Explorar / Relato

Ana Maria da Câmara · 13 de outubro de 1917

Aristocrataaristocrata lisboeta, antiga aluna das religiosas da Visitação
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarSol a cair

É-me impossivel encontrar palavras para descrever o que se passou. Tive que luctar com difficuldades de toda a especie para ir a Fátima, mas consegui-o e dou graças a Deus por isso.

O sitio das Apparições é em plena charneca e a paysagem o mais portuguesa possivel.

Chegámos perto das 10h7, debaixo de uma chuva torrencial que nos encharcou até aos ossos. A multidão era espantosa. Os jornaes falam em 50:000 pessôas, não duvido que fossem mais. Não se notava máu humor contra o tempo, não se ouvia uma má palavra. Resava-se alto e cantava-se. Perto da 1 hora desci da estrada para o campo e fiquei chegada ao altarsinho muito tôsco, levantado no sitio da apparição, mas nunca consegui vêr as pequenitas. Estas logo que chegaram mandaram fechar os chapéos de chuva e logo esta parou e o sol, o sol de todos os dias, rompeu o véu cinzento que toda a manhã tinha toldado o céo. Ficamo-nos a rezar. Pergunto as horas. Alguem me responde: “Passa um bocadinho da 1 e meia”. Estamos portanto em pleno meio dia solar. D’ahi a uns minutos oiço como um suspiro gigantesco e alguem me diz: “Olhe para o sol”. Ao principio nada notei mas segundos depois vejo-o como se fosse a lua d’uma côr azul prateada muito clara d’ahi por deante o sol tinge-se de verde, rôxo, amarello, azul, mas conserva-se sempre desprovido de raios. Atira para longe com rôlos, por assim dizer de fumo da côr que apresenta, mas a fórma do disco é perfeita e esse disco gira de uma maneira vertiginosa e a certa altura o sol desceu. Mais tarde mostra-se mais á direita e depois mais á esquerda, ou vice versa. N’um momento o disco tóma uma côr de rosa vivo; por traz de cada monte levanta-se como um véu da mesma côr. Campos e multidão tudo a reflecte.

Não ha palavras para descrever semelhante esplendor. Muito tenho pensado nas palavras da Egreja: “Quem é esta que vem raiando como a nascente aurora?” E o povo? O povo chóra, grita, implora N. Senhora e Jesus Sacramentado. Ha uma mistura de confiança, alegria e temor. Sinto como todos que estamos em pleno sobrenatural e só posso dizer como os outros: “Nossa Senhora valei-nos”. Não sei quanto tempo durou, mas ouvi falar em 4 minutos. Pareceu-me muito mais.

[…]

No momento em que o sol desceu, o clamor da multidão foi muito maior; logo, todos viram ao mesmo tempo e perto de mim um homem exclamava aterrorisado: "Virgem SSma valei-nos que morremos aqui todos. Perdoae os nosso pecados!"

Notas dos editores (1)

7 Desta família, foram nesse dia à Cova da Iria: Eugénia de Mello Breyner da Câmara e os filhos: Vicente da Câmara e sua mulher Maria Seabra; Emília da Câmara e seu marido Alexandre de Proença de Almeida Garrett, engenheiro civil; a autora da carta; Maria de Jesus da Câmara; Maria Antónia da Câmara; Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein Brandão de Melo e seus filhos, José de Sousa Holstein Brandão de Melo e Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo.

DCF III-1, Doc. 125 · carta · 19 out. 1917 (6 dias depois)Digitalizações (3)
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