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DCF III-1, Doc. 146

21 out. 1917LisboacartaMaria Caminha

Carta de Maria Caminha a Maria do Livramento de Vasconcellos de Proença, contando o que assistiu em Fátima, no dia 13 de Outubro de 1917.

A - ASF - Documentos de 1917. Oferecida pelo Pe. Mário José Gomes, arcipreste de Trancoso, em 22 de Fevereiro de 1990.

Descrição do documento: Papel de carta (18x13,5cm), de 3 fls. duplas, numeradas 1-3 (6 fls. simples, 12 páginas), de 16 linhas. Sobrescrito com carimbo de registo na frente: "R /70891 [?] / P. C. Nº 3. / Nº 558". Foi arrancado o selo postal. No verso, 5 pingos de lacre, com o monograma PC. Carimbos postais: "LISBOA - CENTRAL - 22-10-17"; "CORRº E TELº TRANCOSO 23.OUT.17".

Publ. parcial e com alterações textuais: "A Guarda", Guarda, (597), 12 Jan. 1918 (Cf. Doc. 358)

Trancoso

Exma Sa

D. Maria do Livramento de Vasconcellos de Proença

Remette M. Caminha

Travessa da Fabriga dos Pentes

nº 7-3º

Lisboa

Domingo, 21 de Outubro de 1917. Lisboa

Minha muito querida Mimi.

Faz hoje oito dias que cheguei a Lisbôa, de volta de Fatima, onde fui ver o grande milagre! Não é possivel descrever-te o que todos nós vimos.

A Regina2 foi com a Emiliana3, Rita4 e Bettina5, no dia 11 para Rodrigo6, passar uns poucos de dias, é perto de Fatima, só nove horas de caminho em carro!

Eu fui convidada pela M. Constança e fui de automovel no dia 12 sexta-feira.

Lá, nem nos avistámos, pareceu-me vel-as

Faz a diligencia de ler o Seculo do dia 15. Tudo quanto lá está é verdade e muito mais que lá não dizem porque não querem e não podem. Não ha expressões.

Desde Maio que Nossa Senhora vem apparecendo a umas pastorinhas, no dia 13 de cada mez, tendo-lhes annunciado que a ultima vez seria em Outubro, mez do Rosario.

É n'uma charneca, no meio da serra, proximo de Villa Nova de Ourem.

Chovia torrencialmente e todos a pé firme se conservaram até ás 2 horas ou meio dia solar, momento em que as nuvens se afastaram para os lados deixando o sol a descoberto, e immediatamente começam a passar por diante do sol rolos de nuvens muito leves e amarellas como oiro, rouxas, côr de cravo, etc.

N'isto o sol pareceu desprender-se e desceu de de repente; momento de pavor.

N'isto começa n'um movimento rotatorio com uma rapidez incalculavel.

De repente é a lua que está mas isso é um momento, transforma-se na Sagrada Hostia vendo-se até a cruz como que cavada n'aquella materia opaca côr de farinha de trigo muito alva.

Eu vi assim no vacuo e em roda uma maravilhosa corôa das taes nuvens em varias cores. Espectaculo de espantosa belleza, não imaginas qual era a delicadeza dos tons, com que carinho Deus olhou para a nossa terra n'aquelle momento, sentiamo-nos amados com extremos sem limites.

Todos viram, perto de 100 mil pessoas.

As pessoas ficavam das cores das nuvens era interessante de ver, o sol com a sua luz por detraz parecia passar a claridade como que atravez de vidros de côres.

Tudo isto se passava em quanto a Nossa Senhora descia á terra a fallar á pequena Lucia.

Todas as trez crianças (1 rapazito e 2 pequenas) veêm, mas só falla a mais velha, 10 annos.

Nossa Senhora tornou-se visivel para algumas pessoas, eu não fui contemplada com essa graça, não me era necessaria para crer.

Rita e Bettina é que tiveram essa felicidade e muitas outras pessoas.

A Rita via adiante do sol a face de Nossa Senhora, só a face, e ia ficando.... nem sei como dizer, perdeu a noção do tempo, e não pode descrever o que viu, não sabe, nada se póde comparar com a belleza e doçura d'aquelle sorriso. A Bettina então foi a mais comtemplada de todas, naturalmente era a que tinha mais necessidade.

Essa viu vir Nossa Senhora do Rosario, linda, a descer para nós, para ella desvaneceu-se quando justamente se aproximou da terra.

Dizia ella á Regina, a chorar e a tremer Não vês? É a Senhora do Rosario!

Pois tu não vês?15

Muitas outras pessoas viram.

Foram tantos os signaes de sobrenatural que não foi possivel a todas as pessoas verem tudo; (desculpa como isto vai).

Em roda do valle escolhido para tantas maravilhas, succediam-se como simples ornamento e com a maior simetria umas manchas com as as trez côres preferidas20.

A pequenita Lucia disse ser a Senhora do Rosario, que quer lhe façam alli uma egreja, e annunciou que Deus está muito offendido com o povo e que mostrava o seu poder a fim de que se convertessem e se salvem se não aproveitarem nada com esta manifestação do seu poder mandará um castigo.

Eu não ouvi nem fallei com a criança, mas parece-me natural tudo isto.

Disse muito mais coisas, mas ainda não sei tudo.

A impressão foi tão forte, que julgo, me ficará para sempre.

Tem sido admirado por toda a gente o procedimento de tanta gente reunida.

Tive uma comoção enorme quando vi uma tão grande e tão santa manifestação de fé. Que coragem e persistencia para arrostar com uma tempestade d'aquellas sem recuar, sem vinho, emfim admiravel. Não havia um policia, não houve nada, nada, que não fosse o respeito e o santo contentamento de que todos estavam possuidos.

N'um certo momento em que chovia muito, a pequenita disse que fechassem os chapeus, fecharam-se os chapeus e a chuva parou.

Nossa Senhora disse à Lucia que São José veiu abençoar o povo, e que todos os crentes (alli presentes) ficavam perdoados até áquelle momento.

Aquelle logar ficou bento, pessoas e animaes, tudo foi benzido.

N'esse momento houve uma grande claridade.

É uma grande pena que não estivesses cá, isto que se passou é, a meu ver, o mais admiravel milagre dos ultimos seculos, um milagre que foi visto por crentes e descrentes!

Pois minha pequena tenho tanto que te dizer que me perco, sem saber como desenvolver tanta coisa de modo que tu não te percas de todo ao ler esta carta. O melhor é resumir.

A Regina continua sem ser coisa nenhuma, a Mignon deu-lhe umas licções de frances durante o verão, ella se quizesse já lia alguma coisa, mas prefere ficar burra.

Agora é a Rita que lhe dá licções de frances, emfim é a maior desconsolação da minha vida.

O Caminha28 tem passado pouco bem, muito fraco e cheio de achaques, Deus lhe dê saude e vida.

A Mignon está muito bem com a Mademoiselle Ballestere e já tem licença para abalar.

Vai-nos fazer enorme falta.

A Rita caminha a passos largos, apesar de pensar o contrario.

Temos uma criada muito religiosa, é confessada do padre Joaquim, tem 18 annos, a 4 de dezembro faz um anno que ella entrou para cá; está tudo encantado com ella.

Ella quer ser Clarissa, da ordem franciscana, como sabes.

Nunca conheci nada que se pareça com ella, é extraordinaria n'esta epocha, todos os bocadinhos são aproveitados a rezar, trabalha imenso, é muito bonitinha, o que tem é um bocado de genio, mas tem uma tal vontade de ser santa que faz esforços sobrehumanos para se conter.

Na egreja de S. Mamede é muito estimada.

A Rita já é conhecida como pintora em S. Luiz e no Corpo Santo. Creio que vai ter uma encomenda de father Paulo32, uns quadros.

Madame Souza esteve muito doentinha no verão e disse-me que tinha queimado as tuas cartinhas, porque pensou que morria e como não tem familia não queria deixar nada.

Pergunta sempre muito por ti e se vens cá este hinverno?

Desculpa este desalinhavado.

Hei-de mandar-te a conta um dia.

Diz á tia Emilia e á Margarida, se querem viver muito contentes é virem para Fatima.

Não tenho hoje tempo para mais, dá muitas recomendações minhas á tua avó tias e prima e muitas ao teu pae, desejo do coração o completo restabelecimento da tua avó.

Acceita muitos abraços apertadissimos de quem é e será emquanto viva, tua verdadeira amiga

Maria Caminha

[margem inferior da p. 6v]

N.

A Regina diz que vai escrever.

Notas dos editores

2 Deve tratar-se de Regina Ferreira, referida no Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 19.
3 No Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, fl. 5, refere-se uma Emília, imediatamente a seguir a Regina. Trata-se da mesma pessoa: o Padre Francisco dos Santos Costa, natural de Rodrigos, certifica-nos que era Emília e não Emiliana. Foi portanto um erro da autora desta carta. Emília era criada de servir de Isabel da Nóbrega Machado, amiga de Fernanda Guiot Correia Basto.
4 Rita, irmã de Bettina Basto, dois anos mais velha, que veio veio a falecer no Porto em 1969 (cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 24).
5 Irmã de Rita, autora do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 (Cf. nota 2, do Doc. 69).
6 Rodrigos (cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 14).
15 Do texto do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 104, de 17 de Outubro de 1917, não se depreende que Bettina Basto tenha visto Nossa Senhora, mas no Doc. 69 (fl. 10v), ela desenhou um desenho com uma silhueta que, em 1978, nos explicou ser o vulto de Nossa Senhora como ela o imaginou.
20 No texto está preferidas mas a autora queria dizer referidas.
28 Não temos elementos que nos permitam identificar esta pessoa, mas poder-se-á tratar do marido da autora.
32 Padre Paulo O'Sullivan, O.P. (Irlanda, 7-02-1871 - Lisboa, 21-11-1958). Veio para Portugal em 1895, vivendo na casa dominicana do Corpo Santo de Lisboa. Exerceu um apostolado fecundo nessa igreja e na de S. Luís dos Franceses, através da imprensa. Foi autor de várias obras, algumas das quais sobre Fátima (cf. "Mensageiro do Coração de Jesus", Braga, Tomo 77 (907) Mar. 1959, p. 160-161).
Aparato crítico e remissões (22)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Sic. Por Fábrica.
7 só nove horas de caminho em carro, sublinhado no original.
8 Cf. Doc. 87, de 15 de Outubro de 1917.
9 rosario corr. Rosario.
10 rosa corr. rouxas.
11 Sic.
12 Cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 104, de 17 de Outubro 1917.
13 Escreveu - et [?].
14 n corr. perdeu.
16 riscou nem e acrescentou com e não foi possível; riscou com.
17 Riscou podessem.
18 ver corr. verem.
19 Sic.
21 converter corr. convertessem.
22 a fim corr. Se.
23 renovada corr. reunida.
24 a corr. uma.
25 ch escrito sobre emenda.
26 sen escrito sobre emenda.
27 perg corr. percas
29 ach escrito sobre emenda
31 father, sublinhado no original
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