Testemunhas /

Maria Bettina Basto

Visitante

Nascida a 16 de dezembro de 1897 (com 19 anos), filha de Rafael Eduardo de Azevedo Basto, vivia na Estrada de Benfica, em Lisboa. «Cheia de curiosidade», foi com a irmã Rita, Regina Ferreira e Emília, criada de amigos da família, e escreveu notas de viagem no próprio local, de 11 a 13 de outubro de 1917, quando estava hospedada em Rodrigos (Torres Novas).

Residência: Lisboa (Estrada de Benfica)Veio de longeAtitude prévia: neutra3 relatos · 13 de outubro de 1917
13 out.Testemunho diretoViuNotaVeio de longeA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagemSol a girar

Passamos o dia em preparativos para a viagem. Deviamos partir às 11 h da noite fazendo a viagem de noite para lá chegar de manhã.

Para a noite o tempo começa a toldar-se e pouco depois a trovoada desencadeia-se mas que trovoada era mais de meia noite e não se ouvem senão trovões e as faiscas são continuadas que fazer não partir é uma desolação. O Carlos persigna-se e diz que assim não vai espera-se pedindo a N. Senhora que afaste a trovoada. Ás 2h o tempo está melhor decidem-se a partir, a noite está escurissima prendem a mula à carroça; dentro poem umas cadeiras baixas para nós, e com uns cobertores lá nos instalamos. No banco da frente vai a mulher do Carlos e a afilhada17 a trás vamos nós18 a Regina19 e a Emilia20. O Carlos leva a mula pela arreata e assim começamos a viagem.

De quando em quando, os clarões iluminam o caminho, a trovoada está mais longe mas continua.

Assim andamos mais de uma hora os caminhos são medonhos a carroça vai sempre aos tombos tem a vantagem de não nos deixar dormir a Emilia faz-nos rir constantemente.

Já começamos a subir a serra de Aire o pior é que a chuva volta e nós temos pouca defesa, pois a agua que cai dos chapeus de chuva encharca a carroça e molha os cobertores.

O Carlos uns bocados sobe para o banco e lá continua a guiar o bicho o que vale é que conhece muito bem os caminhos.

Começa a clarear a chuva, agora é miudinha quasi um nevoeiro molhado como já está alguma luz vemos arvores rachadas pelas faiscas da trovoada aqui na serra, devia ter sido medonha. Bem dizia o Carlos que não vinha; ele já as conhece.

Muito temos andado por esta serra que parece não ter fim. Agora dizem que estamos perto de Fatima chove a valer já estamos encharcadas. Para não arrefecer muito e nas subidas para ajudar a mula vamos todos a pé, menos a Emilia que não pode andar muito.

Finalmente chegamos a Fatima são 9h o tempo está um pouco melhor, mas o ceu está todo coberto e ameaça mais chuva vem chegando muita gente, por vários caminhos da serra como nós veem molhados a maior parte mas todos vão, nem eu sei para quê, pois não está nada marcado e é só porque dizem que a Senhora falará hoje à Lucia.

A carroça fica em Fatima comemos alguma coisa, e agora vamos a pé para a Cova da Iria que é o lugar onde dizem tem havido as aparições.

Andamos quasi uma hora quando chegamos ao campo uma extensão bastante mais baixa que a estrada e onde há apenas algumas azinheiras, está bastante gente que espera, vamos a ver o quê!

É perto de meio dia dizem que os pastorinhos vão chegar gostava de os ver. O local onde se deram já as aparições está marcado com uns paus para deixar espaço para os pequenos estarem mais livres do povo mas já não podemos aproximar-nos muito, pois está muita gente. A terra está tão encharcada que os pés enterram-se já estamos de tal maneira enlameadas. Resolvemos ficar num ponto um pouco mais alto embora mais longe. Há movimento na multidão são os pastorinhos que chegam uns homens abrem-lhe caminho mal os vejo vão para o sitio dos paus chove a valer.

Começa a dizer-se que a Lucia diz para fecharem os chapeus, que a Senhora vem mas chove tanto embora todos obedecem e fechamos os chapeus. Com efeito pouco depois a chuva pára, mas não vemos mais nada. Os nossos olhos procuram por toda a parte. Agora uma pequena nuvem parece que pousa sobre uma azinheira ao pé dos paus, o sol aparece entre nuvens, mas sem brilho nenhum, parece a lua e dir-se-ia que tem uma cruz no meio e agora, ó maravilha a atmosfera tinge-se das cores do arco-iris vejo o chapeu de feltro branco da Rita24 cor de laranja depois verde, depois azulado depois rosa25 e por ultimo doirado; está tudo doirado que coisa linda!

Todos se sentem fascinados um homem perto de nós cai no chão sem sentidos de repente, o sol negro completamente parece que se despega do ceu e começa a rodar sobre si mesmo muito depressa parece que vai cair ouve-se um grito de toda a multidão que cai de joelhos pedindo misericordia.

Encontro-me tambem de joelhos em cima26 dum monte de pedras sem dar por isso. Mas tudo passa num momento o sol volta a estar encoberto pelas nuvens, a nuvem parece que levanta estão todos sem saber o que se passou como que atordoados dizem que a Lucia falou com a Senhora. Não conseguimos tornar a ver os pastorinhos. Encaminhamo-nos para Fatima, onde nos metemos na carroça e voltamos para Rodrigo o tempo está bom apenas se veem algumas nuvens soltas no ceu e o sol tem o brilho natural.

Notas dos editores (7)

17 Clotilde da Assunção Ferreira que veio a casar com Manuel Pinto, do Carvalhal da Aroeira. Falecida a 4 de Março de 1986.

18 Trata-se da Autora e da sua irmã Rita (cf. nota 24).

19 Regina Ferreira ficou órfã, ainda pequena, passando a viver em casa de sua prima Isabel da Nóbrega Machado. Faleceu em 1953.

20 Governanta da casa do conselheiro Augusto Jacques de Magalhães Machado, casado com Isabel da Nóbrega Machado, vizinhos e amigos da família Basto (cf. notas 3 e 15).

24 Rita, irmã de Maria Bettina. Nasceu a 1 de Março de 1896. Casou com o escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990). Rita faleceu a 8 de Agosto de 1969, no Porto.

25 Maria Bettina diz-nos: "a silhueta que desenhei foi a que imaginámos ser o vulto da Senhora que aparecia aos pastorinhos".

26 Maria Bettina diz-nos: "O esboço da igreja de Valhelhas foi feito no dia 12, quando visitámos essa igreja situada próximo de Rodrigos" (cf. nota 14).

13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corFiguras / visõesSol a cair

Nunca pensei que puderia ver um milagre e não fazes ideia a impressão que me fez.

Partimos daqui na quinta feira para Torres Novas depois metemo-nos num carro para ir até á vila depois montamos em burros até Rodrigo que é uma aldeiazinha onde mora uma gente conhecida da Belinha7, gastamos o dia todo neste caminho, porque tudo é longissimo ahi ficamos e no sabado, á 1h da manhã8 partimos para Fatima num carro (ou melhor numa carroça) onde fomos aos trambulhões todo o caminho porque não julgues que é perto pois só lá chegamos ás 10h e meia, e desde as 4 que chovia não ficamos com um fio enchuto mas tudo isso nada vale porque o que então presenciamos nunca mais verei. Nunca vi tanta gente. Agora imagina toda essa gente resando o terço e depois cantando, tudo debaixo de chuva. Ao meio dia chega a pastorinha que pede para fecharem os chapéus no mesmo instante a chuva para e nós vemos as nuvens afastarem-se e o sol aparece-nos sem brilho e branco e no meio uma cruz como uma hostia depois as nuvens tornam-se doiradas e vê-se passar como uma nuvem muito transparente o vulto de N. Senhora as nuvens tornam-se azus rouxas e verdes o sol parece que se desprende do ceu, gira sobre si e desaparece para logo depois nos aparecer brilhante como de costume as nuvens vão andando e fica uma tarde linda. Não é extraordinario? Isto é o principal as peripecias depois te contarei.

Notas dos editores (5)

2 Fernanda Guiot Basto Rosado, irmã de Maria Bettina, estava a passar o Verão em casa de uns tios do marido, Manuel Dias Ferreira e Joaquina Dias Ferreira, na Quinta das Lanças, em Ferreira do Zêzere. Tinha casado com Álvaro da Costa Rosado, filho do General Garcia Rosado e de uma irmã de Joaquina Dias Ferreira. Faleceu em Maio de 1978.

3 Corr. Mamã. Cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 2. Por este documento, não se pode concluir que a mãe, Fernanda Guiot Correia Basto, tenha ido também a Fátima. Por outro lado, o Doc. 147, de 21 de Outubro de 1917, também não refere o nome da Mãe.

4 Para a identificação das pessoas que foram com Maria Bettina cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 147, de 21 de Outubro de 1917.

7 Isabel da Nóbrega Machado. Cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 20.

8 Já dia 13 de Outubro.

DCF III-1, Doc. 104 · carta · 17 out. 1917 (4 dias depois)Digitalizações (2)Ligação
13 out.Testemunho indiretoViuCartaVeio de longeFiguras / visões
Transmitido por: Maria Caminha

A Bettina então foi a mais comtemplada de todas, naturalmente era a que tinha mais necessidade.

Essa viu vir Nossa Senhora do Rosario, linda, a descer para nós, para ella desvaneceu-se quando justamente se aproximou da terra.

Dizia ella á Regina, a chorar e a tremer Não vês? É a Senhora do Rosario!

Pois tu não vês?15

Notas dos editores (1)

15 Do texto do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 104, de 17 de Outubro de 1917, não se depreende que Bettina Basto tenha visto Nossa Senhora, mas no Doc. 69 (fl. 10v), ela desenhou um desenho com uma silhueta que, em 1978, nos explicou ser o vulto de Nossa Senhora como ela o imaginou.

DCF III-1, Doc. 146 · carta · 21 out. 1917 (8 dias depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 358Digitalizações (2)Ligação
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