguinte: "13-outº-1917 - Carta do Pe. Manuel Pereira da Silva, então paroco de Monte Redondo (diocese de Leiria) ao Rev. Pe. António Pereira d'Almeida, agora Professor (e Cónego) no Seminário da Guarda e que no dia 13 de outubro, estava a pregar um tríduo na Mata Mourisca, diocese de Coimbra, d'onde é natural e era pároco. Começa a carta". Deve interpretar-se que o Pe. António Pereira de Almeida, era natural da diocese de Coimbra (cf. nota 2).
10 C Acabado êle, preguntaram as pequenas. Como se vê, o Autor trata os videntes, Lúcia, Francisco e Jacinta, ora por as pequenas ora por os pequenos, imprecisão que se repete adiante. Igualmente impreciso é o plural perguntaram (preguntaram), pois só Lúcia falava com a aparição.
16 O Pe. Manuel Pereira da Silva volta a mostrar como era precária a sua fonte de informação, quando atribui a S. José (este dissera) a notícia do fim da guerra. Note também o leitor a hesitação sobre a data. Escreve: "hoje ou em breve". Vê-se que, no mesmo dia 13 de Outubro, corriam já versões diferentes.
22 Bajouca, então lugar da freguesia de Monte Redondo, depois elevado a freguesia civil e religiosa. B acrescentou a vermelho (uma Capela da freguesia a uma hora de distancia de Monte Redondo).
23 Poema em latim macarrónico composto pelo Padre João da Silva Rebelo sob o pseudónimo de António Duarte Ferrão, com primeira edição em 1746, e muitas edições posteriores. (Cf. RAMALHO, A. C., - Palito Métrico, "Verbo - Enciclopédia luso-brasileira de cultura", vol. XIV, Lisboa, Editorial Verbo, 1973, col. 1153; SILVA, Inocêncio Francisco da, Diccionario Bibliographico Portuguez, Tomo IV, p.36; Tomo V, p. 343; Tomo VI, p. 90 e 388; Tomo XXIII, p. 287. Palito Metrico, sublinhado no texto.
24 B acrescentou a vermelho (paroco da Mata Mourisca).
De facto o Pe. Joaquim Duarte Alexandre, nasceu em Monte Real a 6 de Março de 1879; foi pároco de Pala, Marinha Grande, Mata Mourisca, Fermentelos, Avelãs e Santa Cruz de Coimbra (CARREIRA, José - O clero da diocese de Leiria e o seu passado, Leiria, [s.l.], [s.e.], 1984, p. 534-535.
25 Padre Paulo Gonçalves Machado, nasceu em Braga a 8 de Fevereiro de 1882; coadjutor na Marinha Grande, onde foi preso várias vezes. Teve de refugiar-se em Espanha. Regressou a Portugal, abrangido pela amnistia de Pimenta de Castro, em 1916. Foi para a paróquia de Sebal Grande, Condeixa, onde viria a falecer 30 de Outubro de 1953. (CARREIRA, José, ob. cit., p. 534-535).
Aparato crítico e remissões (15)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

5 C sinal.
6 C na.
7 As interrogações são do texto.
8 Cf. nota 7.
9 C rezando.
11 C Nossa.
12 C sinal.
13 C sinal.
14 B dissera sublinhado, a vermelho.
15 B breve sublinhado.
17 C rezassem.
18 C acrescentou Isto, em resumo.
19 C Nossa.
20 B acrescentou a vermelho (o mundo). C este barco sublinhado.
21 C termina aqui a cópia da carta, acrescentando apenas Seu...etc. Padre Silva
Abrir