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DCF III-1, Doc. 125

19 out. 1917Junqueira - LisboacartaAna Maria da Câmara

19 out. 1917, Junqueira1 - Lisboa

Ana Maria da Câmara escreve à Irmã Maria da Cunha Castro Marim3, sobre os acontecimentos a que assistiu no dia 13 de Outubro de 1917.

A - Arquivo do Mosteiro da Visitação, da Batalha

Descrição do documento: Duas folhas de papel de carta, com 4 páginas cada, de 16 linhas cada uma. A tinta, com diferente caligrafia, escrita na margem superior da folha, lê-se: "Relato feito por uma das nossas antigas Educandas, D. Anna Ma da Camara, na ocasião do grande milagre operado em Fatima. 17-10-1917".

Junqueira

19 d'Outubro de 1917

Minha muito querida mestra

Recebi o seu postal muito tarde para poder satisfazer o seu desejo. Á hora que elle me chegou ás mãos já a querida viajante ia por esse caminho fóra. Continúo pois guardando o Breve, esperando occasião segura de o mandar. Tirei em tempos uma copia dos varios Centros e Confrarias, escrevi a muitos, mas até agora só 3 deram signal de vida. Em papel separado mando uma copia d'aquelles com os quaes estou em communicação. Os Manuaes devem-me ser entregues muito breve pois já recambiei as ultimas provas. Tem sido uma obra demoradissima, mas da minha parte não tem havido desleixo; nunca retive as provas mais do que o tempo necessario á revisão. O Snr. Bispo de Portalegre5 já deve ter o livro na sua mão e enviarei quanto antes um para o Tortozendo.

Tambem falei a Mr. Sousa e elle disse-me que talvez se arranje o que desejamos, mas devagarinho.

Com certesa já ahi chegaram os echos do grande accontecimento de Fátima, Concelho de Villa Nova d’Ourem. Resume-se n’isto: para os descrentes deu-se um facto inexplicavel; para os fieis N. S.ra manifestou-se a Portugal. É-me impossivel encontrar palavras para descrever o que se passou. Tive que luctar com difficuldades de toda a especie para ir a Fátima, mas consegui-o e dou graças a Deus por isso.

O sitio das Apparições é em plena charneca e a paysagem o mais portuguesa possivel.

Chegámos perto das 10h7, debaixo de uma chuva torrencial que nos encharcou até aos ossos. A multidão era espantosa. Os jornaes falam em 50:000 pessôas, não duvido que fossem mais. Não se notava máu humor contra o tempo, não se ouvia uma má palavra. Resava-se alto e cantava-se. Perto da 1 hora desci da estrada para o campo e fiquei chegada ao altarsinho muito tôsco, levantado no sitio da apparição, mas nunca consegui vêr as pequenitas. Estas logo que chegaram mandaram fechar os chapéos de chuva e logo esta parou e o sol, o sol de todos os dias, rompeu o véu cinzento que toda a manhã tinha toldado o céo. Ficamo-nos a rezar. Pergunto as horas. Alguem me responde: “Passa um bocadinho da 1 e meia”. Estamos portanto em pleno meio dia solar. D’ahi a uns minutos oiço como um suspiro gigantesco e alguem me diz: “Olhe para o sol”. Ao principio nada notei mas segundos depois vejo-o como se fosse a lua d’uma côr azul prateada muito clara d’ahi por deante o sol tinge-se de verde, rôxo, amarello, azul, mas conserva-se sempre desprovido de raios. Atira para longe com rôlos, por assim dizer de fumo da côr que apresenta, mas a fórma do disco é perfeita e esse disco gira de uma maneira vertiginosa e a certa altura o sol desceu. Mais tarde mostra-se mais á direita e depois mais á esquerda, ou vice versa. N’um momento o disco tóma uma côr de rosa vivo; por traz de cada monte levanta-se como um véu da mesma côr. Campos e multidão tudo a reflecte.

Não ha palavras para descrever semelhante esplendor. Muito tenho pensado nas palavras da Egreja: “Quem é esta que vem raiando como a nascente aurora?” E o povo? O povo chóra, grita, implora N. Senhora e Jesus Sacramentado. Ha uma mistura de confiança, alegria e temor. Sinto como todos que estamos em pleno sobrenatural e só posso dizer como os outros: “Nossa Senhora valei-nos”. Não sei quanto tempo durou, mas ouvi falar em 4 minutos. Pareceu-me muito mais.

A Antoninha10 consegue vêr uma das pequenas, muito córada, lavada em lagrimas, ao cólo d’um homem e mais tarde esse mesmo homem, um medico11, repete-lhe as palavras da pequenita: N. Sra pede que não offendam mais a N. S., que façam penitencia. Promette para breve o fim da guerra. As mães que rezem e tenham confiança que os soldados estão a voltar. Abençôa todo o povo e pede uma capellinha debaixo da invocação de N. Sra do Rosario.

Quero mandar para ahi uma descripção que vem no “Seculo” muitissimo bem feita. Pena é o auctor de repente lembrar-se para que jornal escreve e escrever umas palavras ao gosto do mesmo jornal.

Minha querida M. tenho o coração tão cheio d’isto tudo que se pudésse não fallava d’outra coisa.

Agora resta-nos pedir a Nossa Senhora que a sua visita á nossa terra se torne um facto indiscutivel para todos. Com o Rosario na mão deve-se conseguir isso.

Um astronomo já declarou que a sciencia não explica um facto d'estes e que os apparelhos não registaram nenhum movimento solar. Fallam por ahi em suggestão collectiva, mas nós quando ali fômos á voz d'uma creança que em nome de N. Sa nos annunciava um signal para o dia 13, não sonhávamos o que se ia passar.

No momento em que o sol desceu, o clamor da multidão foi muito maior; logo, todos viram ao mesmo tempo e perto de mim um homem exclamava aterrorisado: "Virgem SSma valei-nos que morremos aqui todos. Perdoae os nosso pecados!" [margem superior da fl. 4v] Acabo por ser tempo d'isso. Mil affectuosas lembranças a todas d'essa casa e hoje, em especial á Irmasinha nova14. Creia-me [margem superior da folha 4] a minha querida. Minha sempre amiga obrigada

Anna Ma
FM.

Notas dos editores

1 Lugar de residência: Palácio da Junqueira.
3 Religiosa da Visitação de Belém-Lisboa. A Comunidade foi expulsa aquando a revolução de Outubro de 1910, refugiando-se em Madrid. Voltou para Portugal em 1933.
5 Neste tempo, D. Manuel Mendes da Conceição Santos.
7 Desta família, foram nesse dia à Cova da Iria: Eugénia de Mello Breyner da Câmara e os filhos: Vicente da Câmara e sua mulher Maria Seabra; Emília da Câmara e seu marido Alexandre de Proença de Almeida Garrett, engenheiro civil; a autora da carta; Maria de Jesus da Câmara; Maria Antónia da Câmara; Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein Brandão de Melo e seus filhos, José de Sousa Holstein Brandão de Melo e Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo.
10 Deve tratar-se de Antónia Rafaela da Câmara. Cf. Doc. 259, de 3 de Novembro de 1917.
11 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes, que não era médico, mas sim advogado.
14 Luzia da Costa Carneiro. Nasceu a 31 de Março de 1892. Entrou para as Religiosas da Visitação a 20 de Outubro de 1917, em Madrid. Professou em 1921, com o nome de Ana Margarida.
Aparato crítico e remissões (10)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

2 Cf. Doc. 93, de 16 de Outubro de 1917, nota 2.
4 Fatima. 17-10-1917, sublinhado no texto. O milagre foi no dia 13 de Outubro de 1917.
6 devagarinho, sublinhado no texto.
8 gira, sublinhado no texto.
9 desceu, sublinhado no texto.
12 Cf. Doc. 124, de 18 de Outubro de 1917.
13 No texto, affas
15 No texto, qa.
16 No texto, M.
17 No texto, obga
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