Explorar / Relato

Maria Bettina Basto · 13 de outubro de 1917

Visitantejovem de Lisboa, de 19 anos
13 out.Testemunho diretoViuNotaVeio de longeA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagemSol a girar

Passamos o dia em preparativos para a viagem. Deviamos partir às 11 h da noite fazendo a viagem de noite para lá chegar de manhã.

Para a noite o tempo começa a toldar-se e pouco depois a trovoada desencadeia-se mas que trovoada era mais de meia noite e não se ouvem senão trovões e as faiscas são continuadas que fazer não partir é uma desolação. O Carlos persigna-se e diz que assim não vai espera-se pedindo a N. Senhora que afaste a trovoada. Ás 2h o tempo está melhor decidem-se a partir, a noite está escurissima prendem a mula à carroça; dentro poem umas cadeiras baixas para nós, e com uns cobertores lá nos instalamos. No banco da frente vai a mulher do Carlos e a afilhada17 a trás vamos nós18 a Regina19 e a Emilia20. O Carlos leva a mula pela arreata e assim começamos a viagem.

De quando em quando, os clarões iluminam o caminho, a trovoada está mais longe mas continua.

Assim andamos mais de uma hora os caminhos são medonhos a carroça vai sempre aos tombos tem a vantagem de não nos deixar dormir a Emilia faz-nos rir constantemente.

Já começamos a subir a serra de Aire o pior é que a chuva volta e nós temos pouca defesa, pois a agua que cai dos chapeus de chuva encharca a carroça e molha os cobertores.

O Carlos uns bocados sobe para o banco e lá continua a guiar o bicho o que vale é que conhece muito bem os caminhos.

Começa a clarear a chuva, agora é miudinha quasi um nevoeiro molhado como já está alguma luz vemos arvores rachadas pelas faiscas da trovoada aqui na serra, devia ter sido medonha. Bem dizia o Carlos que não vinha; ele já as conhece.

Muito temos andado por esta serra que parece não ter fim. Agora dizem que estamos perto de Fatima chove a valer já estamos encharcadas. Para não arrefecer muito e nas subidas para ajudar a mula vamos todos a pé, menos a Emilia que não pode andar muito.

Finalmente chegamos a Fatima são 9h o tempo está um pouco melhor, mas o ceu está todo coberto e ameaça mais chuva vem chegando muita gente, por vários caminhos da serra como nós veem molhados a maior parte mas todos vão, nem eu sei para quê, pois não está nada marcado e é só porque dizem que a Senhora falará hoje à Lucia.

A carroça fica em Fatima comemos alguma coisa, e agora vamos a pé para a Cova da Iria que é o lugar onde dizem tem havido as aparições.

Andamos quasi uma hora quando chegamos ao campo uma extensão bastante mais baixa que a estrada e onde há apenas algumas azinheiras, está bastante gente que espera, vamos a ver o quê!

É perto de meio dia dizem que os pastorinhos vão chegar gostava de os ver. O local onde se deram já as aparições está marcado com uns paus para deixar espaço para os pequenos estarem mais livres do povo mas já não podemos aproximar-nos muito, pois está muita gente. A terra está tão encharcada que os pés enterram-se já estamos de tal maneira enlameadas. Resolvemos ficar num ponto um pouco mais alto embora mais longe. Há movimento na multidão são os pastorinhos que chegam uns homens abrem-lhe caminho mal os vejo vão para o sitio dos paus chove a valer.

Começa a dizer-se que a Lucia diz para fecharem os chapeus, que a Senhora vem mas chove tanto embora todos obedecem e fechamos os chapeus. Com efeito pouco depois a chuva pára, mas não vemos mais nada. Os nossos olhos procuram por toda a parte. Agora uma pequena nuvem parece que pousa sobre uma azinheira ao pé dos paus, o sol aparece entre nuvens, mas sem brilho nenhum, parece a lua e dir-se-ia que tem uma cruz no meio e agora, ó maravilha a atmosfera tinge-se das cores do arco-iris vejo o chapeu de feltro branco da Rita24 cor de laranja depois verde, depois azulado depois rosa25 e por ultimo doirado; está tudo doirado que coisa linda!

Todos se sentem fascinados um homem perto de nós cai no chão sem sentidos de repente, o sol negro completamente parece que se despega do ceu e começa a rodar sobre si mesmo muito depressa parece que vai cair ouve-se um grito de toda a multidão que cai de joelhos pedindo misericordia.

Encontro-me tambem de joelhos em cima26 dum monte de pedras sem dar por isso. Mas tudo passa num momento o sol volta a estar encoberto pelas nuvens, a nuvem parece que levanta estão todos sem saber o que se passou como que atordoados dizem que a Lucia falou com a Senhora. Não conseguimos tornar a ver os pastorinhos. Encaminhamo-nos para Fatima, onde nos metemos na carroça e voltamos para Rodrigo o tempo está bom apenas se veem algumas nuvens soltas no ceu e o sol tem o brilho natural.

Notas dos editores (7)

17 Clotilde da Assunção Ferreira que veio a casar com Manuel Pinto, do Carvalhal da Aroeira. Falecida a 4 de Março de 1986.

18 Trata-se da Autora e da sua irmã Rita (cf. nota 24).

19 Regina Ferreira ficou órfã, ainda pequena, passando a viver em casa de sua prima Isabel da Nóbrega Machado. Faleceu em 1953.

20 Governanta da casa do conselheiro Augusto Jacques de Magalhães Machado, casado com Isabel da Nóbrega Machado, vizinhos e amigos da família Basto (cf. notas 3 e 15).

24 Rita, irmã de Maria Bettina. Nasceu a 1 de Março de 1896. Casou com o escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990). Rita faleceu a 8 de Agosto de 1969, no Porto.

25 Maria Bettina diz-nos: "a silhueta que desenhei foi a que imaginámos ser o vulto da Senhora que aparecia aos pastorinhos".

26 Maria Bettina diz-nos: "O esboço da igreja de Valhelhas foi feito no dia 12, quando visitámos essa igreja situada próximo de Rodrigos" (cf. nota 14).

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